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Com esta foto promocional de seriado, deixo registrado aqui o meu agradecimento a todos os envolvidos na realização de mais uma edição do Festival de Cinema de Gramado. Meu carinho especial vai para este timaço de mulheres super profissionais com quem tive o prazer de conviver pelo terceiro ano consecutivo no trabalho de assessoria de imprensa do evento. Foi mais uma intensa temporada repleta de aprendizados profissionais e cinematográficos. Agora, para recarregar as baterias e colocar a vida em ordem, o Cinema e Argumento tira alguns dias de férias. Voltaremos!

Os vencedores da festa quase impecável de encerramento do 42º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Dani Villar/Pressphoto

Os vencedores da festa quase impecável de encerramento do 42º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Dani Villar/Pressphoto

Já comentei algumas vezes por aqui que não sei o que acontece com os júris de Gramado. Ano após ano eles mudam e a reforma agrária continua. Parece que existe uma certa obrigação de agradar a todos. Essa ideia de que todo filme tem que sair com pelo menos um Kikito é tola e contraprodutiva, castrando a autenticidade do evento. Neste ano, a caridade até que não incomodou tanto, mas aí anunciaram o vencedor da última categoria, cuja vitória é, possivelmente, o maior absurdo dos últimos anos.

Sabe-se lá o porquê do júri ter escolhido A Estrada 47 como o melhor de 2014, já que o filme de Vicente Ferraz foi o que menos repercutiu entre público e imprensa. Ninguém o considerava para a categoria principal. Como disse Roberto Guerra, do Cineclick, é como se a sua festa ganhasse o prêmio de melhor festa do ano sem ter vencido nas categorias de melhor DJ, melhor buffet, melhor recepção, melhor infraestrutura, etc. Você é a melhor festa, mas não é melhor que ninguém em nenhum quesito específico.

Reitero essa comparação porque A Estrada 47, além do prêmio de melhor filme, só conquistou a mísera categoria de desenho de som, enquanto A Despedida saiu da festa com quatro prêmios (direção, ator, atriz e fotografia) e Infância também (roteiro, ator coadjuvante, montagem e prêmio especial do júri). Sendo bem sincero, foi feio o júri de Gramado ter contrariado a unanimidade de A Despedida, que deve ser o filme mais elogiado por público e crítica das últimas edições. Ou, então, ter escanteado Fernanda Montenegro para um Kikito especial afim de não ter que justificar sua derrota para Juliana Paes na categoria de melhor atriz.

Se não fosse A Despedida – o meu favorito da mostra -, que premiassem, então, o criativo e ousado Sinfonia da Necrópole, que conquistou pelo menos o prêmio de melhor filme pelo júri da crítica. Tudo estava bem encaminhado até a última categoria, especialmente porque Nelson Xavier e Juliana Paes foram devidamente premiados e até o eficiente O Segredo dos Diamantes faturou o prêmio de júri popular. Entre os latinos, nenhuma surpresa ver El Lugar Del Hijo como grande vencedor. É um típico filme de festival (no sentido pejorativo e antiquado da comparação).

Só é realmente uma pena que o júri tenha ateado fogo ao evento nos 45 do segundo tempo escolhendo um filme pouco comentado e elogiado. Esta edição não será lembrada em função de A Estrada 47. Foram tantos os filmes bons e diversificados exibidos ao longo da semana que fica até estranho uma produção de guerra já exibida no Festival do Rio ter sido coroada como a melhor da mostra. O evento em si foi muito agradecido no palco, onde o próprio Nelson Xavier elogiou o alto nível dos filmes e a excelente organização do Festival. Lamentável, portanto, que a última escolha, a mais importante de todas, não simbolize o que foi o evento em 2014. E, como em um filme, sabemos que o final pode estragar a festa e deixar uma má impressão de todo o conjunto. Foi exatamente o que aconteceu.

Confira a lista de vencedores:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: A Estrada 47, de Vicente Ferraz
MELHOR DIREÇÃO: Marcelo Galvão (A Despedida)
MELHOR ATOR: Nelson Xavier (A Despedida)
MELHOR ATRIZ: Juliana Paes (A Despedida)
MELHOR DESENHO DE SOM: A Estrada 47
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Andrea Buzato (Os Senhores da Guerra)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Paulo Betti (Infância)
MELHOR TRILHA MUSICAL: A Luneta do Tempo
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: A Luneta do Tempo
MELHOR MONTAGEM: Infância
MELHOR FOTOGRAFIA: A Despedida
MELHOR ROTEIRO: Infância
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI (1): Os Senhores da Guerra, de Tabajara Ruas
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI (2): Fernanda Montenegro (Infância)
MELHOR FILME (Júri Popular): O Segredo dos Diamantes, de Helvécio Ratton

LONGAS-METRAGENS LATINOS

MELHOR FILME: El Lugar Del Hijo, de Manuel Nieto
MELHOR DIREÇÃO: Moisés Sepúlveda (Las Analfabetas)
MELHOR FOTOGRAFIA: Las Analfabetas
MELHOR ROTEIRO: El Lugar Del Hijo
MELHOR ATRIZ: Paulina Garcia e Valentina Muhr (Las Analfabetas)
MELHOR ATOR: Felipe Dieste (El Lugar Del Hijo)
MELHOR FILME (Júri Popular): Esclavo de Dios, de Joel Novoa
MELHOR FILME (Júri da Crítica): El Crítico, de Hernán Guerschuny

CURTAS-METRAGENS

MELHOR FILME: Se Essa Lua Fosse Minha, de Larissa Lewandowski
MELHOR DIREÇÃO: Gustavo Vinagre (La Llamada)
MELHOR ATRIZ: Rafaela Souza (Carranca)
MELHOR ATOR: Guilherme Silva (Carranca)
MELHOR DESENHO DE SOM: História Natural
MELHOR TRILHA MUSICAL: Sem Título #1: Dance of Leitfossil
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: O Coração do Príncipe
MELHOR MONTAGEM: Sem Título #1: Dance of Leitfossil
MELHOR FOTOGRAFIA: La Llamada
MELHOR ROTEIRO: O Coração do Príncipe
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: O Clube, de Allan Ribeiro
MELHOR FILME (Júri Popular): A Pequena Vendedora de Fósforos, de Kyoko Yamashita
MELHOR FILME (Júri da Crítica): La Llamada, de Gustavo Vinagre
PRÊMIO CANAL BRASIL: A Pequena Vendedora de Fósforos, de Kyoko Yamashita
PRÊMIO DOM QUIXOTE: Las Analfabetas, de Moisés Sepúlveda

Walter Carvalho teve sua obra celebrada pelo troféu Eduardo Abelin. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Walter Carvalho teve sua obra celebrada pelo troféu Eduardo Abelin. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Para Walter Carvalho, o homenageado do Troféu Eduardo Abelin no 42º Festival de Cinema de Gramado, tudo começa no Renascimento. É desse período histórico que vêm a maior parte de suas referências, da dramaturgia pintada pelos artistas até questões das próprias imagens. “É um período que precisa ser estudado sempre. Compreendo melhor os filmes porque estudo a narrativa pictória”, conta Carvalho, também lembrando a aula de cinema que, segundo ele, foi a melhor que teve em sua vida: a primeira visita à Capela Scrovegni de Giotto, em Págua. “Fui tomado por uma emoção inexplicável e, depois desse momento, nunca mais fui o mesmo”, recorda.

A produção cinematográfica de Carvalho começou por influência familiar: o irmão mais velho Vladimir, também cineasta, o apresentou ao livro do filme O Balão Vermelho, de Albert Lamorisse, que o encantou de imediato. O livro, composto apenas por fotografias e fotogramas do próprio filme, sem uma palavra sequer, inspirou o homenageado, que em seguida embarcaria para o sertão como assistente do irmão em várias filmagens. “Foi esse o momento em que ele me aplicou o cinema na veia e me tornei um dependente”, conta.

O aprofundamento de estudos sobre pinturas, a formação como graphic designer, a convivência com o professor Esdi Roberto Maia e os aprendizados com o fotógrafo Fernando Duarte (“ele me ensinou o que precisava para ser um diretor de fotografia, é outro grande mestre da minha vida!”), entre tantos outros fatos, foram fundamentais para moldar sua trajetória no cinema, que hoje é certamente uma referência para todas as gerações.

São mais de 100 filmes no currículo, mas o primeiro, Incelência Para um Trem de Ferro continua tendo um espaço cativo em sua memória. “A responsabilidade era grande mesmo tendo a promessa do Vladimir que, se eu não acertasse a fotografia do filme dele, não contaria para ninguém porque era meu irmão. Apesar da brincadeira fraterna, descobri com o tempo a importância que o erro exerce sobre a criação. Muitas vezes, encontrei elementos fantásticos dentro do meu trabalho cuja origem nasceu a partir do erro”, aponta.

Atualmente fotografando e dirigindo o remake da novela O Rebu, o homenageado, que também já foi diretor de sucessos de bilheteria como “Cazuza – O Tempo Não Para”, ao lado da amiga Sandra Werneck, e adaptações como “Budapeste” (baseada no livro homônimo de Chico Buarque), atravessa décadas do cinema nacional com fotografias para filmes de importantes cineastas como João Moreira Salles, Júlio Bressane, Karim Aïnouz e Walter Salles, e para clássicos de nosso cinema como Central do Brasil e Lavoura Arcaica.

Walter Carvalho nunca chegou perto de perder a paixão pelo cinema. “Eu não saberia fazer outra coisa. Olhar na ocular da câmera e ver o efeito da imagem através do obturador e ver passar diante do meu olho a imagem sendo captada é a experiência mais bela que já senti na vida. É deixar-se possuir pela imaginação. Posso dizer que de tanto experimentar esta sensação viciei o meu sistema córtex visual ao ponto de olhar o real no meu dia a dia, enquadrando. Transcinema”, revela.

Conselhos do homenageado para futuros diretores de fotografia:

- Estudar, sobretudo, a história da arte;
– Ouvir os grandes compositores como Mahler, Mozart e Chopin;
– Assistir uma vez por ano a Deus e o Diabo na Terra do Sol, Os Fuzis e Vidas Secas;
– Ouvir Caetano Veloso, Chico Buarque e Bob Dylan, e escutar todas as canções cantadas por Monica Salmaso;
– Ler os escritores brasileiros como Machado de Assis, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Raduan Nassar e tantos outros;
– Ler sempre os poetas: João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade;
– Educar o olhar para a imagem e nunca parar de estudar os pintores, os fotógrafos.

* matéria produzida originalmente como material de divulgação para a assessoria de imprensa do 42º Festival de Cinema de Gramado

Juliana Rojas é a diretora de Sinfonia da Necrópole, um dos longas mais interessantes da mostra brasileira do 42º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Juliana Rojas é a diretora de Sinfonia da Necrópole, um dos longas mais interessantes da mostra brasileira. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Finalmente achei um tempo para escrever sobre o que tenho visto por aqui em Gramado. A jornada tem sido longa, mas com experiências bastante interessantes. Falando de homenagens, duas aconteceram desde a última vez que escrevi sobre a programação. A primeira na terça-feira (12), com o Troféu Oscarito para Flávio Migliaccio – o adorável Seu Chalita de Tapas & Beijos, mas também o eterno Tio Maneco ou o responsável por criar oito personagens diferentes em Como Vai, Vai Bem?. Já ontem foi a vez do franco-argentino Jean Pierre Noher receber o Kikito de Cristal por sua carreira no cinema latino-americano.

O que mais chama a atenção nestas duas homenagens são: a) o fato do Festival celebrar figuras que normalmente não são celebradas: os coadjuvantes que todos nós conhecemos o rosto, mas nunca lembramos o nome. Isso é necessário: atores como Migliaccio e Noher já trabalharam com milhares de diretores, mas muitas vezes não ganham um grande papel ou o filme magistral que justifica uma homenagem; e b) os dois esbanjaram simpatia e disponibilidade, algo que diferencia a construção e mitificação de um artista. É óbvio que o cinema não deve ser relacionado a quem a pessoa é fora das telas (quantos atores insuportáveis na vida real são maravilhosos em cena?), mas sempre ajuda quando esbanjam humildade.

De um lado, Jean Pierre Noher, um apaixonado por Gramado e que diz dever toda a sua carreira no Brasil ao evento. Em 2001, ele recebeu uma menção honrosa por sua atuação em Um Amor de Borges, onde foi aplaudido em cena aberta. Na época, ainda não existia prêmio para atuação estrangeira e Noher foi quem pontuou essa mudança. De outro, Migliaccio, sempre muito humano, lembrando que desde pequeno já tinha a comédia misturada com o drama em sua vida quando o pai, que comandava sua família extremamente pobre, fazia brincadeiras até mesmo com a fome para aliviar a vida dos filhos. “Se a gente não brinca nessa vida, o mundo fica insuportável demais”, disse o ator, emocionado.

Curtas brasileiros e a crítica de cinema em El Crítico

Agora vamos aos filmes. A mostra de curtas brasileiros não tem me empolgado tanto quanto nos últimos anos. Dois até agora me marcaram mais: O Que Fica, de Daniella Saba, sobre uma mulher que recebe a visita de um pai ausente e seu cachorro paralítico; e Sem Título #1: Dance of Leifossil, que coloca Fred Astaire e Ginger Rogers a dançar ao som de um empolgante fado português em uma viagem super experimental. Tem ainda a animação O Coração do Príncipe, que se destaca por fazer algo muito interessante: contar um romance gay por meio de uma animação. De qualquer forma, nada que tenha me fisgado ou emocionado.

Quanto aos longas, foram dois. El Crítico, de Hernán Guerschuny, faz uma simpática viagem ao mundo dos críticos de cinema. Em alguns momentos, é quase simplista em suas análises e piadas em relação ao cinema (todo mundo sabe que o casal se beijando apaixonadamente no aeroporto ou na chuva é um grande clichê), mas tem a sua graça, principalmente porque mexe com esta figura tão difícil do crítico de forma humorada – e, eventualmente, reflexiva. Nada que seja revolucionário, mas um bom exemplar que define bem o cinema argentino.

A grande e marcante sinfonia de Juliana Rojas

O que me marcou mesmo, porém, foi o primeiro trabalho solo da jovem Juliana Rojas na direção. Ela já havia feito Trabalhar Cansa em parceria com Marco Dutra e vários curtas, mas agora apresenta sozinha este Sinfonia da Necrópole. Só pelo “atrevimento” de fazer um musical brasileiro (gênero dificílimo, principalmente aqui) e ainda ambientá-lo quase que inteiramente em um cemitério (!) ela já merecia algum tipo de reconhecimento – e o que dizer, então, quando tudo dá certo? Rojas, vale lembrar, faz parte de um grupo que é bom acompanhar de perto: o Filmes do Caixote, que dois anos atrás esteve aqui em Gramado com o belíssimo e também inusitado O Que Se Move, de Caetano Gotardo.

“Se dói, é porque a gente tá vivo”, diz certo personagem consolando outro que acaba de passar por uma desilusão amorosa. Sinfonia da Necrópole se passa em uma cemitério, mas, no fundo, é um filme sobre a vida e suas transformações. O protagonista é um coveiro que não consegue conviver com os mortos e que eventualmente se apaixona por uma mulher que vem para reestruturar os túmulos do local. E Juliana Rojas toma a atitude mais esperta: transforma esta história em uma comédia – inteligente, claro – e não em um drama, justamente subvertendo a nossa cultura de tanto temer e dramatizar a morte.

Impossível não lembrar do seriado Six Feet Under neste sentido, que revolucionou a morte com um grande drama, é verdade, mas também com um humor muito peculiar. O meu maior medo – a parte musical – se revelou outra bela surpresa do filme. Tanto em termos de letra quanto de coreografia, Sinfonia da Necrópole é muito bem apurado. As rimas e a transição da cena realista para a musical são o ponto alto das canções, repletas de ritmo brasileiro (a Canção dos Coveiros, principalmente, inspirada nos clássicos de Adoniran Barbosa) e circunstâncias inusitadas (a Canção dos Mortos, encenada à noite, inevitavelmente lembrando Thriller, de Michael Jackson, referência que a própria Rojas diz que sempre tentou se esquivar).

É uma pena, entretanto, que Sinfonia da Necrópole seja para um público tão específico. Não é um problema do filme. A plateia brasileira em sua maioria é que não está preparados para esta experiência. É estranho, em tempos que tantas produções diferentes de nosso país ganham as salas de cinema, que, em um Festival, tantas pessoas digam que é difícil se conectar com o “estranhamento” do filme. Mas é justamente disso que precisamos: de obras ousadas e que fujam do lugar comum. Rojas, com Sinfonia da Necrópole, entrega isto. Desde já, estou ansioso para rever a obra quando (e se) entrar no circuito comercial.

Nelson Xavier é favorito absoluto ao Kikito de melhor ator por seu magnífico desempenho em "A Despedida". Foto: Dani Villar/Pressphoto

Nelson Xavier é favorito absoluto ao Kikito de melhor ator por seu magnífico desempenho em A Despedida. Foto: Dani Villar/Pressphoto

Com Via Negromonte, Nelson Xavier encontrou o amor incondicional. “O melhor lugar para estar é nos braços da mulher amada. Ela é o grande amor da minha vida”, conta ator. Foi vivendo esta paixão com sua esposa que ele, sem saber, já se preparava para viver o Almirante de “A Despedida”, filme protagonizado por ele e exibido na última sexta-feira (08) no 42º Festival de Cinema de Gramado. “Eu descobri essa preparação inconsciente só aqui, vendo o filme e a recepção das pessoas”, revela.

Em “A Despedida”, Nelson Xavier interpreta um homem que decide se despedir da vida e, à noite, passar os últimos momentos com a mulher amada, 55 anos mais nova, vivida por Juliana Paes. “As pessoas se convenceram por este romance de duas pessoas com mais de 50 anos de diferença. Como já conhecia o amor incondicional, tudo fluiu naturalmente e a diferença de idade não foi algo que me preocupou”, conta o ator.

Quando recebeu o roteiro do diretor Marcelo Galvão, o encantamento foi imediato. “Já na primeira leitura adorei a ideia. Um personagem como o Almirante é um prêmio por si só”, afirma Xavier. O protagonista do filme, que é inspirado na história do avô do próprio Galvão, está se despedindo da vida, mas Xavier queria trazer uma abordagem diferente para a trama: “Para Almirante, não existe desespero. Minha ideia era mostrar a despedida de alguém que, antes de mais nada, é apaixonado pela vida”.

Recentemente, Nelson Xavier também finalizou outro filme: “Trash”, dirigido pelo consagrado Stephen Daldry, que já trabalhou com atrizes como Meryl Streep e Nicole Kidman. Para ele, tanto Daldry quanto Marcelo Galvão são diretores que sabem o que querem. “É raro encontrar hoje em dia diretores que saibam conduzir atores. Eles podem até saber o que querem, mas não sabem conduzir”, aponta o ator. Segundo ele, o convívio com Marcelo Galvão durante as filmagens de “A Despedida” foi repleto de sensibilidade. O ciclo do filme ainda foi pontuado por uma grande certeza após a exibição na tela do Palácio dos Festivais: a de que a equipe “fez um bom trabalho. Não foi penas audiovisual, mas sim cinema de verdade”.

A paixão por cinema veio com os filmes mudos. Depois, com grandes cineastas como Akira Kurosawa e Ingmar Bergman. No cinema brasileiro, “Terra em Transe” é citado pelo ator como uma produção eterna. Hoje, desbrava os filmes iranianos e romenos. Mas, mesmo com a bagagem de mais de 50 filmes no currículo, Xavier diz não ter pretensões e que o ator deve ser o responsável pela criação. “Para mim, não existe isso de querer viver tal personagem. A história e o diretor são apenas o ponto de partida. O ator precisa assumir a autoria”, comenta. Por falar em autoria, ele está atualmente finalizando o roteiro de um filme que se passa em idas e vindas no tempo entre 40 anos que separam uma história da ditadura e seus reflexos até os dias de hoje.

A passagem de Nelson Xavier por Gramado já é tradição. Ele participa do evento desde as suas primeiras edições e fez questão de permanecer na cidade para a acompanhar a programação de perto. “Esta é uma cidade encantadora e o Festival é um dos maiores do Brasil. Sou um cinéfilo e estou acompanhando todos os filmes que posso. O cinema é uma coisa maravilhosa!”, celebra o ator, cuja autoria está sempre presente.

* matéria produzida originalmente como material de divulgação para a assessoria de imprensa do 42º Festival de Cinema de Gramado

O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge coordena os debates do Festival de Cinema de Gramado há 24 anos. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge coordena os debates do Festival de Cinema de Gramado há 24 anos. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Um filme só termina o seu ciclo quando chega ao público. Também se torna mais rico e completo quando é discutido pelas plateias. Por isso, nada é mais necessário em um festival de cinema do que os debates após as sessões. Em Gramado, estes encontros matinais já são uma tradição, com um coordenador que exerce o ofício desde 1990: o jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge. Ele esteve no evento pela primeira vez em 1975 e o destino conspirou a seu favor: “Vim na loucura, sem saber nada. Foram três ônibus desde Londrina para chegar neste Festival que na época ainda era apenas uma mostra. Chegando aqui, encontrei o meu anjo da guarda: Hélio Nascimento, que me orientou em relação a todo o Festival”.

A partir daí, o jornalista começou a sua cobertura ininterrupta em Gramado. Em 1984, fez parte do júri oficial, e já quatro anos depois recebeu o convite de Ivo Stigger, o coordenador de debates até então, para auxiliá-lo nos encontros – “até o dia em que fui abandonado”, brinca Lourenço Jorge. Assumindo integralmente a coordenação dos debates de Gramado, o jornalista, com o passar dos anos, também viajou mundialmente. Entre coberturas de Cannes e Berlim, o que viu lá fora não trouxe qualquer intimidação. “Viajando e observando outros debates, me senti orgulhoso do trabalho aqui. Excetuando o nível sócio-político de cada país naquela época, o interesse por cinema era igual”. Ele ainda afirma que os debates também são semelhantes com os de Gramado, com suas particulares parcelas de acertos e “apertos”.

Desbravando várias edições de debates no Festival, Carlos Eduardo Lourenço Jorge diz que os encontros mais tensos e calorosos aconteceram durante a ditadura. “Certamente o contexto político interfere a discussão do cinema. Gramado sempre foi um festival combativo e a imprensa gaúcha feroz, o que mexia com uma geração que proibia filmes e trazia polícia para os debates”, comenta. Outro ponto marcante para estes encontros em Gramado foi a entrada do cinema latino em 1992. “Eles são um exemplo para nós. Ótimos, articulados e mais abertos a críticas, vieram para enriquecer o Festival de Cinema de Gramado”, afirma.

Carlos Eduardo Lourenço Jorge está nos “dois lados do balcão”. Ao mesmo tempo em que comemora 24 anos de coordenação de debates, continua a atuar como crítico de cinema – hoje no Jornal de Londrina. Atuar nos diferentes cargos ajuda o jornalista. “Não escrevo uma crítica antes de um debate. Não vejo o filme de forma diferente, mas os encontros ajudam a enriquecer meu texto, pois as afirmações dos realizadores justificam e polemizam determinadas opiniões que tenho das obras”, comenta.

O cenário da crítica de cinema vem mudando com a internet, e Lourenço Jorge diz que esta mudança vem para ficar: “É irreversível. Espaço é crucial para um jornalista e, com o impresso estrangulando cada vez mais os textos, esta plataforma se torna ainda mais interessante”. Mas mesmo com a multiplicidade de espaços, Carlos Eduardo Lourenço Jorge fez questão de deixar um pedido: que o público compareça mais os debates. O cinema agradece.

* matéria produzida originalmente como material de divulgação para a assessoria de imprensa do 42º Festival de Cinema de Gramado

O trio protagonista de "O Segredo dos Diamantes", novo trabalho do cineasta Helvécio Ratton. Foto: Igor Pires/Pressphoto

O  jovem trio protagonista de “O Segredo dos Diamantes”, novo trabalho do cineasta Helvécio Ratton. Foto: Igor Pires/Pressphoto

Era grande a minha curiosidade para conferir O Segredo dos Diamantes, novo longa de Helvécio Ratton, diretor que marcou a minha infância com a adaptação cinematográfica de O Menino Maluquinho. Afinal, por que o trio de curadores do Festival de Cinema de Gramado colocou um filme infantil na competição? Mas nem bem O Segredo dos Diamantes coloca seus créditos iniciais na tela ao som de uma música-tema composta originalmente pela banda Skank e já dá para descobrir as razões: Helvécio Ratton não perdeu a mão neste tipo de história e o filme pode muito bem estar destinado a se tornar um grande sucesso de público quando ganhar o circuito comercial em dezembro – e é raro encontrar hoje em dia boa bilheteria por merecimento (o que deverá ser o caso desse).

Não se restringe a uma viagem no tempo esta encantadora aventura que faz o espectador sair da sala de cinema com a alma leve. Aos que não se desarmam e não voltam a ser crianças no longa de Ratton, alguns aspectos facilmente se destacam para além disso, como a bem elaborada trilha sonora composta por  André Baptista, a desenvoltura do jovem trio de protagonistas, a fotografia de Lauro Escorel e, claro, a sensibilidade de Ratton para unir tudo isso como uma irresistível aventura para o público infanto-juvenil. Curiosamente, o filme, que tem como história a saga de um garoto que deseja encontrar procurados diamantes para salvar a vida do pai foi exibido, justamente, no dia dos pais! Sincero, envolvente e carinhoso, O Segredo dos Diamantes é mais uma surpresa bastante digna da seleção deste ano.

Depois da sessão, foram revelados os vencedores da Mostra Gaúcha – Prêmio Assembleia Legislativa, que faz uma seleção da mais recente produção de curtas realizados no Rio Grande do Sul. Curioso como criticaram a polarização de vitórias entre Domingo de MartaLinda, Uma História Horrível, os únicos dois filmes premiados pelo júri oficial. Ouvi muitos comentários de que alguns realizadores teriam se incomodado com essa atenção exclusiva aos dois filmes. Mas, se as produções são dignas, o que fazer? Muito pior é ter uma lista com filmes ganhando por caridade e não por merecimento.

Talvez algumas escolhas pudessem ter sido diferentes (particularmente, teria premiado Samuel Reginatto como melhor ator por Caçador, um filme solo que dá a chance do jovem fazer algo minucioso e crescente), mas, no geral, não há nada de absurdo na lista. Sou fã de Domingo de Marta, um dos mais belos filmes exibidos entre todas as mostras até agora, sobre uma senhora de mais de 90 anos que espera a família para um almoço de domingo. É sensível, imersivo e verdadeiro o resultado, cujo roteiro não tem um diálogo sequer. Mereceu tudo o que levou. Na época do Festival CLOSE já havia comentado sobre o delicado tema de Linda (a falta de comunicação e aceitação entre uma mãe e um filho gay) e como gosto do filme. É bem provável que tenha levado mais do que merecia, mas estava entre os melhores da mostra.

Confira os vencedores:

MELHOR FILME: Domingo de Marta
MELHOR DIREÇÃO: Gabriela Bervian (Domingo de Marta)
MELHOR ROTEIRO: Domingo de Marta
MELHOR FOTOGRAFIA: Domingo de Marta
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Linda, Uma História Horrível
MELHOR MÚSICA: “Redoma”, de Filipe Catto, por Linda, Uma História Horrível
MELHOR MONTAGEM: Domingo de Marta
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Domingo de Marta
MELHOR PRODUTOR: Jéssica Luz, Bibiana Osório, Bruno Gularte Barreto, por Linda, Uma História Horrível
MELHOR ATOR: Rafael Régoli (Linda, Uma História Horrível)
MELHOR ATRIZ: Sandra Dani (Linda, Uma História Horrível)
PRÊMIO AQUISIÇÃO TVE: Sioma – O Papel da Fotografia
PRÊMIO EXIBIÇÃO CURTAS GAÚCHOS RBSTV: Sioma – O Papel da Fotografia

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