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Direção: Jorge Furtado

Roteiro: Jorge Furtado

Elenco: Antônio Carlos Falcão, Eduardo Cardoso, Elisa Volpatto, Evandro Soldatelli, Irene Brietzke, Ismael Caneppele, Janaina Kremer, Marcos Contreras, Mirna Spritzer, Nelson Diniz, Sérgio Lulkin, Thiago Prade, Ursula Collischonn, Zé Adão Barbosa

Brasil, 2014, Documentário, 94 minutos

Sinopse: O Mercado de Notícias traz depoimentos de 13 importantes jornalistas brasileiros sobre o sentido e a prática da profissão, as mudanças na maneira de consumir notícias e o futuro do jornalismo. O filme reflete casos recentes da política brasileira, onde a cobertura da imprensa teve papel de grande destaque.

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No caso específico de O Mercado de Notícias, é necessária uma ratificação particular: sou jornalista formado. Por isso, quando conferi este novo filme do gaúcho Jorge Furtado, não consegui me eximir de comparações e análises quanto ao meu próprio cotidiano como jornalista – e também quanto a tudo que discuti e aprendi em disciplinas teóricas na faculdade. A proposta de O Mercado de Notícias vem em um momento bastante simbólico no que se refere a forma como sinto e vivencio os momentos jornalísticos atuais.

Fora a óbvia desvalorização da profissão que aconteceu nacionalmente anos atrás com a decisão da ausência de diploma para se exercer a profissão e a intensa influência da internet na produção de notícias, inúmeros fatores contribuíram para a confusão conceitual que assombra a profissão nos dias de hoje. O reflexo se vê nas mais diferentes frentes. Recentemente, aqui no Rio Grande do Sul, o maior grupo de comunicação demitiu aproximadamente 100 jornalistas sem explicações muito convincentes. O jornal de maior referência em Porto Alegre também repaginou por completo suas diretrizes (de layout e conteúdo) após décadas de estilo consolidado – e o resultado não deu muito certo: foi quase unânime a rejeição do público. São tempos difíceis para o Jornalismo e um debate sobre a profissão precisava ser urgentemente suscitado.

Afastado da produção de longas-metragens para o cinema desde 2007, quando realizou o divertido Saneamento Básico, Jorge Furtado revela, logo no início de O Mercado de Notícias, que sua reflexão não se baseia em inquietações negativas sobre a profissão e sim em uma convocação pessoal de profissionais do ramo que admira para um panorama do Jornalismo atual. E é bem provável que seja exatamente neste ponto que o seu mais novo filme (o primeiro documentário em longa) não consiga sair de um certo lugar comum apesar das boas tentativas (muitas delas bem sucedidas). Como jornalista, percebo que os assuntos discutidos em O Mercado de Notícias não se distanciam muito dos tópicos levantados por meus professores ainda lá em 2009, quando comecei a cursar a faculdade.

Não que debater a relação jornalista X fonte ou valor-notícia não sejam mais iniciativas válidas (sempre serão), mas o problema é que estas questões, quando não colocadas na situação atual da profissão, se tornam extremamente genéricas. Terminou-se aquela idealização de repórter que só tem como missão sair às ruas atrás da verdade. Hoje o jornalista é um faz-tudo e se vira nos 30 em tempos que a convergência das mídias desnorteia cada vez mais os rumos da profissão. Desta forma, é particularmente um tanto decepcionante o fato de que, por exemplo, assuntos como o advento da internet e sua consequente indagação sobre o fim do jornal impresso cheguem ao filme apenas quando ele já está prestes a terminar.

Jorge Furtado tem ideias – e boas. Quando questiona valores-notícia e disseca manchetes curiosas (como uma denúncia infundada sobre o INSS ostentar um quadro de Picasso na mesma sala que pendurava um retrato do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva), O Mercado de Notícias alcança os seus melhores momentos. Também é bastante válida a ideia do diretor de não revelar a os veículos de comunicação de seus entrevistados, o que elimina a chance de alguém fazer qualquer acusação de que o filme toma lados políticos ou prioriza determinadas visões editoriais. O máximo que se deduz é que um determinado entrevistado seja da Folha de São Paulo devido a livros que aparecem ao fundo.

O filme de Furtado intercala seus depoimentos com trechos da peça The Staple of News, escrita pelo inglês Ben Jonson em 1625, e traduzida pelo próprio Furtado e Liziane Kugland. A comédia de Jonson, montada e encenada especialmente para a produção do filme, revela uma visão crítica sobre o surgimento da imprensa de notícias, com seus riscos e benefícios. A decisão de levar a peça para o filme é acertada, pois ela traz a irreverência e a originalidade que Furtado, de certa forma, não apresenta na parte academicamente documental.

Novamente, esta é uma obra que ganha um olhar completamente diferente de minha parte dado o fato de que exerço a profissão que é debatida ao longo dos 94 minutos de projeção. Tomando um pouco de distância desta identificação, o que consigo enxergar é um documentário simples mas eficiente e que, em seu discurso quase genérico, presta um bom serviço ao público em geral sobre a valorização de uma profissão cada vez mais desvalorizada e que está em busca de uma nova identidade. Sendo assim, Jorge Furtado continua com 100% de aproveitamento na sua carreira de longas.

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Fernanda Torres em seu mais novo papel: o impresso. Já não bastasse sua belíssima carreira no cinema e no teatro, a atriz recentemente se lançou em uma nova aventura: a literária. Mas antes de falar sobre Fim em si, nada mais justo do que rememorar a carreira de Fernanda que certamente está refletida em toda a genialidade que vemos em sua primeira investida na escrita de romances. Fora o óbvio fato de ter o cinema em seu âmbito familiar (é filha da grande Fernanda Montenegro, esposa do diretor Andrucha Waddington e irmã do diretor Cláudio Torres), tem uma série de conquistas e experiências que a carimbam como uma de nossas melhores atrizes.

Ora, Fernanda Torres foi a primeira intérprete de nosso país a ganhar o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes em 1986 por Eu Sei Que Vou Te Amar. Ao longo dos anos, foi protagonista do filme que mais venceu prêmios no Festival de Cinema de Gramado (A Marvada Carne), teve filme indicado ao Oscar (O Que é Isso Companheiro?) e, entre os 30 longas que participou, foi dirigida por nomes como Eduardo Coutinho e Walter Salles. Ou seja, a Vani de Os Normais pode até ter lhe dado o maior reconhecimento de público de sua carreira, mas ela é muito mais do que isso.

Toda a sensibilidade e desenvoltura que Fernanda Torres adquiriu em suas experiências como intérprete está perfeitamente registrada agora em Fim. Durante pouco mais de 200 páginas, somos brindados com a revelação de mais um talento da atriz, que curiosamente acerta ao falar sobre um universo em que, talvez, não tivesse muita autoridade: a amizade masculina. No caso, as melhores e piores lembranças de Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro durante o calor escaldante, os carnavais e a vida particular do Rio de Janeiro dos anos 1960.

Só que para falar sobre a vida deles, a obra utiliza, curiosamente, a morte como ponto de partida. Em cada capítulo, Fernanda começa com os próprios personagens narrando suas percepções da vida para, em determinado ponto, matá-los e fazer com que outros familiares e amigos revelem, a partir de seus pontos de vista, mais sobre os falecidos. Com a morte de Álvaro, por exemplo, a esposa Irene assume a voz da narrativa; na sequência, o padre Graça, que reza o velório; e por aí vai, até chegar a um novo amigo cujo capítulo seguirá a mesma estrutura.

O cineasta João Moreira Salles definiu que, apesar do título ser Fim, essa é uma obra sobre a vida – plena, forte, caliente e safada. Definição realmente apropriada para um livro que se utiliza da narração de os mais diversos momentos da vida – sejam eles grandes ou pequenos, pouco importa -, para nos despertar um grande desejo de fazer amizades, amar, beber, enlouquecer, externalizar sentimentos. Mas estão enganados os que pensam que Fernanda (vista pela maioria como uma figura exclusivamente cômica), se dedica – e acerta – apenas no humor. O que vemos em Fim é, na realidade, uma debutante na escrita de romances que se mostra absurdamente talentosa ao transitar da comédia para o drama em questão de poucas páginas.

É fácil se divertir com um irresistível personagem para, logo em seguida, refletir sobre seus erros, escolhas não feitas, arrependimentos e outras questões inerentes não só a ele ou aos homens que protagonizam aquele círculo de amizade, mas também a todo e qualquer ser humano. E esse talento não está apenas no conteúdo, mas também na forma: Fernanda Torres escolhe as frases curtas, os diálogos que fluem com rapidez e a linguagem cheia de referências mas próxima de todos nós. Popular, é possível dizer. Só que tudo sem subestimar a inteligência ou beirar o simplório, com desenvoltura, deboche, inteligência e humor característicos da atriz. Sua personalidade está ali. Para bem ou para o mal. Você decide. Para mim, uma leitura irresistível. Que venham mais obras assinadas por Fernanda Torres!

Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração…

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Direção: Otto Guerra e Ennio Torresan Jr.

Roteiro: Rodrigo John e Tomas Creus

Elenco (vozes): Hique Gomez, Nico Nicolaiewsky, André Abujamra, Antônio Falcão, Arlete Salles, Caio Alves Pereira, Cláudio Levitan, Felipe Mônaco, Fernanda Takai, Heinz Limaverde Starkey, Marcos Kligman, Marina Mendo, Otto Guerra, Pedro Harres

Brasil, 2014, Animação, 91 minutos

Sinopse: O que acontece quando o muro que separa um pequeno país chamado Sbórnia do resto do mundo cai acidentalmente? Tranquilos e parados no tempo, o povo da Sbórnia é agora atingido pelos ventos da modernidade vindos da cidade grande. Os conflitos causados pelo violento choque cultural bagunçam a vida dos protagonistas Kraunus e Pletskaya, dois conhecidos músicos sbornianos. Como conseqüência da interferência continental nos arraigados hábitos da Sbórnia, alguns nativos fazem acordar velhas crenças adormecidas e se põem a resgatar sua identidade como sbornianos. O filme é baseado no espetáculo teatro-musical Tangos & Tragédias, criado por Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, e que tem sido apresentado pelos palcos do mundo com grande sucesso pelos últimos 20 anos, tendo sido visto por mais de 1 milhão de pessoas.

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Até Que a Sbórnia nos Separe é, sem exageros, uma verdadeira preciosidade do cinema brasileiro contemporâneo. Nós, que não temos tradição em animações, agora temos este trabalho singular em nosso currículo para se orgulhar. É uma alegria ver que podemos fazer uma animação tão bem acabada visualmente e ainda originalíssima em sua proposta com grande apuro. O encontro de três trajetórias de sucesso já anunciava o êxito do filme. Na direção, Otto Guerra, que há décadas realiza animações no Rio Grande do Sul e cuja empresa, Otto Desenhos Animados, já é uma grande referência no Estado. Ao lado dele na direção está Ennio Torresan Jr, que trabalha há quase duas décadas como animador na Dreamworks. A história contada por eles? Uma adaptação do clássico espetáculo musical Tangos & Tragédias, que, durante 30 anos, levou um milhão de gaúchos ao teatro. A união de tantas expertises não poderia dar errado. E não dá: Até Que a Sbórnia nos Separe, como já mencionado, é um caso raro em nosso cinema.

O roteiro escrito por Rodrigo John e Tomas Creus reconstrói o universo imaginado por Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky em Tangos, com livres inspirações. Tudo muito particular, divertido e original, sobre um continente que está boiando por aí, com seus amores, jogos, músicas e particularidades. É sobre o direito de um lugar ser o que ele é, sem intervenções, tecnologias e influências capitalistas – o que torna o filme, consequentemente, também sobre o direito individual de cada um ter a sua personalidade. A trilha, claro, ajuda a dar o tom e é um dos destaques da animação, e não só as releituras das músicas do espetáculo ou as adaptações feitas por Hique e Nico (incluindo a bela Epitáfio, do Titãs), mas também a trilha instrumental que ficou a cargo de André Abujamra.

Previsto para ganhar os cinemas gaúchos ainda em 2014 com cópias 2D e 3D (é a primeira produção realizada no Estado com este segundo formato),  Até Que a Sbórnia nos Separe já viajou o mundo, em mostras e competições que o colocaram ao lado de nomes como Hayao Miyazaki. Mas tudo começou aqui mesmo no sul, onde, em sua primeira exibição no Festival de Cinema de Gramado no ano de 2013, já se consagrou com o prêmio de melhor filme pelo júri popular. É um merecido reconhecimento para este trabalho meticuloso (mais de 100 desenhistas de diversos pontos do Brasil e 500 mil desenhos deram origem ao universo da Sbórnia), que é felicíssimo ao criar um universo particular mas nunca over ou fantasioso demais. E o melhor de tudo: não se restringe aos que conhecem a peça ou a cultura do Rio Grande do Sul.

Mesmo que a classificação indicativa direcione o filme a um público a partir de 10 anos de idade, é complicado afirmar que Até Que a Sbórnia nos Separe seja também um filme para os pequenos. Além dos problemas de ritmo em seu ato final, esta é uma animação que frequentemente faz alusões a assuntos bem adultos – incluindo uma lua de mel que se torna um verdadeiro pesadelo para uma jovem que foi obrigada a casar com um homem que a enojava. Fora isso, o resultado é envolvente e de técnica detalhista, contando com um excelente trabalho de dublagem, onde se destaca a voz Arlete Salles, que está perfeita como uma divertida vilã. Até Que a Sbórnia nos Separe, enfim, é uma daquelas animações que revelam, antes de mais nada, uma vontade de contar histórias. Existe uma perceptível paixão nesta animação. E isso é raro em qualquer lugar do mundo. Menos na Sbórnia.

Em Vizinhos, Seth Rogen e Rose Byrne se divertem em uma excelente química, mas eles não sobrevivem às piadas físicas e aos extremos do filme.

Em Vizinhos, Seth Rogen e Rose Byrne se divertem com uma excelente química, mas não sobrevivem às piadas físicas e aos extremos do roteiro

CHEF (idem, 2014, de Jon Favreau): Tinha tudo para ser um apetitoso e agradável filme sobre a vida de um chef de cozinha que, ao perder o emprego, resolve investir em um trailer de comidas e retomar a relação com o filho, mas termina mais como uma viagem egocêntrica de Jon Favreau. Fazia tempo que o cinema não entregava um filme independente com diálogos tão redundantes, repetitivos e explicativos. Se já é difícil crer que Favreau tenha sido casado com o furacão Sofia Vergara e atualmente tenha um caso romântico com Scarlett Johansson – em uma história que subutiliza por completo a segunda -, Chef ainda não sabe direito sobre o que deseja falar. É um longa completamente sem ritmo, que, ao contrário do divertido Julie & Julia, por exemplo, não usa a comida para fazer maiores reflexões sobre os prazeres da vida – e muito menos tem um protagonista tão fascinante quanto Julia Child. Para Chef, a comida em si não é o centro da felicidade de Carl Casper (Favreau): o que define sua satisfação é a possibilidade de fazer o que bem entende, quando e onde quiser. Totalmente diferente de Julia Child, que, para alcançar o sucesso, não abdicou de empregos por capricho e enfrentou todo tipo de obstáculo. O que vale mesmo é Sofia Vergara (!), que, pela primeira vez, está contida e sem o seu sotaque pesadíssimo (e proposital) que tanto lhe faz caricata. Mas é pouco para um filme que, além de tudo, se encerra com todos os clichês possíveis envolvendo redenção de vilões, acerto de contas e reencontros com o amor.

EDEN LAKE (idem, 2008, de James Watkins): Foi o primeiro filme de James Watkins, que, anos depois, teria relativa repercussão com o mediano A Mulher de Preto, estrelado por Daniel Radcliffe. Também era uma época onde Michael Fassbender não era quem é hoje. Apesar de tais curiosidades, este é um filme que, mesmo saudado como um thriller provocativo, não soa muito convincente. Particularmente, não acreditei muito na história de três ou quatro pré-adolescentes que conseguem raptar e prender à força um adulto do porte de Fassbender. O plot em si já é uma mistura de clichê com inconvincente: o casal que resolve passar um fim de semana em um local no meio da floresta (óbvio!) e que é atormentado por um grupo de jovens inconsequentes e claramente problemáticos. Eden Lake chega a extremos, o que não ajuda muito um filme que por si só já tem uma narrativa bastante frágil. Fassbender não tem muito o que fazer, já que passa boa parte do tempo amarrado ou torturado, deixando o protagonismo para a apenas regular Kelly Reilly (que foi a namorada alcoolista de Denzel Washington no recente O Voo). O final tem seu impacto e foge do convencional – o que é uma grande vitória -, mas nada que mude a sensação de decepção com o todo.

SEM ESCALAS (Non-Stop, 2014, de Jaume Collet-Serra): Impossível não lembrar do interessante Plano de Voo, de 2005, onde Jodie Foster investigava o desaparecimento de sua pequena filha dentro de um avião. A atmosfera de Sem Escalas é basicamente a mesma: o suspense envolvendo a identidade de um possível conspirador. No caso deste recente filme de Jaume Collet-Serra (responsável por bobagens como Casa de CeraA Órfã), procuramos saber quem é o responsável por enviar mensagens a um policial (Liam Neeson) ameaçando a matar tripulantes caso 100 milhões de dólares sejam transferidos para uma determinada conta. Como um filme Supercine de sábado à noite, Sem Escalas segura bem as pontas e prende a atenção com um ritmo bastante ágil. De brinde, ainda existem algumas participações de luxo (Julianne Moore, Michelle Dockery, Lupita Nyong’o). Porém, assim como em Plano de Voo, o desfecho não está à altura do eficiente desenrolar. A forma como Sem Escalas resolve uma tensão relativamente bem conduzida até então pode até ser convincente, só que não é necessário muito tempo para que o espectador logo a tenha esquecido após a sessão. Um filme pipoca bastante objetivo e que cumpre sua missão de divertir, mas que cai na armadilha de criar um mistério mirabolante e não ter respostas suficientemente marcantes para poder dizer que cumpriu por completo a sua missão.

VIZINHOS (Neighbors, 2014, de Nicholas Stoller): É divertido o contraste proposto por Vizinhos. De um lado, um grupo de jovens estudantes que realiza festas astronômicas e que acaba de se mudar para uma pacata vizinhança. De outro, um casal que acaba de ter uma filha e que, mesmo se amando, concorda que a rotina já caiu na monotonia. Em um primeiro momento, eles ficam temerosos com a bagunça que os novos garotos da vizinhança podem causar, mas basta a primeira festa para que ambos, secretamente, fiquem tentados a reviver épocas passadas de bebidas, música e agitação. É de se lamentar, no entanto, que esse vislumbre de esperteza do roteiro logo se perca em um descontrolado combate entre o casal e os novos vizinhos por paz e sossego. Descontrolado no sentido de que tudo seria perfeitamente resolvido com uma simples ligação para a polícia, mas desculpas esfarrapadas fazem com que tudo descambe para situações implausíveis e até socos e pontapés entre Seth Rogen e Zac Efron. Falando neles, o primeiro faz o mesmo de sempre (para o bem e para o mal). Já o segundo desaponta por nunca ter cumprido a promessa de ser o jovem galã com desenvoltura para comédia que vimos em 17 Outra Vez. No meio de tantas bobagens, quem se salva mesmo é Rose Byrne, que, desde Missão Madrinha de Casamento, tem provado que o seu ponto mais forte é fazer comédia – e não dramas, onde está sempre insossa, a exemplo de todas as temporadas do seriado Damages.

danielactresUma das alegrias de poder estar em eventos de cinema é, sem dúvida, ampliar a troca de conhecimentos e opiniões sobre filmes. E também conhecer pessoas com quem você tem afinidade. Este ano, não foi diferente no Festival de Cinema de Gramado, onde conheci a jornalista Daniela Cardarello, com quem tive a oportunidade de trabalhar na assessoria de imprensa do evento. Muito além das opiniões semelhantes concorrentes latinos e brasileiros do evento, os filmes em geral – sejam os blockbusters ou os de “arte” – nos conectaram em praticamente todas as trocas de opinião. É sempre muito bom quando isso acontece. Para a minha alegria, a Daniela aceitou participar do Três atores, três filmes, com uma seleção que, segundo ela, foi feita tentando escapar das escolhas mais “óbvias” (mas nem por isso menos extraordinárias), como algum desempenho de Meryl Streep ou de Julianne Moore, atrizes que nós dois admiramos profundamente. O resultado desta lista que preza por escolhas autênticas e bastante pessoais vocês conferem abaixo!

John Travolta (Pulp Fiction – Tempo de Violência)
Impossível esquecer do capanga Vincent Vega neste segundo filme de Quentin Tarantino que já é um icone do cinema. As frases da dupla de assassinos interpretada por Travolta e Samuel L. Jackson (Jules Winnfield) são inesquecíveis, tanto pelo conteúdo bizarro no contexto das cenas quanto pela interpretação de ambos, com destaque ao protagonista Vincent. De fato, acredito que ninguém poderia prever que este papel pudesse ser tão bem resolvido por este ator que, até o momento, era mais reconhecido por rebolar – claro, de um jeito muito “macho” -, e brincar de papai em comédias românticas bobas. Descobrimos que ele também podia atuar – e muito bem, no melhor resgate da indústria da perdição do star system de Hollywood. Não posso deixar de lembrar: ele ainda dançou neste filme, em uma cena magnífica com Uma Thurman (Mia), a mulher de seu chefe, a quem ele tem que cuidar e, claro, não chegar muito perto. Mas lá estão eles, dançando maravilhosamente um twist, sem rebolar, e mostrando que, sim, ele sempre é bom de pista.

Tom Cruise (Magnólia)
Ok, por favor, esperem, sei que para muitos é difícil entender como posso destacar uma atuação do Tom Cruise. Mas, aqui, ele realmente surprendeu – e muito! Não fui a única a achar isso: com sua interpretação como o guru Frank T.J. Mackey, ele conseguiu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro. Cruise é um ator secundário neste filme de diversas pessoas que conduzem a história. E todos são espetaculares, seja Julianne Moore, William H. Macy ou o recentemente falecido Philip Seymour Hoffman. A força que Cruise transmite como o “supermacho norteamericano” em suas palestras a homens frustrados – sob o lema “Seduza e destrua” -, é, para mim, um dos momentos inesquecíveis do filme, que pessoalmente adorei. Sua atuação é refrescante e comovente. Esse carismático homem interpretado por ele é, na verdade, um desgraçado incapaz de superar o abandono do pai. Todo esse esquema de durão hermético em plena negação chega, em um determinado ponto, a uma ruptura, mostrando a sua necessidade de amor e perdão. É, vale a pena ver de novo!

Natalie Portman (V de Vingança)
É claro que esta atriz já começou bombando na sua carreira como a pequena Mathilda, protegida pelo assassino profissional interpretado por Jean Reno em O Profissional, mas ela foi crescendo em cada papel que interpretou até chegar ao merecido Oscar de melhor atriz por Cisne Negro. Acredito que, interpretando Evey, em “V de Vingança”, ela realmente mostrou do que era capaz, que não existia um limite que ela não alcançasse para se transformar em um personagem. Portman é uma jovem em quem V – personagem principal da HQ no qual o filme foi baseado -, reaviva um ativismo. Sua mudança radical ao longo da obra destaca a inteligência desta atriz, que tem que se vincular emocionalmente a um ator que sempre usa uma máscara. É uma interpretação que, por momentos, chega a comover profundamente. Portman alcança extremos reais no filme, como raspar completamente a cabeça (de verdade!) e aprender a falar com sotaque britânico. Apesar de estar entre as estrelas de Hollywood cujo nome já é garantia de sucesso, o filme não teve uma boa bilheteria. Mas, claro, qual reação esperavam de um público acostumado aos super heróis que destroem monstros imaginários sozinhos frente a um homem sem rosto que luta contra um sistema político ditatorial e que precisa da conjunção do povo para conseguir o seu objetivo?

I’m gonna get you that present. Give me all your money, baby.

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Direção: Jim Jarmusch

Roteiro: Jim Jarmusch

Elenco: Tom Hiddleston, Tilda Swinton, Mia Wasikowska, Anton Yelchin, John Hurt, Jeffrey Wright, Slimane Dazi, Carter Logan, Aurelie Thepaut, Ali Amine, Ego Sensation, Fouad El Achaari, Hawchi Mustapha

Only Lovers Left Alive, Inglaterra/Alemanha/Grécia, 2013, Drama, 123 minutos

Sinopse: A história de amor entre dois vampiros eruditos, Eve (Tilda Swinton) e Adam (Tom Hiddleston), cansados da sociedade atual e profundamente incomodados com a evolução da humanidade. Há séculos eles vivem uma relação de cumplicidade e muito amor, que será abalada pela aproximação da irresponsável irmã caçula da vampira, Ava (Mia Wasikowska). (Adoro Cinema)

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Em um diálogo inspiradíssimo de sua quarta temporada, o seriado The Big C afirma que a morte tem má reputação e que, na realidade, ela é a única coisa que faz a vida valer a pena. “Se nós não tivéssemos uma data de validade, nada seria feito”, afirma a protagonista vivida por Laura Linney. Ela tem toda a razão. Afinal, qual a finalidade de realizar planos agora se temos toda a eternidade à disposição? É exatamente por meio desse questionamento que Amantes Eternos constroi seus personagens, mudando (para melhor) a desorientada situação dos vampiros nas plataformas audiovisuais, já que True Blood terminou recentemente em pura decadência, The Vampire Diaries serve mais para causar com homens bonitos ou descamisados e a saga Crepúsculo… bom, deixa pra lá.

Portanto, se esse filme de Jim Jarmusch fosse apenas um digno retrato deles, já seria o suficiente. Mas o diretor vai além e propõe várias discussões sobre a fadiga que deve ser ter uma vida infinita pela frente. Não espere, portanto, grandes fantasias relacionadas ao universo dos vampiros. Existem, aqui ou ali, algumas divertidas referências, mas o foco do roteiro escrito pelo próprio Jarmusch é mesmo esse cotidiano sem perspectiva, prazos ou urgências, exemplificado no casal protagonista vivido por Tom Hiddleston e Tilda Swinton. Eles brincam que o “melhor” já passou (as pragas, as grandes guerras) e que hoje as pessoas se tornaram tão tolas a ponto de só perceberem os problemas quando já é tarde demais. São seres definitivamente desanimados com suas existências.

Para acompanhar esse “cansaço” dos dois e o clima de total desentusiasmo com a vida, Amantes Eternos opta propositalmente por ser lento e old school, escolha que casa perfeitamente com o resultado. Jim Jarmusch – diretor que sempre caminha na linha tênue entre o indie e o pretensioso -, acerta ao realizar um filme sutil e contido, baseado nos pequenos momentos da existência dos protagonistas. O relato ganha contornos ainda mais interessantes porque o casal é vivido com grande inspiração por Hiddleston e Swinton. Juntos, eles têm o visual gótico perfeito para os papeis (ela, principalmente, sempre hipnótica com sua aparência exótica) e formam um dos casais mais cool do ano.

Pequenas participações como a de Mia Wasikowska, Anton Yelchin e John Hurt ajudam a dar o tom a este longa que não deixa de ser um romance, mas um romance diferente, de pessoas que não precisam dizer eu te amo e cujo cotidiano já deixa perfeitamente compreensível que séculos de convivência e de idas e vindas trouxeram um entendimento que vai além de palavras. Talvez menos poético do que o título sugere mas ao mesmo tempo mais subversivo do que poderia se esperar, Amantes Eternos não é obviamente um filme para grande público ou para fãs das mitologias e curiosidades vampirescas. É para os interessados em refletir sobre como a vida como conhecemos pode ter vantagens que infinitude alguma pode comprar – e que muitos de nós sequer percebem.

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Com esta foto promocional de seriado, deixo registrado aqui o meu agradecimento a todos os envolvidos na realização de mais uma edição do Festival de Cinema de Gramado. Meu carinho especial vai para este timaço de mulheres super profissionais com quem tive o prazer de conviver pelo terceiro ano consecutivo no trabalho de assessoria de imprensa do evento. Foi mais uma intensa temporada repleta de aprendizados profissionais e cinematográficos. Agora, para recarregar as baterias e colocar a vida em ordem, o Cinema e Argumento tira alguns dias de férias. Voltaremos!

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