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Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

Vem da Turquia o filme mais longo a vencer a Palma de Ouro em Cannes. São nada menos que 196 minutos dirigidos por Nuri Bilge Ceylan, que, na realidade, finalizou sua primeira versão com 4h30, para depois reduzir à duração atual. Anos atrás, Ceylan já havia sido celebrado em Cannes com o prêmio do júri para o seu Era Uma Vez na Anatólia, mas só agora alcançou a honraria máxima – que, muitos dizem, veio para um menos interessante do que seu longa anterior. Não conferi Anatólia, então, este Winter Sleep foi uma experiência completamente inédita para mim, até porque tenho conhecimento quase zero sobre o cinema turco.

Não foi uma jornada fácil, o que não significa que tenha algo a ver com a duração (lembram que Azul é a Cor Mais Quente, vencedor da Palma de Ouro ano passado, tinha 180 minutos de duração que passavam voando?). O difícil mesmo foi o ritmo do filme, que, quase sem trilha sonora, é incrivelmente silencioso e calmo na forma como desenvolve situações e personagens. Não existe, em Winter Sleep, personagens sequer falando alto ou reviravoltas. Este é puramente um filme de diálogos e reflexões, com cenas que, sem exageros, chegam a durar 15 ou 20 minutos.

O roteiro, escrito por Nuri Bilge, em parceria com Ebru Ceylan, é baseado em pequenos contos de Anton Chekhov e mostra o dia a dia de Aydin (Haluk Bilginer), que administra um pequeno hotel na Anatólia, focando-se especialmente no conturbado relacionamento que ele tem com sua jovem esposa Nihal (Melisa Sözen) e nas conversas com sua irmã Necla (Demet Akbag), recentemente divorciada. É a partir destes encontros que ele tem com as figuras femininas que Winter Sleep ganha seus melhores momentos, em especial todos aqueles com Necla.

Todo o elenco de Winter Sleep é excelente, algo que fica ainda mais evidente nas longas tomadas em que o diretor faz com que os personagens divaguem não apenas sobre suas próprias vidas mas também sobre várias questões existenciais. Aliás, o filme de Nuri Bilge Ceylan, além de exigente em termos de duração, também pede ao espectador que embarque em várias discussões complexas e filosóficas sobre a vida. Nada pretensioso, mas esmiuçado lentamente, o que deve afastar milhares de plateias pelo mundo. Particularmente, não embarquei com entusiasmo na obra, e certamente preferia outros títulos de Cannes neste ano.

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À Procura, de Atom Egoyam

Logo quando começou À Procura, já bateu o cansaço: mais um filme sobre crianças desaparecidas. Tudo bem que Os SuspeitosO Lobo Atrás da Porta foram excepcionais na construção desses mistérios, mas o novo longa de Atom Egoyan não foi bem recebido em Cannes ou em qualquer outra parte. E, de fato, nem bem o filme chega na metade e já há diversos motivos bem justificáveis para a má receptividade. Em sua essência, À Procura é sobre um casal que perdeu o filho, mas, na tentativa de trazer resoluções e estruturas diferentes para uma história como essa, termina sendo tudo menos envolvente – tanto em efeitos dramáticos quanto policiais.

Indo e voltando no tempo sem qualquer trabalho de maquiagem ou transição decente que insinue o jogo temporal, À Procura já começa errado na escalação do elenco. Ryan Reynolds nunca foi bom ator, Rosario Dawson não poderia estar mais apática e Kevin Durand só é caricatura – este último por sinal, é o mais ineficiente de todos, fazendo um desserviço à trama como o vilão maluco que gosta de ópera e é abarrotado de bizarrices. Por isso, se a trama por si só já é perdida, o fraquíssimo elenco só amplia a sensação de que não devemos nos importar mesmo com as figuras que aparecem na tela.

É errada a escolha do egípcio Egoyan de nos mostrar onde está a garota desaparecida logo nos primeiros minutos de filme, tentando trabalhar, desta forma, a angústia por meio de como os pais e a polícia se aproximam ou não da rede criminosa. Só que o suspense é tolo, os personagens não sustentam a dramaticidade da história e algumas situações beiram os mais tolos dos clichês, como a ajudante de peruca que se infiltra em uma festa para colocar um Boa Noite Cinderela no copo da policial sem que ela perceba. Igualmente ridícula é, ainda nesta cena, a naturalidade com que Nicole (Dawson) conta basicamente todos os detalhes do caso que está investigando para uma mesa de estranhos em uma festa (e que, claro, é onde se encontra secretamente um dos criminosos). Quanta esperteza para uma policial consagrada em desvendar casos envolvendo crimes contra crianças!

Já não é de hoje que Egoyan faz este cinema irregular de Super Cine. Pelo menos duas de suas obras anteriores desempenham este papel: Verdade NuaO Preço da Traição. Só que se, nesses casos, existiam atores como Julianne Moore e Colin Firth para salvar ou pelo menos dar algum tipo de credibilidade às histórias mal conduzidas, não é o que ocorre com À Procura. Misteriosamente selecionado para a mostra competitiva de Cannes deste ano, o filme falha em todas as suas tentativas, sendo pífio no suspense policial e carente de emoções na parte dramática. Uma verdadeira bagunça.

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Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Em Jogo de Cena, do saudoso mestre Eduardo Coutinho, Marília Pêra, ao interpretar a história real de uma mulher, diz que optou por retrair ao máximo as emoções de sua interpretação. Ela explica que um choro, por exemplo, só parece de verdade quando a pessoa tenta esconder, ao contrário do que acontece no cinema e na TV, onde atores tentam, a todo custo, verter lágrimas e mais lágrimas em cenas dramáticas frente às câmeras. Não. Na vida real, nós tendemos a esconder o choro. Pêra resume com perfeição como as emoções devem ser tratadas na dramaturgia para que tudo pareça o mais real possível. E é por aí que passa o cinema dos irmãos Dardenne, sempre tão naturalista e próximo das experiências de seres humanos comuns.

Desta vez, em Dois Dias, Uma Noite, eles acompanham a jornada de Sandra (Marion Cotillard), uma mãe que perde o emprego em uma votação trabalhista entre seus colegas. A razão? Eles tiveram que escolher entre ela e um bônus de mil euros para o final de ano. Recém recuperada de uma fase depressiva, ela não pode perder o emprego e, em um fim de semana, tenta mudar a opinião de todos os colegas que votaram contra a sua permanência na fábrica. No entanto, como já mencionado, não espere ver aqui Marion Cotillard ajoelhada frente aos personagens implorando por emprego ou incansáveis choros desesperados dela. Na verdade, as cenas mais belas de Dois Dias, Uma Noite são aquelas que fazem justamente o contrário – e uma das mais bonitas é aquela em que Sandra, frente ao espelho e prestes a cair em lágrimas, se recompõe e repete para si mesma: “você não tem que chorar”.

São pertinentes as discussões trazidas pelo novo filme dos irmãos Dardenne. Para nós brasileiros, elas ganham um sentido extra agora que vivemos eleições presidenciais tão tumultuadas. Dois Dias, Uma Noite passa por convencimento, pelo interesse individual versus o interesse coletivo, por como a opinião de quem está ganhando influencia a de quem está em dúvida e pela minoria que recua suas crenças só porque não crê na possibilidade de vitória. A forma como os diretores distribuem tais situações e análises ao longo do filme é bastante harmônica e frequentemente surpreendente, inclusive até o último minuto, quando a protagonista se vê em uma situação que coloca em xeque todos os valores batalhados por ela ao longo de sua jornada.

A bela Marion Cotillard entrega outro belo desempenho em Dois Dias, Uma Noite. De cara limpa, consegue fugir de qualquer obstáculo envolvendo sua inegável beleza, construindo uma mulher realmente comum e identificável. É fácil torcer por sua Sandra, até porque o roteiro ainda faz questão de discretamente pontuar detalhes pessoais de sua vida, como o casamento em crise e o vício por remédios em uma fase pós-depressão. Caso o filme pareça um tanto arrastado e repetitivo na forma como sempre mostra o discurso inicial da protagonista que explica sua situação para cada colega, isto deve ser proposital: ora, se Sandra está exausta de ter que ir de casa em casa para convencer alguém, nós também temos temos que compartilhar deste sofrimento. E, como o filme foi filmado na ordem cronológica que se apresenta na tela e com takes repetidos mais de 50 vezes por Cotillard, isto só aperfeiçoa a impressão que fica de mais este excelente filme da exemplar seleção que Cannes conseguiu fazer em 2014. Dois Dias, Uma Noite é o representante da Bélgica para concorrer a uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar 2015.

What are you thinking? What are you feeling? What have we done to each other?

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Direção: David Fincher

Roteiro: Gillian Flynn, baseado em seu próprio romance homônimo

Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Carrie Coon, Kim Dickens, Tyler Perry, Neil Patrick Harris, Lisa Banes, Emily Ratajkowski, Patrick Fugit, David Clennon, Casey Wilson, Lola Kirke, Boyd Holbrook, Sela Ward

Gone Girl, EUA, 2014, Drama, 149 minutos

Sinopse: Amy Dunne (Rosamund Pike) desaparece no dia do seu aniversário de casamento, deixando o marido Nick (Ben Affleck) em apuros. Ele começa a agir descontroladamente e se torna o suspeito número um da polícia. Com o apoio da sua irmã gêmea, Margo (Carrie Coon), Nick tenta provar a sua inocência e, ao mesmo tempo, procura descobrir o que aconteceu com Amy. (Adoro Cinema)

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Antes de falar sobre Garota Exemplar, uma confissão: sempre tive muita dificuldade de me conectar com os filmes de David Fincher, seja com a forma extremamente racional com que ele desenvolve seus personagens ou com o próprio suspense das suas tramas. Minha má relação com Fincher estava beirando a desistência nos últimos tempos, pois considero A Rede SocialMillenium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres obras superestimadas e por demais gélidas para o meu gosto pessoal. Foi bom ter persistido: Garota Exemplar, além de ser forte candidato a estar entre os melhores e mais provocativos filmes do ano, figura também, sem dúvida, entre o que David Fincher já realizou de mais interessante.

A investigação em si e os caminhos distorcidos construídos pela imprensa não são novidade (lembro especificamente de Um Grito no Escuro, onde Meryl Streep enfrentava uma jornada perturbadora contra acusações de que ela teria sacrificado o próprio filho em um ritual religioso), mas Fincher executa todo o contexto de com um timing perfeitamente instigante e um enfoque bastante diferenciado. É a partir da desconstrução de Amy (Rosamund Pike) que o filme abandona a mera – mas envolvente – investigação policial para se tornar um incrível estudo de personagem. Existe o lado de Ben Affleck, mas é a personalidade de Amy, a mulher desaparecida, que movimenta a trama. A partir de uma surpreendente revelação ainda em sua metade, Garota Exemplar passa a fugir de escolhas fáceis neste sentido, tornando-se uma viagem imprevisível para qualquer espectador.

São quase duas horas e meia de pleno envolvimento com a hisótira originalmente escrita e levada para as telas por Gillian Flynn, onde o suspense se molda a partir dos rumos da Amy de Rosamund Pike – e conseguir fazer uma trama investigativa se guiar quase que exclusivamente a partir dos conflitos psicológicos de um personagem que supostamente não está viva (cabe a cada um decidir o que aconteceu com Amy) é um mérito a ser festejado. Não que Garota Exemplar não seja um filme de reviravoltas ou revelações (bem pelo contrário), mas o talento da escritora e roteirista de criar uma figura absurdamente fascinante e capaz de guiar toda uma trama de longe se destaca por completo.

Reese Witherspoon comprou os direitos da história e é uma das produtoras de Garota Exemplar, mas quis ir além e ser considerada para o papel principal. Sorte que não a ouviram, já que Rosamund Pike se revelou a escolha perfeita para dar vida à Amy. Não só ela acompanha com perfeição todas as transformações da personagem (que, por meio de flashbacks, revela pouco a pouco o seu envolvimento com o Nick de Ben Affleck) como tira de letra sua dubiedade e complexidade. Frente a ela, Affleck tem pouco a fazer, mas isso não quer dizer que ele faça um trabalho ruim. Pike, principalmente, tem seus melhores momentos quando o filme se encaminha para o final, parte que, por sinal, é a que mais reserva polêmicas.

São compreensíveis as razões de todos os personagens no desfecho de Garota Exemplar, mas a forma apressada com que mudanças tão bruscas foram aceitas e absorvidas por cada um deles torna a história bastante implausível. A análise é interessante, a situação é genial e a reviravolta impecável, mas o que é feito a partir disso, em termos de execução, me distanciou bastante do filme. Para uma produção de quase 2h30, um final complexo e bastante psicológico como esse merecia um estudo mais detalhado. Por sorte, nada que abale tudo de fantástico que Garota Exemplar alcançou durante o caminho (e não dá para deixar de mencionar mais uma excelente trilha da dupla Trent Reznor e Atticus Ross). Um dos filmes obrigatórios de 2014.

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Livre, de Jean-Marc Vallée

Desde quando o trailer foi lançado já era possível deduzir que Livre seria uma versão 2.0 (no sentido negativo) do inspirador Na Natureza Selvagem. A impressão se confirma mesmo com o filme, que, apesar de comandado por um competente diretor, nunca chega a ter reflexões tão interessantes quanto as da história comandada por Sean Penn em 2007. Serve mais, no final das contas, para reposicionar Reese Witherspoon como uma atriz a ser apreciada além de suas comédias românticas – o que só aconteceu anos atrás com Johnny & June, que, inclusive, chegou a lhe render um injusto Oscar de melhor atriz. E, mesmo assim, nada de tão espetacular ou muito desafiador a ponto de Reese já ser cotada para novas estatuetas.

Não que Livre seja um filme desinteressante, mas sempre tem um sabor requentado em praticamente todas as instâncias. O que existe de diferente neste novo trabalho do canadense Jean-Marc Vallée é o fato de ele ser protagonizado por uma mulher – algo que, inclusive, é acertadamente explorado pelo roteiro de Nick Hornby, baseado no livro homônimo da própria protagonista Cheryl Strayed, que sempre coloca no caminho da aventureira pessoas que duvidam de sua capacidade de cair sozinha na estrada ou que questionam o fato de ela andar por tantas cidades sem um homem ao seu lado. É uma reflexão sempre pertinente sobre a igualdade de todo e qualquer ser humano que o filme pontua de forma eficiente.

Cheryl (Witherspoon) já começa Livre em uma paisagem inóspita e, ao longo de sua jornada, vamos conhecendo, por meio de flashbacks, as razões para ela ter colocado uma gigantesca mochila nas costas e saído a pé sozinha para percorrer centenas de quilômetros. Curiosamente, porém, é no passado da protagonista que se concentram os melhores momentos do filme de Vallée. Se a princípio a escolha parece quase manjada, aos poucos se revela um grande acerto, já que a parte de sobrevivência de Livre está sempre no lugar-comum. Enquanto em Na Natureza Selvagem Christopher McCandless (Emile Hirsch) encontrava pessoas fundamentais para sua mudança ao longo da estrada, em Livre  os dias da protagonista na estrada são completamente lineares e sem grande consistência dramática.

Não só Reese Witherspoon tem mais desafios como o próprio filme envolve mais o espectador nas partes encenadas no passado. O casamento repleto de traições, o envolvimento com as drogas e  a relação com a mãe (Laura Dern, aproveitando cada minuto), além de, claro, serem fundamentais para explicar a atual situação de Cheryl, se sustentam perfeitamente bem sozinhos. Mas o que falta mesmo em Livre é alguma inovação – o que deve ser resultado da carreira corrida que Jean-Marc Vallée parece estar disposto a abraçar após o Oscarizado Clube de Compras Dallas. Com Demolition, marcado para ser lançado ano que vem, o diretor chega a uma média de um filme por ano. Vamos ver se lá a teoria de que seu talento se diluiu em projetos tão rápidos se confirma.

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Acima das Nuvens, de Oliver Assayas

Foi a própria Juliette Binoche que propôs a história de Acima das Nuvens para o diretor Oliver Assayas. Ele comprou a ideia, escreveu o roteiro, escalou Binoche e o filme chegou a concorrer este ano em Cannes. Gosto muito de Julianne Moore em Mapa Para as Estrelas, mas confesso que não teria ficado nada chateado se Binoche tivesse levado mais uma vez o prêmio de interpretação feminina (ela ganhou merecidamente pela primeira vez em 2010 com Cópia Fiel) por sua composição de Maria Enders, uma atriz que é convidada a participar do remake de um espetáculo que a revelou anos atrás – só que, dessa vez, no papel da mulher madura que é manipulada por garota mais jovem (esta segunda representada por Enders originalmente).

Ao contrário de Cópia Fiel, um filme excessivamente dialogado, teatral e quase pretensioso, este Acima das Nuvens é amplamente bem sucedido em todos os seus aspectos cinematográficos. É de tirar o chapeu como o francês Assayas fala praticamente o tempo inteiro sobre interpretação, escolha de papeis e preparação de elenco sem nunca entregar o seu filme à teatralidade. As longas cenas de ensaios e bastidores entre as personagem de Binoche e Kristen Stewart são bastante envolventes porque, além de filmadas com bastante fluidez, discorrem dinamicamente sobre outros temas pertinentes às figuras em cena e também ao mundo artístico no geral, como o conflito de gerações, os limites de envolvimento de um ator com um papel e os caminhos cada vez mais distorcidos da relação entre obra e público.

Acima das Nuvens já sai na frente porque a Maria Enders de Binoche é uma figura incrivelmente rica e aberta a interpretações. Ela conquista não só porque Assayas consegue de fato convencer o espectador de que Maria é uma estrela de quinta grandeza (e Binoche só se torna mais linda com a idade, principalmente quando tem joias, maquiagens e roupas da Chanel a sua disposição como aqui), mas porque sua profundidade no filme está longe de se resumir a questões profissionais: ela é envolvente em toda sua personalidade. Binoche, claro, tem sua grande parcela de contribuição, entregando mais uma performance intensa e completa. Quem não fica atrás é a também interessante Valentine de Kristen Stewart, aqui surpreendendo ao provar que, quando bem dirigida, responde à altura e pode ser um grande ponto positivo. Com Binoche, forma uma das melhores duplas do ano.

Aspectos pontuais de Acima das Nuvens estendem o filme além do necessário. É tardia, por exemplo, a entrada de Chloe Grace Moretz na trama, especialmente depois de tanto tempo sendo mencionada ao longo da história. Ela também não é necessariamente bem aproveitada, uma vez que o contraste de sua personagem com a de Binoche poderia ter rendido bem mais do que apenas uma ou duas cenas no terço final do filme. Mesmo com este desfecho um tanto arrastado, Acima das Nuvens não chega a se abalar como uma obra complexa e que, sem dúvida, deve melhorar em futuras revisões.

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Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo, de Bennett Miller

Com Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo (esta vai ser a primeira e a última vez que citareu este subtítulo brasileiro horroroso), o diretor Bennett Miller volta ao que sabe fazer de melhor. Depois de O Homem Que Mudou o Jogo, um filme que me parece, de certa forma, um desvio temático de sua carreira, Miller retoma o estilo que lhe consagrou com o ótimo Capote. Tanto o filme que consagrou o saudoso Philip Seymour Hoffman quanto Foxcatcher são sobre homicídios reais, mas obras infinitamente mais preocupadas em esmiuçar as conexões psicológicas que desencadeiam ou sucedem tais desgraças. Para quem está embarcando no universo de Miller pela primeira vez, vale o aviso: o ritmo é pausado e bastante sóbrio, sendo o assassinato em questão apenas um detalhe – e não algo a ser esperado ou adivinhado.

Toda esta fórmula diferente e imersiva se repete em Foxcatcher. Protagonizado por Channing Tatum e Steve Carell, o longa acompanha os meses em que o lutador profissional Mark Schultz (Tatum) entrega sua carreira ao rico treinador John Du Pont (Carell). O que de início era apenas uma parceria profissional aos poucos se torna uma relação dependente, invasiva e, como a própria sinopse já anuncia, responsável por eventuais tragédias. Esta dinâmica tão suscetível a tons mais elevados é conduzida com plena sobriedade por Miller que, mesmo nos mínimos detalhes, age discretamente para envolver o espectador, como no espetacular uso da trilha sonora de Rob Simonsen. Isto não anula, entretanto, a tensão que existe no ar: sempre algo parece prestes a explodir – o que é mérito justamente do diretor de nunca pesar a mão nas cenas. O descontrole e os erros dos personagens não são projetáveis, e é aí que reside o suspense intrínseco de Foxcatcher.

Dentro das lutas olímpicas, os personagens medem forças e controle – inclusive o próprio Du Pont de Carell, que chega a entrar em uma competição para tentar provar algo para sua mãe (Vanessa Redgrave, em uma ponta de luxo) -, mas a verdadeira queda de braço está fora dos ringues. Disfarçada e praticamente silenciosa, mas está lá. Ciente disso, Miller concentra pouco de seu filme nas lutas e, quando as encena, concentra toda sua verdadeira ação nos olhos de quem está de fora ou de quem está dentro do ringue tentando comunicar algo para quem observa. Não é um filme de esporte, portanto, o que se revela um grande acerto também do roteiro escrito pela dupla E. Max Frye e Dan Futterman.

Praticamente irreconhecível como Du Pont, Carell consegue se esquivar de qualquer efeito colateral de sua marcante carreira cômica no cinema e na TV. Ele está realmente submerso neste personagem imprevisível e de poucas palavras, onde a maquiagem, aliada aos excelente trabalho corporal do ator, constrói uma figura impossível de ser lida. Ponto para a angústia. Bem escalados também estão os outros atores, em especial – e por incrível que pareça – Channing Tatum. Normalmente inexpressivo, o ator aqui, além da aptidão física que atende com naturalidade as exigências do papel, consegue direcionar com segurança seu personagem calado e eventualmente impulsivo, mas sem nunca transformá-lo em um tolo brutamonte. Desde já cotado para o próximo Oscar, Foxcatcher é um legítimo Bennett Miller (vale lembrar que o diretor chegou a ganhar prêmio em Cannes por seu trabalho aqui) e, caso realmente chegue nas premiações, será uma conquista das mais merecidas da temporada.

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Infância, de Domingos Oliveira

Já não é novidade para ninguém que Domingos Oliveira há anos não realiza um filme realmente relevante. Hoje, o veterano parece cada vez mais apegado a uma fórmula e a antigos maneirismos. Era quase desesperançoso o último filme dele: Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, reciclagem que ele realizou na casa de sua amiga Maitê Proença. Por isso, quando surgiu a notícia desse Infância, as atenções eram todas voltadas para Fernanda Montenegro vivendo a matriarca desta história sobre uma nobre família carioca nos anos 1950. Existem pelo menos duas boas notícias: Fernanda, claro, atende todas as expectativas e o filme em si até que chega a ser inspirado para o padrão quase preguiçoso estabelecido por Domingos em seus últimos trabalhos.

O início não é lá muito atraente, pois o diretor continua querendo aparecer demais, com a insistência em narrar seus filmes (o que, com todo respeito, é incômodo, já que Domingos, com a idade, não está com a melhor das dicções) e em sempre dar um jeito de estar em cena. Mas aqui não é tão grave e o diretor.está particularmente inspirado no trabalho com os atores. Se Fernanda não deve precisar de maiores orientações, grande parte dos atores se mostra bem conduzida por seu Domingos.

Eles dão o tom para toda a bem humorada comédia de Infância, estruturada pelo roteiro como um clássico relato familiar comum a todos nós. Aqui, encontramos a matriarca que acha que tem o direito de se intrometer na vida de todos, a filha que sempre quer agradá-la, o genro um tanto trambiqueiro e a criança prodígia. Não deixam de ser figuras estereotipadas, mas Domingos sabe administrá-las com leveza e descontração – o que faz toda a diferença para que os atores se sintam à vontade em cena. O resultado é percebido, pois Infância tem na dinâmica de seus intérpretes um de seus pontos mais interessantes.

Para quem não gosta de filmes com veia teatral, é bom, portanto, não ir com muitas expectativas. Não tenho maiores restrições ao estilo (quando não é extremado, claro, como no destrambelhado Deus da Carnificina), mas os leigos devem se preparar para uma longa cena na mesa de jantar e várias outras centradas exclusivamente no texto e nas atuação. Muitas vezes, Infância, por não querer desenvolver muito além do mero relato cotidiano de uma família, soa sem assunto e repetitivo. Mas é difícil se importar com isso quando a grande Fernanda Montenegro ganha um destaque à altura e nos lembra – mais uma vez – o porquê de ser merecidamente considerada a melhor atriz do Brasil.

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Começou hoje minha maratona na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. É a primeira vez que o Cinema e Argumento cobre o evento, então, vamos ver como como nos saímos a partir de agora! Cheguei em São Paulo já perdendo um dos longas que mais queria ver (Dois Dias, Uma Noite, dos irmãos Dardenne e com Marion Cotillard), mas para este existem outras sessões até o final da Mostra. Devido ao cansaço da viagem, dois momentos de turbulência durante o voo e as etapas de acomodação na cidade, comecei apenas com um filme, mas já aproveito para rememorar outro que foi exibido hoje pela primeira vez e que já havia conferido este ano no Festival de Cinema de Gramado. Vamos aos longas!

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Muitos Homens Num Só, de Mini Kerti

Desde que conferi A Coleção Invisível ano passado em Gramado passei a aguardar com curiosidade as próximas incursões dramáticas de Vladimir Brichta no cinema. Ele, que no início da carreira participou de várias montagens dramáticas no teatro, acabou fazendo sucesso na TV com as comédias – e até hoje está no ar com a divertida minissérie Tapas & Beijos. Em A Coleção Invisível, ele entregava um belo desempenho como um jovem que, após um trágico acidente de carro, decide mudar de vida viajar pelo interior da Bahia em busca de uma valiosa coleção que é a chave para um negócio. O filme também ajudava bastante, o que fez daquela uma grande oportunidade para o ator. O mesmo não se repete neste Muitos Homens Num Só, que misteriosamente faturou 10 prêmios no Festival de Pernambuco deste ano, incluindo melhor filme e uma estatueta de melhor ator para o próprio Vladimir.

Narrando a história verídica de Artur Antunes Maciel, um assaltante profissional que, no século XX, roubou vários hoteis do Rio de Janeiro, o filme de Mini Kerti acerta na reconstituição de época (os figurinos e a direção de arte são exemplares), mas é frágil narrativamente e também na sua própria encenação. Existe uma clara falta de força em todas as propostas do roteiro. De um lado, a insossa vida bandida do protagonista, que não consegue causar maiores tensões ou tramas mais complexas. A prova disto é a total falta de aproveitamento de dois ótimos atores: César Troncoso e Caio Blat, reduzidos a coadjuvantes previsíveis, apáticos e até mesmo beirando a canastrice (neste terceiro caso, é Charlone quem se enquadra).

Paralelo a isso está o envolvimento amoroso de Artur com a bela Eva (Alice Braga), uma mulher casada e bem de vida. Brichta e Braga bem que tentam, mas o roteiro é raso demais para desenvolver qualquer conexão com o espectador além da boa presença dos dois atores. Ela está, como de praxe, esbanja naturalidade e tem a grata (mas indireta) função de iluminar a tela toda vez que entra em cena. Neste sentido, se Brichta por si só não tem muito o que fazer com o personagem (seja pelo texto que lhe é entregue ou até mesmo por seu empenho aqui), a situação piora para ele quando Braga surge tão natural e humana na história. Ela, sem pensar duas vezes, é o que existe de melhor no filme.

Muitos Homens Num Só, além de tudo, parece muito fake na forma como entrega diálogos com frases prontas ou situações desenvolvidas mecanicamente. É complicado se conectar com este filme, que nunca é o exemplar suspense envolvendo assaltos ou o emotivo romance envolvendo uma relação proibida. O resultado está longe de ser um desastre, mas, dado o investimento na parte técnica, o potencial de uma trama aberta a várias abordagens e o próprio talento de seus dois atores, o resultado merecia pelo menos ser um pouco mais além de uma sessão completamente esquecível. A competição no Festival de Pernambuco devia estar realmente fraca para uma celebração exacerbada como esta.

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A Despedida, de Marcelo Galvão

Em certo ponto de A Despedida, Almirante (Nelson Xavier) diz que se a aparência explicasse a essência, o sabor não seria necessário. E esta é uma afirmação que sintetiza com perfeição toda a proposta deste belo filme do carioca Marcelo Galvão, que aqui está em sua melhor forma. Nada é o que aparece nesta história baseada em uma memórias familiares do próprio diretor. Galvão aqui abre para o público o dia em que seu avô, com mais de 90 anos, decide se despedir de tudo o que é mais importante em sua vida e ter uma última noite de amor com a sua amante 50 anos mais nova.

A aparência não explica a essência em A Despedida porque Almirante, um homem que, nos 10 primeiros minutos de filme, passa por praticamente uma via crucis para conseguir se levantar da cama, tomar banho e se vestir, tem fragilidades somente em sua forma física. No espírito, o personagem interpretado magistralmente por Nelson Xavier (coroado em Gramado com o Kikito de melhor ator este ano) ainda vive com completa paixão, como se fosse um jovem (re)descobrindo os pequenos – e grandes – prazeres da vida. Tanto que a própria amante vivida por Juliana Paes brinca que este seu homem de mais de 90 anos é muito mais macho do que todos os outros homens que ela conheceu.

Um dos pontos mais fascinantes deste longa é justamente isso: a virilidade, a “macheza” e a integridade de um homem está longe de ser ligada a sua idade ou a sua condição física. Para Almirante, acordar e ver que sua fralda não está suja é uma vitória. Já para Fátima, sua amante, este e outros detalhes estão longe de falar qualquer coisa sobre o que seu companheiro realmente representa. Por isso, é muito tocante a forma como ela, percebendo as dificuldades de locomoção de Almirante, faz questão de ajudá-lo sem que o mesmo perceba, como no momento em que ela coloca uma toalha em uma posição estratégica para que ele consiga agarrar o tecido e se levantar da banheira após várias tentativas mal sucedidas.

A Despedida é ainda mais belo e tocante porque se utiliza acertadamente de uma estrutura extremamente eficaz (quando trabalhada da maneira correta, claro): a de mostrar a vida inteira de um personagem em um único dia. Isso mesmo, o protagonista encontra sua amante apenas na meia hora final (quando o filme ganha novas cores e emoções), mas cada conhecido que ele encontra em um bar, cada momento que ele compartilha com um estranho na rua e, principalmente, cada confissão ou pedido de desculpas que ele profere revelam tudo o que precisamos saber sobre sua personalidade sem o filme ter que nos apresentar seu histórico completo.

Um ponto que desperta bastante preocupação ao longo da história é como Marcelo Galvão tornará crível emocionalmente a relação daquele homem que parece sempre às vésperas de se desmanchar fisicamente com uma mulher 50 anos mais nova. E não qualquer mulher: Juliana Paes! Felizmente, não só o encontro dos dois não se revela falho como também proporciona a melhor parte de A Despedida. Xavier, que dispensa comentários com uma entrega física e uma sensibilidade como há anos não víamos no cinema brasileiro, faz uma dupla brilhante com Paes, aqui desglamourizada e surpreendente em cada minuto de sua interpretação. Eles e Galvão conseguiram fazer um filme sensível, maduro e triste – mas também esperançoso.

It was all done for a reason.

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Direção: Wes Ball

Roteiro: Grant Pierce Myers, Noah Oppenheim e T.S. Nowlin, baseado no livro “The Maze Runner”, de James Dashner

Elenco: Dylan O’Brien, Thomas Brodie-Sangster, Ki Hong Lee, Will Poulter, Aml Ameen, Dexter Darden, Blake Cooper, Kaya Scodelario, Patricia Clarkson, Chris Sheffield, Joe Adler, Jacob Latimore, Randall D. Cunningham

The Maze Runner, EUA, 2014, Aventura, 113 minutos

Sinopse: Em um mundo pós-apocalíptico, o jovem Thomas (Dylan O’Brien) é abandonado em uma comunidade isolada formada por garotos após toda sua memória ter sido apagada. Logo ele se vê preso em um labirinto, onde será preciso unir forças com outros jovens para que consiga escapar. (Adoro Cinema)

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Fora o público-alvo, é difícil entender quem ainda aguenta esta febre de aventuras jovens baseadas em best sellers que invadiu o cinema desde Jogos Vorazes. Particularmente, tenho filtrado muita coisa desde então – e até onde sei não perdi grandes filmes. De qualquer forma, este Maze Runner – Correr ou Morrer conseguiu fisgar a minha atenção neste balaio de semelhantes adaptações infanto-juvenis, principalmente porque a proposta parece ser a junção de dois filmes que gosto bastante: A Vila (no sentido de mostrar uma comunidade que não ultrapassa determinadas fronteiras em função de um perigo real) e Cubo (o labirinto e o quebra-cabeça cheio de ameaças mortais). A ideia por si só já é instigante – claro que com suas devidas proporções de violência e coragem, já que este é um filme para jovens -, mas o diretor Wes Ball pode se considerar bem sucedido ao levar para as telas o livro The Maze Runner, de James Dashner.

Para embarcar em Maze Runner é necessário, claro, abstrair eventuais cafonices e o fato de que nem todos os jovens atores são bons ou convincentes. Só que existe algo a ser comemorado: não espere aqui um manjado triângulo amoroso ou sequer um flerte meloso, muito menos grandes estrelas liderando um elenco repleto de rostos bonitinhos. Não, praticamente todos os intérpretes deste filme são desconhecidos e – repetindo – mesmo que nem todos sejam bons, é interessante ver de vez em quando uma história mais próxima da realidade neste sentido de trazer pessoas que parecem comuns, da vida real mesmo. Quem mais vai puxar sua memória no filme é Thomas Brodie-Sangster, o garotinho de Simplesmente Amor que segura bem as pontas ao lado do protagonista Dylan O’Brien.

Voltando ao filme em si, Wes Ball acertou em uma parte fundamental: a tensão. Se Maze Runner tem suas didáticas introduções e patina bastante para desenvolver a personalidade de seus personagens, a aventura compensa a certa falta de consistência do lado dramático. As cenas ambientadas no labirinto são o ponto alto da produção por duas razões bem claras: a) os efeitos cumprem as expectativas e ajudam a conduzir a adrenalina com bastante firmeza, e b) o  perigo é um só, e não um Sítio do Pica-Pau Amarelo cheio de criaturas folclóricas que conduziriam a ação a uma histeria. O labirinto supre a falta de força da convivência entre os jovens, que é pontuada inclusive por alguns clichês, como o personagem do contra que se acha líder e resolve virar arqui-inimigo do mocinho recém chegado que inevitavelmente será o profeta do grupo. Ou seja, Maze Runner se sustenta por sua aura de mistério, por sua premissa intrigante, não por seus conflitos dramáticos.

Obviamente existe toda uma expectativa em relação ao final deste longa. A boa notícia é que ele funciona muito bem, trazendo realismo e um eficiente clima apocalíptico para a trama. A má é que Maze Runner não acaba aqui, já que a saga, em sua versão literária, tem nada menos que cinco livros – o que significa que o cinema vai tentar explorá-la ao máximo, claro. Mas é por ter uma história que supostamente se estende por tantos capítulos que fica a dúvida: afinal, quais são os rumos que serão tomados por Maze Runner? As expectativas são muito mais em função da curiosidade (não necessariamente positiva) em relação ao que será criado daqui para frente do que necessariamente por causa do gancho final. Como espectador leigo, não projeto grandes alcances para Maze Runner, já que a ideia em si do filme está praticamente esgotada neste primeiro volume.

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