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Só foi de uns meses para cá que a HBO começou a retomar o seu status de emissora referência em criação de programas originais e inovadores. Tudo bem que Game of Thrones já tem um longo reinado e uma legião de fãs, mas a emissora esteve longe de repetir recentemente a era de ouro que um dia alcançou com Six Feet UnderA Família Soprano, por exemplo. Sua reputação em telefilmes permaneceu intacta, mas a HBO perdeu feio em várias batalhas com outros canais, como o AMC, responsável por dois dos programas mais celebrados da década (Mad MenBreaking Bad) e um grande sucesso de audiência (The Walking Dead).

Entretanto, ao que tudo indica, o jogo parece estar mudando. True Detective, a primeira grande estreia da HBO em 2014, estrelada por Matthew McCounaghey e Woody Harrelson, já reposicionou o canal no boca a boca com público e crítica. Mas a verdade é que, no final de 2013, ele já havia voltado a brilhar com uma série bastante pequena e discreta que atesta exatamente toda a ousadia de proposta e narrativa que fez a HBO se diferenciar no mercado com o inesquecível slogan “Não é TV. É HBO”. O programa em questão é Getting On, criado pelo trio Jo Brand, Vicki Pepperdine, Joanna Scanlan, que adapta uma série homônima do Reino Unido.

A premissa é basicamente esta: o dia a dia de médicos e enfermeiros que trabalham na ala geriátrica de um hospital. Mas não se engane: não existe nada aqui de Grey’s AnatomyHouse ou outros programas hospitalares. Até porque Getting On não se apoia no formato “um caso por episódio”. Os pacientes são um mero detalhe de um riquíssimo estudo de personalidade dos médicos e enfermeiros, todos complexos e muito bem explorados por um roteiro que equilibra com maestria a delicadeza de uma história permeadas por pacientes que estão na última fase de suas vidas e a ousadia de um humor bastante ácido mas nunca ofensivo.

Tudo é ambientado dentro da tal ala do hospital, sem que acompanhemos qualquer cena envolvendo a vida dos personagens fora do ambiente de trabalho. Não é necessário: somente pelo convívio com situações que os colocam de frente com à brevidade da vida, passamos a compreender todas as questões íntimas e profissionais de cada um deles. Questões bastante delicadas como a homossexualidade no ambiente de trabalho, as frustrações profissionais de uma médica que julga ser muito melhor do que seus superiores lhe indicam e a solidão pessoal camuflada por uma dedicação extrema ao ofício são plenamente radiografadas pelo contexto proposto pela série. Dramas, no entanto, que nunca são pesados e que casam certeiramente com o humor presente em diversas formas.

Ao todo, são seis episódios de 30 minutos de uma primeira temporada que se divide muito bem entre os inúmeros personagens (pelo menos três podem ser considerados protagonistas da história) e que nunca deixa qualquer um de escanteio. Também há espaço para várias participações especiais (até a recente indicada ao Oscar 2014 June Squibb dá o ar da graça) e, claro, situações que ganham sutileza extra graças a um elenco excepcional. Alex Borstein e Niecy Nash esbanjam naturalidade e carisma como as principais enfermeiras, mas Laurie Metcalf é quem fica com a missão mais difícil de Getting On, já que tem em mãos personagem mais suscetível a abordagens erradas. Mas, como a médica “rebaixada” e estranha na ala, ela nunca cai na caricatura ou na antipatia, tornando-se, inclusive, a figura mais interessante da série.

Já renovada para uma segunda temporada, Getting On é a melhor série da atualidade que ninguém vê. Ou pior: que ninguém conhece. Sem previsão de estreia no Brasil, o programa também não fez muito barulho lá fora, mesmo conseguindo uma renovação. É um caso que precisa ser urgentemente corrigido: em uma época em que as comédias estão cada vez mais defasadas e repetitivas (alguém ainda aguenta Modern FamilyThe Big Bang Theory ganhando prêmios mundo afora por suas repetições?), seria bom ver algo inventivo e tão cheio de detalhes inteligentes como Getting On ganhando algum tipo de repercussão. Que essa pequena grande série, que tem uma impressionante média de qualidade em seus episódios, receba um carinho à altura de seu brilhantismo.

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Só por obedecer a realidade e não propagar som no espaço (ao contrário do que acontece em outras ficções bastante imaginativas nesse sentido), Gravidade já merecia aplausos por seu brilhante trabalho nesse setor. Só que, ao capturar praticamente tudo por meio do microfone do uniforme de Ryan (Sandra Bullock) e Matt (George Clooney), o filme alcança um impecável trabalho imersivo. O som ajuda o espectador a compartilhar da angústia dos protagonistas. Ainda por ser um filme inteiramente criado em estúdio, tais detalhes se multiplicam em importância. Merecidamente, edição e mixagem foram devidamente premiados no Oscar.

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OUTROS INDICADOS:

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A contemporaneidade da caçada por Osama Bin Laden também é reproduzida com excelência pelo trabalho de som de A Hora Mais Escura / Capturando performances musicais ao vivo e também os detalhes das batalhas da Revolução Francesa, a parte sonora de Os Miseráveis não deixa a desejar em nenhuma abordagem / As eletrizantes corridas de fórmula 1 de Rush – No Limite da Emoção não teriam o mesmo impacto sem o excelente resultado de edição e mixagem de som / O Som ao Redor é um belo exemplo de como o som pode estar a favor de uma história mais “simples” e dramática.

EM ANOS ANTERIORES: 2012007 – Operação Skyfall | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

A gente tem que falar as coisas que a gente sente. Não adianta deixar guardado.

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Direção: Daniel Ribeiro

Roteiro: Daniel Ribeiro

Elenco: Guilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorin, Lúcia Romano, Eucir de Souza, Selma Egrei, Isabela Guasco

Brasil, 2014, Drama/Comédia, 106 minutos

Sinopse: Leonardo (Guilherme Lobo), um adolescente cego, tenta lidar com a mãe superprotetora ao mesmo tempo em que busca sua independência. Quando Gabriel (Fabio Audi) chega na cidade, novos sentimentos começam a surgir em Leonardo, fazendo com que ele descubra mais sobre si mesmo e sua sexualidade. (Adoro Cinema)

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Eu Não Quero Voltar Sozinho é um curta-metragem de 2010 que ganhou diversos fãs por todo Brasil com sua temática delicada mas desenvolvida de forma bastante sutil. Na história, Leonardo (Guilherme Lobo) é um garoto cego que descobre em Gabriel (Fabio Audi) a sua primeira paixão. Além de sua própria deficiência, da dificuldade em lidar com esse novo sentimento e de admiti-lo para os que estão a sua volta, o garoto ainda precisa administrar a dinâmica com Giovana (Tess Amorin), sua colega e melhor amiga que secretamente nutre uma paixão por ele. O curta tinha a seu favor uma naturalidade absurda e uma “queridez” que o tornava simplesmente irresistível. Assim, quando o diretor Daniel Ribeiro anunciou que estava desenvolvendo um longa baseado nesta história, a expectativa logo se instalou. Particularmente, não queria criar tanta fé no projeto. Afinal, a essência do que Ribeiro tinha alcançado permaneceria intacta em um formato com duração cinco vezes maior que o original? A magia não seria diluída meio do caminho?

Não. Felizmente. O universo quase fabulesco de Leonardo permanece irretocável em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, que atende plenamente as expectativas dos fãs do curta e também dos que embarcam na história pela primeira vez. É inspirador como Daniel Ribeiro dá uma verdadeira aula ao transpor o seu curta para o formato de longa sem perder absolutamente nada nessa mudança. É perfeita a precisão com que o diretor transfere todas as situações e discussões do curta para este maior espaço de cinema sem cair no erro de bater demais na mesma tecla ou prolongar desnecessariamente determinadas temáticas. O que acompanhamos em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um verdadeiro sopro de humanidade, uma mostra de como a arte pode nos inspirar a renovar a fé nas relações humanas - especialmente em tempos tão virtuais e de dinâmicas tão efêmeras. Porém, antes de mais nada, este é um filme sobre o amor. Em qualquer forma. Isso porque o amor apresentado pelo diretor não é visto; é apenas sentido. Leonardo não vê Gabriel, o que nos remonta à ideia tão negada nos dias de hoje de que o amor não escolhe sexo ou aparência. O amor é descoberta, entendimento, companheirismo. Independente de sua origem.

São muitos os momentos de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho que exemplificam o amor “natural” de maneira emocionante. Um ponto alto é certamente a passagem onde Leonardo veste apenas o esquecido moletom do colega, sentindo o seu cheiro e imaginando o seu toque. Nas mãos de outro diretor, tal cena poderia cair em um erotismo descabido ou em um clichê abundante. Não com Ribeiro, que imprime uma humanidade perfeitamente identificável a todos nós nesse momento. Afinal, quem nunca relembrou secretamente um grande amor por meio de um cheiro ou de um objeto? Ou seja, por mais que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho se utilize de um terreno extremamente suscetível a erros para narrar tal história (as possibilidades de clichês são muitas: a vida colegial, a discussão da deficiência, a superproteção da família), o roteiro escrito pelo próprio diretor consegue o feito de narrar cada cena com uma naturalidade invejável. Até mesmo a nudez de Gabriel e Leonardo em uma cena no vestiário surge delicada e com nenhum outro tom a não ser o sentimental. E, nesta missão, o elenco tem uma imensa parcela de contribuição, onde todos defendem seus papeis com uma desenvoltura que muitos atores com anos de carreira procuram e nunca encontram.

Só que é limitado definir Ribeiro como um excelente diretor de elenco ou como um sujeito mais afeito ao sentimento do que a técnica. Sim, ele extrai beleza e humanidade de cada situação corriqueira do dia a dia e de questões complexas como a deficiência e a homossexualidade. Mas também também é um cineasta atento a todas as ferramentas que possam tornar a história ainda mais imersiva. Basta perceber a cena que introduz Gabriel na trama, por exemplo. Quando o garoto abre a porta da sala de aula perguntando se aquela é a turma em que ele deveria estar, a câmera não está focando na porta, e sim no ouvido do protagonista, capturando intimamente a primeira vez que o garoto entra em “contato” com aquele que posteriormente se tornará o primeiro amor de sua adolescência isolada e virgem em todos os sentidos. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ainda acerta ao não se dedicar inteiramente a uma história de amor. Há espaço para as questões individuais do jovem Leonardo, que, como o próprio título denota, quer buscar seu caminho e construir  uma identidade ao mesmo tempo em que busca a compreensão de um mundo que não pode ver. Um mundo que, para ele, existirá com ou sem a realização de um amor.

As fragilidades estão eventualmente presentes, assim como é fácil perceber que o filme toma certas liberdades e que muitos momentos são sustentados quase exclusivamente em função desse clima simplesmente irresistível e adorável. A escolha de não terminar o filme em uma cena emblemática (que poderia se assemelhar à estrutura do curta) para continuar um pouco mais afim de atender à óbvia necessidade dar um final feliz a todos ou de fazer a piadinha final contra o “vilão” para fazer a plateia sair do cinema de alma inteiramente lavada chega a ser quase um deslize comercial para um filme tão bem resolvido em sua construção. Entretanto, a verdade é que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ganha tanto o coração do espectador que é preciso estar muito de mal da vida para diminuí-lo por causa disso. Sem exageros, este é um marco no cinema brasileiro contemporâneo. Um filme para fazer história, ensinar, humanizar, quebrar preconceitos. E melhor ainda: mostrar que é possível fazer tudo isso sem qualquer medo, com a maior simplicidade e franqueza possível. Uma beleza singular que merece ser vista, revista e aplaudida. “Ué, mas você não gosta da sua personalidade?”, pergunta Giovana. “Gosto, mas o problema não sou eu”, responde Leonardo. Que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho seja, então, uma forma de resolver o problema dos “outros” e de fazê-los refletir sobre os conceitos e preconceitos que cultivamos. Afinal, a arte só passa a ter sentido a partir dessa troca com o espectador.

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Nas premiações, concorreu como roteiro adaptado – o que é sempre um absurdo com as continuações, que só são classificadas assim porque supostamente se “baseiam” em personagens já existentes. Mas a história é inteiramente nova, e por isso, na nossa concepção, se enquadra como original. E que história! Sincera e real como a própria vida. Difícil, também. Agridoce, esperançosa, pessimista. Uma mistura de sensações tão verossímeis que só esse estudo de relacionamentos proposto por Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy desde 1995 poderia trazer. Aqui, a história de Jesse (Hawke) e Celine (Delpy) alcança sua total maturidade. Nada de uma história romântica para fechar de vez o ciclo de sonhos e amores dessas duas pessoas. Não. Antes da Meia-Noite é mais doloroso do que poderia se esperar, mas nem por isso pesado ou incoerente com tudo o que o casal um dia já viveu. As discussões levantadas por esse roteiro em diálogos simplesmente brilhantes e minuciosos nos mostram como a vida como ela é já basta para envolver e arrebatar. Qualquer identificação com a história não é mera coincidência.

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OUTROS INDICADOS:

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Em Blue Jasmine, Woody Allen faz o mais fascinante estudo de personagem de sua carreira recente / Realizando talvez o roteiro mais complexo de sua carreira, Paul Thomas Anderson mais uma vez é superlativo com o texto de O Mestre / Com inúmeros personagens, Kleber Mendonça Filho fez uma precisa radiografia da vida em comunidade em O Som ao Redor O roteiro de Os Suspeitos consegue misturar investigação e drama em um resultado forte e surpreendente.

EM ANOS ANTERIORES: 2012A Separação | 2011 - Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

If it was never new, and it never gets old, then it’s a folk song.

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Direção: Joel e Ethan Coen

Roteiro: Joel e Ethan Coen

Elenco: Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, John Goodman, Adam Driver, Garrett Hedlund, Alex Karpovsky, Jerry Grayson, Robin Bartlett, Ethan Phillips, Stark Sands, Max Casella, Helen Hong, Bradley Mott

Inside Llewyn Davis, EUA, 2013, Drama, 104 minutos

Sinopse: Llewyn Davis (Oscar Isaac) é um cantor e compositor que sonha em viver da sua música. Com o violão nas costas, ele migra de um lugar para o outro na Nova York dos anos 60, sempre vivendo de favor na casa de amigos e outros artistas. Talentoso, mas sem se preocupar muito com o futuro, ele incomoda a amiga Jean Berkey (Carey Mulligan), que vive uma relação com outro músico, Jim (Justin Timberlake). Nem um pouco confiável, Davis se depara com a oportunidade de viajar na companhia de um consagrado e desagradável artista, Roland (John Goodman), mas nem tudo vai acabar bem nesta nova jornada.  (Adoro Cinema)

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Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum é outro filme da safra do Oscar 2014 fadado ao fracasso. Principalmente aqui no Brasil, onde sabe-se lá o porquê de terem mantido o título original já complicado (o nome Llewyn Davis por si só tem grafia difícil) e incluído um subtítulo que poderia muito bem ter sintetizado sozinho a ideia deste novo trabalho dos irmãos Coen. Não podemos esquecer ainda que esta é uma produção bastante musical, focada não em qualquer gênero de música, e sim no folk. Se lá nos Estados Unidos o resultado já não foi o que podemos chamar de sucesso ou popularidade (seja por parte do público e até mesmo da crítica), o que esperar de sua repercussão em terras brasileiras? Pouco. Quase nada.

Particularmente, não tinha mesmo boa vontade com Inside Llewyn Davis, que parecia um quase-musical restrito a fãs de música folk. Entretanto, foi bom estar errado: apesar de uma vez ou outra o filme quase cair em uma insistência estética e narrativa indie, os irmãos Coen não deixam o resultado cair nessas ou em outras armadilhas que prejudiquem o conjunto. Inside Llewyn Davis é, na verdade, um filme bastante completo e nada limitado a um determinado público musical.

Existe humor, drama e várias reflexões nesse road movie que utiliza muito bem uma das ferramentas mais interessantes de longas desse gênero: a de apresentar personagens passageiros para moldar a personalidade e as motivações do protagonista. Mas também é fácil ter empatia pelo Llewyn Davis do ótimo Oscar Issac, que é o sujeito que vive de visita em visita e de favor em favor. Não perdemos a paciência com essa sua vida inconstante e que muitos podem julgar “sem perspectiva”. Até porque Llewyn sabe o que quer: o seu talento é a música e ele acredita que só pode viver uma vida plena colocando isso em prática.

Mesmo que lhe falte de dinheiro e confiança de amigos e namoradas, ele segue firme e forte com essa sua vertente. Mas Inside Llewyn Davis não é uma história de ascensão profissional ou de redenção humana. Também não é um longa sobre turnês, negócios e gravadoras – e quando elas aparecem são mais para falar sobre o personagem do que sobre qualquer outra coisa. O que os Coen querem é fazer um estudo de personagem, de alguém que quer firmar suas paixões, vontades e vocações. Tudo com muita discrição.

Fora o excelente visual (vale destacar mais uma excelente fotografia do francês Bruno Delbonell), o que existe de mais interessante em Inside Llewyn Davis é como o roteiro sempre se devia dos caminhos fáceis e clichês. Um aborto não é motivo para intrigas e choros infinitos, uma descoberta pessoal do protagonista não dá origens a outras jornadas que dispersam o estudo de personagem proposto e as questões familiares não caem em melodramas. É uma história de sutilezas e que não aposta em extremos, com o maior exemplo sendo a personagem de Carey Mulligan, que tinha tudo para ser a eterna estressada irritante e unidimensional. Só que o texto dá todas as devidas explicações quando constrói a personagem, e Mulligan aproveita a chance: ela tem aqui aquele que é, possivelmente, o seu momentos mais diferenciado desde Educação.

Além dela, várias pequenas participações também são funcionais – em especial a de John Goodman -, e trazem momentos inspirados (Justin Timberlake tem um ótimo momento com a canção Please, Mr. Kennedy). Certamente, Inside Llewyn Davis é uma experiência menor e mais pessoal dos irmãos Coen, encabeçada por um ótimo ator e embalada por boas canções. Por fim, e mais importante, desmonta toda e qualquer expectativa negativa envolvendo tédio ou restrições. Quem o define como uma produção específica claramente não percebeu todas as camadas do longa.

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Existe uma corrente de cinéfilos que desgosta profundamente de Gravidade. Falam da previsibilidade do roteiro, da falta de conteúdo e até mesmo de alguns clichês. Só que é quase impossível achar alguém que questione a parte técnica do filme, em especial o impecável trabalho de efeitos visuais. Se não fôssemos seres bem informados, poderíamos muito bem acreditar que o filme de Alfonso Cuarón foi inteiramente gravado em pleno espaço. Não existe um plano sequer que denuncie descuidos ou pelo menos um vislumbre de algo fake nessa concepção técnica. Cada centímetro e cada minuto de Gravidade é inteiramente real. Uma verdadeira revolução tecnológica que deixa um legado sem precedentes.

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OUTROS INDICADOS:

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Não estivesse Gravidade na disputa, Além da Escuridão – Star Trek certamente seria o dono dos melhores efeitos visuais de 2013 / A barulheira de O Homem de Aço é infinita, mas os efeitos servem muito bem a esse atordoante propósito.

EM ANOS ANTERIORES: 2012O Hobbit: Uma Jornada Inesperada | 2011 - Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2| 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar

I think this was one of your weakest digressions.

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Direção: Lars Von Trier

Roteiro: Lars Von Trier

Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Jamie Bell, Shia LaBeouf, Willem Dafoe, Stacy Martin, Mia Goth, Michael Pas, Jean-Marc Barr, Ananya Berg, Peter Gilbert Cotton, Connie Nielsen

Nymphomaniac: Volume 2, Dinamarca/Bélgica/França/Alemanha/Inglaterra, 2013, Drama, 123 minutos

Sinopse: Segunda parte das aventuras sexuais de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher de 50 anos que decide contar a um homem mais velho (Stellan Skarsgard) sua história pessoal. (Adoro Cinema)

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As expectativas em torno de Ninfomaníaca – Volume 2 eram grandes. Só que por razões bem diferentes se comparadas ao primeiro volume, que despertava curiosidade em relação ao que Lars Von Trier aprontaria em um projeto que rendeu tanta publicidade antes mesmo de estrear. A segunda parte da história de Joe (Charlotte Gainsbourg) reservava grandes expectativas simplesmente porque o filme anterior não tinha um ciclo próprio e era impossível analisá-lo sem a continuação, que seria responsável por elucidar várias questões e situações apresentadas pelo diretor. A má notícia é que, no sentido de dar respostas e carimbar uma força psicológica e emocional para Ninfomaníaca como um todo, o segundo filme falha fortemente ao não nos entregar tudo aquilo que Von Trier prometeu. Se era para ter as respostas apresentadas na continuação, era melhor, então, que a saga da protagonista tivesse – e retomamos essa discussão – sido contada em um único longa. Assim, as expectativas diminuiriam e a decepção não seria tão grande.

O problema de Ninfomaníaca – Volume 2 começa já na apresentação da própria protagonista. Parece que estamos diante de uma nova história, sobre outra pessoa. Não dá para acreditar muito que em três anos a jovem Stacy Martin vire Charlotte Gainsbourg enquanto Shia LaBeouf continua em cena com o mesmo rosto. A transição é rápida, logo no início do filme, o que nos impede de processar devidamente o fato de que aquela garota que nós acompanhamos durante duas horas anteriormente agora seja essa adulta triste e em pleno desespero interior. A premissa é bastante clara: hoje, entorpecida e sem prazer pelos excessos de uma adolescência visceralmente sexual, ela é uma mulher vazia e de infinitas angústias. Mas que grande novidade existe nisso, uma vez que tal abordagem já era perceptível logo no primeiro longa?

Só que, se Lars Von Trier quer parecer mais complexo do que de fato é ao continuar colocando o didático Seligman (Stellan Skarsgård) como o sujeito que faz comparações justamente para mostrar como supostamente tudo é mais inteligente do que parece, o diretor, por outro lado, acerta ao criar uma atmosfera emocional bastante sufocante. Joe hoje é triste, vazia, incompleta, viciada e descontrolada – mas o mais fascinante: ciente disso, e que essa é uma natureza que não pode ser mudada. Ela é assim e ponto. Assumiu. Não procura desculpas. Talvez seja por isso que Ninfomaníaca – Volume 2 acerte tanto na hora de imprimir dias tão desesperançosos para a sua protagonista. E os extremos em que Joe chega nessa segunda parte depois que abraça essa natureza imutável se tornam realmente incômodos.

Desta forma, a história mexe em feridas mais do que nunca. Antes, o “pesado” da história era todo relacionado ao sexo franco e sem censuras. Agora, o visual choca menos e o que imaginamos sufoca é o que se passa dentro da protagonista. Alie a isso o fato de que agora ela chega ao nível da violência e do masoquismo para tentar encontrar desesperadamente algum tipo de prazer – ou alguma reação parecida com o prazer, que hoje já lhe é desconhecido – e você terá um filme forte na violência e no sexo que mostra, mas que é ainda mais impactante nas entrelinhas de tudo isso. E até a metade esse clima de uma personagem em plena degradação e desesperança funciona extremamente bem, trazendo os devidos momentos para Charlotte Gainsbourg (a cena em que ela não sabe se fica em casa para cuidar do filho ou se sai para mais uma de suas sessões de masoquismo é uma das melhores).

Tudo desanda, entretanto, quando Willem Dafoe entra na história, minando não só a conclusão individual desse longa como todo o ciclo de quase cinco horas de Ninfomaníaca. O personagem de Dafoe traz uma storyline completamente sem inspiração e desinteressante, tornando a personagem até menos envolvente. A partir daí, a relação que Joe estabelece com outros personagens não convence e o diretor realmente coloca tudo a perder. Em todo o caminho até esse final, existem brincadeiras óbvias mas interessantes (a referência a Anticristo), algumas cenas realmente marcantes e devidamente polêmicas (tudo o que envolve a sequência sobre pedofilia) e questionamentos bastante pertinentes (como aquele que coloca na mesa um assunto tão em voga nos dias de hoje: como seria o julgamento dessa história caso ela fosse protagonizada por um homem?).

Porém, o que se sucede nos muitos finais é tão mal colocado e irregular que nem parece ter sido escrito por Von Trier. Principalmente a cena derradeira, que é apressada e inacreditável de tão ruim. Os créditos sobem e fica aquele estranhamento “sério que acabou?”. Alguns diretores criam expectativas para seus filmes porque sempre realizam obras tão boas que elevam o padrão e é inevitável não esperar algo grande deles. Só que Von Trier, dessa vez, comprova que tem tudo para entrar no grupo dos que criam expectativas por motivos capengas – seja por uma divulgação exagerada ou por temáticas apelativas. Queria muito que Ninfomaníaca desse certo – e o primeiro volume acusava que o diretor tinha mesmo errado a mão no trabalho publicitário mas acertado no cinematográfico. Até a segunda parte terminar com um resultado que coloca tudo por água abaixo. Pena que uma história que merecia ter um final grandioso para casar com tantas ousadias e despudores mostrados até então não chegou nem perto de apresentar o que precisava para tal. Von Trier tem capacidade para muito mais do que mostrou nessa conclusão.

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