Um breve intervalo

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A temporada de premiações é de certa forma desgastante para quem escreve sobre ela e os filmes em competição. Depois de um bom tempo publicando posts quase diariamente aqui no blog para dar conta dessa coberta, nada mais justo do que tirar breves férias do mundo blogueiro para recarregar as baterias. Obviamente, continuarei a assistir filmes nesse período e, quando retornar, conto tudo a vocês, claro. Nos vemos muito em breve com novas críticas e a nossa tradicional premiação de melhores do ano.  Até lá! :)

Para Sempre Alice

It was about love.

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Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland

Roteiro: Richard Glatzer e Wash Westmoreland, baseado no romance “Still Alice”, de Lisa Genova

Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Hunter Parrish, Stephen Kunken, Daniel Gerroll, Seth Gilliam, Erin Darke, Maxine Prescott, Orlagh Cassidy, Rosa Arredondo, Zillah Glory, Quincy Tyler Bernstine

Still Alice, EUA, 2014, Drama, 101 minutos

Sinopse: A Dra. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguistica. Aos poucos, ela começa a esquecer certas palavras e se perder pelas ruas de Manhattan. Ela é diagnosticada com Alzheimer. A doença coloca em prova a a força de sua família. Enquanto a relação de Alice com o marido, John (Alec Baldwinse), fragiliza, ela e a filha Lydia (Kristen Stewart) se aproximam. (Adoro Cinema)

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O Alzheimer é uma das doenças mais tristes ainda sem cura. Perder sua própria identidade, esquecer quem são as pessoas que você mais ama, viver o momento e daqui algumas horas já não lembrar de mais nada… Isso é terrível demais para qualquer pessoa e ninguém merece um sofrimento como esse. O cinema, claro, se atentou para o potencial dramático da doença e já realizou muitos filmes sobre o tema. Do tradicional Iris ao tocante Longe Dela (citando exemplares mais recentes), o Alzheimer já foi tão explorado em obras cinematográficas que hoje tem, de certa forma, uma cartilha com os passos que um longa sobre o assunto deve seguir. É um terreno complicado, repleto de clichês e repetições, mas Para Sempre Alice vem com a proposta diferente: pela primeira vez, um filme fala sobre o Alzheimer do ponto de vista de quem sofre dele e não dos parentes ou dos cônjuges que passam a ser os cuidadores. Até o belo Longe Dela, que trazia Julie Christie como uma senhora ciente da sua doença, era muito mais sobre o marido Grant (Gordon Pinsent) do que sobre a Fiona (Christie). Não é assim com Para Sempre Alice, cujo foco total está nos tempos em que a protagonista Alice (Julianne Moore) começa a enxergar o seu próprio desaparecimento.

O ineditismo de Para Sempre Alice, contudo, fica só na proposta, pois a execução está bem longe de representar algo inovador. Dirigida pela dupla Richard Glatzer e Wash Westmoreland, a adaptação do romance Still Alice, de Lisa Genova, certamente ganhará a simpatia do grande público por apresentar uma história sobre Alzheimer no sentido clássico. Afinal, o longa segue todos os passos de um tradicional filme do gênero: o primeiro esquecimento que parece uma tolice, a suspeita, a consulta ao médico, os exames, o diagnóstico, o lamento da família, a decisão sobre quem vai cuidar de Alice, os conflitos no casamento, o amor incondicional no meio de tanto drama, e por aí vai… Nada de novo, ao contrário do que a proposta sugeria.

Porém, é irônico como um filme que fala justamente sobre tempo (ou mais especificamente sobre a perda da noção dele) tenha na cronologia um de seus maiores problemas. Glatzer e Wstmoreland falham ao situar o espectador nas épocas em que o longa se desenvolve. Sem sabermos direito quanto tempo passou entre um avanço e outro da doença, fica a sensação de que a situação da protagonista piora muito repentinamente – e isso teria que estar bem alinhado, uma vez que já é atípico embarcar em uma história sobre uma doença acometendo uma mulher de apenas 50 anos quando normalmente ela é retratada apenas com pessoas idosas. Se a desorientação quanto ao tempo fosse algo proposital, a ideia seria nada menos que brilhante, mas infelizmente não parece ser o caso dessa obra que, caso fosse lançada na metade do ano, não teria sequer fôlego para sobreviver nas memórias das premiações e dar o Oscar de melhor atriz que Julianne Moore recebeu recentemente.

O problema de Para Sempre Alice está mais na direção pouco inspirada e sem grandes desejos de construir algo realmente fora do convencional na execução do que no roteiro propriamente. Um exemplo disso é a própria escalação do elenco de suporte, onde basicamente todas as escolhas são erradas: Alec Baldwin não tem a presença necessária para dar estofo dramático a um filme como esse (o ator ainda remete demais à comédia), Kristen Stewart está na sua versão descabelada e de boca aberta (ao contrário de sua maravilhosa aparição no recente Acima das Nuvens) e o jovem Hunter Parrish quase se resume a um figurante (o que tem virado sua especialidade, uma vez que, anos atrás ele também já era o filho insosso e inútil de Meryl Streep em Simplesmente Complicado). O uso da trilha sonora de Ilan Eshkeri, que cai nos erros mais básicos de composições que querem emocionar a todo custo com piano e violino, também denota a falta de criação da dupla diretora. Por isso, exigir o devido esmiuçamento de relações interessantes como Alice ser uma professora de linguística condenada a uma doença que fará com que ela esqueça justamente palavras é pedir demais. Detalhes como esses, no entanto, devem interferir apenas na percepção de quem já se cansou das repetições de filmes sobre Alzheimer. Até porque Para Sempre Alice, apesar de tudo, é inofensivo e desenvolve bem a sua parcela de emoção.

Falando em emoção, duas cenas se destacam no longa. Uma é a que traz Alice, já diagnosticada, falando sobre sua condição para dezenas de pessoas em uma palestra. “Eu vou esquecer deste dia, mas isso não quer dizer que o agora não importe para mim”, conta a personagem, evocando também a poeta Elizabeth Bishop para falar sobre perdas, mostrar que ainda não é uma inválida e que muito menos se tornou uma versão cômica de si mesma. Por mais que discursos motivacionais para plateias sejam jogadas comuns de filmes envolvendo doenças, esta cena de Para Sempre Alice consegue superar o didatismo e até emocionar, falando com simplicidade e humanidade sobre muitos assuntos que vem à tona quando alguém é diagnosticado com Alzheimer. Outra cena que marca é a última da protagonista com a sua filha, Lydia (Kristen Stewart), que encerra o filme de forma bastante carinhosa.

Verdade seja dita, porém, que quase toda parcela do êxito de tais cenas – assim como de todo o filme – é resultado direto do trabalho de Julianne Moore. Vindo de uma recente consagração na TV com o ótimo Virada no Jogo e uma coroação em Cannes com o prêmio de interpretação feminina por Mapa Para as Estrelas,  a atriz retoma uma fase de ouro que muitos anos atrás lhe posicionou como uma das atrizes mais queridas de sua geração. Para Sempre Alice é, com certeza, mais um ótimo movimento rumo a essa retomada. Dotada de sua já conhecida sensibilidade e humanidade, Moore tira de letra o papel, que está longe de ser um dos mais desafiadores de sua carreira, mas que lhe dá todas as circunstâncias para que mais uma vez emocione como poucas atrizes conseguiriam. A exemplo de muitos filmes simplistas sustentados só por grandes intérpretes, Para Sempre Alice não foge em momento algum da regra: sem Julianne Moore, o resultado seria, com o perdão do trocadilho, completamente esquecível.

Os vencedores do Oscar 2015

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Em uma noite de excelentes surpresas, o Oscar faz história e consagra pelo segundo ano consecutivo um diretor mexicano

Poucas vezes vi, na minha breve vida de cinéfilo até agora, uma cerimônia de Oscar tão surpreendentemente justa como a desse ano. Há tempos me questionava como os prêmios tinham comprado um filme tão diferente e naturalista como Boyhood. Sua vitória sempre me pareceu inconcebível, mas, pelas tendências e matemáticas dos grandes prêmios, apostei sem hesitar no filme de Richard Linklater. E que bela surpresa tive ao ver Birdman sendo consagrado nas categorias principais. Não é apenas porque considero Boyhood uma obra superestimada que minha alegria foi tão grande, mas porque era de um filme como Birdman que o Oscar precisava urgentemente na sua lista.

A história comandada por Alejandro González Iñárritu é repleta de críticas à indústria e isso casou perfeitamente com o tom inflamado da cerimônia em relação a diversas feridas latentes em Hollywood. Se Neil Patrick Harris (extremamente apagado se comparado a Ellen DeGeneres ano passado) abriu os trabalhos falando que o Oscar premiaria apenas os filmes mais brancos, Patricia Arquette logo deu continuidade ao tom falando sobre salários e oportunidades iguais para mulheres – o que levou Meryl Streep, uma feminista ferrenha, ao total êxtase na plateia. Logo veio a consagração de “Glory” em canção original e os autores da canção obviamente expuseram o racismo ainda existente na indústria. Isso mesmo, Academia: não adianta só colocar dezenas de negros cantando no palco, uma plateia inteira chorando e aplaudindo em pé e uma estatueta para um filme como Selma para amenizar tal questão. Logo em seguida, Graham Moore, o roteirista de O Jogo da Imitação falou ao público gay. “Permaneçam estranhos. Permaneçam diferentes”, bradou lindamente o vencedor.

No mais, impossível não se emocionar com a apresentação simplesmente impecável de Lady Gaga na homenagem para A Noviça Rebelde (um momento que ressaltou a grande intérprete que Gaga um dia já foi e que hoje se perdeu em várias histerias de figurinos e visuais malucos), vibrar com injustiças sendo corrigidas (Alexandre Desplat, finalmente!), se surpreender com vitórias gratificantes (Whiplash em montagem!) e não se encantar com a total sinceridade e emoção genuína de Eddie Redmayne ganhando como melhor ator, por exemplo. Mas a minha felicidade particular está mesmo com a consagração de Birdman, um filme que admiro profundamente e que me deixou feliz em ter errado minhas apostas nas categorias principais. Nunca saí tão satisfeito com de um Oscar. Hoje vou dormir tardiamente com uma grande felicidade após anos vendo meus favoritos perdendo na cerimônia. Até 2016!

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Yes! Yes! Yes! Melhor Oscar!

A lista completa de vencedores:

MELHOR FILMEBirdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
MELHOR DIREÇÃO: Alejandro González Iñárritu (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
MELHOR ATRIZ: Julianne Moore (Para Sempre Alice)
MELHOR ATOR: Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: J.K. Simmons (Whipash: Em Busca da Perfeição)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: O Jogo da Imitação
MELHOR FOTOGRAFIA: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
MELHOR FIGURINO: O Grande Hotel Budapeste
MELHOR MIXAGEM DE SOM: Whiplash: Em Busca da Perfeição
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Sniper Americano
MELHOR MONTAGEM: Whiplash: Em Busca da Perfeição
MELHOR TRILHA SONORA: O Grande Hotel Budapeste
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Citizenfour
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Ida (Polônia)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: O Grande Hotel Budapeste
MELHOR ANIMAÇÃO: Operação Big Hero
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Phone Call
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: O Banquete
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIOCrisis Hotline: Veterans Press 1
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Glory” (Selma: Uma Luta Pela Igualdade)
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: O Grande Hotel Budapeste
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Interestelar

Oscar 2015: apostas

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Hoje chega ao fim a temporada 2015 de premiações. Dessa vez, a disputa está realmente indefinida. E não é forçar a barra: não será surpresa alguma se Boyhood perder a estatueta para Birdman, por exemplo. O favoritismo está polarizado nesses dois filmes que – vale ressaltar – têm narrativa e até mesmo estética bastante diferentes do que o Oscar costuma normalmente celebrar. Já é um avanço, se formos analisar por esse lado. Enquanto isso, não há muitas dúvidas em relação aos atores, ao passo que O Grande Hotel Budapeste deve liderar as categorias técnicas. E aí, você é #TeamBoyhood ou #TeamBirdman? Independente disso, você tem motivos de sobra para esperar uma vitória de ambos. A cerimônia do Oscar será transmitida no Brasil pela TNT a partir das 20h30 com o tapete vermelho, seguido da cerimônia de premiação às 22h30. Para quem pode acompanhar o canal E!, a função começa já às 15h30 com o tradicional Countdown. Relembre aqui a lista de indicados. Bom Oscar a todos!

MELHOR FILME
Quem leva: Boyhood: Da Infância à Juventude, porque é tendência nas premiações
Quem pode surpreender: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), que tem o aval dos principais sindicatos
Quem mereceBirdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), pela inventividade, originalidade e relevância temática e técnica
Quem nunca venceria: Selma: Uma Luta Pela Igualdade, porque só concorre a canção e porque o arrependimento dos votantes com a ausência dos negros na cerimônia é delicado demais para ser compensado assim

MELHOR DIREÇÃO
Quem leva: Richard Linklater (Boyhood), para reforçar a dobradinha com a categoria principal e porque o cara tem trajetória nunca reconhecida
Quem pode surpreender: Alejandro González-Iñárritu (Birdman), mesmo que pareça impossível dois mexicanos vencerem essa categoria consecutivamente
Quem merece: Alejandro González-Inárritu, que, dadas as proporções dos respectivos filmes, não deve nada ao que seu conterrâneo Alfonso Cuarón fez em Gravidade
Quem nunca venceria: Bennett Miller (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo), pois seria meio incoerente ganhar aqui e não ter o filme selecionado entre os oito da categoria principal

MELHOR ATRIZ
Quem leva: Julianne Moore (Para Sempre Alice), já que a dívida é grande, o papel é certeiro, a mulher é incrível e ela está de fato ótima nesse filme que não teria vida em prêmios se tivesse sido lançado na metade do ano
Quem pode surpreender: ninguém, o prêmio já é de Julianne Moore
Quem merece: Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite), com o meu coração gritando também por Rosamund Pike (Garota Exemplar)
Quem nunca venceria: Marion Cotillard, uma atriz francesa com um Oscar em casa ganhando pela segunda vez? Nunquinha.

MELHOR ATOR
Quem leva: Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo), com o papel infalível envolvendo deficiência em uma biografia inglesa bem acadêmica
Quem pode surpreender: Michael Keaton (Birdman), porque vai que no finalzinho dá para reverter o jogo…
Quem merece: Eddie Redmayne, pelo magnífico trabalho corporal e pela perfeita compreensão de mente e espírito de Stephen Hawking
Quem nunca venceria: Steve Carell, que, comparado aos outros concorrentes, não tem nome ou força suficientes para sequer ser cogitado – e ainda está na categoria errada por um filme dificílimo

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Quem vence: Patricia Arquette (Boyhood), sem qualquer outra chance de alguém vencer
Quem pode surpreender: ninguém, deem logo a estatueta para ela
Quem merece: Laura Dern (Livre), pela carreira, pelo talento, pelo que representa no filme e por deixar as lembranças mais carinhosas entre as indicadas (e sei que estou sozinho nessa)
Quem nunca venceria: Meryl Streep (Caminhos da Floresta) pela quarta vez tão cedo? Nopes. Vai ter que esperar mais 30 anos.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Quem vence: J.K. Simmons (Whiplash: Em Busca da Perfeição), o favorito inegável que tem a matemática completa a seu favor
Quem pode surpreender: de novo, ninguém. O quarteto vencedor de atores já está praticamente carimbado.
Quem merece: J.K. Simmons, sem nenhum concorrente à altura
Quem nunca venceria: Robert Duvall (O Juiz), porque seria muita falta de vergonha cara

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Quem venceO Grande Hotel Budapeste, pois é o máximo de Oscar que Wes Anderson leva na vida (e um filme seu nunca foi tão badalado)
Quem pode surpreenderBirdman, se os votantes decidirem que esse filme precisa levar alguma coisa se for esnobado em filme e direção
Quem mereceO Grande Hotel Budapeste, pelo auge da originalidade cada vez mais crescente e controlada que Anderson vem apresentando nos últimos anos
Quem nunca venceriaO Abutre, porque seria o maior azarão em muitos anos (ou décadas)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Quem venceO Jogo da Imitação, em um chute aleatório
Quem pode surpreenderA Teoria de Tudo, acreditando que uma das biografias tradicionais se consagra aqui
Quem mereceWhiplash deveria ser o favorito incontestável (considerando que não conferi Vício Inerente)
Quem nunca venceriaVício Inerente. Se Paul Thomas Anderson nunca ganhou nem com filmes mais badalados e que hoje são clássicos, imagina com esse…

MELHOR FOTOGRAFIABirdman / alt: O Grande Hotel Budapeste
MELHOR FIGURINOO Grande Hotel Budapeste / alt: Sr. Turner
MELHOR MIXAGEM DE SOMWhiplash / alt: Sniper Americano
MELHOR EDIÇÃO DE SOMSniper Americano / alt: Birdman

MELHOR MONTAGEM: Boyhood / alt: Whiplash
MELHOR TRILHA SONORAA Teoria de Tudo / alt: O Grande Hotel Budapeste
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Citizenfour / alt: Virunga
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Ida (Polônia) / alt: Leviatã (Rússia)

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃOO Grande Hotel Budapeste / alt: O Jogo da Imitação
MELHOR ANIMAÇÃO: Como Treinar o Seu Dragão 2 / alt: Operação Big Hero
MELHOR CURTA-METRAGEM: Boogaloo and Graham / alt: The Phone Call
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃOThe Bigger Picture / alt: O Banquete
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO: Nasza Klatwa / alt: Joanna
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Glory” (Selma) / alt: “I’m Not Gonna Miss You” (Glenn Campbell: I’ll Be Me)
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOSO Grande Hotel Budapeste / alt: Guardiões da Galáxia
MELHORES EFEITOS VISUAISInterestelar / alt: Planeta dos Macacos: O Confronto

Oscar 2015: melhor filme

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Pelo visto, a Academia prefere dois espaços em branco em uma lista do que indicar Garota Exemplar ou Foxcatcher, por exemplo. Pela primeira vez trazendo menos de nove indicados desde que passou a poder contar com até 10 em sua categoria principal, o prêmio errou feio na diminuição de filmes elencados. Que baita pisada na bola, especialmente depois de anos em que coisas como Um Sonho Possível chegavam em uma seleção final com nove indicados. Deixando de lado discussões sobre qualidade, a lista de 2015 de fato representa os principais filmes da temporada, com exceção de Sniper Americano e Selma: Uma Luta Pela Igualdade, que só tiveram vida aqui. Sonhando um pouco, ainda seria um mundo perfeito se os estrangeiros também tivessem chances aqui: na minha lista, indicaria Relatos SelvagensDois Dias, Uma Noite sem pensar duas vezes.

Chegamos à premiação desse domingo (22) com uma disputa aparentemente acirrada. De um lado, Birdman, com o aval dos principais sindicatos. De outro, Boyhood, celebrado pelas grandes premiações televisionadas. Independente de quem ganhe, vale perceber o grande avanço temático e técnico que o Oscar traz esse ano, principalmente quando, anos atrás, esnobou longas como Cisne Negro para premiar as formalidades de O Discurso do Rei. Realmente é um tiro no escuro apostar em qualquer um dos dois filmes. Ao mesmo tempo que parece improvável o Oscar celebrar um filme tão naturalista como Boyhood, é igualmente estranho imaginá-lo coroando as inventividades de Birdman. Particularmente, minhas torcidas ficam todas para o segundo.

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BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA), de Alejandro González Iñárritu: Disparado meu filme favorito entre os oito indicados, Birdman é uma grande aula de direção. Contemporâneo, inteligente e inventivo em roteiro e técnica, o filme representa justamente o que está em falta no cinema: inovação com maturidade. Se ganhar as categorias principais, não tenho dúvidas de que será uma das vitórias mais merecidas em anos (e nem lembro a última vez que torci tanto por um grande favorito). 

BOYHOOD: DA INFÂNCIA À JUVENTUDE, de Richard Linklater: Repito que ainda é um grande mistério para mim o porquê das premiações terem comprado esse filme. Não é questão de merecimento e sim de perfl mesmo: alguém se lembra a última vez que celebraram um filme tão “menos é mais”, independente e autoral como Boyhood? Não sou grande fã desse experimento em específico de Richard Linklater, mas é fácil perceber que ele é o queridinho da temporada e o favorito para as categorias de filme, direção e atriz coadjuvante.

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE, de Wes Anderson: Mais um velho nome conhecido que finalmente ganha algum reconhecimento, Wes Anderson chega à festa do Oscar com motivos de sobra para comemorar. Além de ser um profissional que parecia fadado a receber apenas indicações a roteiro, agora ele chega com uma obra que é favoritíssima em várias categorias técnicas. O próprio Anderson também deve levar a estatueta de roteiro original. Tenho grande carinho pelo filme, que representa o auge da criação e da evolução técnica de seu diretor.

O JOGO DA IMITAÇÃO, de Morten Tyldum: Não é novidade que a Academia cai de amores por um filme certinho e situado dentro de uma forte zona de conforto. Quem mais representa essa preferência dos votantes esse ano é O Jogo da Imitação, que, sim, é um filme satisfatório, mas nada diferente de tantas biografias que já estamos cansados de assistir. Deve levar um Oscar de roteiro adaptado como consolação e por preguiça dos votantes, que obviamente não perceberam a genialidade de Whiplash

SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE, de Ava DuVernay: Gosto bastante de Selma não ser apelativo ou mera panfletagem da causa (ao contrário daquela baderna chamada O Mordomo da Casa Branca), mas não foi uma experiência que me pegou ou me trouxe maiores comoções. O grande destaque do filme é o ótimo desempenho de David Oyelowo, ao mesmo tempo forte e sutil como Martin Luther King. Sem dúvida alguma é mais um nome que merecia muito mais a lembrança na categoria de melhor ator do que Bradley Cooper.

SNIPER AMERICANO, de Clint Eastwood: Não é surpresa alguma ver um filme como Sniper Americano entre os principais indicados. Ora, o combo Clint Eastwood + guerra do Iraque + sucesso de bilheteria é o suficiente para justificar sua presença na lista. Agora se a inclusão foi merecida… É outra história. Polêmicas à parte sobre Sniper Americano ser excessivamente patriota ou não, o longa é um relato bem produzido sobre uma tragédia que ainda assombra os norte-americanos. É específico, contemporâneo e sobre a vida deles. Já como cinema mesmo, não tem frescor. Aliás, alguém ainda consegue se entusiasmar com filmes dessa temática? 

A TEORIA DE TUDO, de James Marsh: Mesmo não me empolgando tanto com o resultado em si (que tem problemas pontuais que muito me incomodam, como a história se focar mais na deficiência do que na carreira ou na vida pessoal de Stephen Hawking), é grande minha torcida para Eddie Redmayne em melhor ator. Deve ser a única (e merecida) vitória do filme na cerimônia, com uma e possível lembrança em melhor roteiro adaptado caso o prêmio não fique com O Jogo da Imitação.

WHIPLASH: EM BUSCA DA PERFEIÇÃO, de Damien Chazelle: Em um mundo ideal, Whiplash estaria concorrendo também em melhor direção, pois o filme de Chazelle é a melhor surpresa entre todos os indicados do Oscar deste ano. Objetivo, tenso e muito bem arquitetado, longa já tem certo o seu Oscar de ator coadjuvante para J.K. Simmons. Se der sorte, ainda deve merecidamente levar um prêmio de som e até mesmo de montagem. 

Oscar 2015: melhor direção

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Desde que o Oscar passou a contar com mais de cinco indicados na categoria de melhor filme não víamos uma situação tão confusa em melhor direção como este ano. Afinal, como Foxcatcher, indicado aqui, não foi lembrado em melhor filme? Quer dizer que a direção é digna de lembrança (assim como os atores e o roteiro também indicados) mas o filme não chega perto da qualidade dos outros oito indicados? Sem falar que um deles, Selma, concorre apenas a canção original… Não reclamo, porém, da lembrança de Miller aqui, endossando uma seleção errada apenas na lembrança a Morten Tyldum, que só figura entre os cinco para representar a ala dos longas convencionais.

Entre os indicados, ressalto minha total torcida por Alejandro González Iñárritu, que, a exemplo de seu conterrâneo mexicano Alfonso Cuarón ano passado com Gravidade, apresenta um trabalho completamente inovador e surpreendente. Acho difícil, entretanto, a Academia celebrar um mexicano pelo segundo ano consecutivo, o que carimba o já consolidado favoritismo de Richard Linklater ao prêmio. Além de realizar um filme que diz muito sobre a cultura estadunidense, o diretor teria aqui finalmente uma celebração após inúmeros trabalhos de qualidade.

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ALEJANDRO GONZÁLEZ INÁRRITU (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)): É disparado o trabalho mais maduro e inventivo dos cinco indicados. Não deixa de ser curioso ver Alejandro González Inárritu, um diretor sempre focado em dramas pessoais bastante pesados, realizar um filme como Birdman, tão completo e menos específico que seus outros trabalhos. É um verdadeiro show de direção que vai além dos brilhantes planos-sequência. Tudo está no seu devido lugar, passando pelas brincadeiras com o super heroi, a ótima direção de atores, as cenas lindamente concebidas e toda a segurança ao orquestrar um filme cheio de aspectos diferenciados.

BENNETT MILLER (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo): Sou grande fã do estilo de direção de Bennett Miller. Não tanto em O Homem Que Mudou o Jogo (que não me comoveu em nada), mas em Capote e agora Foxcatcher, Miller se destaca por fugir dos caminhos óbvios de histórias envolvendo assassinatos. As mortes em si são o que menos interessa para o diretor, que sempre busca, com um tom bastante pausado e calmo, estudar cada situação que desencadeou cada tragédia. Com Foxcatcher não é diferente, e talvez o resultado seja difícil justamente em função do filme não ser investigativo ou sobre esporte. Ele é, antes de tudo, sobre as pessoas por trás de uma tragédia.

MORTEN TYLDUM (O Jogo da Imitação): Preenche a vaga do superestimado do ano que dirige uma biografia nada além do convencional. A lembrança de Morten Tyldum é pra lá de previsível, mas nem por isso merecida: por mais que comande O Jogo da Imitação com segurança, não existe qualquer inovação na forma como o diretor conta a história do matemático Alan Turing. É mais do mesmo, desde o trabalho com os elementos técnicos até o próprio tom empregado à narrativa. Idem para o arco dramático dos personagens, todos tratado com as devidas formalidades do gênero. Certamente, o mais fraco concorrente da categoria.

RICHARD LINKLATER (Boyhood: Da Infância à Juventude): Sou muito mais fã de outros trabalhos de Linklater e, parando para pensar um pouco na trilogia Antes, já dá para ver que o uso do passar do tempo como forma de narrativa não é novidade em sua carreira. Basta juntar os três filmes estrelados por Julie Delpy e Ethan Hawke para se ter o mesmo efeito de Boyhood: dois atores envelhecendo ao longo de oito anos junto com os seus personagens. Por isso, é de certa forma um mistério saber porque todos resolveram dar algum reconhecimento para Linklater só agora. Ponto positivo, por outro lado, pelo reconhecimento a uma obra discreta, sutil e fora dos padrões das premiações.

WES ANDERSON (O Grande Hotel Budapeste): A mesma pergunta que faço sobre o porquê Richard Linklater ter recebido reconhecimento por Boyhood enquanto outros trabalhos seus foram mais marcantes também muitos fazem sobre Wes Anderson. No entanto, é notável a escalada de Anderson em O Grande Hotel Budapeste. Esse é um longa muito mais ambicioso assinado pelo diretor, desde as referências (baseado no universo do escritor austríaco Stefan Zweig) ao próprio trabalho técnico (ele sempre foi um diretor atento a isso, mas aqui se supera). Reconhecimento tardio, mas nem por isso desmerecido.

O Jogo da Imitação

When people talk to each other, they never say what they mean. They say something else and you’re expected to just know what they mean.

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Direção: Morten Tyldum

Roteiro: Graham Moore, baseado no livro “Alan Turing: The Enigma”, de Andrew Hodges

Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Rory Kinnear, Allen Leech, Matthew Beard, Charles Dance, Mark Strong, James Northcote, Tom Goodman-Hill, Steven Waddington, Ilan Goodman, Jack Tarlton, Alex Lawther, Jack Bannon

The Imitation Game, Reino Unido, 2014, Drama, 114 minutos

Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico monta uma equipe que tem por objetivo quebrar o Enigma, o famoso código que os alemães usam para enviar mensagens aos submarinos. Um de seus integrantes é Alan Turing (Benedict Cumberbatch), um matemático de 27 anos estritamente lógico e focado no trabalho, que tem problemas de relacionamento com praticamente todos à sua volta. Não demora muito para que Turing, apesar de sua intransigência, lidere a equipe. Seu grande projeto é construir uma máquina que permita analisar todas as possibilidades de codificação do Enigma em apenas 18 horas, de forma que os ingleses conheçam as ordens enviadas antes que elas sejam executadas. Entretanto, para que o projeto dê certo, Turing terá que aprender a trabalhar em equipe e tem Joan Clarke (Keira Knightley) sua grande incentivadora. (Adoro Cinema)

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É uma boa temporada para os fãs de biografias. Excetuando Foxcatcher, um trabalho realmente diferenciado no formato, vários outros filmes do gênero entraram em cartaz trazendo a velha fórmula segura que garante boa aprovação: história com início, meio e fim bem definidos, roteiro sem maiores ousadias, um bom trabalho técnico e atores empenhados em reproduzir com fidelidade as figuras reais em questão. Foi assim com A Teoria de TudoGrandes Olhos, os primeiros filmes a desembarcarem no Brasil entre janeiro e fevereiro. Agora, podemos colocar mais um nessa conta: O Jogo da Imitação, que segue os mesmos padrões dos filmes citados. Ou seja, bom para quem gosta, indiferente para quem busca algo novo. 

O que pontua as biografias desse ano é o agradecimento que a sétima arte faz para pessoas injustiçadas ou que trouxeram uma contribuição sem precedentes para a humanidade. Em Grandes Olhos, Tim Burton dá os devidos créditos para a pintora Margaret Keane, que, durante anos, foi vítima da pilantragem de seu marido aproveitador. Em A Teoria de Tudo, vimos a grande superação do físico Stephen Hawking ao enfrentar uma doença degenerativa ao mesmo tempo que construía uma família e dava continuidade a uma brilhante carreira profissional. Com O Jogo da Imitação, é a vez do diretor Morten Tyldum contar a vida do singular matemático Alan Turing, que ajudou o governo britânico em uma conquista decisiva na Segunda Guerra Mundial. Turing foi condenado por ser homossexual (era um crime, na época). A pena? Fazer um tratamento hormonal de dois anos para “conter” sua sexualidade, o que levou o matemático a depressão e ao suicídio.

Quando se concentra nas questões pessoais de Alan Turing, seja na sua infância como garoto prodígio zombado pelos colegas, no seu temperamento difícil (é cheio de si, mas ao mesmo tempo uma figura extremamente frágil) ou na relação de confiança que estabelece com a colega de trabalho Joan Clarke (Keira Knightley, devidamente simpática e contida), O Jogo da Imitação se liberta das tradicionais amarras de um tradicional relato biográfico. E não é só porque o britânico Benedict Cumberbatch, explorando mais o homem inseguro e perdido de Álbum de Família do que o gênio racional do seriado Sherlock, ganha chances maiores para detalhar sua ótima atuação, mas é porque aí que passamos a nos importar mais com Turing e a compreender como realmente funciona não apenas a sua mente, mas também o seu coração.

Turing é um personagem que por si só já seria suficientemente interessante para sustentar um filme como O Jogo da Imitação e talvez o fato do resultado não ser um sonífero se deva justamente a todo esse interesse que o protagonista desperta no espectador. Sem ele, seria uma batalha acompanhar o longa de Morten Tyldum. Ora, não bastasse ser uma biografia, O Jogo da Imitação ainda é ambientado em meio a uma grande guerra, o que aumenta exponencialmente as chances do diretor se entregar ao didático. E é fato: não existe qualquer sinal de que Tyldum, a partir do roteiro escrito por Graham Moore, com base no livro “Alan Turing: The Enigma”, de Andrew Hodges, tenha qualquer vontade de atingir outro espectador a não ser o mais acadêmico.

Previsível em toda a sua construção (óbvio que o texto não poderia deixar de mastigar a todo minuto a abordagem do gênio de ideias transgressoras a quem ninguém dá ouvidos e que no final se revelará o salvador da pátria) , O Jogo da Imitação também reserva espaço para o clichê da frase de efeito dita e repetida do início ao fim. Claro que a reconstituição de época é digna e a trilha sonora chega até a ser inspirada (Alexandre Desplat, de novo!), mas até para alguém como eu, que costuma ser um defensor de filmes com essa pegada, a onda de biografias convencionais já não comove mais. Nem todas precisam transbordar originalidade, só que às vezes pensar um pouquinho além das conhecidas fronteiras já traz um sabor pelo menos motivador. Novamente não é o caso.

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