Cinema e Argumento

Rapidamente: “Céu Azul”, “A Criada”, “O Rio Selvagem” e “Sobre Viagens e Amores”

Jessica Lange em Céu Azul: o primeiro Oscar por Tootsie foi mera formalidade, mas a segunda estatueta veio de forma muito merecida pelo filme derradeiro de Tony Richardson.

CÉU AZUL (Blue Sky, 1994, de Tony Richardson): Se o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Tootsie foi mera formalidade para celebrar uma Jessica Lange em início de carreira, o de protagonista por Céu Azul veio para compensar a honraria apressada e equivocada de outrora (algo semelhante aconteceu décadas depois com Cate Blanchett, celebrada sem muitos méritos por O Aviador e depois com total justiça por Blue Jasmine). No mediano e derradeiro drama dirigido por Tony Richardson, Lange brilha em todos os sentidos como a conturbada e muitas vezes polêmica Carly Marshall, mulher de um oficial do exército que se muda para uma base militar com a família. Radiante, Carly passa a ser o centro das atenções na vizinhança não só porque esbanja beleza, espontaneidade e até talento para dança em um espetáculo musical, mas porque também é uma mulher problemática e inconstante do ponto de vista emocional. Para Lange, mais linda do que nunca, é um papel para deitar e rolar: sem jamais criar qualquer tipo de caricatura, a atriz toma o filme para si ao compensar toda a apatia que toma conta do roteiro quando ele decide se voltar para o marido vivido por Tommy Lee Jones ou para o próprio dia a dia na base militar. Céu Azul é o clássico caso de uma atriz indiscutivelmente maior do que o próprio filme, e a prova definitiva dessa afirmação é o terço final da obra, quando Carly decide quebrar todas as barreiras para libertar o marido de uma complicada situação em uma instituição psiquiátrica. Não há o que discutir: o filme é todo de Lange.

A CRIADA (Ah-ga-ssi, 2016, de Chan-Wook Park): Com notável domínio estético e temático, o coreano Chan-Wook Park vem fazendo história como um diretor que não faz concessões ao contar histórias. Depois de filmes mais célebres a nível mundial como OldboySegredos de Sangue, o cineasta pontua outro momento importante de sua carreira com A Criada, que chegou a ser o representante da Coréia para o Oscar de filme estrangeiro, mas que não chegou entre os cinco finalistas porque os votantes da Academia obviamente não estão preparados para tanta franqueza. Passado nos anos 1930, A Criada se desenrola a partir de reviravoltas e por isso é complicado discuti-lo sem correr o risco de revelar algum detalhe fundamental da história. No entanto, se existe algo que realmente pode afetar aos mais sensíveis a temas fortes (caso dos votantes do Oscar), é a força sexual do filme, que, repleto de cenas muito gráficas e impactantes de sexo, surpreende por usá-las não para levantar qualquer tipo de polêmica, mas para dar potência a um filme que, no final das contas, pode ser interpretado como um romance dos mais inesperados. Com uma reconstituição de época impecável, A Criada tem estilo na forma e no conteúdo, fazendo jus a tudo de diferente e subversivo que o cinema oriental normalmente costuma produzir. Contudo, o longa dilui boa parte de suas discussões ao depender tanto de reviravoltas. Na surpresa pela surpresa, A Criada perde o espírito, parecendo muito mais um jogo onde o espectador precisa adivinhar a próxima virada do roteiro do que propriamente se envolver com uma história instigante nos mais diversos aspectos.

O RIO SELVAGEM (The River Wild, 1994, de Curtis Hanson): Poucas vezes Meryl Streep esteve tão sem presença e ineficiente como em O Rio Selvagem, filme que misteriosamente lhe rendeu indicações ao Globo de Ouro e ao Screen Actors Guild Awards de melhor atriz no ano em que Jessica Lange conquistava seu segundo Oscar por Céu Azul. No filme do saudoso Curtis Hanson, ela interpreta Gail, uma mulher expert em rafting que, em férias com a família, cruza um perigoso rio para escapar de uma dupla que, aos poucos, começa a se revelar mais perigosa do que aparenta. Apesar do empenho ao recusar dublês em praticamente todas as cenas de ação, Meryl tem pouco a fazer nessa obra que envelheceu muito mal em termos estéticos e narrativos. Se a ação é extremamente previsível e repetitiva (demanda certa paciência acompanhar tantas sequências de rafting ao longo da história), o fato de O Rio Selvagem querer, sem sucesso, dar algum estofo dramático a seus personagens entre uma adrenalina e outra amplia a falta de firmeza do roteiro, já que os dilemas envolvendo o casamento falido entre Gail e Tom (David Strathairn) são rasos demais para causar qualquer envolvimento no espectador. Trazendo ainda Kevin Bacon e John C. Reilly como a dupla que toca o terror na vida dos protagonistas, O Rio Selvagem falha inclusive em ser uma aventura divertida, já que trata com certa seriedade até as decisões mais tolas tomadas pelos personagens em momentos de perigo. Os embates físicos, visivelmente construídos na ilha de edição, também quebram a conexão com o filme pela artificialidade, reiterando a impressão de que nem mesmo Meryl tinha muito o que fazer em uma produção pouco eficiente no senso de entretenimento.

SOBRE VIAGENS E AMORES (L’estate Addosso, 2017, de Gabriele Muccino): É da natureza do diretor Gabriele Muccino contar histórias calcadas no melodrama. Seja nos Estados Unidos ou na Itália, é facilmente identificável o estilo impresso por ele em filmes como À Procura da FelicidadeSete Vidas e agora esse Sobre Viagens e Amores. Em sua mais nova produção, Muccino lança um olhar agridoce e nostálgico para as descobertas da adolescência e, principalmente, para o quão complicado é enfrentar certas dores pela primeira vez na vida. Entretanto, o curioso de Sobre Viagens e Amores não é como o diretor novamente pesa a mão ao açucarar a história com trilhas bonitinhas, fotografia inspirada em filtros do Instagram e conflitos das mais variadas naturezas resolvidos com frases de efeito, mas sim como ele sabota a história ao transformar um interessante relato sobre o poder da amizade em uma ciranda de desejos e amores. A intenção é clara e válida – fazer uma interessante relação entre os desejos velados no fervor da adolescência e na estabilidade de um matrimônio -, mas a guinada é gratuita demais para um filme que vendia algo muito diferente até então. Dessa maneira, a mudança de foco em Sobre Viagens e Amores termina como uma traição para um filme que se desenhava como uma singela homenagem aos amigos que descobrimos e levamos para a vida toda. A proposta inicial tinha os vícios de Muccino, claro, mas era levada com muita despretensão e delicadeza pelo diretor, sem jamais sinalizar as ambições que ele logo revela, mas não consegue administrar com as devidas sutilezas e complexidades.

Alien: Covenant

We don’t leave Earth to be safe.

Direção: Ridley Scott

Roteiro: Dante Harper e John Logan, baseado em história de Jack Paglen e Michael Green e nos personagens criados por Dan O’Bannon e Ronald Shusett

Elenco: Katherine Waterston, Michael Fassbender, Billy Crudup, Danny McBride, Demián Bichir, Jussie Smollett, Callie Hernandez, Carmen Ejogo, Amy Seimetz, Nathaniel Dean, Alexander England

Alien: Covenant, EUA, 2017, Ficção Científica, 122 minutos

Sinopse: 2104. Viajando pela galáxia, a nave colonizadora Covenant tem por objetivo chegar ao planeta Origae-6, bem distante da Terra. Um acidente cósmico antes de chegar ao seu destino faz com que Walter (Michael Fassbender), o androide a bordo da espaçonave, seja obrigado a despertar os 17 tripulantes da missão. Logo Oram (Billy Crudup) precisa assumir o posto de capitão, devido a um acidente ocorrido no momento em que todos são despertos. Em meio aos necessários consertos, eles descobrem que nas proximidades há um planeta desconhecido, que abrigaria as condições necessárias para abrigar vida humana. Oram e sua equipe decidem ir ao local para investigá-lo, considerando até mesmo a possibilidade de deixar de lado a viagem até Origae-6 e se estabelecer por lá. Só que, ao chegar, eles rapidamente descobrem que o planeta abriga seres mortais. (Adoro Cinema)

Há algo muito errado quando um diretor contribui para a destruição de um universo que ele próprio criou. Pois é definitivamente o que faz Ridley Scott em Alien: Covenant, o sexto filme envolvendo a franquia Alien, cujo primeiro capítulo chegou aos cinemas em 1979. Scott, que entregou a direção da franquia para James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet nas respectivas continuações (muitas delas irregulares), retomou o cargo em 2012 com Prometheus, propondo fazer um prequel da série Alien. O projeto tem continuação agora com Alien: Covenant, supostamente responsável por complementar as discussões de Prometheus e ser uma ponte para o primeiro filme lançado na década de 1970. Lamentavelmente, Covenant é de uma arbitrariedade assustadora: além de não servir como obra de transição, tampouco se revela um passatempo que respeita os clássicos elementos que fizeram de Alien, o Oitavo Passageiro, um verdadeiro clássico. Vindo das mãos de um diretor estreante no universo, seria possível dar um desconto, mas, tratando-se de quem concebeu tudo de forma visionária há quase 40 anos, é realmente imperdoável.

Os problemas de Alien: Covenant começam já na concepção, onde o roteiro escrito pela dupla Dante Harper e John Logan é inexpressivo ao criar e desenvolver personagens. Partindo do pressuposto de que muitos deles passarão por poucas e boas ou até morrer em uma perigosa viagem interplanetária, é inadmissível que o texto não estabeleça qualquer laço entre eles e o espectador. Pior: não só os personagens transitam na história sem deixar impressão alguma, como também falham em apresentar qualquer traço de personalidade ou identidade – e é exatamente por isso que, quando revelada, a natureza homossexual de um dos tripulantes parece gratuita e oportunista. Considerando tempos em que Charlize Theron e Sandra Bullock marcam toda uma geração com personagens femininos bem explorados em filmes como Mad Max: Estrada da FúriaGravidade, Scott ainda sequer se dá ao trabalho de fazer jus às origens da franquia e nos convencer do poder feminino: mesmo esforçada, a protagonista vivida por Katherine Waterston (que era pura simpatia em Animais Fantásticos e Onde Habitam) não consegue segurar o filme, muito em função das oportunidades que nunca lhe são dadas por um roteiro fragilíssimo.

O desperdício da figura feminina nos leva a outro defeito de Covenant: a dispersão da história. Se Waterston não tem como brilhar no papel da tripulante Daniels, isso tem muito a ver com o fato dos acontecimentos serem excessivamente centrados na figura do androide David, vivido por Michael Fassbender. Por si só, o destaque do personagem já faz com que o roteiro se afaste da ideia de trabalhar a mitologia envolvendo todo o medo e o terror causado pelo monstrengo Alien, mas a situação piora porque as motivações de David (e principalmente dos conflitos que ele enfrentará posteriormente ao encontrar Walter, um semelhante de sua espécie) são desinteressantes e principalmente fracas demais para sustentar um filme da dimensão de Covenant. A limitação do texto também se estende ao trabalho estético da obra: ambientada em um planeta que tem paisagens facilmente reconhecíveis (rios, árvores, montanhas), a ficção pouco instiga visualmente e colabora para a sensação de que o diretor Ridley Scott de fato dirigiu a obra no piloto-automático, reforçando a ideia de que sua carreira, apesar de repleta de filmes marcantes (Thelma & LouiseBlade Runner!), é também marcada por longas sem identidade.

Entre as decepções trazidas pelo retorno ao universo Alien, nenhuma, contudo, é maior do que a falta de clima em relação ao personagem-título. Ao cometer o mesmo erro de boa parcela de exemplares de terror, o filme mostra mais do que deveria, tornando Alien uma figura gráfica demais. O maior medo é aquele que a nossa própria mente cria, tese defendida e aplicada com grande talento pelo longa de 1979 e que aqui parece ser completamente ignorada. Encantado com o poder da tecnologia, Scott faz questão de mostrar Alien em suas mais diversas formas, além de capturá-lo em cada detalhe, cada passo, cada movimento. Com isso, vem uma artificialidade que castra qualquer possibilidade do espectador ter medo de um personagem que não parece natural até mesmo dentro de suas fronteiras. Em suma, Alien: Covenant falha na tentativa de ser qualquer tipo de filme. Por isso mesmo é de se agradecer que o canadense Dennis Villeneuve esteja no comando da sequência de Blade Runner no lugar de Ridley Scott. Afinal, seria difícil demais vê-lo sabotando dois universos criados por ele próprio em um mesmo ano.

Rapidamente: “Duas Estranhas”, “Mamãezinha Querida”, “Quem é Primavera das Neves?” e “Tootsie”

Não foi apenas o desempenho de Dustin Hoffman que sobreviveu bem ao tempo: as críticas de Tootsie em relação à representação da mulher no audiovisual ainda são lamentavelmente atuais.

DUAS ESTRANHAS – HISTÓRIA DE MÃE E FILHA (Strangers: The Story of a Mother and Daughter, 1979, de Milton Katselas): Na época em que fazer TV não era algo nobre e que boa parte da indústria hollywoodiana torcia o nariz para o formato, Bette Davis abdicava de qualquer orgulho para continuar trabalhando e, na medida do possível, conseguindo bons papeis. Claro que Duas Estranhas – História de Mãe e Filha não preza pela originalidade, mas, para uma atriz de 79 anos, é um prato cheio, o que não deixa de ser verdadeiro também para os dias de hoje. Contracenando com Gena Rowlands, Bette chegou a ganhar o Emmy de melhor atriz por interpretar novamente uma clássica mulher casca grossa. Dessa vez, ela é Lucy, uma senhora solitária que recebe a inesperada visita de uma filha distante. Não é preciso ser perito para adivinhar o que vem a partir daí: longas discussões envolvendo mágoas do passado, segredos finalmente sendo revelados e, eventualmente, a aproximação e o carinho que tanto foram escanteados ao longo de uma vida. Mesmo encenado em um único cenário, Duas Estranhas jamais se torna um teatro filmado, mostrando que, apesar de apostar na extrema simplicidade, o diretor Milton Katselas teve tino suficiente para distinguir a linguagem audiovisual da teatral. Ainda assim, o que importa é a presença de Bette e Gena, que dominam a tela mesmo com o mais tradicional (e, às vezes, até rasteiro e mal explicado) dos textos. Não sei quanto a vocês, mas, para mim, isso já está de bom tamanho.

MAMÃEZINHA QUERIDA (Mommie Dearest, 1981, de Frank Perry): Desastre sem precedentes para a época que foi lançado, Mamãezinha Querida hoje é até abraçado como cult, mas não fui espirituoso o suficiente para entrar na brincadeira. Ao abranger quase 40 anos de vida e carreira da atriz Joan Crawford, o filme de Frank Perry era cercado de expectativas antes de seu lançamento. Além de transpor às telas o polêmico livro escrito por Christina Crawford, filha de Joan, que relata os supostos abusos físicos e emocionais que ela teria sofrido na convivência com a mãe, o longa estreava quatro anos após a morte de Crawford e protagonizava o sonho dourado da atriz Faye Dunaway de ganhar um segundo Oscar. Deu tudo errado: além de arruinar a carreira de Dunaway, foi um fiasco de crítica e chegou a ser vendido pelo estúdio como comédia após a desastrosa recepção, que, com toda razão, bombardeava a dramaticidade descontrolada de atuações exageradas e cenas constrangedoras. Entretanto, o problema é muito maior do que os ataques histéricos. Na verdade, Mamãezinha Querida poderia ser sobre qualquer mãe maquiavélica, já que sequer é possível compreender quem era Joan Crawford e muito menos sua influência em Hollywood. É uma produção caótica, que faz uma bela dupla com o igualmente péssimo e biográfico A Dama de Ferro: ambos saltam no tempo com a maior displicência sem contextualizar, do ponto de vista histórico ou emocional, as mulheres que retratam. De vez em quando, o constrangedor diverte (Carla Perez deve saber o quanto Cinderela Baiana é clássico nesse sentido), mas, com Mamãezinha Querida, apenas entedia a plateia e desrespeita de forma desenfreada uma mulher da vida real que, ao menos, foi redimida recentemente na minissérie Feud: Bette and Joan.  

QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES? (idem, 2017, de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado): O ponto de partida é dos mais cotidianos: lendo o clássico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, o diretor gaúcho Jorge Furtado se deparou com o curioso nome Primavera das Neves, da jornalista e escritora portuguesa responsável pela tradução da obra. Instigado, Furtado procurou sobre Primavera na internet, mas se surpreendeu ao não encontrar qualquer registro biográfico dela. A partir daí, a curiosidade virou missão: após fazer um post no site da Casa de Cinema de Porto Alegre perguntando se alguém conhecia a tradutora, o diretor recebeu o contato de uma amiga de Primavera. O encontro entre eles, no final das contas, rendeu esse Quem é Primavera das Neves?, que Furtado dirige ao lado da colega e amiga Ana Luiza Azevedo. Primavera já faleceu, mas é na ausência dela que a dupla de diretores tira a melhor tônica para o documentário, que, calcado em afeto, torna-se, em cada minuto de sua duração, uma singela e acalantadora homenagem à amizade e ao quanto certas pessoas, por mais comuns que possam parecer, influenciam nossas vidas para sempre. Além dos depoimentos de pessoas que conheceram Primavera, o filme traz a ótima atriz Mariana Lima interpretando trechos de algumas das traduções mais célebres da personagem-título (além de Lewis Carroll, ela trabalhou com materiais de Emily Brontë, Julio Verne, John Le Carré, entre outros) e até mesmo poemas e cartas escritos pela própria Primavera. Por fim, nem chega a importa a extrema simplicidade e o formato quase televisivo do documentário. O que ganha mesmo é a delicadeza.

TOOTSIE (idem, 1982, de Sydney Pollack): À parte o inexplicável Oscar de melhor atriz coadjuvante para Jessica Lange, Tootsie é uma comédia que sobreviveu muito bem ao tempo. Mais do que isso, manteve intacta a sua atualidade: as críticas do filme de Sidney Pollack ao machismo nas produções televisivas ainda são válidas, principalmente quando traz à tona a forma como diretores e roteiristas representam as mulheres bem sucedidas, que quase sempre são pintadas como mulheres masculinizadas e nada atraentes. É justamente essa mudança de cenário que Michael Dorsey (Dustin Hoffman) propõe quando, vestido secretamente como mulher, consegue um papel de destaque em uma popular novela da TV norte-americana. Como Dorothy, uma mulher inteligente, bem sucedida, divertida e sensível, Michael alcança o sucesso que nunca teve e, mergulhado na glória, passa a literalmente viver uma nova vida. Simples e divertido, Tootsie recebeu, na época de seu lançamento, uma celebração surpreendente para uma comédia assumida: foram nada menos do que dez indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, direção e roteiro. Entretanto, quem brilha mesmo é Dustin Hoffman. Em um dos desempenhos mais marcantes de sua carreira, Hoffman encontra o equilíbrio certo entre a comédia pela comédia e o uso desse gênero para elucidar questões até mesmo tristes sobre seu personagem. É uma interpretação respeitosa, que jamais se entrega à caricatura e que certamente confere a Tootsie um carisma ainda mais especial.

A Cabana

Love always leaves a mark.

Direção: Stuart Hazeldine

Roteiro: Andrew Lanham, Destin Daniel Cretton e John Fusco, baseado no livro homônimo de William P. Young

Elenco: Sam Worthington, Octavia Spencer, Avraham Aviv Alush, Sumire Matsubara, Tim McGraw, Radha Mitchell, Alice Braga, Megan Charpentier, Gage Munroe, Amélie Eve, Graham Greene, Ryan Robbins

The Shack, EUA, Drama, 2017, 132 minutos

Sinopse: Um homem vive atormentado após perder a sua filha mais nova, cujo corpo nunca foi encontrado, mas sinais de que ela teria sido violentada e assassinada são encontrados em uma cabana nas montanhas. Anos depois da tragédia, ele recebe um chamado misterioso para retornar a esse local, onde ele vai receber uma lição de vida. (Adoro Cinema)

Se já é fácil ser impaciente e intolerante com filmes que apresentam histórias baseadas em valores e princípios distantes dos nossos, o que sobra, então, para aqueles que, além disso, repetem as mesmas fórmulas panfletárias e unidimensionais de outras obras ruins e de mesma proposta? Praticamente nada. É aí que se encaixa A Cabana, que, baseado no best seller homônimo de William P. Young, filosofa sobre nossa existência com um pano de fundo religioso repleto de representações batidas e dignas de um programa televisivo de auto-ajuda. Uma coisa é se deparar com isso em uma livraria, onde podemos ignorar a obra na primeira leitura da sinopse. Outra é investir tempo, dinheiro e boa vontade no cinema, esperando que um filme nos surpreenda ao quebrar qualquer preconceito que tenhamos com ele. Não é questão do que se discute em termos de conteúdo, e sim de execução, pois, quando se constata que A Cabana traz, pela milésima vez, entidades divinas vestidas de branco em um lindo jardim florido, ensolarado e cheio de borboletas, qualquer boa vontade em esperar algum exercício cinematográfico na obra vai por água abaixo.

Dirigido por Stuart Hazeldine, A Cabana opta pelo drama fácil sempre que possível, o que é um claro reflexo do seu material de origem, que, não há dúvidas, tornou-se um grande sucesso editorial por justamente não poupar esforços para comover o maior número de leitores. E, no cinema, onde palavras precisam ser transpostas para figurinos, trilhas sonoras, cenários e outros setores, a situação se torna mais atraente para quem curte a pegada e, claro, mais difícil para quem rejeita o formato. Não bastasse trazer o batido arco da família perfeita de comercial de margarina que, um belo dia, tem sua vida colocada de pernas para o ar por uma tragédia, A Cabana centra quase toda sua história em uma viagem motivacional onde o patriarca Mack (Sam Worthington), incapaz de superar a perda de um ente querido, passa um fim de semana transformador com Deus, Jesus e Espírito Santo. De vez em quando, ele ainda esbarra com figuras como a Sabedoria (sim, a virtude, vivida por Alice Braga), que, também vestida de branco e com um semblante extremamente acolhedor, ensinará o que ele precisa rever em sua vida para se recompor, voltar para casa e reunificar a família.

É fundamental não julgar o que A Cabana quer deixar de mensagem, mas sim como ele deixa que isso chegue ao espectador. Expositivo (a cena da Sabedoria não dispensa flashbacks para retomar acontecimentos já encenados), o fim de semana do protagonista junto a figuras divinas é tedioso porque não passa de um amontoado de conversas onde ele será persuadido a reavaliar muitas de suas ideias. Entre uma prosa e outra, Mack também corre pelas águas assumindo os poderes de Jesus Cristo, como se o filme tentasse fazer alguma graça para movimentar um relato que visivelmente não consegue ir além do trabalho verbal. Sem as longas cenas de reflexões onde Mack, afundado em tristezas, esbraveja para Deus que seu amor é seletivo ao permitir que pessoas morram diariamente de forma injusta no mundo, A Cabana é estático e, pior ainda, limitado nas associações visuais que faz em relação aos sentimentos do personagem e às diferentes fases vividas por ele ao longo da trama. Basta perceber como os momentos em que Mack passa por algum sofrimento possuem estilizações simplórias (as surras que leva do pai alcoolizado na infância, por exemplo, são encenadas de forma estridente em uma noite chuvosa e cheia de trovões), problema que é repetido nas sequências em que ele recebe algum alento (a primeira longa conversa com Deus acontece em uma cozinha aconchegante com um brilhante feixe de luz atravessando a janela). São construções óbvias, previsíveis e já usadas à exaustão em outros filmes. Daí vem a impaciência com A Cabana.

Muito dos defeitos e das simplificações do longa poderiam ser relevados se um ator de grande talento tivesse uma forte presença em cena. Não é o caso de Sam Worthington, que, além de não ter talento ou expressiva (até em Avatar ele era perfeitamente esquecível), torna A Cabana uma viagem ainda mais ingrata por não fazer com que o espectador tenha qualquer conexão com seu personagem. A história vivida por ele é triste, claro, mas não há texto que garanta emoção quando um intérprete precisa visivelmente se esforçar até para derramar uma lágrima. É um problema tremendo (talvez o maior) para um filme que, por outro lado, consegue ser um veículo de exercício para Octavia Spencer. Ela, que vem diminuindo a marcha de suas caricaturas em filmes como Estrelas Além do Tempo, está novamente humana e devidamente acalantadora ao assumir a responsabilidade de incorporar Deus. Inclusive, é muito bacana a diversidade encontrada na representação das figuras divinas, onde Deus, Jesus e Espírito Santo são interpretados por atores negros, árabes e orientais, respectivamente. Contudo, é mera questão de tempo para que A Cabana volte a repetir suas fórmulas e melodramas, perdendo a chance de ser o filme que poderia, pelo menos, fazer com que boa parte da plateia repensasse o preconceito que nutre por produções baseadas em best sellers de auto-ajuda.

Por que “The Good Fight” é o programa mais atual em exibição (mas não entende o que é um spin-off)?

O que prometia ser o grande voo solo de Christine Baranski acaba decepcionado: em The Good Fight, a atriz é tão coadjuvante (ou, muitas vezes, até mais) quanto em The Good Wife.

Quando surge pela primeira vez em The Good Fight, a advogada Diane Lockhart (Christine Baranski) está incrédula. E não é por menos: sentada frente à TV, ela acompanha a cerimônia de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, algo que, para quem acompanhou The Good Wife ao longo de sete temporadas, é um momento deliciosamente divertido devido às marcantes posições políticas da personagem. No entanto, não há motivos para os leigos se preocuparem, pois, mesmo sendo um spin-off da premiada série estrelada por Julianna Margulies, o episódio-piloto de The Good Fight é exemplar na forma como arquiteta a extensão de um universo já extinto que não apenas preserva o excelente tino cômico de seu material de origem, mas também criar uma personalidade própria e, principalmente, procura trazer importantes discussões do mundo real para a narrativa ficcional.

Se a política é tão importante para a democrata Diane Lockhart, é fácil deduzir que The Good Fight, ao longo dos dez episódios de sua primeira temporada, não poupará esforços para discutir questões relacionadas ao tema. Enquanto Wife se passava na era Obama, Fight é encenada na era Trump, o que é prato cheio para os criadores extraírem muitas de suas ideias e provocações dos conceitos defendidos pelo novo presidente norte-americano. A partir desse cenário, Lockhart enfrentará situações que, entre outras, discutem a falência da reputação dos poderosos (e o quão incongruente é ter Trump como presidente nesse sentido), a batalha diária que é ser mulher em um ambiente de trabalho essencialmente masculino, o quanto a idade e a experiência às vezes podem ser pontos negativos em uma carreira profissional e o que significa realmente se dedicar a certas coisas na vida para, no fim das contas, elas não valerem nada.

Com questões atuais e provocações inteligentes, The Good Fight compensa a falta de criatividade em termos de execução com a contemporaneidade dos temas que levanta.

Atualíssima e representativa como poucos programas conseguem ser, The Good Fight se dedica plenamente a dar voz à diversidade, colocando três mulheres no centro de sua história: Maia Rindell (Rose Leslie), Luca Quinn (Cush Jumbo) e, claro, Diane Lockhart. Detalhes ainda mais importantes sobre elas: a primeira é lésbica, a segunda é negra e a terceira já passou dos cinquenta anos, todos nichos normalmente relegados a papeis coadjuvantes, seja em filmes ou seriados. Se a protagonista vivida por Christine Baranski já sabia que ser mulher em um universo jurídico de homens brancos e engravatados era difícil, logo ela descobre também que envelhecer pode acrescentar um sabor ainda mais azedo a uma realidade cotidianamente desafiadora. Esse é o pontapé inicial de The Good Fight: após anunciar sua aposentadoria, Lockhart se vê com a corda no pescoço quando, após um escândalo de corrupção, descobre que todo o seu dinheiro foi congelado. Não há outra escolha para se sustentar a não ser continuar trabalhando, mas a empresa da qual era sócia não aceita o retorno, lançando a veterana de volta à vida de bater de porta em porta para conseguir um emprego. E qual não é a surpresa dela ao descobrir que o mercado, por uma série de razões, não quer contratar uma mulher experiente em idade e profissão?

O que torna The Good Fight o programa mais atual em exibição e um relato conceitualmente forte é justamente centralizar sua trama em mulheres que se reinventam, que levantam a cabeça frente a adversidades e que enxergam os obstáculos da vida como porta de entrada para algo muito maior e necessário. Algo que, na realidade, precisam provar não para elas próprias, mas para uma sociedade que insiste em diminuí-las. A série começa com o pé direito, devendo absolutamente nada a sua série antecessora, mas, pouco a pouco, mostra que não consegue ir muito além de seus posicionamentos políticos afiadíssimos quando Diane Lockhart finalmente se estabelece em uma empresa administrada majoritariamente por advogados negros. A situação muda de cenário porque a história precisa sair dos conceitos que envolvem seus personagens e contextos para finalmente construir uma trama. Na prática, o spin-off volta a repetir vícios de The Good Wife e até a eventualmente lembrar o porquê do programa estrelado por Julianna Margulies ter sido cancelado após tantos episódios estagnados em forma e conteúdo.

Rose Leslie como Maia Rindell: a sensação de dèjá vu é grande, já que a personagem repete a fórmula da advogada que começa a entender como funcionam os bastidores da profissão.

Aliás, há vários aspectos que remontam a The Good Wife, o que só reforça a impressão de que The Good Fight conduz a sua história no piloto-automático. Ou não é puro comodismo novamente termos uma personagem que está chegando ao mundo da advocacia e que precisa aprender tudo sobre os trâmites da profissão? Não é que, na prática, a novata Maia Rindell se pareça com a Alicia Florrick de Julianna Margulies, mas tudo é muito familiar, repetindo desnecessariamente passagens que seriam evitáveis com um pouco mais de criatividade na hora de criar um personagem. O déjà vu relacionado a esses problemas também se encontra na construção dos casos jurídicos, que evocam antigos coadjuvantes sem reinventá-los em qualquer aspecto (por mais divertida que seja a Elsbeth Tascioni de Carrie Preston, fica claro que ela só está ali para fazer graça) e conflitos que obviamente só estão ali para disfarçar a falta de assunto, a exemplo do episódio em que Maia busca a real identidade de quem está espalhando falsos tweets em seu nome. Com exceção dos casos que endossam o inegável talento de The Good Fight em discutir temas atuais (sempre há espaço para cutucar Donald Trump sem qualquer medo, e isso é ótimo!), não há surpresa alguma no spin-off.

Ok, digamos que, como fã incondicional do universo de The Good Wife, seja possível perdoar tudo isso para ter um pedacinho do programa de volta. O que não dá mesmo para deixar passar é The Good Fight ter claros problemas em compreender quem é a sua real protagonista. Ora, um spin-off serve para dar protagonismo e trajetória própria a um personagem que, em outro seriado, estava longe de concentrar o protagonismo de uma história. Não é o que acontece com a Diane Lockhart de Christine Baranski: misteriosamente, ela é coadjuvante tanto quanto era em The Good Wife, com dilemas pessoais que são esquecidos com a mesma displicência que são retomados e passagens que soam como mero suporte para enaltecer outra figura em cena: no caso, Maia Rindell, a real protagonista do spin-off. Isso é simplesmente imperdoável por muitas razões, entre elas, a de trair as promessas de dar a devida dimensão a uma personagem interessantíssima e a de proporcionar uma chance de ouro a Christine Baranski, uma excelente atriz que merecia oportunidades muito melhores tanto no cinema quanto na TV. Eterna coadjuvante de musicais nas telonas (Mamma Mia!ChicagoCaminhos da Floresta), ela sempre brilhou como a elegante advogada que guarda com orgulho um retrato ao lado de Hillary Clinton em seu escritório. Por isso, The Good Fight parecia ser finalmente o seu grande momento. Não foi. E, sinceramente, isso é o que existe de mais imperdoável no programa. Inclusive, é o suficiente para que se corte relações com ele.

Rapidamente: “Batman vs Superman”, “Eu, Daniel Blake”, “Mulher do Pai” e “Mulheres do Século 20”

Mais um filme muito íntimo e pessoal do diretor Mike Mills, Mulheres do Século 20 se destaca pelo excelente trabalho do elenco feminino e de suas inteligentes referências e contextualizações.

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016, de Zack Snyder): Foi massacrado mundo afora, e com toda razão, já que só deve perder para Esquadrão Suicida como o pior filme de super heróis dos últimos anos. A lista do que não funciona é imensa: dos protagonistas inexpressivos (Ben Affleck não traz personalidade ao icônico Batman, enquanto Henry Cavill nunca funcionou mesmo como Superman) aos coadjuvantes que variam de caricaturas ineficientes (Jesse Eisenberg tenta fazer algo divertido, mas sem sucesso) a presenças desperdiçadas (dá pena ver Amy Adams tendo que se contentar com o papel da mocinha que só vive em função de seu homem), Batman vs Superman tem um roteiro dos mais problemáticos, onde nada é suficientemente consistente para nos convencer do confronto entre os herois. Porém, o mais decepcionante deve ser a concepção estética completamente pobre do filme, pois, se os universos dos dois heróis já não conversam direito, a situação só se agrava com uma direção que comanda cenas de ação no piloto-automático e apostando na velha e já inaceitável fórmula de cidades sendo inteiramente destruídas durante os confrontos só para mostrar algum tipo de grandiosidade. A própria luta entre os dois protagonistas é concebida de forma preguiçosa, como se fosse apenas uma brincadeira onde os dois alteram porradas com diversos poderes e artimanhas. E mais: o conflito tem uma solução das mais esfarrapadas imagináveis. Talvez Batman vs Superman não chegue a aborrecer tanto quanto Esquadrão Suicida, mas é um aventura ultrapassada demais, o que não nos dá nem desculpa de classificá-lo como uma homenagem ou uma experiência nostálgica para tentar defendê-lo.

EU, DANIEL BLAKE (I, Daniel Blake, 2016, de Ken Loach): Não está entre os casos mais graves, mas a Palma de Ouro para Eu, Daniel Blake não deixa de contribuir para as escolhas extremamente irregulares do júri presidido pelo cineasta australiano George Miller no Festival de Cannes em 2016. O novo filme de Ken Loach é muito simbólico e relevante em tempos que discutimos tanto os direitos trabalhistas no Brasil e no mundo, mas, em termos de execução, o resultado é bastante decepcionante. Acompanhando os difíceis dias de Daniel Blake (Dave Johns), que, após ficar desempregado em função do diagnóstico de um problema cardíaco, enfrenta as burocracias do governo para receber seus auxílios por direito, Eu, Daniel Blake não exige que a plateia já tenha compartilhado da mesma situação do protagonista para se indignar e até reconhecer as inúmeras situações absurdas relacionadas ao descaso do governo com a classe trabalhadora. O que acontece é que Eu, Daniel Blake, apostando em um ritmo bastante lento, se repete demais e, sempre que procura dar alguma guinada na trama, soa artificial. Por mais comovente que seja a interpretação de Hayley Squires como Katie, a amiga de Daniel que passa por problemas bastante semelhantes, seu conflito com o protagonista a respeito da profissão que resolve adotar para resolver problemas financeiros é executado com arbitrariedade. Mais decepcionante ainda é o desfecho que, nada sutil e imprevisível, ainda reserva uma última cena repleta de drama que, justamente, por ser consequência de uma escolha conduzida apressadamente pelo roteiro, não surte efeito algum. Em tese, Eu, Daniel Blake é necessário. Na prática, beira o esquecível. 

MULHER DO PAI (idem, 2017, de Cristiane Oliveira): Rodado na região de Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul, Mulher do Pai faturou os prêmios de melhor direção, fotografia e atriz coadjuvante no Festival do Rio 2016, além de ter feito trajetória internacional ao ter sido selecionado para a mostra Generation do Festival de Berlim deste ano. Ao contrário dos festivais, já não compartilho o mesmo entusiasmo com esse trabalho de estreia da diretora Cristiane Oliveira, que, também autora do roteiro, opta por um caminho nobre em seu debut (o de economizar ao máximo as emoções de uma história que, centrada nas descobertas e no amadurecimento de uma jovem do interior que precisa cuidar do pai cego), mas que, por isso mesmo, resvala em outro o problema: o de que, muitas vezes, menos realmente é menos. Marat Descartes, como o pai da protagonista, é sempre ótimo, e Mulher do Pai ambienta muito bem a vida no interior. Mas falta visceralidade aqui, inclusive nas sutilezas: um exemplo claro disso é a relação da protagonista com a professora de artes (a ótima Verónica Perrota, vencedora do Kikito de melhor atriz em Gramado ano passado pelo uruguaio Las Toninas Van al Este), que, inicialmente interessante e cercada de delicadezas, se desenrola de forma previsível e nada catártica ao se transformar em conflito quando a professora se interessa pelo pai da menina. Existem outros problemas, como a geografia não ser devidamente explorada (a protagonista quer desesperadamente conhecer o Uruguai por questões culturais e, quando viaja até lá, quase nada é mostrado do país), que me desconectam bastante do filme. Tratando-se de um relato sobre a transição da adolescência para a vida adulta, o cinema brasileiro já nos trouxe histórias muito mais envolventes nos últimos anos.

MULHERES DO SÉCULO 20 (20th Century Women, 2016, de Mike Mills): Não é preciso retroceder tanto a carreira do diretor Mike Mills para constatar o quanto ele é apaixonado por histórias íntimas. Basta lembrar de Toda Forma de Amor, filme que rendeu o Oscar ao veterano Christopher Plummer pela personificação de um pai de família que, após a descoberta de um câncer, resolve finalmente sair do armário para o filho. Agora, Mills sai da relação de um personagem com o pai para falar sobre a influência de uma mãe (e de várias outras figuras femininas) na vida de um garoto adolescente. É bonito como o diretor consegue imprimir uma assinatura sem nunca se repetir, e Mulheres do Século 20 é particularmente marcante do ponto de vista pessoal, já que essa é uma história baseada na vida do próprio diretor. Pop e recheado de referências e contextualizações das mais variadas naturezas (da música ao cinema, passa até pelo marcante documentário Koyannisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio, de 1982), o relato é delicado ao retratar as relações familiares, especialmente nos momentos em entre mãe e filho. Falando em mãe, ela é vivida com talento e elegância por Annette Bening, que, com talento e elegância de sobra, cria uma figura interessantíssima que, aos poucos, parece também fazer parte da nossa família. Para não ser injusto, vale mencionar ainda Elle Fanning e Greta Gerwig, ambas em plena sintonia com Bening em um elenco feminino para lá de especial.

As mulheres imbatíveis e eternas de “Feud: Bette and Joan”

Bette Davis (Susan Sarandon) e Joan Crawford (Jessica Lange) em Feud: Bette and Joan: o que poderia ser uma mera diversão envolvendo a rivalidade entre duas mulheres se revela um profundo estudo sobre o machismo em Hollywood.

As atrizes Bette Davis e Joan Crawford faziam questão de afirmar que eram mulheres e profissionais bastante diferentes quando, na verdade, compartilhavam mais semelhanças do que estavam dispostas a admitir. Ambas abandonadas por seus respectivos patriarcas, Bette e Joan vieram de famílias pobres, tornaram-se famosas entre os anos 1920 e 1930, ganharam Oscar de melhor atriz, eram democratas e feministas, casaram quatro vezes, adotaram crianças e tiveram filhos que, posteriormente, ficariam famosos por escrever biografias que exploravam as complicadas relações que tiveram com suas mães. Isso só comprova como, no fundo, as duas estrelas de Hollywood sabiam que a lendária inimizade entre elas era uma situação criada por uma indústria machista e avessa ao envelhecimento das atrizes. No entanto, também compreendiam que, infelizmente, tal dinâmica era uma ferramenta de sobrevivência na indústria: sem essa tônica, faltavam as manchetes em jornais, as aparições em colunas sociais e até mesmo os papeis em filmes que já não vinham mais naturalmente. 

O que Bette Davis e Joan Croawford não sabiam é que, além das mazelas profissionais, a situação acarretaria profundas cicatrizes pessoais. E é com esse olhar que Feud: Bette and Joan, antologia criada por Ryan Murphy junto à dupla Jaffe Cohen e Michael Zam, procura abordar a tortuosa relação entre as atrizes, cuja inimizade foi muito além das gravações de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, filme que marcou o primeiro e único encontro entre as duas imortalizado nas telas do cinema. Ao longo de oito episódios, o primeiro ano da série que, em temporadas posteriores, contará outras rixas mundialmente famosas, tem o mérito de se esquivar da mera curiosidade cinéfila (esse poderia muito bem ser um relato cheio de referências e brincadeiras endereçado aos fãs da sétima arte) para se tornar um registro universal e, claro, profundamente atual, visto que, hoje, muita gente ainda lucra e se diverte com a inimizade entre mulheres, especialmente na indústria fonográfica, onde parece impossível enaltecer uma diva pop como Madonna ou Lady Gaga sem depreciar outra na mesma intensidade.  

Susan Sarandon é um milagre como Bette Davis. Além das semelhanças físicas, a atriz ressuscita toda a personalidade forte e o temperamento difícil de uma das intérpretes mais celebradas de todos os tempos.

Feud: Bette and Joan termina de forma bem diferente do que começou, transformando uma certa frustração em algo extremamente recompensador. Explico: inicialmente vendido como a reprodução dos bastidores de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, o projeto, já no quarto episódio, encerra as gravações do célebre filme para, aos poucos, ter sua trama cada vez mais concentrada na vida de Joan Crawford (Jessica Lange), cultivando no espectador a frustração de ver Bette Davis (Susan Sarandon) escanteada em cena. Afinal, como não lamentar o fato de Feud: Bette and Joan negar igual protagonismo a essa mulher forte e de trajetória vitoriosa que, entre tantas coisas, foi a primeira mulher presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, a atriz com o salário mais alto de sua época quando realizou A Malvada e, até hoje, a única mulher, ao lado de Greer Garson, a alcançar o recorde de cinco indicações consecutivas ao Oscar de melhor atriz? Só que não demora muito para a série nos atentar ao fato de que Bette, por uma série de razões, sempre será a grande protagonista da famosa relação com Joan Crawford, e que existe muito mais a ser contado por trás dessa história. Feud não deixa de fazer uma reparação ao apostar em uma abordagem bastante diferenciada: aqui, a maior parte do protagonismo está finalmente entregue a Crawford, que, riquíssima em conflitos, é dramaticamente mais interessante por, ao contrário de Bette, ser insegura, emocionalmente instável, secretamente desesperada pela aprovação da colega e incapaz de lidar com rejeições.

Tamanha é a conscientização da série acerca do danoso incentivo ao confronto entre mulheres que toda a diversão de ver Bette e Joan se sabotando nas gravações de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? se transforma em puro mal estar, mais especificamente no episódio And the Winner is… (The Oscars of 1963), onde o diretor Ryan Murphy delicia os fãs do cinema com inúmeras recriações e referências (o plano-sequência de Crawford transitando entre os bastidores do Oscar é impecável) ao mesmo tempo em que usa tudo isso como munição para potencializar os conflitos internos das protagonistas. Enquanto uma vê seu sonho de ganhar um terceiro Oscar ser destruído pela colega (Crawford fez uma ampla e reconhecida campanha contra Bette após não receber uma indicação pelo mesmo filme), a outra encontra um falso e doentio conforto ao receber o Oscar de melhor atriz em nome de Anne Bancroft (O Milagre de Anne Sullivan), que superou o nome de Bette na disputa pela estatueta e não pôde comparecer à cerimônia devido a outros compromissos profissionais. A partir daí, é um soco no estômago atrás do outro, pois Feud: Bette and Joan não poupa esforços para mostrar o quanto envelhecer em Hollywood é algo extremamente doloroso para as mulheres em função da oferta quase inexistente de papeis e das humilhações que a indústria faz com que elas se submetam só para continuar trabalhando.

Vindo de uma trajetória vitoriosa na TV com American Horror Story, Jessica Lange brilha novamente como Joan Crawford. É pelo seu olhar que se desenvolve a trama de Feud: Bette and Joan.

Retratados como frouxos ou medíocres, mas devidamente explorados em suas dimensões, os homens da série tem papel fundamental nessa degradação. Se Jack Warner (Stanley Tucci), o magnata da Warner Bros., é inescrupuloso ao conscientemente jogar lenha na fogueira de Bette e Joan para conseguir promover mais um sucesso de bilheteria, Robert Aldrich (Alfred Molina), o diretor de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, prefere se enxergar como um homem inseguro e injustiçado ao ter que administrar tantas disputas no set e não como peça decisiva para acelerar ou frear a maliciosa engrenagem que coloca as atrizes em confronto. Ainda que muito do que as protagonistas colheram fosse fruto do que elas próprias plantaram (Joan especialmente tem um longo histórico de decisões destrutivas tomadas por pura vaidade e orgulho, como ter se recusado a promover Baby Jane junto a Bette, o que certamente influenciou sua indicação ao Oscar pelo filme), Feud: Bette and Joan jamais deixa de reforçar o fato de que elas são resultado inegável de um entorno que nunca foi generoso com qualquer uma das duas. É por isso que um episódio como Abandoned! dói tanto: o diálogo em que as duas atrizes, após uma discussão, baixam a guarda e se (re)conhecem na mesma situação de vida ao lembrar o quão prazeroso era sentir a alegria de serem as atrizes mais talentosas e bonitas de sua geração é de partir o coração. E, claro, um show de duas grandes intérpretes.

Por sinal, enfim chegamos a elas: Jessica Lange e Susan Sarandon, que encabeçam um elenco feminino excepcional. Dando orgulho a Bette e Joan não só pelas representações humanas e respeitosas dessas figuras, mas também por já passarem dos 60 anos com carreiras bastante ativas, Lange e Sarandon brilham em cena e são dignas de notas particulares. A primeira, que vem de um recente histórico vitorioso na TV com American Horror Story (foram dois Emmys pela antologia também criada por Ryan Murphy), abraça todas as imperfeições de Joan Crawford e torna a personagem crível mesmo quando fica difícil defendê-la em seus ataques de vaidade. Ela dá conta total da minissérie quando a trama se volta muito mais para sua percepção ao mesmo tempo em que estabelece um dinâmica sempre cercada de generosidade com Sarandon. Como Bette Davis, a colega de Lange é um milagre: além da semelhança física ao reproduzir filmes como A MalvadaPérfida, Sarandon capta a atriz de dentro para fora, trazendo à tona, com plena fidelidade e sensibilidade, a intensa personalidade que lhe era tão caraterística. Ao contrário do que a imprensa quis criar (Murphy diz ter sido procurado diversas vezes sobre uma possível inimizade entre as duas atrizes), estamos falando de uma dupla com pura sinergia. Juntas, elas são imbatíveis.

De forma mais racional, Feud: Bette and Joan tem lá suas fragilidades, como a artificialidade de encenar a gravação de um documentário onde atrizes como Olivia de Havilland (Catherine Zeta-Jones) e Joan Blondell (Kathy Bates) comentam a rivalidade do título da minissérie. O formato é artificial porque, além de subutilizar Kathy Bates (não há razão alguma para sua inclusão, já que ela sequer é introduzida na história de Bette e Joan), está ali apenas para fazer contextualizações (cinéfilas, na maioria das vezes), simplificar passagens do tempo e explicar determinadas situações que não são recriadas. Por outro lado, há de se entender que essa é uma ferramenta identificável e até necessária para os padrões da TV aberta, bem como o ajuste de fatos e datas para maior impacto dramático. Errado? De forma alguma. A obrigação com a fidelidade cirúrgica dos fatos pode ficar para os documentários, até porque Feud: Bette and Joan tem pleno domínio de suas emoções ao arquitetar aos ajustes honestos que faz. No embate entre as protagonistas, faz pensar. Já em qualquer momento de generosidade entre elas, consegue cortar até o coração mais pedregoso. Afinal, como o próprio título do episódio derradeiro indica ao relembrar uma frase clássica de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, elas realmente poderiam ter sido amigas durante todo aquele tempo.

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