Cinema e Argumento

45º Festival de Cinema de Gramado: “O Matador”, de Marcelo Galvão

O Matador é o primeiro filme Original Netflix produzido no Brasil. Foto: Pedro Saad/Netflix

Vá entender o porquê de tanta gente – público e crítica – ter inventando a tal polêmica em Cannes que discutia o valor de um filme a partir do fato de ele estrear ou não em uma sala de cinema. Curto e grosso, saio em defesa da plataforma – e, com toda humildade, não há argumento contra isso -, ao dizer o seguinte: prefiro mil vezes assistir a um filme que está na tela (seja ela qual for) exatamente da mesma forma que foi pensado em sua fase embrionária do que me deparar com uma obra que passou por dezena de produtores, sendo mutilada a cada decisão estritamente comercial com fins de distribuição só para chegar na tela grande. Esse, afinal, é o principal cerne da questão: a preferência pelo valor artístico, pela visão de um criador. Isso deve ser soberano, sempre. E a Netflix tem plena consciência disso.

Antes, em Cannes, OkjaThe Meyerowitz Sisters. Agora, em Gramado, O Matador, que faz sua primeira exibição nos 45 anos do festival serrano, mas sem reproduzir – com toda razão – as “polêmicas” que tomaram o célebre evento francês na edição deste ano. E o caso é novamente de acerto: em escala de produção e em construção de gênero (no caso, o faroeste), Marcelo Galvão, um habitué de Gramado com vitórias recentes pela comédia Colegas e pelo belíssimo drama A Despedida, faz de O Matador um divertido e competente western brasileiro. E isso se distancia do mero impacto de dimensões que o filme tem – o esmero técnico aqui é realmente de tirar o chapéu, da trilha super funcional assinada por Ed Côrtes ao design de produção de Zenor Ribas -, alcançando o plano do próprio conceito da história, uma vez que Galvão, também autor do roteiro, cria tramas e personagens muito particulares sem jamais trair o que o filme delimitou como crível e possível para aquele universo. Não há artificialidades aqui e muito menos o estofo raso de técnica e dramaturgia tão comum em longas que tentam emular gêneros bastante específicos.

Em termos estruturais, pontos para a acertada decisão de misturar elementos clássicos do gênero – as heranças malditas, as sucessões familiares, a morte como solução fácil – e ao mesmo tempo brincar, por exemplo, com os pontos de vista da trama, como na boa parcela do filme que se distancia do protagonista Cabeleira (Diogo Morgado) para contar uma outra história, sem que isso pareça dispersão do roteiro. Há ainda algumas surpresas divertidas, como um pequeno número musical com a portuguesa Maria de Medeiros. Primeiro longa Original Netflix produzido no Brasil, O Matador cimenta a impressão já sugerida anteriormente de que Galvão é um cineasta que, apesar de não ter a chamada “assinatura” que a crítica tanto adora tornar obrigatória na carreira de cineastas, encontra sua assinatura, justamente, na falta de assinatura. Transitar por todos os gêneros e mesmo assim manter uma boa média de qualidade exige talento, e é um feito alcançado por poucos. Galvão sai ganhando. E a Netflix também por ter a visão de apostar no projeto, que muito provavelmente não chegaria aos cinemas. Muito menos em um número digno de salas.

45º Festival de Cinema de Gramado #4: mostras competitivas começam nesta sexta-feira (18)

Ele pesa 3,5 kg e mede 28 cm, além de ser esculpido em bronze e não em ouro, ao contrário do que muita gente imagina. Ícone do Festival de Cinema de Gramado, a estatueta de cinema mais cobiçada do Brasil, o Kikito, está de aniversário junto ao seu evento: enquanto o Festival chega aos 45 anos, o Kikito comemora 50. E, a partir de hoje, sexta-feira (18), diversos cineastas do Brasil e da América Latina estarão na Serra Gaúcha para exibir seus filmes e, quem sabe, levá-lo para casa.

Ao que tudo indica, a disputa será de alto nível, com produções inteiramente inéditas no Brasil, algumas no mundo. Tem também a primeira produção original Netflix, sem falar de filmes que viajaram de Berlim a Locarno. E o que dizer da representatividade? Quatro dos sete longas brasileiros em competição levam a assinatura de cineastas mulheres. Entre as homenagens, Gramado ainda celebra um animador (Otto Guerra), uma “cantriz” argentina (Soledad Villamil) e dois atores amplamente reconhecidos por suas trajetórias no cinema brasileiro: Dira Paes e Antonio Pitanga.

O 45º Festival de Cinema de Gramado vem aí, e nós acompanharemos tudo diretamente da Serra Gaúcha. Não deixem de visitar o blog, pois contaremos tudo por aqui!

O Filme da Minha Vida

É hora de encontrar o mundo.

Direção: Selton Mello

Roteiro: Marcelo Vindicatto e Selton Mello, baseado no livro “Um Pai de Cinema”, de Antonio Skármeta

Elenco: Johnny Massaro, Vincent Cassel, Selton Mello, Bruna Linzmeyer, Beatriz Arantes, Martha Nowill, Erika Januza, João Prates, Rolando Boldrin, Antonio Skármeta

Brasil, 2017, Drama, 113 minutos

Sinopse: O jovem Tony (Johnny Massaro) decide retornar a Remanso, Serra Gaúcha, sua cidade natal. Ao chegar, ele descobre que Nicolas (Vincent Cassel), seu pai, voltou para França alegando sentir falta dos amigos e do país de origem. Tony acaba tornando-se professor, e vê-se em meio aos conflitos e inexperiências juvenis. (Adoro Cinema)

Todo mundo já esteve lá, e é bem provável que a sensação tenha sido a mesma: adentrar a vida adulta é mais doloroso do que esperávamos, mas também mais gratificante do que se poderia imaginar. Ainda que carregue o cinema no título e seja repercutido como uma obra sobre as rupturas de relações entre pais e filhos, O Filme da Minha Vida se debruça, na verdade, sobre esse rito de passagem que historicamente ganha traços tão nostálgicos, agridoces e delicados no cinema, seja antes ou agora (Educação Brooklin, dois filmes com interpretações femininas ímpares, são ótimas referências entre as produções contemporâneas nesse sentido). E Selton Mello, que chega ao seu terceiro longa-metragem como diretor depois dos sucessos de crítica de Feliz Natal O Palhaço, deixa agora a sua bela contribuição para uma temática que, mesmo depois de tanto tempo e tantos filmes, continua forte e universal, especialmente por causa da contribuição de obras como a dele.

Rodado em belos cenários da Serra Gaúcha, O Filme da Minha Vida consolida, em forma e conteúdo, toda a graça e o talento de Selton como diretor. A graça se dá pela segurança com que ele regula os mais diversos tons da história que conta, seja na doçura com que ele captura o encantamento de uma marcante paixão da adolescência ou nas pitadas de humor que poderiam resultar forçadas e dispensáveis em outros longas, mas que aqui são um alento muito bem-vindo a um relato centrado especialmente no abandono e no importante momento em que percebemos que o mais sensato é vencer determinadas dores e finalmente encarar o mundo como ele é. Já o talento está na consciência de que magia, ingenuidade e leveza não devem ser confundidas com mero exercício de estilo. Com isso, Selton entrega um filme quase lúdico, mas que sempre carrega um propósito e, principalmente, uma função dentro das discussões levantadas.

A técnica assina embaixo disso tudo, com destaque para a fotografia do mestre Walter Carvalho. Já são mais de 100 produções assinadas por ele, mas realmente impressiona como, mesmo depois de tanto tempo e tanto trabalho, Carvalho segue encantando com criações que unem uma estética irrepreensível a leituras que só um profissional talentoso como ele poderia fazer. Igualmente presente e fundamental para O Filme da Minha Vida é a trilha sonora de Plínio Profeta, que quebra aqui a maldição do cinema brasileiro de não conseguir fazer trilhas com melodias marcantes ou que sejam elementos narrativos em uma história. Faz até certo sentido o longa parecer por vezes bonito demais porque toda sua estética traz um tom nostálgico, agridoce, como se procurasse idealizar uma fase da vida que, na realidade, é bastante difícil. E o contraponto fascina, já que nem toda história calcada no drama precisa ser capturada com escuridão ou pessimismo. Às vezes, filmar a tristeza com beleza tem um efeito ainda mais potente (Tom Ford soube fazer isso como ninguém em Direito de Amar).

O Filme da Minha Vida é, enfim, recompensador por entender, com base no livro “Um Pai de Cinema, de Antonio Skármeta, a importância de transformar dores e frustrações em amadurecimento, e por isso mesmo é tão especial que a missão de protagonista da história tenho ficado a cargo de Johnny Massaro, um ator que está distante dos estereótipos de galã e que por isso se torna tão mais próximo do espectador, fazendo com que seu Tony Terranova seja personagem crível, identificável. Com pleno carisma, Massaro demonstra todo o talento que, apesar de exercitado em papeis muito distintos ao longo de sua carreira, talvez tenha ficado escanteado em papeis coadjuvantes de telenovelas globais como a juvenil Malhação. Ele é um protagonista à altura de um elenco muito bem escolhido, de Vincent Cassel a Martha Nowill, onde apenas quem não surpreende é o próprio Selton, interpretando novamente a si mesmo, sem variações. Entre tantos acertos, a situação é levemente desregulada pelo final, quando O Filme da Minha da Vida trata com significativa pressa uma conclusão que merecia dimensão muito maior. De resto, é uma obra que, como o próprio Selton diz, vem a calhar em tempos tão difíceis. Afinal, é sempre bom ver uma luz no fim do túnel.

O Estranho Que Nós Amamos

You’re our most unwelcome visitor, and we do not propose to entertain you.

Direção: Sofia Coppola

Roteiro: Sofia Coppola

Elenco: Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning, Colin Farrell, Oona Laurence, Angourie Rice, Addison Riecke, Emma Howard, Wayne Pére, Matt Story, Joel Albin

The Beguiled, EUA, 2017, Drama, 93 minutos

Sinopse: Virginia, 1864, três anos após o início da Guerra Civil. John McBurney (Colin Farrell) é um cabo da União que, ferido em combate, é encontrado em um bosque pela jovem Amy (Oona Laurence). Ela o leva para a casa onde mora, um internato de mulheres gerenciado por Martha Farnsworth (Nicole Kidman). Lá, elas decidem cuidá-lo para que, após se recuperar, seja entregue às autoridades. Só que, aos poucos, cada uma delas demonstra interesses e desejos pelo homem da casa, especialmente Edwina (Kirsten Dunst) e Alicia (Elle Fanning). (Adoro Cinema)

Ao longo de duas décadas trabalhando com cinema, a diretora Sofia Coppola alcançou um feito muito difícil: sair da sombra do pai, o consagrado cineasta Francis Ford Coppola, para criar uma identidade própria como realizadora. Foi além: já em As Virgens Suicidas, seu longa-metragem de estreia, Sofia conquistou um público cativo, que lhe alçou ao status de cult. Dali em diante, compilou trilhas sonoras irresistíveis para seus trabalhos e até ganhou um Oscar de melhor roteiro original por Encontros e Desencontros. Entretanto, a filmografia da diretora nunca chegou a estabelecer comigo uma relação das mais sólidas, especialmente no que se refere aos últimos três longas assinados por ela: o tedioso Um Lugar Qualquer, o mediano Bling Ring: A Gangue de Hollywood e o interminável A Very Murray Christmas, produzido com a Netflix. Dessa forma, nem mesmo o prêmio de melhor direção em Cannes fez com que eu criasse expectativas com O Estranho Que Nós Amamos, o primeiro remake da carreira de Sofia. Curiosamente, é bem provável que a combinação de não esperar muita coisa e o fato de não ter conferido o longa original dirigido por Don Siegel e estrelado por Clint Eastwood tenha sido o empurrão perfeito para chegar à sessão de braços abertos, uma vez que O Estranho Que Nós Amamos é o fprojeto da diretora que mais me convenceu e envolveu desde o pop Maria Antonieta, de 2006.

Segundo a própria Sofia, o que fez toda a diferença para que ela finalmente quebrasse o preconceito com a ideia de comandar uma refilmagem foi a possibilidade de pegar uma história contada do ponto de vista masculino e invertê-la para o feminino. É bem verdade que O Estranho Que Nós Amamos versão 2017 poderia ser um hino mais memorável em termos de feminismo, mas as leituras possíveis a partir de uma riquíssima mise-en-scène e das relações estabelecidas entre os personagens justificam a reconstrução proposta por esse remake. Se a tensão sexual claramente toma conta da primeira parte da obra, é também importante perceber que ela só é possível a partir do talento da diretora em fazer com que o soldado vivido por Colin Farrell se sinta encurralado perante aquelas mulheres, enquanto elas, a princípio, se descubram meramente intrigadas e atraídas por sua presença. O cômico dessa situação toda – e que revela muito da mediocridade masculina na vida como um todo – é que a “ameaça” feminina não tem embasamento factual algum, sendo apenas algo inventado pela fraqueza desse homem que, após sofrer um ferimento de guerra, se vê impotente e totalmente dependente delas (e a informação de que ele desertou dos combates para não morrer só reforça o quanto a frouxidão é traço característico de sua personalidade). Igualmente medíocre é a intolerância dele ao recriminar uma decisão drástica tomada pelas personagens quando, na verdade, ele deveria agradecê-las pela coragem frente a uma escolha tão definitiva e que, caso tomada por peritos do sexo masculino, ele obviamente interpretaria de maneira bem diferente.

Evocando assumidamente …E o Vento Levou no sentido de mostrar as mulheres sulistas dos Estados Unidos em tempos solitários de guerra, Sofia Coppola também torna todas essas leituras possíveis na maneira com explora o imenso casarão em que a trama é encenada. Imponente em tamanho, mas falido em termos de imagem frente a conflitos bélicos tão maiores, o cenário se torna mesmo intimidante para aquele homem porque as mulheres dominam cada centímetro da arquitetura: dos banquetes preparados nas cozinhas às portas que só se abrem e fecham sob o comando delas, o filme leva o espectador para dentro daquele universo tanto quanto qualquer um dos personagens. É inegável que as desculpas para que a permanência do tal soldado no casarão se prolongue dia após dia às vezes soam rasteiras, expositivas e quase forçadas, mas esse defeito é amplamente compensado pelo ótimo trabalho de elenco. Por mais que Elle Fanning não traga tanta dimensão a um papel que deveria ser muito mais do que a “aborrescente” que começa a sentir a sexualidade à flor da pele, Kirsten Dunst e, principalmente, Nicole Kidman imprimem personalidade a mulheres que que se complementam em suas diferenças. Já Colin Farrell, como a única figura masculina do filme, confere uma boa dualidade a um homem que comanda com segurança o seu charme, mas não está nem perto de saber lidar com suas incontroláveis fraquezas.

Se todos essas percepções podem realmente ser mera questão interpretativa, variando de olhar para olhar, o que não deve ser colocado em xeque é o talento de Sofia Coppola em desenvolver um dos seus melhores roteiros do ponto de vista estrutural. Em breves 93 minutos, O Estranho Que Nós Amamos é certeiro em cada conflito que sugere, cria, desenvolve e finalmente conclui. É um roteiro que impressiona por saber o timing ideal para cada um de seus acontecimentos, sem deixar que a trama se prolongue com conflitos que já foram claramente absorvidos ou que o texto frustre o espectador com conclusões rasteiras. Há ritmo e interesse aqui, o que certamente não era possível constatar nos últimos três filmes da diretora. Ainda que existam problemas pontuais, como a fotografia excessivamente escura (e que mais atrapalha do que confere alguma eficiência ao clima) e que faltem as criativas brincadeiras entre o clássico e o contemporâneo feitas em Maria Antonieta (lembram como era delicioso ver o Palácio de Versalhes ao som de The Strokes, Bow Wow Wow e The Radio Dept.?), O Estranho Que Nós Amamos volta a apresentar, depois de três filmes para lá de questionáveis, uma cineasta que justifica todo os seu status de cult e independência autoral.

Dunkirk

All we did was survive.

Direção: Christopher Nolan

Roteiro: Christopher Nolan

Elenco: Fionn Whitehead, Tom Hardy, Mark Rylance, Cillian Murphy, Barry Keoghan, Harry Styles, Kenneth Branagh, Damien Bonnard, Tom Glynn-Carney, Jack Lowden, Lee Armstrong

EUA, 2017, Drama, 106 minutos

Sinopse: Na Operação Dínamo, mais conhecida como a Evacuação de Dunquerque, soldados aliados da Bélgica, do Império Britânico e da França são rodeados pelo exército alemão e devem ser resgatados durante uma feroz batalha no início da Segunda Guerra Mundial. A história acompanha três momentos distintos: uma hora de confronto no céu, onde o piloto Farrier (Tom Hardy) precisa destruir um avião inimigo, um dia inteiro em alto mar, onde o civil britânico Dawson (Mark Rylance) leva seu barco de passeio para ajudar a resgatar o exército de seu país, e uma semana na praia, onde o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) busca escapar a qualquer preço. (Adoro Cinema)

O que acontece quando um diretor toma consciência de seus próprios talentos? Predominantemente, coisas ruins. O diretor indiano M. Night Shyamalan é um exemplo perfeito: a partir do momento em que se consagrou mundialmente com O Sexto Sentido, passou a ser refém de seus finais surpreendentes, tentando reproduzir, em praticamente todas as obras posteriores realizadas com a sua assinatura, a fórmula que o impulsionou ao estrelato e ao reconhecimento mundial. Em uma escala menor, mas com a papelada já devidamente encaminhada, Christopher Nolan vinha sofrendo do mesmo mal nos últimos anos. Tanto Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge quanto Interestelar tentavam maximizar, em todas as frentes, as narrativas complexas e engenhosas tão características de célebres filmes dirigidos por ele, como O Grande TruqueA Origem e os dois primeiros volumes de Batman. Só que a situação preocupava especialmente em O Cavaleiro das Trevas Ressurge Interestelar porque era cada vez mais evidente e irrefreável a sua inabilidade de síntese (o segundo, principalmente, fazia sentir – demais! – as suas quase três horas de duração). Mais do que isso, eram trabalhos que glorificavam equivocadamente a vontade de tornar engenhosas e mirabolantes tramas que, na prática, tinham pouquíssimo a dizer em termos de conteúdo ou que até mesmo se resolviam de forma muito manjada. O sinal vermelho já estava ligado para Nolan, e algo precisava ser feito.

E foi. Isso porque há também outra tomada de consciência importante e capaz de redefinir a carreira de um cineasta: a de parar, refletir, passar a caneta vermelha no que deu errado e tentar ajustar os erros constatados. Nesse sentido, voltamos a M. Night Shyamalan, que fez exatamente isso no recente Fragmentado, e agora atribuímos esse mesmo espírito de reavaliação ao que Nolan faz em Dunkirk, um filme que, logo de cara, toma uma sábia decisão: a de delimitar bem um relato de guerra com breves 106 minutos, o que, considerando a carreira de Nolan, é uma verdadeira demonstração de disciplina (esse é o primeiro longa dirigido por ele, desde Insônia, em 2002, que tem menos de duas horas de duração). É o pontapé inicial perfeito para um filme que, entre várias qualidades, ganha pontos mesmo por não tentar se ajustar ao gênero de guerra. Nada do que é visto em Dunkirk segue qualquer molde. Por isso, já coloque de lado a sua vontade de ver um filme repleto de contextualizações históricas, batalhas de longuíssimas durações e, claro, duração prolongada. Claro, direto e objetivo, Nolan, que dirige um roteiro de autoria própria, parece não se dar ao direito de perder tempo com firulas, transferindo toda a sua ambição para a técnica. Claro que isso pode ser interpretado como um problema que evidencia o quanto ele definitivamente é melhor diretor do que roteirista, mas, visto sob a luz das viagens estapafúrdias realizadas nas últimas obras e da ideia de que Nolan não larga da ideia de dirigir histórias próprias, aqui se revela como uma qualidade.

Em contramão, o diretor novamente falha no pouco em que tenta mostrar esperteza dramática de roteiro. O fato de Dunkirk, por exemplo, ser estruturado em três linhas temporais diferentes não faz diferença alguma, o que não tem nada a ver com o filme amarrar de forma previsível o encontro de seus três pontos de vista, mas com a própria ineficiência do artifício: dificilmente sentimos que Dunkirk acontece em três tempos diferentes. Tratando-se de conteúdo, ainda há a frustração de ver como o longa não consegue nos familiarizar com qualquer um dos personagens. É certo que Nolan aqui olha para o coletivo (a imensidão da guerra, as centenas de milhares de vida em jogo, o desconhecimento humano em cada uma das missões), mas é indiscutível que há a necessidade da proximidade, como na parte ambientada em alto-mar e estrelada pelo veterano Mark Rylance (em desempenho monocórdico e desinteressante). Mesmo com três ou quatro atores em um pequeno barco, nunca chegamos perto de conhecê-los a fundo (ou sequer lembrar seus nomes), sem falar das desculpas tortas criadas para criar algum tipo de questionamento dramático naquele convívio – e um acidente envolvendo um dos personagens é a exemplificação perfeita de como Nolan tem dificuldades em bolar simples conflitos dramáticos sem apelar para suas reconhecidas engenhosidades e jogadas narrativas.

Ainda assim, é preciso reconhecer a inteligência de Nolan em construir Dunkirk sem que o inimigo jamais seja mencionado ou visto. O perigo é invisível, e essa lógica de ameaça é o que faz os melhores filmes do gênero de terror tão fascinantes. É a partir dessa escolha, muito antes da técnica, que a imersão do longa funciona tão bem. Aqui, tiros podem vir nos momentos mais inesperados. Bombas chegam sem qualquer aviso prévio, seja por ar ou mar. E, por fim, o próprio ser humano também é perigoso frente ao desespero, mesmo que ele compartilhe a mesma trincheira do que seus companheiros de guerra. Toda essa percepção é amplificada pelo inegável talento do diretor em orquestrar cada elemento técnico como se sempre estivesse fazendo algo novo, imprevisível. E é de se estranhar que detratores reclamem tanto de Dunkirk ser um filme “barulhento” quando Mad Max: Estrada da Fúria, até pouco tempo atrás, também abusava tanto (e no bom sentido) dos elementos sonoros e estéticos para trazer uma adrenalina ímpar. Tudo é mesmo uma questão de percepção, pois Dunkirk é nervoso do jeito que é majoritariamente em função do seu trabalho de som, incluindo a trilha sonora de Hans Zimmer, que entrega composições responsáveis por cobrir praticamente todo o tempo de projeção. E o melhor: a trilha jamais resulta redundante, incômoda ou invasiva. Coisas que só mestres como Hans Zimmer conseguem fazer. E diretores bem relacionados com a técnica podem costurar.

Se Nolan não é roteirista dos mais brilhantes, certamente ele transfere seu talento como contador de histórias para os elementos técnicos, especialmente quando eles estão a favor de um texto que, apesar de falhas pontuais, tem fronteiras bem delimitadas. Ao extrapolar menos, o diretor de Dunkirk não perde sua personalidade (isso também é importante: de nada adianta tentar corrigir erros e perder a própria essência), entregando uma obra que, com ótica mais documental, prefere observar do que discutir uma época, uma guerra. Ao torná-la grande nos sentidos, muitas vezes esquece de dar espaço para alguma história ou emoção propriamente dita, dando a entender que o exercício formal e estético é mesmo mais soberano do que qualquer outra coisa. Dessa vez, por outro lado, ao contrário de como foi com Batman: O Cavaleiro das Trevas RessurgeInterestelar, é questão de identificação mesmo com o cinema do diretor, e não uma clara constatação de problemas difíceis de justificar. Há quem torne histórias grandes com um texto simples; outros que se dedicam ao poder da técnica e não ao do texto. Dunkirk se encaixa no segundo caso. E se não há como conciliar, como dizer que um estilo é melhor do que outro? Como valorar tudo isso? Cinema deve ser sempre o que gostaríamos que ele fosse e não o que ele é? Se Dunkirk deve ser considerado ou não um grande filme, eu ainda não sei. Mas, se levanta reflexões como essas, alguma coisa realmente deu certo.

Divinas Divas

Elas nunca foram estranhas pra mim.

Direção: Leandra Leal

Roteiro: Carol Benjamin, Leandra Leal, Lucas Paraizo e Natara Ney

Elenco: Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Eloína dos Leopardos, Fujika de Halliday, Marquesa, Brigitte de Búzios 

Brasil, 2017, Documentário, 110 minutos

Sinopse: Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Fujika de Holliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios formaram, na década de 1970, o grupo que testemunhou o auge de uma Cinelândia repleta de cinemas e teatros. O documentário acompanha o reencontro das artistas para a a montagem de um espetáculo, trazendo para a cena as histórias e memórias de uma geração que revolucionou o comportamento sexual e desafiou a moral de uma época. (Adoro Cinema)

Os debates envolvendo forma versus conteúdo normalmente são mais calorosos quando os documentários entram em pauta. Um grande personagem compensa uma direção tradicional? Uma narrativa mirabolante eleva às alturas uma fonte sem muito a dizer? Contudo, o que deveria realmente definir um documentário – e ser fator decisivo na hora de considerá-lo primoroso – é a coerência do olhar de um realizador para aquilo que está sendo colocando na tela. Com isso, você pode até dizer que Divinas Divas, trabalho de estreia da atriz Leandra Leal atrás das câmeras, remete tecnicamente às dimensões televisivas, mas jamais poderá questionar a plena compreensão emocional e histórica que ela tem das personagens que documenta. E por lançar um olhar respeitoso e humano para temas ainda tão espinhosos e figuras relegadas ao caricatural, ela faz com que Divinas Divas se torne uma obra profundamente comovente e necessária.

Partindo de um ponto de vista muito pessoal da diretora, que, por influências familiares, frequentava as coxias de teatro (e até subia aos palcos!) quando ainda era bebê, Divinas Divas, no entanto, está longe de ser uma obra que gira em torno do umbigo de sua realizadora. A generosidade de Leandra está em justamente abandonar vaidades para compreender que, apesar de sua conexão íntima com a história, esse não é um filme sobre ela e sim sobre oito artistas que aprendeu a admirar desde cedo, sem jamais ver estranheza na ideia de todos eles serem homens vestidos de mulheres. Essa sacada é importante porque já dá firmeza na própria concepção do projeto, que, aliás, quando coloca Leandra em cena através de narrações em off, o faz apenas para trazer contextualizações históricas ou para ampliar a percepção dramática do espectador em relação ao valor artístico e o legado emocional que as artistas retratadas deixaram para toda uma geração. 

Há também grandes desafios estruturais vencidos por Divinas Divas, como o de contemplar todas as figuras em cena sem confundir o espectador ou torná-las superficiais. Pelo talento de Leandra como contadora de histórias e pela forte personalidade do grupo reunido, isso jamais acontece: o filme, além de extremamente disciplinado em sua estrutura (mérito também da eficiente montagem de Natara Ney), distingue muito bem as personagens em cena – e ainda deixa o espectador sempre curioso para ouvir muito mais delas. Como filme coral, funciona que é uma beleza, inclusive porque a multiplicidade de olhares é a bola da vez: entre as protagonistas, tem a que foi internada pela família quando começou a se vestir de mulher, outra que está casada há mais de 40 anos, uma que tem o maior orgulho de não querer se casar com homem nenhum e até a que já está cansada de se vestir mulher e se caracteriza apenas para os palcos. Tem história para dar e vender.

A humanidade não escapa em nenhum dos prazerosos 110 minutos de Divinas Divas, o que está diretamente associado ao olhar certeiro da diretora citado no início desse texto. Normalmente tratadas como alívios cômicos ou meras caricaturas, as travestis aqui são vistas sob a luz do plano artístico. Elas cantam, dançam, interpretam, pensam figurinos, ensaiam coreografias, fazem sua própria maquiagem… Por que isso não há de ser reconhecido como arte? E por que hoje, com tanta liberdade artística e de expressão, ser quem elas realmente são se revela tão mais difícil do que antigamente? É tocante a cena em que uma das personagens defende, sem qualquer prurido, a prostituição como forma de sobrevivência porque basicamente não há alternativa de sustentação financeira para essa parcela da população que misteriosamente recebe cada menos prestígio como classe artística – e tampouco são é com normalidade para empregos perfeitamente corriqueiros. 

O que talvez seja mais bonito em Divinas Divas é o fato do documentário registrar a história, as conquistas, os sonhos e as frustrações de pessoas que assumiram sua identidade feminina e agora chegam à terceira idade com os dilemas de qualquer ser humano. Muitas delas estão mais jovens do que nunca, enquanto outras já estão com a idade estampada no corpo e no espírito. Se quando jovens a vida já era difícil para elas, o que acontece, então, quando chegam a esse ponto da existência? A sociedade é mais justa ou mais dura com elas? É apenas uma entre várias reflexões propostas pelo filme, que, com a dignidade que retrata figuras tão incríveis, faz com que instantaneamente o espectador enxergue e respeite cada uma delas com a maior naturalidade do mundo. Assim como deveria ser na própria vida.

45º Festival de Cinema de Gramado #3: os muitos “Brasis” de Dira Paes

Foto: Nana Moraes

Praticamente não há estado brasileiro que Dira Paes desconheça. Com mais de 40 filmes no currículo, a atriz paraense, que recebe este ano o troféu Oscarito do Festival de Cinema de Gramado por sua contribuição à produção audiovisual brasileira, talvez conheça o Rio Grande do Sul até melhor do que muitos gaúchos. “Somente em Anahy de las Misiones, estive em uma caravana cinematográfica que foi de Uruguaiana a Caçapava do Sul. O cinema me levou para o mundo e fez com que eu conhecesse e compreendesse um Brasil gigante e plural”, conta a homenageada. Aliás, essa é uma das tônicas de sua carreira: nas dezenas de papeis que já interpretou, Dira procurou conhecer as brasileiras dos diversos ‘Brasis’ que existem dentro do próprio Brasil, o que ajudou a moldar muito mais do que a sua trajetória profissional como uma das mais queridas intérpretes do Brasil. “Comecei a atuar aos 15 anos de idade, seguindo a mera intuição de uma jovem que queria abandonar a ideia da engenharia para ser atriz. Ao longo desse tempo – e por ser muito jovem também – o cinema ajudou a me criar: além de me dar uma carreira, teve papel fundamental na formação da minha personalidade”, afirma Dira.

Fôlego eclético

Hoje com 33 anos de carreira, ela ostenta um currículo de dar inveja: da comédia ao drama, passando por filmes populares e autorais, além de obras infantis (a sua mais recente descoberta), Dira trabalhou com importantes nomes da cinematografia nacional como Walter Lima Jr., Helvécio Ratton, Cláudio Assis, Breno Silveira e uma outra infinidade de nomes que a homenageada cita com entusiasmo. A carreira eclética, no entanto, não surgiu por acaso. “Eu sempre busquei essa multiplicidade. Atuar é um voo cego, você não sabe o que vai encontrar pela frente, mas acho que tenho essa disponibilidade de entender qual a vertente de um trabalho e segui-la, sem impor nada. Sou uma atriz que gosta de ser dirigida e tem prazer em ser colocada diante de desafios. Esse fluxo criativo que os personagens me oferecem é algo que sempre me apaixona”, revela.

Foi justamente a ânsia por papeis interessantes e desafiadores que fez Dira, em 2004, migrar também para a TV, onde estreou no papel da inesquecível Solineuza no seriado A Diarista. “Fui para a TV porque começaram a me oferecer bons papeis. E não tenho do que reclamar até agora: nesse curto espaço fazendo carreira na TV, sempre encontro nas ruas pessoas que citam meus personagens, e isso é um verdadeiro presente”, comemora. A ida para a TV, por outro lado, jamais distanciou Dira da tela grande. Pelo contrário. Inclusive, foi no ano da estreia de “A Diarista” que ela viveu um dos momentos mais marcantes de sua carreira: entre 2004 e 2005, voltou novamente ao Rio Grande do Sul para gravar Meu Tio Matou Um Cara, de Jorge Furtado, e ainda lançou Mulheres do Brasil e 2 Filhos de Francisco, que, na época, chegou a ultrapassar Carandiru como o filme de maior bilheteria da chamada retomada do cinema nacional. “Foi quando percebi que eu realmente tinha fôlego para aquilo tudo”, recorda a homenageada.

E que fôlego: dessa temporada em diante, vinte novos personagens ganharam vida nas mãos de Dira, uma estatística que, entre tantas outras, jamais se converte em qualquer tipo de fardo para a paraense. “Não sinto todo esse currículo nas minhas costas porque os personagens que interpretei não me pertencem. Eles são do cinema e do público brasileiro. É até clichê falar isso, mas a sensação é de um eterno recomeçar, de que sempre tem um novo filme ou um novo desafio pela frente”, avalia. Sobre o que está por vir, Dira aponta que seu coração busca projetos mais desarmados e autorais, onde possa ser surpreendida pelos talentos de um cinema brasileiro que, conforme observou ao longo dos últimos 33 anos, hoje estabeleceu um padrão de qualidade muito consolidado.

Uma observadora de si mesma

Já de viagem agendada para o Festival de Cinema de Gramado, Dira preserva um carinho muito especial pela cidade serrana. “Gramado me lembra cinema e também o público saudando os atores nas ruas. Todo mundo que faz cinema tem o maior orgulho de ganhar o Kikito, um prêmio que ecoa por todo o Brasil”, conta a atriz, que já teve seu trabalho consagrado duas vezes na Serra Gaúcha: em 2003, como melhor atriz coadjuvante, pelo longa Noite de São João, e em 2011, como melhor atriz, pelo curta Ribeirinhos do Asfalto.

Sobre a homenagem, ela diz que qualquer reconhecimento de Gramado vem sempre carregado de uma emoção muito grande, mas que o momento oferece a oportunidade de virar uma observadora de si mesma. “Além da honra e do orgulho, uma homenagem como essa traz um olhar de fora para dentro, onde você se revisita, se reavalia. É a oportunidade de observar tudo o que vivi e também de reforçar meus laços com o futuro, já que ainda pretendo viver muitas transformações através dos meus personagens”, projeta.

Dira Paes recebe o troféu Oscarito dia 25 de agosto no Palácio dos Festivais.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

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