Cinema e Argumento

A Guerra dos Sexos

I’m done talking. Let’s play.

Direção: Valerie Faris e Jonathan Dayton

Roteiro: Simon Beaufoy

Elenco: Emma Stone, Steve Carell, Sarah Silverman, Andrea Riseborough, Bill Pullman, Alan Cumming, Elisabeth Shue, Eric Christian Olsen, Fred Armisen, Martha MacIsaac, Lauren Kline, Mickey Sumner

Battle of the Sexes, EUA/Reino Unido, 2017, Drama/Comédia, 121 minutos

Sinopse: Uma disputa de tênis entre o ex-campeão Bobby Riggs (Steve Carell) e a líder da classificação mundial Billie Jean King (Emma Stone) se torna centro de um debate global sobre igualdade de gêneros. Presos sob a atenção da mídia e com ideologias diferentes, Riggs tenta reviver as glórias do passado, enquanto King questiona sua sexualidade e luta pelos direitos das mulheres. (Adoro Cinema)

Com uma grande dose de incredulidade, conferi A Guerra dos Sexos percebendo que, mesmo ambientado em meados da década de 1970, esse é um filme lamentavelmente atual. E é por isso que não deixa de ser estranho que o filme assinado por Valerie Farris e Jonathan Dayton, do icônico Pequena Miss Sunshine, tenha repercutido de forma tão morna tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil. Aliás, mais do que por suas questões temática, essa é uma injustiça também com as qualidades do filme em si, que, contado através de uma narrativa assumidamente tradicional, consegue se esmerar no formato com graça, inteligência e discussões dramáticas cercadas de sutilezas.

Encenando a história verídica de Billie Jean King (Emma Stone), tenista que lutou pela igualdade de gênero no esporte, participando, inclusive, de uma partida emblemática com o veterano Bobby Riggs (Steve Carell) que levou os Estados Unidos à loucura, A Guerra dos Sexos chega a ser inacreditável quando mostra a quantidade cavalar de ofensas direcionadas às mulheres não apenas no cotidiano esportivo, mas também em plena rede nacional, onde comentaristas do segmento afirmavam que o sexo feminino é inferior ao masculino simplesmente pela natureza menos resistente de seus portes físicos. Das piadas danosas aos comentários grosseiros, mulheres só eram vistas como pessoas relevantes no quarto ou na cozinha, o que, convenhamos, dependendo das circunstâncias, não é muito diferente nos dias de hoje.

Do ponto de vista cômico e dramático, esse embate efervescente seria primeira escolha como a linha de condução da história, mas A Guerra dos Sexos coloca os protagonistas em rota de colisão apenas no terço final para antes contar de forma paralela a trajetória individual de duas pessoas indiscutivelmente diferentes, mas também semelhantes na essência. Afinal, tanto Billie quanto Bobby encaravam o esporte como uma alternativa para duras realidade: enquanto ela mantinha um casamento de fachada ao mesmo tempo em que não conseguia florescer sua homossexualidade em tempos conservadores, ele era um desocupado que, agarrado a um passado de glória já distante, lidava com o fato de ser um apostador compulsivo sem jamais reconhecer o seu próprio problema.

A partir de um recorte específico, A Guerra dos Sexos se dedica muito mais à perspectiva de Billie, escolha que, uma vez ou outra, traz certas barrigas para o filme como um todo (seu romance com a cabeleireira toma tempo demais, quase tornando a história um relato sobre identidade sexual), mas que, no geral, é um grande acerto para dimensionar as dificuldades femininas em ambientes machistas. E se A Guerra dos Sexos não deixa de, em determinados momentos, apresentar discursos prontos, ao menos o faz com firmeza e bom humor, estando do lado mais interessante de uma trincheira cuja batalha principal, ao final do filme, será capaz de fazer com que o mais machão dos homens, de repente, também esteja torcendo pela vitória de uma protagonista reprimida por suas escolhas, por sua natureza e por seu próprio sexo.

Emma Stone, que aqui está tão boa, se não até melhor do que em La La Land: Cantando Estações, defende a personagem com admirável firmeza, sem cair em estereótipos ou no puritanismo de intérpretes que, por melhor que sejam, encarnam papeis gays com certa distância. Emma mergulha de cabeça: o primeiro encontro da personagem com sua futura paixão é capturado com delicadeza tanto pela atriz quanto pela dupla de diretores, ao passo em que o beijo lésbico da personagem é carregado com todo o medo e a aventura de uma importante descoberta como essa. Já Carell, que sempre foi um grande ator na TV com The Office e no cinema com A Grande ApostaFoxcatcher, citando dois títulos mais recentes, toma uma decisão sábia: ao invés de vilanizar Bobby Riggs, ele simplesmente o retrata como um homem demente e vulnerável, já que, ao final do dia, depois de tantas ofensas proferidas às mulheres, ele não conseguia viver sem o conforto emocional e financeiro de uma esposa que, ironicamente, mandava na casa.

Além da direção certeira de Farris e Dayton, que, pela primeira vez são creditados na tela com os nomes invertidos desde sua estreia em Pequena Miss Sunshine, há de se reconhecer o bom trabalho do roteiro assinado por Simon Beaufoy, de Quem Quer Ser Um Milionário? e de Em Chamas (o melhor capítulo da saga Jogos Vorazes), ao criar um texto que, mesmo linear e pouco surpreendente na forma, condensa um tema importante sem fazer com que a questão temática sintetize o filme em si (algo que já discuti, por exemplo, no texto de As Sufragistas, uma obra lembrada pela discussão que levanta e não por seus méritos cinematográficos). As bilheterias e as recepções mornas dizem o contrário, mas no que me toca, A Guerra dos Sexos, na medida do possível e de suas dimensões, tem uma receita bastante consistente para agradar ao público de biografias e dramédias bem contadas.

Rapidamente: “Certo Agora, Errado Antes”, “Corra!”, “Depois Daquela Montanha” e “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”

Narrando duas versões de uma mesma história de amor, Certo Agora, Errado Antes fala sobre reparações com delicadeza e bom humor.

CERTO AGORA, ERRADO ANTES (Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da, 2015, de Sang-soo Hong): Com delicadeza e bom humor, Certo Agora, Errado Antes fala sobre reparação usando uma estrutura que não deixa de testar o espectador em tempos em que a instantaneidade, o ritmo e e agilidade são tão reivindicados: aqui, acompanhamos duas versões de uma mesma história de amor, onde a grande sacada é justamente o roteiro mostrar como tudo na vida pode ser diferente a partir de decisões aparentemente corriqueiras. As diferenças entre as duas versões contadas ultrapassam o plano dos acontecimentos da história para brincar inclusive com a composição dos personagens, que se tornam pessoas completamente distintas quando enfrentam variações das mesmas situações. Até mesmo o ritmo de Certo Agora, Errado Antes se transforma entre os dois relatos, comprovando o talento do diretor Sang-soo Hong ao lidar com a proposta que foi trabalhada de perto com os atores: como forma de laboratório, os protagonistas só filmaram a segunda versão depois de assistir a primeira finalizada, com o objetivo de refletir afundo toda a composição do que ainda estava por ser rodado. Evocando os amores passageiros, por vezes impossíveis, que já foram belamente registrados em filmes mais recentes como Encontros e Desencontros e a trilogia Antes…, de Richard Linklater, Certo Agora, Errado Antes não deixa de, ao final da projeção e de sua própria maneira, também se tornar parte desse time.

CORRA! (Get Out, 2017, de Jordan Peele): Versando sobre o racismo em sua forma mais perigosa (a velada, onde uma família de classe alta formada apenas por pessoas brancas diz não ter preconceito algum, mas curiosamente só contrata empregados negros para cuidar da casa), Corra! é uma experiência surpreendente tanto em termos de sua solidez como filme de gênero quanto das discussões que traz à tona como um filme de terror que ancora seu medo não necessariamente na ameaça de mortos, serial killers ou criaturas indecifráveis, mas na forma amedrontada e paranoica com que o protagonista se vê obrigado a viver como um jovem garoto negro em uma sociedade que pode ser terrivelmente cruel com a sua cor. Tudo é tão crível que logo embarcamos na insegurança do personagem, que namora uma menina branca e que a acompanha em um fim de semana onde finalmente será apresentado aos pais da garota. Tudo vai aparentemente bem, até que logo fatos estranhos começam a acontecer, e é a partir daí que Corra! se torna um exercício de terror instigante: indo da hipnose a macabros procedimentos cirúrgicos, o filme, comandado por uma direção surpreendentemente segura do comediante Jordan Peele em seu primeiro longa-metragem, foi abraçado pela crítica, mas nem tanto pelo público que, arrisco dizer, acabou não embarcando no projeto por ficar apenas no corriqueiro processo de desvendar um mistério quando, na realidade, deveria se colocar em outra perspectiva para compreender que Corra! só utiliza os elementos de terror para canalizar algo que vai muito além do simples entretenimento.

DEPOIS DAQUELA MONTANHA (The Mountain Between Us, 2017, de Hany Abu-Assad): O diretor israelense Hany Abu-Assad já chegou a concorrer duas vezes ao Oscar de melhor filme estrangeiro: em 2005, com Paradise Now, e em 2014, com Omar. Entre um e outro,, rodou longas entre a Palestina e a Grécia, chegando agora aos Estados Unidos com Depois Daquela Montanha, adaptação do best seller homônimo escrito por Charles Martin em 2010. Se já é comum diretores estrangeiros estrearem em Hollywood sem muita sorte do ponto de vista criativo, imagine, então, quando eles são indicados a comandar adaptações de best sellers. É definitivamente o caso de Depois Daquela Montanha, espécie de filme-sobrevivência com toques de romance que não chega a causar maior comoção, seja na paixão ou na adrenalina. Não há problemas em seguir o passo a passo de um determinado tipo de história – e é exatamente o que acontece aqui -, mas quando falta senso de diversão ou força dramática, a indiferença toma conta. Parte dessa sensação vem, por exemplo, das interpretações apenas corretas e sem muitas faíscas de Kate Winslet e Idris Elba e da possibilidade de prever todo o desenrolar da  principal jornada emocional do filme, que também dificilmente nos faz acreditar que algo realmente radical pode acontecer aos protagonistas. Em suma, tudo é muito linear e empacotado para uma carreira junto ao grande público, contribuindo para as experiências cada vez menos enérgicas que o cinema comercial tem nos proporcionado.

HOMEM-ARANHA: DE VOLTA AO LAR (Spider-Man: Homecoming, 2017, de Jon Watts): A nova aventura do mais famoso herói aracnídeo pode não ser uma revolução ou sequer se equivaler aos dois primeiros filmes dirigidos por Sam Raimi, mas, ao contrário das versões estreladas por Andrew Garfield e Emma Stone, esse reboot pode ao menos encher o peito para dizer que tem personalidade própria. Dois fatores importantíssimos contribuem para esse mérito. Primeiro, claro, é o fato de Homem-Aranha: De Volta ao Lar se negar a contar pela milésima vez toda a origem do protagonista. Nessa nova versão, Peter Parker já é um herói bem ciente de seus poderes e de suas responsabilidades, o que resulta em uma bela economia de tempo para o filme e para o próprio espectador (o que não quer dizer que o filme deixe de comentar eventualmente o passado do protagonista). E segundo é incorporar sua essência sem qualquer medo, assumindo ser um filme basicamente jovem, cômico e repleto de referências. Dessa forma, por mais simples, passageiro e pouco criativo que seja na prática, Homem-Aranha: De Volta ao Lar prefere ser muito bem endereçado a um respectivo público ao invés de simplesmente tentar se camuflar em um universo de adaptações de quadrinhos que tentam ser algo maior do que realmente são. Além de tudo, o jovem Tom Holland, que já era uma revelação desde os tempos de O Impossível, cai como uma luva para o papel, compensando os vazios da aventura (não existe aqui sequer uma cena de ação mais marcante) e provando que é mesmo um dos novos nomes de Hollywood que devemos acompanhar de perto.

“Ozark”, uma pérola escondida no catálogo da Netflix

Evocando Breaking Bad apenas na questão temática, Ozark caminha com suas próprias pernas e dá o pontapé inicial para uma trajetória promissora na Netflix.

Há razão nas comparações feitas entre OzarkBreaking Bad, ambas séries sobre pais de família envolvidos em negócios ilegais e que precisam fazer mil malabarismos para administrar tanto as aparências quanto a vida como ela realmente é. O problema dessa comparação é que ela coloca Ozark em uma missão incrivelmente desleal: a de tentar sair das sombras de Breaking Bad, uma das séries mais mitológicas lançadas na última década. Fora isso, a comparação é equivocada porque o programa lançado em julho deste ano pela Netflix herda apenas a temática de Breaking Bad e porque ele jamais tem a pretensão de tentar se equiparar ao seriado de Vince Gilligan em estilo, ritmo ou visual. Dessa maneira, se você só consegue saborear Ozark tecendo comparações com Breaking Bad é porque está deixando escapar o mundo de qualidades que a autêntica série estrelada por Jason Bateman e Laura Linney tem a oferecer.

Atendo-se somente à superfície já é possível constatar o quanto Ozark é diferente de Breaking Bad: rejeitando firulas introdutórias, a série logo nos mostra um protagonista envolvido com o cartel mexicano em um grande esquema de lavagem de dinheiro. Isso quer dizer que seus negócios escusos não passarão pelo clássico arco da descoberta, pois é questão de pouquíssimo tempo para que a história revele o quanto a esposa é cúmplice do marido e o quanto ambos não nutrem prazer ou fascínio por aquilo que fazem, ao contrário do icônico Walter White de Bryan Cranston. Mas também sejamos justos: Quando bem trabalhadas, as introduções de jornadas facilmente reconhecíveis podem ser envolventes, mas, levando em consideração que Ozark é equivocadamente cobrada a partir de comparações com Breaking Bad, a objetividade se revela um ponto positivo para uma série que, passada a sua premissa mais básica, caminhará muito bem com as próprias pernas.

De estética coesa e narrativa disciplinada, o seriado alcança solidez com uma trama que não se preocupa em entregar momentos de catarse.

Partindo de um universo onde todos não são o que parecem ser, Ozark se debruça em um protagonista extremamente pragmático, que soluciona crises e desata nós de forma clínica, mesmo que, muitas vezes, lá no fundo, ele claramente esteja em desespero, como quando, já no episódio-piloto, descobre o caso extraconjugal de sua esposa, assunto que é tratado com economia e maturidade pela série. Por sinal, é na dinâmica de Martyn Byrde (Bateman) com a esposa Wendy (Linney) que Ozark defende as suas melhores qualidades: ao utilizar a traição como mecanismo para que Martyn e Byrde passem a ver um ao outro como meros sócios na gestão de um lar e parceiros no crime, Ozark, a partir dessa escolha, mais uma vez renega caminhos fáceis, o que não quer dizer que a traição deixe de despertar nos personagens os sentimentos conflituosos que eles acabam escanteando diante das decisões cada vez mais rápidas e instantâneas que são exigidas por seus negócios perigosos. 

Ao definir com verossimilhança seu universo particular, Ozark prefere agir com discrição, acertando na fervura branda que dá aos acontecimentos. Desprovido de momentos enérgicos em termos de suspense, mas extremamente sólido na consistência do estilo que adota, o seriado preserva a economia inclusive quando chega ao extremo de determinados conflitos, sem desqualificar a tensão inerentes a eles. A baixa fervura se reflete em uma parte técnica ao mesmo tempo simples e refinada: a nebulosa fotografia do trio Ben Kutchins, Michael Grady e Pepe Avila del Pino traz personalidade para a geografia física e emocional do seriado, assim como a trilha sonora assinada por Danny Bensi e Saunder Jurriaans acerta pelo minimalismo em que se mostra presente na trama, sem cometer o tão frequente equívoco de composições que pesam a mão na hora de sublinhar momentos que já falam por si só.  

Laura Linney e Jason Bateman: protagonistas no ponto perfeito de papeis que demandam o olhar comum e pragmático para situações que clamam pelo instinto.

O elenco ajuda a encenar esse american way of life que Ozark radiografa mais pelo cotidiano do que pelas reviravoltas, com destaque para pelo menos três atores: Jason Bateman, que, além de dirigir quatro episódios (boa parte deles entre os melhores da temporada), escapa da marca cômica registrada de sua carreira para criar um homem perfeitamente comum e cercado de dramas; Laura Linney, que sempre dispensou comentários, prova mais uma vez que serve para qualquer papel; e a jovem Julia Garner, que, como a geniosa Ruth, consegue criar uma personagem que aprendemos a temer pela imprevisibilidade e pelos impulsos, mesmo se tratando de uma simples adolescente criada em um ambiente essencialmente adulto e masculino (aliás, sua trajetória de autodescoberta é a mais interessante desenhada pelo roteiro).

Já renovada para uma segunda temporada, Ozark tem descompassos para ajustar até seu retorno, como as fragilidades resultantes de momentos em que os personagens partem do plano pragmático para as decisões tomadas em nome da emoção. Várias passagens desse primeiro ano soam um tanto artificiais quando os personagens dão guinadas menos racionais, em particular nos episódios derradeiros, onde, por exemplo, Ruth toma uma drástica decisão envolvendo sua família para beneficiar Martyn. A própria temporada se encerra com um nível até açucarado em sua lição familiar! Por outro lado, não é nada que abale as expectativas para o segundo ano, que, caso mantenha o nível desse primeiro, pode muito bem tornar Ozark uma das melhores séries que poucos descobrem no catálogo da Netflix.  

Bom Comportamento

Something happened. I don’t know exactly what.

Direção: Benny e Josh Safdie

Roteiro: Josh Safdie e Ronald Bronstein

Elenco: Robert Pattinson, Benny Safdie, Jennifer Jason Leigh, Barkhad Abdi, Taliah Webster, Necro, Peter Verby,  Saida Mansoor, Gladys Mathon, Rose Gregorio, Hirakish Ranasaki, Maynard Nicholl

Good Time, EUA, 2017, Drama, 101 minutos

Sinopse: O plano de Constantine Nikas (Robert Pattinson) era assaltar um banco e descolar uma boa quantia em dinheiro, mas nada sai como o planejado e seu irmão mais novo acaba sendo preso. Decidido a resgatá-lo, Constantine embarca em uma perigosa corrida contra o relógio, e onde ele mesmo é o próximo alvo da polícia. (Adoro Cinema)

Desde que estreou mundialmente na competição do Festival de Cannes deste ano, Bom Comportamento tem transformado a carreira do jovem Robert Pattinson, que, antes execrado (com toda razão) por seu desempenho apático e inexpressivo na saga Crepúsculo e em filmes como Água Para ElefantesPoucas CinzasBel Ami – O Sedutor, agora, de repente, desponta como um ator promissor (ele fez Cosmópolis, com David Cronenberg, onde também era elogiado, mas, ali sua palidez servia aos propósitos do personagem, o que não lhe dava muitos méritos). Entretanto, Pattinson, que realmente está revigorado em Bom Comportamento, é apenas a porta de entrada para que sejam descobertas todas as outras qualidades desse filme que é um entretenimento consistente, mas que, como todo bom filme de ação, ultrapassa a linha de perseguições, assaltos ou sequestros para narrar uma jornada emocional.

Sem precisar de discursos prontos, Bom Comportamento é desolador ao evocar destinos que, à parte o que se faça pelo caminho, já parecem traçados desde a maternidade: Connie (Pattinson) faz tudo com a maior das boas intenções em relação ao irmão mais novo, mas os resultados são sempre catastróficos, seja por suas escolhas atrapalhadas e impulsivas ou simplesmente pelo azar do próprio acaso. Prático, mas ansioso e tempestuoso, o protagonista vive, em menos de 24 horas, uma jornada onde parece não haver luz ao final do túnel. Tudo o que Connie executa de forma inegavelmente torta é para tentar mudar ou ao menos amenizar uma história que sempre lhe foi imposta – e se não for para ele que seja ao menos para o irmão, que já sofre tanto no mundo com suas próprias limitações (ao que tudo indica, ele sofre de algum nível de surdez, além de problemas mentais, o que não é muito bem explicado pela trama).

Para cada momento em que Connie parece ter finalmente acertado algum plano em uma busca desenfreada, há sempre consequências que tornarão sua trajetória novamente problemática, o que se revela uma dinâmica eficiente para que o longa se torne devidamente gastante (e, nesse caso, o adjetivo realmente deve ser interpretado como algo positivo). E não é só pela estrutura da história, contada de forma crua e quase rústica, que Bom Comportamento traz sentimentos incômodos: o estilo de direção dos irmãos Benny e Josh Safdie amplia a sensação de claustrofobia emocional com cenas filmadas basicamente em ambientes pequenos, escuros, e fechados. Até mesmo cenas de ação decisivas se configuram dessa forma, como a que conta com a participação de Barkhad Abdi em um parque de diversões desligado à noite e a de uma negociação envolvendo uma garrafa de ácido e um pitbull.

Com ritmo exemplar, Bom Comportamento é um filme elétrico, que, por vezes, causa mal estar ao não dar alento para um protagonista que está sempre em estado de alerta. E Robert Pattinson mergulha na proposta sem qualquer tipo de vaidade e com toda a segurança do mundo, sem mostrar qualquer tipo de hesitação ou limitação como em todas as obras anteriores de sua filmografia. Ainda que Bom Comportamento não seja um filme necessariamente de interpretação, é importante que o protagonista tenha presença em cena, o que definitivamente é o caso aqui. Pattinson é parte de tantos outros méritos que merecem ser descobertos e que minimizam as soluções eventualmente fáceis do roteiro, como os acasos um tanto impossíveis e que até exigem uma dose boa vontade do espectador (os policiais descuidados, as pessoas certas nos momentos certos, os golpes devidamente certeiros em situações de desespero). Mais do que continuar nessa batida de atuação, se Pattinson continuar optando por projetos assim, é de se esperar mesmo um futuro muito interessante para a sua carreira. Tomara que tenha aprendido com a colega Kristen Stewart.

Recarregando as energias

O corpo pede, a mente também, então vamos lá: hora de uma pausa para recarregas as energias. O blog vai tirar alguns dias de férias, mas espero, claro, contar com vocês quando for a hora de retornar. Até porque, retomando as atividades, o que teremos é filme de sobra para comentar por aqui. See you soon

Blade Runner 2049

Things were simpler then.

Direção: Denis Villeneuve

Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green, baseado nos personagens do romance “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, de Philip K. Dick

Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Edward James Olmos, Dave Bautista, Mackenzie Davis, Hiam Abbass, Wood Harris, Carla Juri, Sean Young

EUA/Reino Unido/Canadá, 2017, Aventura, 164 minutos

Sinopse: California, 2049. Após os problemas enfrentados com os Nexus 8, uma nova espécie de replicantes é desenvolvida, de forma que seja mais obediente aos humanos. Um deles é K (Ryan Gosling), um blade runner que caça replicantes foragidos para a polícia de Los Angeles. Após encontrar Sapper Morton (Dave Bautista), K descobre um fascinante segredo: a replicante Rachel (Sean Young) teve um filho, mantido em sigilo até então. A possibilidade de que replicantes se reproduzam pode desencadear uma guerra deles com os humanos, o que faz com que a tenente Joshi (Robin Wright), chefe de K, o envie para encontrar e eliminar a criança. (Adoro Cinema)

Blade Runner 2049 é, ao mesmo tempo, o pior e o melhor filme do diretor canadense Denis Villeneuve. O sentimento contraditório não está associado a comparações com o clássico Blade Runner, assinado por Ridley Scott na década de 1980, e sim às disparidades de ambição entre o trabalho de Villeneuve como diretor e o roteiro escrito pela dupla Hampton Fancher (também autor do filme original) e Michael Green (que já foi do céu ao inferno em uma carreira recente marcada por LoganAlien: Covenant). Enquanto o canadense tem uma visão digna da mitologia do longa anterior, o texto, em termos de história, conflitos e reflexões, não acompanha as dimensões do diretor. O resultado é uma obra que, a todo momento, tenta alçar voos muito maiores do que sua própria trama permite.

Emulando e expandindo o universo do filme original, Blade Runner 2049 reverencia suas origens com bastante respeito. É inadmissível dizer que Villeneuve rouba o filme para si ou que não há aqui o DNA do longa que marcou toda uma geração há mais de três décadas. Em contramão, a continuação talvez tenha sido tomada por um zelo excessivo: com uma trama de quase três horas que poderia facilmente ser contada em muito menos, Blade Runner 2049 desaponta dramaticamente quando nos voltamos para tudo aquilo que é desdobrado pelo roteiro na prática. São voltas e mais voltas para criar, desenvolver e concluir conflitos que não justificam tanta cerimônia, o que nada tem a ver com a espera por reviravoltas (que, sim, existem), mas com o equívoco de prolongar sequências, pistas e descobertas como se isso fosse sinônimo de contemplação.

Maçante, Blade Runner 2049 tinha tudo para ser, entre tantos outros temas, um lindo estudo sobre origens – as nossas, as de nossos antecessores ou as de quem está por vir, tanto humanos quanto replicantes -, mas isso de certa forma se dispersa porque o filme é um espetáculo colossal do ponto de vista técnico. Em uma obra de roteiro mais encorpado, seria a combinação perfeita, mas, nesse caso, apenas nos remonta ao descompasso citado no início do texto: depois de alguns dias, é muito mais fácil você lembrar de todo o poder de Villeneuve em criar uma verdadeira hipnose ao conjugar som e imagem com precisão do que da história propriamente dita.

À parte o roteiro, justiça seja feita: dificilmente você verá um filme mais impressionante em termos estéticos ao longo desse ano. Da fotografia imponente do mestre Roger Deakins, que cumpre com proeza o desafio mais grandioso de sua irrepreensível carreira, à trilha nada óbvia composta às pressas por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch após a saída do islandês Jóhann Jóhannsson (ao que tudo indica, por questões criativas), esse é um blockbuster que cria uma atmosfera como há muito não víamos – e o clímax quase subaquático justifica perfeitamente essa afirmação, sendo um verdadeiro arraso em construção visual e de tensão.

Por isso mesmo é de se comemorar que Ridley Scott tenha retornado ao universo de Blade Runner apenas como produtor. Tratando-se de um texto pouco expansivo, a sequência precisava de um realizador de visão, consistência e substância, características que Scott já perdeu há anos e que Villeneuve vem exercitando e pluralizando desde quando alçou repercussão internacional com o ótimo Incêndios. Minucioso na concepção de cada cena, o diretor termina por criar não um filme gélido ou distante por seu perfeccionismo, mas sim uma experiência altamente imersiva, onde fica fácil embarcar até na repetitiva ainda que eficiente composição de um Ryan Gosling que vive o protagonista como se ainda estivesse em Drive ou O Lugar Onde Tudo Termina.

O melhor/pior filme de Villeneuve realmente não reverbera de forma tão reflexiva (outros trabalhos assinados por ele como Os SuspeitosO Homem DuplicadoA Chegada dão um baile nesse sentido), mas não há o que se duvidar: independente do retorno das bilheterias, poucos diretores fazem valer cada centavo do investimento de um estúdio, principalmente em prol de um conceito, de algo diferente e autoral. Tenho mil restrições quanto à afirmação de que certos filmes devem ser vistos na maior tela possível – filme bom de verdade deve impactar tanto na TV da nossa casa quanto na tela de um IMAX -, mas, dessa vez, vou abrir uma exceção, pois, de fato, Blade Runner 2049 é um espetáculo técnico para marcar época.

Rapidamente: “Entreatos”, “Irmãs”, “It: A Coisa” e “Los Niños”

Lula a trinta dias do primeiro mandato como presidente do Brasil: em Entreatos, João Moreira Salles investiga o ser humano por trás da figura política.

ENTREATOS (idem, 2004, de João Moreira Salles): A realidade política brasileira anda tão conturbada e distorcida que dificilmente um filme como Entreatos seria feito hoje. Ledo engano se você pensa que isso tem apenas a ver com o fato do documentário de João Moreira Salles ser sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Antes de tudo, a grande questão do problema reside na forma: como falar sobre o lado íntimo e particular de um grande político quando o sistema tem sua reputação questionada dia após a dia? Lá atrás, em 2004, João Moreira Salles trabalhou pelo viés dos bastidores humanos não para se esquivar de questões políticas, mas sim para, em força cinematográfica, explorar o diferente lado de uma figura pública que é riquíssima nessa leitura. Afinal, Lula, além de autorizar a livre circulação da equipe de Entreatos pelos bastidores da campanha política que o levou à presidência do Brasil, é o tipo de personagem que interrompe uma entrevista durante um voo para contemplar a beleza da lua cheia. É em momentos pequenos como esse, mas que revelam muito sobre uma figura amplamente reconhecida por seu carisma, que Entreatos envolve muito mais do que qualquer relato histórico ou político. Inicialmente planejado como um registro da vida pública de Lula durante sua chegada à presidência, o documentário mudou seu ponto de vista quando Salles percebeu que não eram necessariamente os comícios e conversas com multidões que faziam de Entreatos um documentário preciso. E ele estava coberto de razão.

IRMÃS (Sisters, 2016, de Jason Moore): Todos os elogios possíveis já foram feitos à dupla Tina Fey e Amy Poehler – e eles são inquestionavelmente merecidos -, mas é realmente um mistério o que levou essa dupla divertidíssima a embarcar em um projeto tão errado quanto Irmãs. É claro que repetir a parceria à frente das câmeras deve ser sempre uma atrativo para as duas, o que, por outro lado, não justifica a tamanha falta de senso crítico de investir em uma comédia incrivelmente longa, arrastada, repetitiva e sem assunto. É um fiapo de história porque o filme não faz nada além de colocá-las em cena como duas irmãs incrivelmente diferentes que estão prestes a se despedir da casa onde foram criadas na infâncias. Se a pegada da comédia já é pobre por si só (quem diria que Fey e Poehler um dia topariam fazer um humor tão gráfico e escatológico?), não há muito o que se esperar do roteiro escrito por Paula Pell, profissional com larga experiência na TV em programas como Saturday Night Live e o próprio 30 Rock criado por Fey, mas que aqui parece ter perdido qualquer senso crítico ou respeito por sua própria carreira. Acreditando que basta juntar duas atrizes do calibre das protagonistas para que uma comédia tenha graça, Pell não sabe muito bem o que dizer com Irmãs, já que o filme não passa de um amontoado de cenas sem muita conexão do ponto de vista narrativo ou da própria construção de humor. Bagunçada, a experiência se agrava, por fim, com a total falta de timing do diretor Jason Moore, que alcança o feito aparentemente impossível de tornar duas horas com Tina Fey e Amy Poehler um verdadeiro tédio.

IT: A COISA (It, 2017, de Andy Muschietti): Um dos hits de 2017, It: A Coisa estremeceu os nervos de muitas plateias com o palhaço Pennywise. Há até quem não tenha poupado hipérboles, como o diretor canadense Xavier Dolan, que classifica esse suspense como “o filme do século”. Pela milésima vez, bato na tecla de que não há nada mais desinteressante do que ver um filme de terror que prioriza a linguagem gráfica à construção de clima, mas, ao que parece, essa pegada, além da garantia de fartas bilheterias, tem se reforçado na assinatura de vários realizadores. Um deles é Andy Muschietti, que tinha feito o pavoroso Mama, em 2013, com Jessica Chastain, e que novamente não esconde sua predileção pelo formato. Do lado de cá, sigo não embarcando na proposta, onde as mil formas assumidas pelo palhaço Pennywise sequer chegam perto de me causar as angústias inerentes ao gênero. Do ponto de vista temático, as influências e referências oitentistas são muito bem trabalhadas (e, em tempos exitosos do seriado Stranger Things, que bebe justamente dessa fonte, o público não sairá desapontado), com destaque para o talentoso quarteto de jovens atores que protagoniza a trama, todos simpaticíssimos, carismáticos e que, em momento algum, colocam em xeque a nossa entusiasmada torcida por eles. Graças a cada um desses pequenos atores, consegui estabelecer pelo menos uma conexão afetiva com um suspense que, em termos de tensão e exercício de gênero, passou longe de cativar.

LOS NIÑOS (idem, 2017, de Maite Alberdi): Vencedor do prêmio especial do júri no 45º Festival de Cinema de Gramado, o chileno Los Niños é um longa  de percepção rara: nele, a Síndrome de Down é vista por quem nasceu com ela e não por seus familiares, professores ou médicos, o que imediatamente o distancia de obras da mesma temática e de formato mais clássico, como o documentário brasileiro Do Luto à Luta e o drama O Filho Eterno, baseado no romance homônimo de Cristóvão Tezza. Para um longa, talvez o formato seja um tanto limitador: focando-se apenas nos personagens com Síndrome de Down, Los Niños ganha em bom humor, leveza e humanidade – inclusive na linha tênue que estabelece entre ficção e documentário para a sua substância dramática -, mas, transcorrida a primeira metade, a obra não tem muito para onde expandir os dilemas versados apenas pelos próprios personagens e sem a contraposição de suas reivindicações. Dessa forma, quando Los Niños retrata a dor de pessoas quase amam mas não podem estabelecer qualquer vínculo matrimonial por, de acordo com a lei, não saberem distinguir verdades, vontades e realidades, ficamos na metade do caminho ao ouvir somente quem sofre com essa imposição. Até determinada parte, é comovente, mas, conforme o filme avança, a discussão estaciona.

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