Cinema e Argumento

Na coleção… Johnny & June

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Tanto Johnny Cash (Joaquin Phoenix) quanto June Carter (Reese Witherspoon) eram estranhos dentro de suas próprias casas antes de alcançarem o estrelato no mundo da música. Ele, que vivia com uma mãe submissa, um pai alcoolista e à sombra do bondoso irmão, teve que abandonar o convívio familiar em uma longínqua fazenda do estado de Arkansas, nos Estados Unidos, para construir sua própria história depois da trágica e precoce morte do irmão, cuja culpa sempre lhe foi atribuída equivocadamente pelo pai. Já June Carter não veio de um ambiente tão conturbado, pois, desde criança, já sabia o que era o sucesso cantando com a irmã Anita nas rádios. O senso de não pertencimento, no entanto, era o mesmo que consumia Cash, uma vez que June sempre soube que a agraciada com grande talento vocal na família era a irmã, o que, segundo ela, levou-lhe a “fazer graça” nos palcos para que fosse notada de alguma forma. Não há dúvidas de que Johnny & June é infinitamente mais sobre Johnny Cash do que sobre June Carter, mas é a partir do encontro dessas duas histórias que o filme de James Mangold constrói a sua maior força: a de que o amor – o verdade mesmo, não o nascido a partir de conveniências ou do que os outros esperam – é realmente capaz de transformar carreiras, caminhos e pessoas.

Assim como o próprio filme, a mensagem não deixa de ser batida, mas tudo em Johnny & June é bem executado, o que se revela uma ótima surpresa quando é difícil encontrar biografias que assumam uma personalidade tradicional e ainda assim consigam empolgar de alguma forma. Tudo o que já conhecemos a respeito de uma produção nesse formato está presente aqui: a vontade de abarcar a maior quantidade de fatos possíveis, a clássica pegada motivacional para falar sobre um sujeito de origem humilde que conquista a fama aparentemente impossível, os percalços com drogas e bebidas e até a jogada de começar o filme pelo desfecho. Por isso faz a diferença ter um diretor como James Mangold atrás das câmeras. Com uma carreira marcada por vários projetos interessantes (IdentidadeOs Indomáveis Garota, Interrompida), Mangold nunca construiu uma assinatura em seus trabalhos, mas a experiência nos mais diversos gêneros influencia diretamente a segurança narrativa encontrada nesse filme. Ele, que também escreveu o roteiro em parceria com Gill Dennis, nunca torna Johnny & June um relato atropelado da vida de Johnny Cash, especialmente porque o longa dá conta por completo da personalidade do cantor norte-americano.

A duração excessiva permite que Johnny & June transpareça suas formalidades e seus eventuais descuidos, como o de nunca apresentar devidamente a dupla que começa a carreira com o protagonista e depois simplesmente ou a verdadeira personalidade da primeira esposa do cantor que é reduzida a ser a filhinha do papai cuja única função dramática é cuidar da casa e chorar pelo afastamento do marido. Tudo é amplamente compensado por um longa bem sucedido na construção de seu repertório musical (são apenas 11 as músicas interpretadas pelos protagonistas, e quase todas executadas apenas parcialmente) e que a todo momento nos leva ao que mais impressiona em todo o conjunto: a impecável interpretação de Joaquin Phoenix. Em mais um dos tantos momentos que nos lembram das razões de seu nome ser considerado um dos melhores em atividade, Phoenix dá literalmente voz e alma para um Johnny Cash extremamente crível e que ultrapassa qualquer acomodação envolvendo a mera reprodução de trejeitos tão corriqueira em cinebiografias. Reese Witherspoon, que, assim como Phoenix, também canta e toca todos os instrumentos em cena, é uma graça e tem sua parcela de contribuição para o ótimo romance do filme (o que, por outro lado, em nada justifica seu equivocado Oscar de melhor atriz). Entretanto, o show é mesmo de Phoenix nesse longa de emoções sinceras e que ainda segue um pouco mais com o espectador após a sessão: é impossível não recorrer à trilha sonora de tempos em tempos.

Na coleção… À Deriva

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Crianças e adultos sentem o tempo de forma muito diferente, e esse é um material riquíssimo para qualquer dramaturgia. À Deriva, dirigido por Heitor Dhalia em 2009, captura bem a tese ao trabalhar dois pontos de vista bastante distintos nesse sentido. Enquanto um veraneio em Búzios, no Rio de Janeiro, pode ser apenas uma pequena temporada de reflexões e discussões para que Clarice (Débora Bloch) e Matias (Vincent Cassel) tentem ajustar os ponteiros de um casamento em pedaços, é bem provável que a jovem Filipa (Laura Neiva), de 14 anos, sinta as semanas veranis como uma difícil e inconsciente jornada de amadurecimento rumo a respostas que só as dores da vida podem trazer. Os pais da garota não se atentam tanto a essa disparidade de tempos enquanto vivem momentos derradeiros de um casamento falido, mas Filipa, cercada por todos os questionamentos da transição para a vida adulta, sabe muito bem o que acontece em casa, o que só amplia a confusão emocional de uma temporada na praia que, em alguns dias, sintetiza o emocional de todos os membros da família.

Exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, À Deriva é o exemplo máximo da sofisticação estética e narrativa do diretor pernambucano Heitor Dhalia, que, antes desse filme estrelado pela estreante Laura Neiva e pelos já conhecidos Débora Bloch e Vincent Cassel, havia dirigido NinaO Cheiro do Ralo. No roteiro escrito por ele, com colaboração de Vera Egito, o contexto e a desintegração familiar ganham frescor porque são narrados a partir do ponto de vista da filha do casal. Ao mesmo tempo em que acompanha o atrito entre os pais e secretamente descobre a infidelidade de um deles, a jovem precisa lidar uma adolescência que cada vez mais lhe impõe interesses amorosos e o inevitável desabrochar sexual. Muito à frente do tempo de seus amigos, ela, por de certa forma tomar consciência dessa sua evolução, acha que entende tudo da vida – e essa interpretação errada do que é de fato conhecer a vida lhe coloca equivocadamente a missão de tentar fazer alguma diferença dentro de casa, onde pensa que pode – e deve – influenciar determinadas resoluções que simplesmente estão fora de seu alcance.

Heitor Dhalia, que, logo após a realização de À Deriva viajou aos Estados Unidos para fazer o já esquecido 12 Horas com Amanda Seyfried, só ganha ao transferir a interpretação dos dramas para os olhos de Filipa, até porque, caso contado a partir de visões independentes dos núcleos, o resultado poderia ser dos mais mornos. E o saldo positivo não é apenas na questão do texto: Laura Neiva é espetacular como a garota que pode até não ter a nossa simpatia, mas cujos conflitos nunca despertam indiferença. Em seu primeiro trabalho no cinema (ela, infelizmente, não alcançou o reconhecimento que merecia, inclusive na TV), tira de letra um papel repleto de desafios e não fica devendo nada aos também ótimos Débora Bloch e Vincent Cassel. De estética impecável (não são apenas as belíssimas paisagens de Búzios que engrandecem a fotografia do já falecido Ricardo Della Rosa), À Deriva ecoa após a sessão, claro, pela linda e inesquecível trilha sonora de Antonio Pinto, e, acima de tudo, pela forma franca e natural com que transforma temas essencialmente convencionais em momentos pequenos, mas únicos em suas particularidades.

Questão de golpe

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Que vergonha Aquarius não ter sido escolhido para representar o Brasil no Oscar. De verdade.

Não há como amenizar a situação. Muito menos com o discurso de que ainda não vimos Pequeno Segredo para julgar (e isso também não foi por acaso). A Despedida, por exemplo, que estava no páreo, por mais belo que fosse, não merecia desbancar o filme de Kleber Mendonça Filho.

E é muito simples o porquê. Estamos falando de um Aquarius que concorreu em Cannes (nada menos que o festival de cinema mais importante do mundo) e que, desde lá, consagrou-se como um grande filme, inclusive com torcidas para dar uma indicação ao Oscar de melhor atriz para Sonia Braga.

Ah, e também tem Sonia Braga, ícone de nosso cinema que se tornou nome internacional e há 25 anos mora em Nova York. Essa mesmo que a imprensa internacional saudou como a dona da melhor interpretação feminina de Cannes em 2016 (e que o júri resolveu ignorar).

Pode ser que Pequeno Segredo realmente seja bom, mas, para um filme que ninguém conhece e que até os cinéfilos mais dedicados tiveram que fazer uma pesquisa no Google para conhecê-lo, suas credenciais em nada se assemelham com as de “Aquarius”.

Essa escolha não é exclusivamente questão de qualidade do filme, mas também de chances, estratégias e venda no mercado exterior. Já no caso do Brasil, é questão de golpe mesmo, mais do que nunca. Ou vocês acham que, caso concorresse esse ano, Que Horas Ela Volta?, dedicado aos ex-presidentes Lula e Dilma pela diretora Anna Muylaert, também não seria esnobado? Fora Temer!

44º Festival de Cinema de Gramado #11: uma premiação justa (ou pelo menos coerente)

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Os vencedores do 44º Festival de Cinema de Gramado. Em uma cerimônia pautada por prêmios justos ou pelo menos coerentes, Barata Ribeiro, 716, de Domingos Oliveira, foi o melhor filme.

Foi no último dia de competição que o grande vencedor do 44º Festival de Cinema de Gramado deu as caras. Barata Ribeiro, 716, de Domingos Oliveira, encerrou a programação do evento serrano, consagrando-se, no dia seguinte, nas categorias de melhor filme, direção, atriz coadjuvante (Glauce Guima) e trilha sonora. Tive dificuldades em embarcar nessa obra em preto e branco mais saudosista e gordardiana de Domingos que completa sua trilogia sobre a juventude carioca dos anos 1960 iniciada em Edu, Coração de Ouro e sequenciada em Todas as Mulheres do Mundo. Lembro de ter me divertido muito mais com Infância, citando um trabalho do diretor mais recente, mas a vitória tem lógica inquestionável porque é um filme memorialístico que finalmente consagra o diretor e roteirista no evento (apesar de ter muitos Kikitos em casa, Domingos nunca havia faturado a categoria de melhor filme). Também fico feliz porque, ao contrário do que se poderia apostar, o júri não fugiu para o drama em um ano marcado por comédias.

Mais do que isso, essa foi a premiação mais coerente em anos no Festival de Cinema de Gramado. Ainda nas comédias, foi gratificante ver o reconhecimento ao divertido O Roubo da Taça que surpreendentemente – e não de forma injusta – faturou o prêmio de melhor ator para Paulo Tiefenthaler que todos (inclusive eu) davam como certo para Leonardo Sbaraglia (O Silêncio do Céu) ou até mesmo Caio Blat (Barata Ribeiro, 716). É sempre gratificante a celebração do gênero, principalmente em uma situação como essa, já que O Roubo da Taça precisa quebrar preconceitos por adotar um humor certeiramente caricato e frequentemente desprezado. O filme assinado por Caíto Ortiz também levou para casa os Kikitos de melhor roteiro, direção de arte e fotografia (os dois últimos são particularmente merecidos). O único filme a sair de mãos abanando – com toda razão – foi Tamo Junto, de Matheus Souza. Por mais que goste de Leandro Soares (o único aspecto realmente louvável do longa), não havia chances para ele na categoria.  

O que reivindico na lista de vencedores de longas-metragens é maior amor por O Silêncio do Céu, que, se dependesse do júri oficial, levava apenas a categoria de desenho de som e um prêmio especial como consolação. Por sorte, o troféu da crítica consagrou o filme de Marco Dutra, que, na minha lista pessoal, poderia muito bem ter se saído vitorioso em melhor filme e direção, no mínimo. Já Elis, estranhamente bem recebido (deve ser o afeto pela cantora e pela exibição em sua terra natal, já que a cinebiografia é uma bagunça só), conquistou a categoria de melhor montagem e outra que já era dada como certa desde sempre: melhor atriz para Andreia Horta. Abrindo meu coração, digo que o filme me incomoda tanto que tenho até dúvidas se não gosto mais da irresistível Taís Araújo em O Roubo da Taça do que da própria Horta.

Entre os curtas, não deixo de lamentar o total esquecimento de Aqueles Anos em Dezembro, de Felipe Arrojo Poroger. Não gosto tanto de Enquanto o Sangue Coloria a Noite, Eu Olhava as Estrelas, apresentado por ele ano passado em Gramado na mesma mostra, mas me comovi demais com seu novo curta, que une afeto, criatividade e apuro técnico em uma química instigante. Rosinha, o grande vencedor, é muito simpático e carinhoso, mas não vejo nada além disso (o que não quer dizer que seu apelo não seja compreensível). No mais, gosto bastante do reconhecimento para Aqueles Cinco Segundos (em especial o prêmio para a ótima Luciana Paes, que já era uma revelação em Sinfonia da Necrópole!) e creio que houve mobilização demais para Super Oldboy, que levou mais prêmios do que merecia. No geral, no entanto, a premiação do 44º Festival de Cinema de Gramado ocorreu sem surpresas mais desagradáveis – e o mais importante: é impossível dizer que a maioria dos prêmios foi injusta ou sem lógica. Vindo de um histórico recente que nos reservou o prêmio principal para A Estrada 47 em ano de A DespedidaSinfonia da Necrópole, é para sair de alma lavada.

Confira abaixo a lista completa de vencedores (incluindo os da mostra latina, que não comentei por só ter conferido o bom filme uruguaio Las Toninas Van al Este, mas cuja lista tem a bela surpresa de ter um filme gay premiado pelo júri popular, o que é muito simbólico!):

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Barata Ribeiro, 716, de Domingos Oliveira
MELHOR DIREÇÃO: Domingos Oliveira (Barata Ribeiro, 716)
MELHOR ATRIZ: Andréia Horta (Elis)
MELHOR ATOR: Paulo Tiefenthaler (O Roubo da Taça)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Glauce Guima (Barata Ribeiro, 716)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Bruno Kott (El Mate)
MELHOR ROTEIRO: Lucas Silvestre e Caíto Ortiz (O Roubo da Taça)
MELHOR FOTOGRAFIA: Ralph Strelow (O Roubo da Taça)
MELHOR MONTAGEM: Tiago Feliciano (Elis)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Domingos Oliveira (Barata Ribeiro, 716)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Fábio Goldfarb (O Roubo da Taça)
MELHOR DESENHO DE SOM: Daniel Turini, Fernando Henna, Armando Torres Jr. e Fernando Oliver (O Silêncio do Céu)
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Elis, de Hugo Prata
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: O Silêncio do Céu, de Marco Dutra
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: O Silêncio do Céu, pelo domínio da construção narrativa e da linguagem cinematográfica

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

MELHOR FILME: Guaraní, de Luis Zorraquín
MELHOR DIREÇÃO: Fernando Lavanderos (Sin Norte)
MELHOR ATRIZ: Verónica Perrotta (Las Toninas Van al Este)
MELHOR ATOR: Emilio Barreto (Guaraní)
MELHOR ROTEIRO: Luis Zorraquín e Simón Franco (Guaraní)
MELHOR FOTOGRAFIA: Andrés Garcés (Sin Norte)
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Esteros, de Papu Curotto
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Sin Norte, de Fernando Lavanderos
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Esteros, pela direção delicada e inteligente da história de amor dos atores mirins.

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
MELHOR FILME: Rosinha, de Gui Campos

MELHOR DIREÇÃO: Felipe Saleme (Aqueles Cinco Segundos)
MELHOR ATRIZ: Luciana Paes (Aqueles Cinco Segundos)
MELHOR ATOR: Allan Souza Lima (O Que Teria Acontecido ou Não Naquela Calma e Misteriosa Tarde de Domingo no Jardim Zoológico)
MELHOR ROTEIRO: Gui Campos (Rosinha)
MELHOR FOTOGRAFIA: Bruno Polidoro (Horas)
MELHOR MONTAGEM: André Francioli (Memória da Pedra)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Kito Siqueira (Super Oldboy)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Camila Vieira (Deusa)
MELHOR DESENHO DE SOM: Jeferson Mandú (O Ex-Mágico)
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Super Oldboy, de Eliane Coster
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Lúcida, de Fabio Rodrigo e Caroline Neves
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Elke Maravilha (Super Oldboy) e Maria Alice Vergueiro (Rosinha), pela contribuição artística de ambas
PRÊMIO AQUISIÇÃO CANAL BRASIL: Rosinha, de Gui Campos

44º Festival de Cinema de Gramado #10: “O Roubo da Taça”, de Caíto Ortiz

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O Roubo da Taça é uma comédia assumidamente escrachada – e é exatamente essa consciência que faz o filme de Caíto Ortiz dar certo.

No catálogo oficial do 44º Festival de Cinema de Gramado, o trio de curadores formado por Eva Piwowarski, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho escreveu que talvez a característica mais interessante da seleção de longas brasileiros deste ano seja a de vencer o preconceito de um passado distante com as comédias e provar que o evento serrano também sabe fazer rir. O comentário é pertinente porque a dificuldade da crítica em levar um filme cômico a sério é grande – e isso é histórico no mundo inteiro, inclusive no Oscar, onde raramente uma comédia consegue faturar alguma estatueta além das categorias de roteiro e atores coadjuvantes. Em Gramado, O Roubo da Taça, que está no grupo de filmes que os curadores selecionaram para quebrar essa barreira, é frequentemente rejeitado pelos críticos por não ser “um filme de festival” (comparação curiosamente feita somente às comédias), o que comprova que muito ainda precisa ser discutido sobre a apreciação do gênero.

Longe de mim dizer que O Roubo da Taça se assemelha a trabalhos como o norte-americano Pequena Miss Sunshine ou o portenho Relatos Selvagens, exemplos perfeitos de comédias que conseguem unificar público e crítica de forma refinada, mas há muitos méritos que colocam sim o filme de Caíto Ortiz como um vencedor dentro de seu próprio segmento. Talvez o que exista de mais valioso nessa história sobre o roubo verídico da taça Jules Rimet é a decisão de contá-la a partir de um humor muito anárquico e escrachado – e o mais importante: com a consciência dessa escolha. O Roubo da Taça se sustenta na caricatura, criando situações e personagens totalmente condizentes para o universo que cria. Basicamente uma comédia de erros protagonizada por um trambiqueiro e que segue o clássico arco de uma tarefa muito simples que toma proporções fora de controle, o longa de Caíto Ortiz diverte do início ao fim, especialmente porque a liberdade de se basear na proposta de que “alguns dos fatos realmente aconteceram”. Ou seja, afinal, o que realmente é verdade no filme?

Elencos são peças fundamentais para comédias de qualquer natureza, e o grupo de atores reunido em O Roubo da Taça equilibra muito bem o tom de cada personagem na construção da caricatura, que nunca é transformada em mera histeria. Em um elenco formado por veteranos (Stepan Nercessian), nomes argentinos (Fábio Marcoff) e atores extremamente ativos no cinema brasileiro contemporâneo (Milhem Cortaz), gosto particularmente dos protagonistas vividos por Paulo Tiefenthaler e Taís Araújo. Ele é divertidíssimo como um homem atrapalhado e irresponsável que, mesmo quando agraciado pelo destino, simplesmente não consegue fugir de sua natureza destrambelhada. Já ela exibe seus habituais talento e beleza como a mulher que ama odiar o marido de caráter questionável. Com ótima reconstituição de época, O Roubo da Taça começa melhor do que termina e, em termos de manter sua criatividade ao longo de seu desenrolar, a promessa não é entregue, mas, ao menos, tem o mérito de manter a curiosidade, já que, particularmente, realmente eu não tinha ideia do que estava por vir a cada desdobramento.

44º Festival de Cinema de Gramado #9: “Elis”, de Hugo Prata

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Dirigida por Hugo Prata, biografia sobre Elis Regina decepciona por cair no clássico erro de tentar contemplar uma vida grandiosa apenas em quantidade de fatos.

O diretor Hugo Prata diz que seu maior drama ao realizar Elis foi escolher o que permanecia ou ficava de fora da biografia daquela que é, possivelmente, a maior cantora que o Brasil já teve. Os dilemas de Prata estão refletidos na tela: na ânsia de contemplar tudo o que podia da vida de Elis Regina, o roteiro escrito a seis mãos pelo próprio Prata com Luiz Bolognesi e Vera Egito comete o clássico erro de tentar sintetizar uma vida inteira sem necessariamente comunicar algo. Muitos fatos sobre a trajetória da eterna Pimentinha são apresentados na obra (a juventude tímida, a turbulenta vida amorosa, as mudanças de visual, as polêmicas na ditadura, sua projeção internacional) mas, infelizmente, a construção de sua mitologia, tanto musical quanto pessoal, fica prejudicada pela pressa e pela pouca proporção entre quantidade e qualidade dos relatos.

Conhecido por sua carreira em videoclipes, o diretor diz também que é muito natural seu primeiro longa-metragem ser sobre música dada toda a experiência ao filmar o segmento e a adoração que sempre teve por Elis Regina. O que acontece é que, musicalmente falando, Elis é uma longa coletânea de videoclipes dentro de uma linha dramática cuja maior missão é colocar na tela o máximo de personagens e situações. Dessa forma, nenhum número musical é particularmente marcante na produção, onde canções como a icônica Como Nossos Pais surge sem uma contextualização maior de época, criação ou identificação da própria cantora com o material. São inúmeras as cenas de Elis (Andreia Horta) no estúdio cantando diversos clássicos – e, claro, mesmo sendo um deleite para os ouvidos, narrativamente as sequências têm pouco a acrescentar à construção dramática da trama.

Atravessando anos de vida e abreviando relações (incluindo com os próprios filhos da cantora) em questão de segundos, Elis adota um tom altamente novelesco, por exemplo, na forma como captura a ditadura (com direito a uma insistente trilha instrumental de suspense quando a protagonista é observada pelos militares em sua casa) ou na desatenção com pontos básicos de sua narrativa (o pai da protagonista simplesmente some depois de meia hora de história, enquanto a mãe nunca é vista). Andreia Horta, que vive o papel que foi de Laila Garin nos palcos em Elis, a Musical, inicialmente se cerca apenas da reprodução de trejeitos, mas, aos poucos, começa a tomar o filme para si, especialmente quando representa uma Elis Regina já de cabelo curto e à beira de um colapso emocional cujas razões são mostradas timidamente (aqui, praticamente inexiste o problema da cantora com as drogas). Se Elis fosse uma obra mais concentrada na personalidade de sua personagem e menos diluída em uma longa lista de acontecimentos, a atriz só teria a ganhar – e Elis Regina finalmente teria um registro cinematográfico semelhante à força de sua carreira. 

44º Festival de Cinema de Gramado #8: “O Silêncio do Céu”, de Marco Dutra

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O astro argentino Leonardo Sbaraglia protagoniza, ao lado da brasileira Carolina Dieckmann, o segundo longa-metragem solo da carreira de Marco Dutra. Foto: Pedro Luque

Quem gosta de cinema brasileiro contemporâneo e ainda não conferiu qualquer trabalho da turma oriunda do coletivo Filmes do Caixote precisa urgentemente corrigir a falha no currículo. Afinal, desconhecer toda a criatividade transgressora do musical Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, ou toda beleza escondida por trás das tragédias femininas de O Que Se Move, assinado por Caetano Gotardo, por exemplo, é crime dos grandes. A chance para a correção é perfeita, pois agora Marco Dutra, que assinou, ao lado de Rojas, o celebrado Trabalhar Cansa, assina seu segundo longa-metragem solo: O Silêncio do Céu, cuja primeira exibição aconteceu na mostra competitiva do 44º Festival de Cinema de Gramado. A estreia não deixa de ser mais uma ambiciosa adição ao currículo do grupo do Caixote, visto que o longa protagonizado pelo astro argentino Leonardo Sbaraglia (o homem que vive uma verdadeira viagem ao inferno após ofender um  motorista na estrada em Relatos Selvagens) busca problematizar, a partir de uma história rodada no Uruguai, as consequências na vida de um casal que se silencia após uma cena de estupro envolvendo a mulher (Carolina Dieckmann).

Particularmente, gosto menos de O Silêncio do Céu do que de Sinfonia da Necrópole ou O Que Se Move porque o filme de Marco Dutra, escrito por ele em parceria com Gotardo e Lucía Puenzo (filha do premiado diretor Luiz Puenzo, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro por A História Oficial), é mais interessante na forma do que na essência. Importante saber: a experiência não se trata de um filme-denúncia em tempos que o feminismo e questões importantes como a do estupro surgem cada vez mais urgentes. O que se vê em O Silêncio do Céu são os angustiantes dias desse homem chamado Mario que, impotente ao presenciar escondido o horror de ver sua mulher sendo estuprada, precisa lidar com uma paralisação posterior: ele volta para casa e não consegue verbalizar o assunto com a esposa, que, por sua vez, também não comenta nada sobre o ocorrido. A partir daí, o longa de Marco Dutra vira uma jornada bastante pessoal do marido para entender não apenas toda a situação envolvendo sua inércia e o trauma silencioso da mulher, mas também o ímpeto cada vez mais perigoso de fazer justiça com toda a situação.

É por se tornar basicamente um filme sobre uma crescente busca pelos instintos primitivos de vingança que, em uma análise fria da história, O Silêncio do Céu não se engrandece tanto. Falta uma certa complexidade porque o filme se preocupa pouco em contar a trama a partir do ponto de vista da mulher, deslocando seus holofotes quase que inteiramente para a investigação secreta desse marido que, dia a dia, se envereda em caminhos que o colocam frente a frente com essa violência que, por muitas razões que cabe ao espectador dizer quais, ele não conseguiu interromper. Em tese, não deixa de ser convencional o relato do sujeito que busca explicações através de seus próprios meios, mas o que faz com que o longa nunca se torne previsível é a habilidade de Marco Dutra em saber criar o tom de um suspense com uma pegada hitchcockiana sem se utilizar de ferramentas fáceis. Ou seja, o que pesa menos no texto é amplamente compensado pela direção firme e extremamente climática.

Méritos também devem ser creditados ao argentino Leonardo Sbaraglia, que tem a difícil missão de compor um homem comum que nunca é tratado como um frouxo, mas sim como um marido confuso que, tentando recuperar um casamento em crise, termina confrontado por suas próprias fragilidades e inseguranças. Enquanto Carolina Dieckmann é boa ao lidar com um material consideravelmente mais restrito (o que é resultado direto do filme não se focar tanto no íntimo de sua personagem), Sbaraglia rouba a cena, contribuindo para o suspense ao criar um sujeito que não entende muito bem o que está fazendo e muito menos o que pode fazer. Dessa forma, O Silêncio do Céu fortalece, na direção e em seu protagonista, resoluções e desenvolvimentos que parecem um tanto simplistas se comparado ao ótimo trabalho de Dutra na ambientação do filme. Mais um ponto para os talentos do Caixote!