Cinema e Argumento

Manchester à Beira-Mar

I can’t beat it.

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Direção: Kenneth Lonergan

Roteiro: Kenneth Lonergan

Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, Matthew Broderick, Tom Kemp,  Gretchen Mol,  Chloe Dixon, C.J. Wilson, Mary Mallen, Anna Baryshnikov, Heather Burns

Manchester by the Sea, EUA, 2016, Drama, 137 minutos

Sinopse: Lee Chandler (Casey Affleck) é forçado a retornar para sua cidade natal com o objetivo de tomar conta de seu sobrinho adolescente após o pai (Kyle Chandler) do rapaz, seu irmão, falecer precocemente. Este retorno ficará ainda mais complicado quando Lee precisar enfrentar as razões que o fizeram ir embora e deixar sua família para trás, anos antes. (Adoro Cinema)

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Como fazer a ideia de um filme pequeno se tornar grande na tela? Há vezes em que uma proposta relativamente simples é ampliada por uma ambientação altamente criativa ou por uma escala maior de produção (caso do recente musical La La Land: Cantando Estações, que poderia facilmente se tornar um romance meramente clichê ou até mesmo irritante). Em outras situações, basta um cineasta talentoso que saiba potencializar o tripé mais básico do cinema (roteiro, direção e elenco) para que a experiência ganhe consistência admirável. Com Kenneth Lonergan em Manchester à Beira-Mar, a situação se enquadra exatamente no segundo caso. A partir de uma trama simplíssima (o homem que, após a morte do irmão, viaja à cidade natal para cuidar do jovem sobrinho desamparado ao mesmo tempo em que enfrenta seus próprios fantasmas), Lonnergan faz bonito ao entregar um roteiro de precisão rara, uma direção em pleno controle e um trabalho de elenco à altura de todo o conjunto. Manchester à Beira-Mar rejeita firulas ou ideias mirabolantes para impactar apenas com sua aparente simplicidade, o que lhe confere uma maturidade ímpar.

Considerando o que chamamos informalmente de tripé mais básico do cinema, primeiro é preciso discutir o roteiro. Da comédia (Máfia no Divã) ao drama (Conte Comigo) passando até por filmes de época (Gangues de Nova York), Kenneth Lonergan, no entanto, nunca foi tão refinado como em Manchester à Beira-Mar, onde não deixa de voltar às origens do próprio Conte Comigo, filme que assinou em 2000 conduzindo a ótima Laura Linney em uma singela história familiar sobre uma mulher que precisava lidar com o delicado retorno de seu irmão mais novo. Ao retomar a ideia de extrair dramas a partir de um reencontro envolvendo pessoas do mesmo sangue, Lonnergan dessa vez é mais cru e menos sentimental ao narrar a história de Lee Chandler (Casey Affleck), sujeito quieto e visivelmente calejado pela vida que, de repente, se vê na condição de tutor de Patrick (Lucas Hedges), um jovem garoto em plena descoberta sexual e de identidade. No convívio entre os dois, Manchester à Beira-Mar aborda várias jornadas: a de Lee, que parece saber lidar melhor com a perda do irmão do que com a sua nova condição de tutor; a de Patrick, que, distanciado de uma mãe problemática, tenta inconscientemente abstrair a repentina ausência do pai ao se cercar de amigos e interesses amorosos; e, claro, a conjunta desses dois personagens que agora enfrentam inúmeros reajustes sob o mesmo teto.

Manchester à Beira-Mar engloba dilemas individuais e coletivos sem perder a mão, distribuindo uma generosa cota de tempo e digestão para o drama de cada um dos personagens. Com uma longa metragem (quase 140 minutos), o filme não tem pressa em desenvolver mesmo registros supostamente corriqueiros. Isso porque tudo está ali para comunicar, como a visível infelicidade de Lee, perceptível em uma simples montagem que acompanha seus dias lidando com clientes insatisfeitos no trabalho, ou o jeito torto de Patrick acobertar emoções que explode em um pequeno acidente doméstico na cozinha. Outro aspecto que torna o roteiro incrivelmente preciso é a inteligente introdução de flashbacks e personagens coadjuvantes na trama. A comprovação máxima desse elogio é o momento em que Manchester à Beira-Mar descortina uma perturbadora tragédia do passado do protagonista. Sóbrio, o relato surge organicamente: enquanto boa parte dos diretores não resistiria em guardá-lo como uma surpreendente revelação para os minutos finais de projeção, Lonnergan o insere muito antes, percebendo que ele é prioritariamente um necessário complemento para o entendimento do espectador em relação ao protagonista.

Segundo, nossa discussão chega à direção. Se a quantidade de filmes dirigidos poderia acusar uma certa inexperiência de Kenneth Lonnergan (excetuando o bem sucedido Conte Comigo, houve apenas o pequeno e quase ignorado Margaret, levando em conta seus 16 anos como diretor até aqui), Manchester à Beira-Mar surpreende ao se apresentar como, disparada, a direção mais madura do nova-iorquino. Ainda assim, não deixa de causar estranheza um filme como esse se destacar tanto em uma temporada de premiações, já que é raro obras menores e de dramas “comuns” (entre aspas porque nenhum drama é comum, especialmente quando bem contado) receberem algum tipo de reconhecimento. E o estilo de Lonnergan para conduzir Manchester à Beira-Mar amplia um pouco esse estranhamento. Isso porque a direção crua não força absolutamente nada da história, acreditando que a força individual dela é de certa forma suficiente para seu impacto. O maior mérito da direção é justamente o inverso do que normalmente recebe distinções: ao invés de sublinhar o que não é necessário com qualquer artifício (nem mesmo os flashbacks são concebidos com diferenciações estéticas) ou de intensificar a força de cenas que já são dramáticas por si só, Lonnergan toma como trabalho principal delimitar fronteiras em todas as frentes – e, além de acertar na escolha, consegue fazê-la sem jamais tirar toda a densidade tão característica de Manchester à Beira-Mar.

Terceiro, por último e não menos importante, vem o elenco. São duas as figuras centrais do filme, e os atores escolhidos para interpretá-las são excelentes. Ao considerar Casey Affleck surpreendente aqui, meio mundo deve ter esquecido o quão bom ele já era em O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford. Porém, isso em nada diminui a força de sua atuação, que, assim como todo filme, é calcada na economia mesmo quando o Affleck é colocado a arranjar brigas em bares. Sua fragilidade é tocante na construção de um personagem que deixou de ter qualquer aptidão social e que sabota até mesmo as chances de retomar algum contar contato verdadeiramente humano na vida. Em contraste, o jovem Lucas Hedges, que participou de filmes como Refém da PaixãoO Grande Hotel BudapesteMoonrise Kingdom com pequenas pontas, tem um papel mais sonoro – e com toda razão, pois, apesar de interiorizar sentimentos em relação a morte do pai, o garoto tenta se ajustar em uma banda com os amigos, administrar duas namoradas e conciliar suas vontades com as escolhas soberanas de seu novo tutor. Tanto Affleck quanto Hedges se equiparam ao filme, carimbando, também no plano da interpretação, a ideia de que Manchester à Beira-Mar, um projeto pequeno em tese, é mesmo grande na prática.

O Vaticano (e a fé) segundo “The Young Pope”

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Personagem marcante na carreira de Jude Law, Lenny Belardo é um dos grandes méritos de The Young Pope, série criada e dirigida pelo italiano Paolo Sorentino.

A HBO começa a exibir hoje (15) uma das melhores séries que você verá em 2017. Sem medo que essa afirmação um tanto definitiva se esvaia ao longo do ano, aproveito para ousar um pouco mais: se The Young Pope não faturar uma boa quantidade de prêmios a partir do próximo Emmy é porque teremos outro concorrente de altíssimo nível na disputa ou porque os votantes devem ter enlouquecido de vez. Na primeira temporada desse programa criado e dirigido pelo consagrado diretor italiano Paolo Sorrentino, Jude Law é o papa mais jovem da história do Vaticano, além de ser o primeiro nascido nos Estados Unidos. Tudo ficção, claro, mas com uma proposta menos gratuita em provocações do que pode parecer. Afinal, para The Young Pope, o tempo de questionar a existência de Deus já passou. O que importa hoje – e é isso o que torna a série tão singular tematicamente – é saber o por quê e até que ponto as pessoas precisam depender tanto de uma figura “superior” para viver.

Em comparações genéricas, The Young Pope não deixa de ser uma versão de House of Cards do Vaticano, principalmente em momentos que refletem sobre o poder da igreja e a sua relação com o Estado (a cena em que o papa finalmente se encontra como primeiro ministro da Itália é afiadíssima nesse sentido). Também estão presentes no roteiro toda a imponência e, por que não, o encantamento dos inúmeros rituais católicos, englobados desde os segredos de um conclave à forma como o papa é de fato tratado como Deus. No entanto, Sorrentino, com o desenrolar dos dez episódios, prefere se focar em questões mais complexas. Se a eleição do mais jovem líder da igreja católica dá indícios de que The Young Pope será a celebração da ideia de modernizar o catolicismo, o que vem é justamente o oposto: mesmo jovem, Lenny Belardo (Jude Law) quer banir os homossexuais da igreja, é contra o aborto e a eutanásia e ainda considera o sexo uma mera ferramenta de reprodução. Ou seja, as provocações de Sorrentino são mais refinadas. Para ele, juventude não é garantia de inovação e, no caso da igreja, nem deveria ao lançar a seguinte questão: por quais princípios ela zelaria com tanto fervor se mudasse todos esses que vem preservando por anos? No mínimo, enfrentaria, com isso, uma crise de personalidade sem precedentes (e possivelmente sem volta).

set of "The young Pope" by Paolo Sorrentino. 10/22/2015 sc. 264 ep. 2 In the picture Dyane Keaton. Photo by Gianni Fiorito

Diane Keaton integra o elenco coadjuvante de alto nível da série, atuando ao lado de atores como James Cromwell, Javier Cámara e Cécile de France.

É no fascínio da figura de Lenny e na dificuldade das pessoas ao seu redor em compreender suas táticas (ele não permite ser visto publicamente nem para as fotos oficiais do Vaticano, por exemplo) que The Young Pope concentra boa parte de sua ação. Trazendo Jude Law de volta à forma em talento e beleza, o seriado tem o grande mérito de ter um protagonista altamente instigante: imprevisível, o novo papa é capaz de ir da assumida arrogância a momentos de plena compaixão e sabedoria sem nunca deixar de entrar no jogo de um Vaticano que também exige jogadas políticas. E, por mais que o programa às vezes não saiba lidar com as discrepâncias do protagonista (não são poucos os momentos em que falta organicidade na transição entre os extremos de personalidade de Lenny) e que alguns embasamentos dramáticos sejam rasteiros (o fato de ele ser eternamente atormentado pelo fato dos pais terem lhe abandonado na infância não é tão eficiente quanto se poderia imaginar), o personagem é maior do que esses eventuais defeitos, seja pelas demais construções do roteiro quanto pelo próprio desempenho de Jude Law, talvez o mais emblemático de toda a sua carreira.

E o que dizer do altíssimo nível de atores coadjuvantes de The Young Pope? A lista é grande e repleta de destaques: Diane Keaton, como a freira que criou o protagonista, é sempre confiante quanto às atitudes de Lenny, mesmo que ele, muitas vezes, lhe dê mil razões para não apoiá-lo; James Cromwell é certeiro na mágoa mas também na complexidade de um dos poucos homens que enfrenta o novo papa sem medo; Silvio Orlando muitas vezes rouba a cena como Voiello, um cardel muito mais político do que religioso e que, como Secretário de Estado, precisa controlar as crises que surgem a partir do comportamento de um papa que não segue qualquer protocolo; Javier Cámara comove a partir da delicadeza com que mergulha nas fragilidades de um padre inseguro e alcoolista; e Cécile de France, em um papel consideravelmente menor, capta com perfeição a instantânea esperteza e admiração de uma assessora que de alguma forma compreende as estratégias do novo líder da igreja católica. É realmente um elenco de grande qualidade e devidamente aproveitado por uma história que sabe exatamente o que fazer com os seus personagens.

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The Young Pope explora a imponência e os mistérios do Vaticano, mas questiona principalmente a necessidade mundial de acreditar na existência de um ser superior.

Há quem não goste de Sorrentino por considerá-lo um diretor pouco econômico no que se refere ao uso das ferramentas audiovisuais. E, de fato, não o é: em The Young Pope, ele faz questão de explorar a imponência de cenários grandiosos, de utilizar muitas alegorias para significar emoções (o canguru que vive solto no Vaticano, Lenny rezando ajoelhado e submerso em uma piscina) e de, como sempre, não poupar no uso de trilha em momentos-chave ou para fazer graça, como a belíssima releitura de Halo, da Beyoncé, na voz de Lotte Kestner, em uma episódio passado na África, ou a pop Sexy and I Know It quando acompanha o protagonista vestindo todos os elementos de seu figurino papal. É uma questão de gosto apreciar ou não tais escolhas, mas é importante perceber que elas se prestam ao tom de sátira e reflexão e quase sempre realmente comovem, divertem ou pelos menos impactam visualmente. 

Se, na maior parte do tempo, The Young Pope segue um caminho diferente do esperado, por outro lado, o seriado não deixa de discutir temas que são inevitáveis quando o assunto é a igreja católica. Entre eles, estão o da pedofilia e a ideia da fé como mera fuga de pessoas fragilizadas ou com naturezas que, por alguma razão, precisam ser camufladas. E, envolvendo dramaticamente, o programa provoca, comove, faz rir e embala tudo com grande apuro estético e sensorial. Uma nova temporada já está encomendada e, considerado que o ciclo se encerra com precisão nesse primeiro ano, é inevitável a desconfiança. Mas, se tratando de Sorrentino, vou dar um voto de fé.

Melhores de 2016 – Som

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A estrutura de Ponto Zero é fascinante porque pega o drama aparentemente comum (mas incrivelmente denso) de um garoto de 14 anos preso em um doentio furacão familiar para, lá na metade, jogá-lo em uma noite surrealista, acompanhada quase em tempo real pelo filme, que irá transformá-lo para sempre. Ao entrar nesse universo noturno e chuvoso, o requinte técnico do filme de José Pedro Goulart se acentua, explorando ainda mais o poder narrativo de setores como o de som, aqui assinado pela dupla Chrístian Vaisz e Kiko Ferraz. Entre os barulhos que ilustram eventuais momentos de horror do protagonista Ênio (Sandro Aliprandini), como o acidente na rua e o mistério em relação ao que pode estar ou não embaixo de um carro, o som também captura o minimalismo dos silêncios embalados pelo melancólico barulho de uma chuva incessante. Ponto Zero sabe, assim como em tantas outras de suas virtudes, que o trabalho de Vaisz e Ferraz é tão fundamental para a ambientação da história quanto a direção, o roteiro e o elenco dela. Ainda disputavam a categoriaA Chegada, O ContadorO Regresso e O Silêncio do Céu.

Melhores de 2016 – Trilha Sonora

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Auge da carreira eclética mas subestimada de Carter Burwell (FargoAdaptaçãoAntes Que o Diabo Saiba Que Você Está MortoQuero Ser John Malkovich), a trilha sonora de Carol marca a nova colaboração do compositor com o diretor Todd Haynes. A proximidade dos dois em trabalhos como Velvet Goldmine e a minissérie Mildred Pierce certamente foi um ganho para toda a delicadeza alcançada por essa mais recente parceria. Em Carol, a trilha sonora cumpre com perfeição a mais importante das funções desse segmento em qualquer obra: a narração. Não apenas as partituras de Burwell criam temas inesquecíveis para o romance de Therese Belivet (Rooney Mara) e Carol Aird (Cate Blanchett), como também conduzem a dramaticidade da história sem nunca sublinhar o que é óbvio ou forçar emoções. A intensidade da trilha de Carol está na sutileza, e ela é tanta que reverbera durante muito tempo após a sessão sem que tenha exagerado em qualquer nota para alcançar tal feito. É trabalho de mestre. Ainda disputavam a categoriaA Bruxa, A Chegada, Ponto Zero e O Regresso.

Melhores de 2016 – Ator Coadjuvante

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Certamente deve ter acontecido algum equívoco por parte dos votantes das premiações em 2016 para que Christian Bale fosse indicado como melhor ator coadjuvante no lugar de Steve Carell por A Grande Aposta. É de indignar a preguiça: quando Carell está sob pesada maquiagem fazendo drama (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo), o reconhecimento é garantido. Já quando volta às raízes da comédia, é como se praticamente não existisse (já era assim lá em 2006 com Pequena Miss Sunshine, onde Alan Arkin acabou sendo o único do elenco masculino a receber qualquer honraria). Em A Grande Aposta, Carell é novamente subestimado, mas a situação é muito mais grave porque não há desculpas para o esquecimento, seja pelo status já alcançado pelo ator ou por sua própria expressividade em cena. Como um sujeito que parece sempre à beira de um infarto tamanha a ansiedade com o trabalho, o ator entrega uma de suas interpretações mais completas ao transitar entre a comédia e o drama, uma vez que, apesar do humor, seu Mark Baum é um homem atormentado por fantasmas do passado (mais especificamente aqueles envolvendo o suicídio do irmão) e pela consciência de que sua profissão pode agraciar ou devastar vidas na mesma proporção. E Carell o faz com toda versatilidade, humanidade e sutileza que sempre foram tão subestimadas em filmes como Amor a Toda Prova Eu, Meu Irmão e Nossa NamoradaAinda disputavam a categoria: Aaron Taylor-Johnson (Animais Noturnos), Humberto Carrão (Aquarius), Michael Shannon (Animais Noturnos) e Tom Hardy (O Regresso). 

Os indicados ao BAFTA 2017

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Mantendo a glória alcançada na última edição do Globo de Ouro, La La Land: Cantando Estações é o recordista de indicações ao BAFTA 2017.

Seguindo sua trajetória vitoriosa e aparentemente imbatível, La La Land: Cantando Estações agora também lidera a lista de indicados do BAFTA 2017. A seleção, revelada na manhã de hoje (10), surpreende pelos dois filmes que aparecem em segundo lugar no número de indicações (ambos com nove): A ChegadaAnimais Noturnos. A significativa presença do primeiro é gratificante porque o preconceito com ficções é grande, mas o BAFTA não ligou muito para isso, levando o filme de Dennis Villeneuve para todas as categorias principais, o que é raro. Já o segundo não deixa de ser polêmico, uma vez que o filme de Tom Ford, celebrado desde o Festival de Veneza com o prêmio especial do júri, divide opiniões por onde passa. Novamente, não é muito comum um longa com essa natureza de recepção receber tantos confetes assim. No mais, Emily Blunt (A Garota no Trem) surge novamente como alternativa em uma lista sem Isabelle Huppert (aqui Elle não era elegível pois só estreia em março no Reino Unido) e Eu, Daniel Blake, de Ken Loach, ocupou a vaga de queridinho britânico do ano (talvez o maior em muitos anos). Os vencedores do BAFTA serão conhecidos no dia 12 de fevereiro. Confira abaixo a lista de indicados:

MELHOR FILME
A Chegada
Eu, Daniel Blake
La la land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar
Moonlight: Sob a Luz do Luar

MELHOR DIREÇÃO
Damien Chazelle (La la land: Cantando Estações)
Denis Villeneuve (A Chegada)
Ken Loach (Eu, Daniel Blake)
Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)
Tom Ford (Animais Noturnos)

MELHOR ATRIZ
Amy Adams (A Chegada)
Emily Blunt (A Garota no Trem)
Emma Stone (La la land: Cantando Estações)
Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?)
Natalie Portman (Jackie)

MELHOR ATOR
Andrew Garfield (Até o Último Homem)
Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
Jake Gyllenhaal (Animais Noturnos)
Ryan Gosling (La la land: Cantando Estações)
Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Hayley Squires (Eu, Daniel Blake)
Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar)
Naomie Harris (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Nicole Kidman (Lion)
Viola Davis (Cercas)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Aaron Taylor-Johnson (Animais Noturnos)
Dev Patel (Lion)
Hugh Grant (Florence: Quem é Essa Mulher?)
Jeff Bridges (A Qualquer Custo)
Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
A Qualquer Custo
Eu, Daniel Blake
La La Land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar
Moonlight: Sob a Luz do Luar

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
A Chegada
Animais Noturnos
Estrelas Além do Tempo
Lion
Até o Último Homem

MELHOR FILME BRITÂNICO
American Honey
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Eu, Daniel Blake
Negação
Notes on Blindness
Sob a Sombra

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Dheepan: O Refúgio (França)
O Filho de Saul (Hungria)
Julieta (Espanha)
Mustang (França)
Toni Erdmann (Alemanha)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
A 13ª Emenda
The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years
The Eagle huntress
Notes on Blindness
Weiner

MELHOR ANIMAÇÃO
Kubo e as Cordas Mágicas
Moana: Um Mar de Aventuras
Procurando Dory
Zootopia

MELHOR TRILHA SONORA
A Chegada
Animais Noturnos
Jackie
La La Land: Cantando Estações
Lion

MELHOR FOTOGRAFIA
A Chegada
A Qualquer Custo
Animais Noturnos
La La Land: Cantando Estações
Lion

MELHOR MONTAGEM
A Chegada
Animais Noturnos
Até o Último Homem
La La Land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Doutor Estranho
Florence: Quem é Essa Mulher?
Jackie
La La Land: Cantando Estações

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Animais Noturnos
Até o Último Homem
Doutor Estranho
Florence: Quem é Essa Mulher?
Rogue One: Uma História Star Wars

MELHOR SOM
A Chegada
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Até o Último Homem
La La Land: Cantando Estações
Horizonte Profundo: Desastre no Golfo

MELHORES EFEITOS VISUAIS
A Chegada
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Doutor Estranho
Mogli: O Menino Lobo
Rogue One: Uma História Star Wars

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO BRITÂNICO
The Alan Dimension
A Love Story
Tough

MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO
Consumed
Home
Mouth of Hell
The Party
Standby

BAFTA RISING STAR
Anya Taylor-Joy
Laia Costa
Lucas Hedges
Ruth Negga
Tom Holland

Passageiros

A drowning man will always try to drag you down with him.

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Direção: Morten Tyldum

Roteiro: Jon Spaihts

Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen, Laurence Fishburne, Andy Garcia, Vince Foster, Kara Flowers, Conor Brophy, Julee Cerda, Aurora Perrineau, Lauren Farmer

Passengers, EUA, 2016, Ficção Científica, 116 minutos

Sinopse: Durante uma viagem de rotina no espaço, dois passageiros são despertados 90 anos antes do tempo programado. Sozinhos, Jim (Chris Pratt) e Aurora (Jennifer Lawrence) começam a estreitar o seu relacionamento. Entretanto, a paz é ameaçada quando eles descobrem que a nave está correndo um sério risco e que eles são os únicos capazes de salvar os mais de cinco mil colegas em sono profundo. (Adoro Cinema)

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Não faz sentido Jennifer Lawrence estar em Passageiros. Feminista ferrenha, a estrela favorita do diretor David O. Russell topou participar de um filme cujas ideias contradizem tudo o que ela já defendeu sobre os direitos de escolha e igualidade da mulher. Para isso, precisamos fazer uma significativa alteração na sinopse: Passageiros é, na verdade, sobre um homem que, fadado a viver 90 anos sozinho em uma nave após ter acordado por acidente antes de seus outros 4.999 colegas, resolve despertar uma moça que acaba de se tornar sua mais nova paixão só de observá-la dormindo. Existem muitos absurdos nessa proposta. O primeiro deles é obviamente esse amor mal concebido do nosso “herói” por uma moça que ele passa a investigar obsessivamente através de vídeos disponíveis sobre ela no sistema da nave que viaja em piloto-automático sem nunca poder alterar sua rota. O segundo é ele considerar acordá-la com a justificativa de que precisa de companhia após quase um ano sozinho, quando, na verdade, tal decisão revela não uma necessidade de contato humano, mas sim uma necessidade de consumo: ele se apaixonou e quer essa mulher na sua vida de qualquer jeito. E, por fim, o terceiro é realmente despertá-la, condenando a moça não somente a morrer antes da nave chegar a um sonhado destino (afinal, são 90 anos em que eles precisam ficar na nave impossibilitados de voltar a dormir), mas também a conviver com ele sem saber que foi despertada para ser seu próximo par romântico. 

Sob o ponto de vista realmente correto (e contemporâneo), Passageiros contaria essa história questionando moralmente toda a situação. Já como está nos cinemas, o contexto é amplamente romantizado, comprovando que todas as outras fragilidades presentes no filme seriam mesmo inevitáveis para uma equipe que não percebe o problema de uma ideia já em suas linhas mais gerais. Dirigido sem qualquer personalidade por Morten Tyldum (não era de se esperar mesmo algo diferente de um diretor que vem do formalíssimo O Jogo da Imitação), Passageiros tem a esperteza de trazer dois grandes astros que, sim, em tese são os nomes apropriados para um filme dessa dimensão. Entretanto, era quase impossível imaginar que Chris Pratt (sem qualquer carisma depois de ter se transformado em um galã hollywoodiano de tanquinho bem definido) e Jennifer Lawrence (que tem se preservado depois de Jogos Vorazes e de sua temporada de indicações ao Oscar) não teriam química alguma em cena. Amigos na vida real, não existe qualquer chama entre os dois que possa de alguma forma compensar a equivocada proposta do roteiro de romantizar uma situação moralmente questionável. Com a ineficiência do trabalho de Pratt e Lawrence (individual ou em dupla), Passageiros passa a depender ainda mais de sua concepção estética e, claro, dos conflitos que estabelece em uma trama que se resume basicamente a um longo dueto. Novos poréns surgem na fórmula: não há muita imaginação no universo criado por Tyldum (e dizer que os efeitos visuais são bons é redundante, pois, no atual cenário tecnológico, isso não é menos do que a obrigação de uma ficção) e nem nas problematizações feitas na história, que frequentemente costuma se levar a sério.

Escrito por Jon Spaiths (autor da boa surpresa que foi o recente Doutor Estranho), Passageiros é um filme frágil em tudo o que estabelece narrativamente. Expositivo, faz com que Jim (Chris Pratt) diga sozinho e em voz alta coisas como “eu acordei 90 anos antes!”, verbalizando o que já havia sido compreendido pela plateia muitos minutos antes. Em termos de criar e resolver problemas, Spaiths não hesita em se utilizar das ferramentas mais fáceis possíveis, a exemplo da criação de uma máquina capaz de ressuscitar pessoas ou da rápida e gratuita aparição de um personagem cuja única função é desatar nós dramáticos (e o fato de ele ser interpretado por alguém da relevância de Laurence Fishburne só engana o espectador – no mau sentido – sobre as reais intenções do roteiro). Como bom alívio cômico, Michael Sheen é um dos saldos positivos de Passageiros ao dar vida a um robô que, infelizmente, também é sabotado pelo roteiro ao ser o responsável por inexplicavelmente revelar um segredo, como se, de repente, fosse uma máquina provida de algum senso moral e de justiça, o que não é muito bem explicado pelo filme. Quando o cinema recebe uma enxurrada cada vez maior de filmes passados no espaço (o trailer de outros dois – VidaO Espaço Entre Nós – foram exibidos na minha sessão), é saudável ter um balanço entre obras mais complexas como Gravidade e o recente A Chegada e outras mais descompromissadas. A questão é que, em qualquer um dos casos, representações, por mais rasteiras que possam parecer, importam porque introjetam ideias em milhões de plateias. E Passageiros, que dá a sua protagonista o nome de Aurora (fazendo uma assumida referência A Bela Adormecida), acredita, em pleno 2017, que é mesmo necessário um “príncipe encantado” para salvar uma mocinha e torná-la uma nova pessoa com o “amor”. Aí realmente não dá para perdoar.