I Smile Back

Nobody tells you that it’s terrifying to love something so much.

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Direção: Adam Salky

Roteiro: Amy Koppelman e Paige Dylan

Elenco: Sarah Silverman, Josh Charles, Skylar Gaertner, Shayne Coleman, Mia Barron, Thomas Sadoski, Sean Reda,  Cynthia Darlow, Terry Kinney, Clark Jackson,  Brian Koppelman, Emma Ishta,  Oona Laurence, Chris Sarandon,  Mia Katigbak

I Smile Back, EUA, 2015, Drama, 85 minutos

Sinopse: As coisas estão complicadas no subúrbio. Laney Brooks (Sarah Silverman), esposa e mãe, parou de tomar seus medicamentos, substituindo por drogas ilícitas e homens errados. Com a iminente destruição da família dela, Laney faz uma última e desesperada tentativa de redenção. (Adoro Cinema)

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É uma injustiça das mais tristes de se testemunhar: qualquer atriz à espera de um Oscar que entregasse exatamente o que Sarah Silverman entrega em I Smile Back varreria uma temporada de premiações e seria aplaudida mundo afora. O papel por si só já seria o sonho para qualquer intérprete aberta a desafios dramáticos: o da mulher suburbana que, casada com o marido perfeito e mãe de dois filhos, simplesmente não nasceu para cumprir tais papeis, constantemente se sabotando ao ser infiel e ao se drogar em qualquer banheiro. Imagine, então, o grande momento que I Smile Back representaria para a carreira de uma Laura Linney da vida, por exemplo, que certamente não seria nem sabotada pelo perfil altamente independente do filme de Adam Salky. Só que a protagonista Laney Brooks foi parar nas mãos da comediante de TV Sarah Silverman, o que automaticamente a desqualifica para receber maiores reconhecimentos, mesmo com uma importante indicação ao Screen Actors Guild Awards 2016 de melhor atriz. Realmente, uma triste injustiça. 

Por outro lado, dramaticamente falando, é muito esperto da parte de I Smile Back escalar uma atriz como Sarah Silverman para uma história como essa, já que, com tal escolha, nunca conseguimos prever o que ela pode fazer no gênero. Mais: temos em cena uma intérprete completamente livre de vícios de interpretação no drama e que, ao longo do filme, constantemente instiga o espectador ao levá-lo por caminhos que ele não imaginava que pudessem ser trilhados por ela. É com uma força para lá de discreta que Silverman, assim como o próprio I Smile Back, aos poucos nos imerge em sua dramaticidade. Existe um quê dos desesperos suburbanos frequentemente retratados pelo escritor estadunidense Tom Perrota (com destaque para Pecados Íntimos) na personagem, que tenta, a todo custo e apesar das repetidas falhas, cumprir os papeis que a sociedade impõe às mulheres. Mesmo tentando, nossa protagonista é, por natureza, incapaz de desempenhá-los, e é aí que mora o conflito mais angustiante da obra.

Pode até ser que o roteiro escrito pela dupla Amy Koppelman e Paige Dylan não tenha tanto esmero quanto os de outros representantes do cinema independente realizado nos Estados Unidos (é quase imperdoável, por exemplo, a total unilateralidade do marido vivido por Josh Charles, cuja perfeição como homem, pai e ser humano sequer chega a ser usada como mais uma forma de sufocar a protagonista), mas novamente a sobriedade reina, o que é essencial para conflitos que, em mãos descuidadas, seriam verdadeiros dramalhões, no pior sentido da referência. Felizmente, o diretor delineia bem as fronteiras dos tons dramáticos de I Smile Back, ganhando até mesmo momentos emocionantes quando toma o caminho oposto do esperado e reprime sentimentos que, em outras abordagens, renderiam uma infinidade de lágrimas e discussões, como na cena em que a personagem faz uma visita a uma antiga pessoa de seu conturbado passado. 

É somente nos minutos finais que Salky e os roteiristas saem da linha e pesam demais a mão em uma sucessão de acontecimentos repletos de infortúnios para tornar ainda mais nebuloso o fundo do poço em que se encontra a personagem. Não era necessário chegar a tantos extremos em um filme que se torna angustiante por justamente reprimir tanta coisa. Fora isso, ao saber dosar diversos temas como infidelidade, drogas, desarranjos familiares e matrimônio com as devidas proporções em uma duração de 85 minutos que poderia trazer superficialidade à história, I Smile Back é um acerto por, assim como tantos trabalhos de sua mesma natureza de produção, apostar no diálogo direto com a vida real, sem firulas cinematográficas – e isso é lindo, mesmo que custe ao próprio longa e a sua própria protagonista, em performance reveladora, um duro esquecimento que já pode ser notado: desde janeiro de 2015 rodando festivais como Sundance e Toronto, I Smile Back não tem previsão de lançamento no Brasil e, nos Estados Unidos, entrou em cartaz apenas em circuito limitado.

Três atores, três filmes… com Raquel Piegas

raqueltresMesmo em um curto espaço de tempo até aqui, o Jornalismo já me trouxe muitas experiências e trabalhos bacanas. Nada, no entanto, se compara às amizades tão especiais que vieram com o pacote. Na lista de encontros mais marcantes, o que tive com a Raquel Piegas está indiscutivelmente entre os mais importantes. Devido ao destino e à geografia, já não nos vemos pessoalmente há alguns anos, mas isso não é motivo para que nossas risadas, trocas e conversas fiquem menos relevantes do que quando convivíamos diariamente. Agora, trago a Raquel para um pouquinho mais perto de mim com a participação dela na coluna Três atores, três filmes. A seleção tem a cara da convidada, em especial a primeira escolha, que valoriza um desempenho luminoso e revelador e que eu já deduzia que pudesse estar entre seus desempenhos favoritos por dizer muito sobre quem a própria Raquel é. Fiquem abaixo, portanto, com a participação dessa amiga que admiro desde sempre.

Penélope Cruz (Volver)
Sou uma grande fã de Penélope. Foi um pouco difícil escolher qual atuação dela me é mais emblemática. Em todas suas personagens, Penélope leva um quê de si. Da mulher latina que não se entrega, que é intensa, que não se renega. Raimunda é uma matriarca, uma representação da força feminina, em uma lição de resistência diante de uma situação forte e impetuosa como o abuso sexual de sua filha e o assassinato em legítima defesa de seu marido, cometido pela filha abusada. Volta e meia me pego revendo a cena em que Raimunda interpreta a canção Volver, de Carlos Gardel. Essa parte do filme me traz a intensidade de quem está vivendo longe de sua terra, como eu. As lágrimas reais de Penélope nessa atuação me representam. É uma atuação a qual recorro em diversos momentos.

Julianne Moore (Para Sempre Alice)
Escolhi uma atuação atual dessa atriz, por recentemente ter assistido a esse filme. Um drama sem choros fantasiosos, sem atuações escrachadas, sem melodrama. Um drama real, uma família real, uma situação com a qual podemos nos deparar constantemente: a ilusão de que somos intocáveis por doenças ou males que nos parecem distantes e que surgem de maneira inesperada para nos ensinar a reviver. Julianne consegue transmitir mesmo com sua expressão serena, em uma atuação que comove somente pelo olhar.

John Cusack (Alta Fidelidade)
Alta Fidelidade é cultura pop até os ossos. Desde o livro, escrito por Nick Hornby, até sua trilha sonora, o filme é um ícone de uma geração que está perdida e sabe que está perdida. E faz disso um estilo de vida, claro. Rob Gordon é viciado em listas. Top 5. Cada aspecto de sua vida é avaliado com base em cinco itens que ele escolhe como sendo os mais emblemáticos. Alta Fidelidade é uma tentativa de Rob se reencontrar reparando seus cinco maiores erros e decepções amorosas, com mulheres claramente mais fortes e emblemáticas que ele. É um personagem que me apaixona pelos seus lugares comuns e com a forte identificação que promove ao nos despertar a certeza de que é necessário reconhecer e revisitar cada fracasso vivido como uma maneira de evolução.

O Brasil desacomodado em Cannes

Aquarius Cannes

Hoje acordei pensando no Festival de Cannes porque a programação do evento prometia. Primeiro pela a exibição de Julieta, filme cujas expectativas ficavam em torno do retorno de Pedro Almodóvar ao universo feminino depois de A Pele Que Habito e Os Amantes Passageiros, obras claramente distantes dessa temática. Almodóvar, no entanto, fez questão de avisar: Julieta, baseado no livro “Runaway”, da canadense vencedora do Nobel de literatura Alice Munro, não é um “almodrama”. Pena. E, apesar da aprovação, a crítica não se entusiasmou muito com o longa, chegando a considerá-lo, inclusive, um dos mais convencionais já feitos pelo diretor.

Depois desse certo banho de água fria, veio a recompensa, já que a segunda expectativa para o dia de hoje em Cannes era a primeira projeção de Aquarius, novo filme de Kleber Mendonça Filho. Ativamente político nas redes sociais, o crítico de cinema agora aposentado da profissão chegou ao evento para exibir seu segundo longa-metragem. A ansiedade é livre: além de ter uma bela carreira como curta-metragista, Kleber fez sucesso mundial com O Som ao Redor, longa que chegou a ser elencado pelo New York Times em 2012 como um dos melhores do ano e que abriu precedentes para uma série de outros trabalhos que buscam fazer uma radiografia do Brasil contemporâneo em suas particularidades sócio-políticas, como Casa Grande e o mais recente Que Horas Ela Volta?.

O pernambucano chegou fazendo bonito: no Tapete Vermelho, junto com sua equipe, empunhou pequenos cartazes denunciando o que é acertadamente defendido por uma expressiva parcela da população como um golpe político no presidencialismo brasileiro. “Misóginos, racistas e impostores como ministros”, “O mundo não pode aceitar um governo ilegítimo”, entre outros dizeres, colocaram mais uma vez a conturbada e equivocada situação política do Brasil na imprensa internacional . Bravo. É papel da arte se posicionar em tempos que ministérios como o da Cultura são extintos no Brasil. Afinal, como já dizia Glauber Rocha, sem liberdade e democracia, não existe cinema. Desde já, uma das imagens mais emblemáticas do ano.

No entanto, as alegrias trazidas por Aquarius, filme sobre uma jornalista aposentada que mora no último prédio modelo antigo da orla de Boa Viagem e resiste às tentativas dos novos planos de uma construtora para o terreno, não ficaram apenas no Tapete Vermelho. Após estampar capa da Variety e ser considerado pelo Los Angeles Time como um dos trabalhos mais aguardados da seleção deste ano, o longa pernambucano foi aclamado pela crítica, e recebeu um veredito para lá de expressivo: se Sônia Braga não levar o prêmio de melhor atriz, testemunharemos a maior injustiça da premiação deste ano.

Só que minha curiosidade com Aquarius vem antes desse estouro em Cannes ou do inegável prestígio e talento de Kleber Mendonça Filho como realizador. O que mais comove no projeto é a sensibilidade do diretor em tê-lo oferecido para uma atriz como Sônia Braga. Não tem nada a ver com talento, mas sim com oportunidade. Todos nós sabemos que Sônia é uma das nossas grandes atrizes, mas o tempo não é justo com os atores, especialmente com as mulheres. Enquanto nos Estados Unidos ótimas atrizes como Dianne Wiest e Susan Sarandon precisam se submeter a papeis bobocas em dramas inexpressivos ou comédias de gosto duvidoso só para pagar as contas e se manter na indústria, o cinema brasileiro sequer dá chances para suas divas.

Sônia Braga, indicada três vezes para o Globo de Ouro (entre elas por seu desempenho em O Beijo da Mulher-Aranha), firmou uma certa carreira no exterior, mas no Brasil se via reduzida a novelas e minisséries. Não vamos longe: a agora saudosa e igualmente talentosa Marília Pêra só atuava em seus últimos anos em função de seu fiel escudeiro Miguel Falabella, que lhe deu papeis no cinema, no teatro e na TV (antes disso, sua última aparição na telona havia sido em 2007 com o documentário Jogo de Cena). Grandes mulheres. Intérpretes superlativas. Todas lutando contra o tempo.

Por isso mesmo é tão bonito ver nossa Sônia Braga protagonizando Aquarius. Ela diz ter se sentido honrada por Kleber ter pensado em seu nome para um roteiro como esse. Com toda razão: afinal, são poucas, quase inexistentes, as atrizes de seu calibre e idade que recebem tamanho prestígio de um diretor em franca ascensão e reconhecimento. Kleber merece todos os aplausos do mundo por voltar a dar espaço para um talento assim, principalmente porque tal chance sublinha a representatividade feminina em tempos que as mulheres só precisam ser belas, recatadas e do lar. Aquarius arrasou em Cannes, e nos deu um alento em tempos tão conturbados por aqui. Que o filme venha logo para as nossas telas!

Rapidamente: Creed, Deadpool e Olhos da Justiça

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Apesar da personalidade própria criada pelo diretor e roteirista Billy Ray, Olhos da Justiça tropeça por não ter a sutileza tão necessária à história e que consagrava o longa original.

CREED: NASCIDO PARA LUTAR (Creed, 2015, de Ryan Coogler): Para quem conferiu o contundente Guerreiro, de 2011, chega a ser um exercício de muita paciência ter que acompanhar Creed: Nascido Para Lutar até o final. Com relativa repercussão por ter quase dado um Oscar a Sylvester Stallone (o que seria injusto, diga-se de passagem, já que a presença dele aqui nada mais é do que uma nova confusão entre personagem e o ator na vida real, a exemplo de Mickey Rourke em O Lutador e Michael Keaton em Birdman), o filme dirigido por Ryan Coogler, em seu primeiro trabalho após a estreia em longas com o ótimo Fruitvale Station: A Última Parada, torna-se entediante por se enfronhar nos mais diversos clichês de pessoas que tentam recomeçar a vida através da luta. Não bastasse o herói desacreditado que precisa convencer um consagrado treinador aposentado de seu talento, Coogler ainda coloca na mistura uma doença terminal e muitos melodramas envolvendo um conturbado passado familiar do protagonista. Só que, sendo bem objetivo, faltam, no trabalho de Coogler, as sutilezas apresentadas por ele Fruitvale Station, e, em termos de luta e da relação dela com a própria vida, a emoção e a visceralidade de Guerreiro

DEADPOOL (idem, 2016, de Tim Miller): Chegou aos cinemas fazendo muito barulho e ainda hoje ostenta uma admiração respeitável, considerando a média da maioria de filmes baseados em HQ’s. Tem sua graça, é verdade, mas Deadpool procura fazer humor de mais e história de menos, o que automaticamente faz com que o resultado caia na armadilha de dar risada de problemas que, lá no fundo, ele mesmo também cultiva. Às vezes excessivamente piadista, Deadpool é frágil em seus conflitos e pouco envolvente nos fatos, deixando a sensação de que o humor atravanca o fluxo da história. Para quem vai pelo mero entretenimento e não se preocupa tanto com o desenrolar de uma trama, o filme de Tim Miller cumpre sua cota de diversão, conseguindo, inclusive, fazer piadas mais ousadas e até refinadas, como aquela em que o protagonista afirma que beleza realmente é tudo na vida e que Ryan Reynolds é uma prova disso. “Ou você acha que ele fez sucesso por causa de suas ótimas interpretações?”, pergunta o personagem. É por momentos assim e por podermos ver uma Morena Baccarin mais marcante do que o habitual que Deadpool amortece seus problemas de coesão e diverte.    

OLHOS DA JUSTIÇA (Secret in Their Eyes, 2015, de Billy Ray): O diretor e roteirista Billy Ray (indicado ao Oscar com a ótima adaptação de Capitão Phillips) optou pelo melhor caminho: conferir a Olhos da Justiça, refilmagem do celebrado filme argentino O Segredo dos Seus Olhos, uma identidade própria. São raríssimos os momentos em que o remake parece preocupado em meramente reproduzir o que deu certo na obra assinada por Juan José Campanella. Tal escolha traz ao longa até mesmo uma certa imprevisibilidade: afinal, Billy Ray seguirá à risca todos os acontecimentos do material original? Isso não é suficiente, entretanto, para que Olhos da Justiça se torne um filme particularmente envolvente. É frio e distante o resultado alcançado aqui, e a culpa é da americanização da história: nesse novo, tudo é muito policialesco e centrado em excesso na obsessão do protagonista em solucionar o crime em questão. Assim, Olhos da Justiça cai naquele clichê do homem com um sexto sentido a quem ninguém dá ouvidos apesar de toda e qualquer prova. O elenco é bom, mas também não há química entre uma insossa Nicole Kidman e um Chiwetel Ejiofor que, ao contrário de como foi com Ricardo Darín, é conduzido rumo a um caminho de emoções mais externas do que internas. Há quem aplauda a interpretação de Julia Roberts, que sempre foi subestimada fazendo dramas pós-Erin Brokovich, mas até ela desperta dúvidas: não seria sua aparição mais impactante do que as outras apenas pelo papel claramente mais dramático e pela falta de maquiagem e qualquer glamour? Longe de ser um completo desastre como prometia, Olhos da Justiça, por outro lado, não impressiona – e, infelizmente, desaparece facilmente da memória com o passar dos dias.

Fogo no Mar

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Direção: Gianfranco Rosi

Roteiro: Gianfranco Rosi

Elenco: Samuele Caruana, Giuseppe Fragapane, Pietro Bartolo, Maria Costa, Francesco Mannino, Maria Signorello, Samuele Pucillo, Mattias Cucina

Fuocoammare, Itália/França, 2016, Documentário, 108 minutos

Sinopse: O documentário captura a vida da ilha italiana de Lampedusa. Na costa sul da Itália, o local se tornou linha de frente na crise de imigração da Europa, sendo manchete mundial nos últimos anos por ser o primeiro porto de escala para centenas de milhares de imigrantes da África e do Oriente Médio que tentam fazer uma nova vida no continente europeu. (Adoro Cinema)

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Um dos registros mais impactantes de Fogo no Mar está no rosto de um homem que literalmente chora sangue. Ele acaba de ser retirado de uma barca clandestina com centenas de outros africanos que seguiam rumo à ilha italiana de Lampedusa, ponto muito comum entre imigrantes que procuram chegar ao continente europeu. A barca estava lotada de pessoas que, durante dias, não comiam ou bebiam e se submetiam a temperaturas e situações precárias para cruzar ilegalmente o Mar Mediterrâneo rumo a terras mais promissoras. Como consequência, esses africanos queimam suas peles, morrem de desidratação e, a exemplo da cena citada, mutilam sua saúde chegando até mesmo a produzir lágrimas de sangue. Curiosamente, no bom sentido, Fogo no Mar não se concentra nessa abordagem: o documentário assinado por Gianfranco Rosi pode até ter momentos visualmente impactantes, mas, na realidade, seu foco privilegia a vida na ilha de Lampedusa e como o cotidiano dos moradores é eventualmente afetado por essa crise imigratória, contrapondo-se à ideia de acompanhar a jornada dos africanos, uma escolha que seria feita por quatro entre cinco cineastas. 

Melhor filme no Festival de Berlim 2016 e classificado pela presidente do júri Meryl Streep como uma obra “urgente, imaginativa, necessária e que instiga o nosso envolvimento e a nossa ação”, Fogo no Mar é defendido por seu diretor como um exercício de criação. Para Rosi, vivemos tempos de excesso de informações, cabendo ao cinema seguir um caminho oposto e ser uma plataforma de transgressão, onde a exposição, seja de fatos ou personagens, não deve ser fator preponderante para a excelência de um documentário. O cinema, dessa forma, deve se utilizar de suas ferramentas para nos imergir em algo novo. Bravo, sr. Rosi! Partindo desse conceito, a câmera do longa-metragem simplesmente observa os personagens, nunca fazendo com que eles sentem em uma cadeira para falar diretamente ao espectador. Em quase duas horas, vemos de perto os dias de uma senhora que, cuidando da casa, ouve, entre uma ou outra de suas músicas italianas favoritas, as notícias envolvendo as tragédias dos imigrantes, ou, então, os de um médico que atende todos os refugiados africanos. A figura mais curiosa, contudo, é um garotinho muito carismático que vive suas estripulias de criança na ilha. Mesmo não parecendo, ele é importante para a narrativa pois deixa a balança muito equilibrada: o sopro de bom humor trazido pelo menino é fundamental para que Fogo no Mar não se torne uma experiência de pesada absorção.

Não deixa de causar um certo estranhamento a subversão do formato ou a própria contemplação desse ritmo tão comum ao cinema europeu (estamos falando de uma coprodução Itália/França), só que a experiência é especial justamente por sua configuração atípica. Visualmente, Rosi, que assina a inteligente fotografia do documentário, também cumpre a proposta de impactar o espectador, mas de forma muito sábia, já que ele prefere guardar somente para os momentos finais os registros mais detalhados da captura dos imigrantes. É a partir dessa parte que vem o depoimento mais marcante do filme: o do médico que nega veemente a ideia de que, por ser um profissional da saúde, já teria se acostumado a testemunhar as tristes condições dos refugiados. “Como se habituar à imagem de uma mãe que deu luz ao filho durante a viagem e chega à Lampedusa com o recém nascido ainda pendurado pelo cordão umbilical?”, pergunta o personagem. Rosi não realizou um filme fácil em tema, forma e ritmo, mas a consagração em Berlim atesta a inteligência do Festival ao reconhecer uma obra que é muito consistente em um gênero pouco celebrado ao redor do mundo. O diretor, que só falta conquistar Cannes para ter a tríplice coroa dos festivais mais importantes de cinema (ele venceu Veneza em 2003 com Sacro GRA), diz que só realizará mais um filme e, depois disso, se dedicará exclusivamente a um de seus maiores sonhos: o mundo acadêmico. Haja sabedoria para encerrar uma história no auge – e isso, julgando por Fogo no Mar, Rosi parece ter de sobra.

Na TV… “The Good Wife” se despede após sete temporadas

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The Good Wife se despede da TV com elenco desfalcado e uma de suas temporadas menos interessantes, mas não se engane: o programa ainda reserva para os momentos finais uma grande força e uma total compreensão de sua própria jornada.

Em Party, antepenúltimo episódio da derradeira temporada de The Good Wife, que encerrou sua trajetória na TV no último domingo (08), Alicia Florrick (Julianna Margulies) resolve seguir seu coração, apostar na espontaneidade e investir em uma nova paixão. Isso, conclui ela, foi a única coisa que aprendeu ao longo da vida: tudo pode acabar, e não existe momento mais certo para ouvirmos os nossos instintos do que o agora. A cena, se retrocedermos lá para o início da série, é um verdadeiro choque. Ela não seria possível, por exemplo, na primeira temporada, quando uma retraída Alicia se vê desnorteada ao descobrir as infidelidades de seu marido político escancaradas em todos os noticiários.  Afinal, se existe um tema que, passados sete anos anos, norteou a jornada da protagonista criada pela dupla Robert e Michelle King, esse foi a libertação.

Não há comparações entre a Alicia Florrick decidida e independente que nos deu adeus agora em 2016 com àquela tímida e sem personalidade que entrou em nossas vidas sete anos atrás. Mesmo terminando em uma de suas fases menos interessantes, The Good Wife ficará na memória por essa desconstrução cirúrgica que fez de uma heroína em constante autodescoberta. É bastante raro uma série de TV aberta conseguir fazer, com discrição e elegância, a remodelação de uma protagonista sem despencar em audiência. Na TV aberta, o público pouco liga para a dimensão psicológica, e o que importa é a agilidade. A atração não abriu mão nem de um nem de outro, colocando, entre suas estratégicas básicas de sobrevivência, a estrutura de um caso jurídico por episódio (todos, em sua maioria, perfeitamente instigantes, bem construídos e próximos da realidade, ao contrário do que vemos nos tribunais fantasiosos de How to Get Away With Murder). Entretanto, o que sempre importou mesmo, indiscutivelmente, foi o que acontecia nos bastidores pessoais dessa esposa traída que volta a advogar para agora construir uma vida própria.  

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Amor ou responsabilidade? Enquanto Chris Noth acerta na ambiguidade de seu Peter Florrick, Julianna Margulies só cresce com as constantes autodescobertas de sua Alicia.

Estreando na TV já como um estouro ainda quando Damages, outra série sobre os bastidores do mundo da advocacia, fazia a grande Glenn Close brilhar, The Good Wife, por outro lado, custou a se tornar um relato mais particular. Não faltam fãs ao primeiro ano da série, que é concentrado mais nos casos jurídicos do que nas mudanças da protagonista, mas os episódios sofriam de certa forma porque, neles, Alicia Florrick ainda era a esposa tímida e recatada que não se dava ao direito de verbalizar o que sentia ou pesava. É claro que era um bom desafio para que Julianna Margulies, vencedora de um Globo de Ouro, dois Emmys e dois Screen Actos Guild Awards por seu desempenho (nessa última premiação ela é a atriz recordista absoluta de prêmios no segmento de TV), brilhasse ao interiorizar tudo da personagem. Só que não deixava de irritar e estagnar a trama o fato de Alicia ser tão inerte ao que acontecia em sua volta.

Isso foi prato cheio para que a britânica Archie Panjabi roubasse a cena com a sua misteriosa investigadora Kalinda Sharma, que é, disparada, a personagem mais fascinante que passou pelo programa. A situação muda por completo quando The Good Wife aproxima, no segundo ano, a protagonista de Khalinda, colocando, inclusive, as duas em uma rota de colisão pessoal que rende um dos ápices dramáticos do programa. Madura e frequentemente emocionante, a segunda temporada também se expande dramaticamente porque afunila, episódio a episódio, a relação entre Alicia e Will Gardner (Josh Charles), seu mais novo chefe e também um antigo amor mal resolvido dos tempos de faculdade. É nessa fase que coloca Alicia contra a parede em relação à amizade, casamento e passados ainda presentes que The Good Wife se engrandece e passa a desconstruir sua protagonista com devidas doses de inteligência.

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A química entre Julianna Margulies e Josh Charles: o romance mal regulado e carente de timing entre seus personagens sempre foi um dos melhores combustíveis da série.

O que se sucede a partir daí são os anos de uma mulher que passa a escrever sua própria história. Libertando-se, a protagonista descobre mais, entre tantas coisas, sobre seus talentos profissionais, aptidões maternas e até mesmo ímpetos sexuais e afetivos. Estruturalmente, o ritmo que o programa ganha é viciante porque The Good Wife cria um humor muito próprio (principalmente no que se refere à legião de consagrados atores convidados que passam pela série), abre, fecha e retoma ciclos com uma simetria invejável e ainda faz com que a esperteza de uma história mais sofisticada dialogue com as exigências comerciais de uma atração de TV aberta. E se parecia impossível a série repetir os grandes momentos da segunda temporada, eis que, no quinto ano, a trama toma rumos completamente inesperados – e não estamos falando necessariamente de uma importante morte, mas do magnífico episódio Hitting the Fan, que transforma o programa em uma verdadeira arena de digladiação profissional e pessoal entre os personagens.

Curiosamente, The Good Wife só cai em qualidade a partir da conclusão dessa temporada, consideradas por muito como o auge da maturidade narrativa do programa (o que não deixa de estar certo, visto que é muito raro uma série tão extensa chegar a essa altura impressionando e inovando). Eventuais falhas já eram perceptíveis antes disso, como o fato de Kalinda, sempre tão enigmática, ter sido jogada para o ostracismo com um texto no automático, e o de Peter Florrick (Chris Noth, certeiro em sua ambiguidade) se resumir ao personagem que basicamente só serve para atrasar a vida da protagonista com exigências durantes infinitas e cíclicas campanhas políticas. Um fator decisivo para que The Good Wife amortecesse suas qualidades a partir do final do quinto ano foi, sem dúvida, a saída de personagens importantes como Will Garner e Kalinda Sharma. A decisão de abandonar a série foi dos próprios atores, e o programa soube lidar bem com o encerramento dos ciclos de cada um deles, mas, com isso, os roteiristas também se viram obrigados a criar, posteriormente, diversas subtramas e novos personagens – e eles não foram nada inspirados nas investidas, já que tudo passou a se resumir a advogados abandonando uma empresa para criar outra ou, então, novas campanhas políticas (a própria Alicia resolve entrar no ramo durante a sexta temporada!).     

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Archie Panjabi deixou The Good Wife na penúltima temporada, mas sua Kalinda Sharma sempre será a personagem mais interessante a ter passado pelo programa.

Sem saber muito o que fazer após esses  desfalques, The Good Wife trouxe Vanessa Williams e Margo Martindale, entre outros atores, para participações esquecíveis, criou romances improváveis entre coadjuvantes (qual a necessidade do envolvimento entre a sogra de Alicia e seu idoso colega de trabalho?) e instalou personagens que eram claras tentativas de suprir a ausência de outros, a exemplo de Lucca Quinn (Cush Jumbo), que nunca chegou a construir com Alicia a cumplicidade antes existente com a Kalinda de Archie Panjabi. O elenco fixo permaneceu eficiente (a elegante Christine Baranski tem ótimos momentos na sexta temporada envolvendo as posições políticas da personagem, Julianna Margulies é superlativa em uma cena na lavanderia do episódio Judged do sétimo ano) e a série nunca perdeu, principalmente, o tino para as particularidades de seu universo e de seu humor. O problema é que, dramaticamente, The Good Wife andava em círculos e não entregava absolutamente nada de novo – e por isso mesmo não deixa de ser admirável a sensibilidade da equipe em perceber que o programa deveria chegar ao fim.

A temporada derradeira rivaliza com o quarto ano como a menos inspirada de todo o conunto. Por mais que os roteiristas tenham tido tempo para se programar para o desfecho, a sétima temporada patinou durante um bom tempo, e foi apenas nos momentos finais que os roteiristas pareciam ter consolidado a influência de novos personagens como Jason Crouse (Jeffrey Dean Morgan) e a própria Lucca Quinn. Em sua reta final, The Good Wife fez direitinho o feijão com arroz, o que ainda era muito pouco para um programa que já havia alcançado níveis tão refinados. Só que a surpresa ficou literalmente para os 45 do segundo tempo: quando chega aos exatos 15 minutos finais de End, seu último episódio, a série retoma grande parte dos seus diferenciais e entrega um desfecho para marcar época. É provável que muitos dos fãs detestem o tom, mas ele é muito forte: não me vem à cabeça, pelo menos agora, nenhum outro programa de TV aberta que tenha se concluído de forma tão pessimista e até mesmo propositalmente inconclusiva. Existe sim a vibe de que a vida sempre segue de um jeito ou de outro, mas nós não estávamos preparados para decisões tão francas, seja por The Good Wife não surpreender há tempos ou pela TV aberta não ter o costume de aderir a ideias como essa. Com isso, a afetiva participação de Josh Charles no capítulo final foi a menor das surpresas. Afinal, mesmo depois de fases problemáticas, os criadores Robert e Michelle King fizeram questão de nos lembrar, mais uma vez, nem que fosse nos minutos derradeiros, que The Good Wife nunca deixou sua sagacidade ser plenamente esquecida.

Volto logo! (e uma novidade importantíssima)

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Tem acontecido tanta coisa na vida pessoal e profissional que, como vocês devem ter percebido, ficou um pouquinho difícil atualizar o blog com a habitual frequência que ele merece e até contar para vocês, em primeira mão, novidades que têm tudo a ver com esse espaço. Antes de falar um pouquinho sobre a mais importante delas, já deixo registrado: é tempo de recarregar as baterias, o que me leva a ficar ausente daqui por um certo tempo. Isso não quer dizer, por outro lado, que paro de falar sobre cinema. Na realidade, é o que me leva às boas novas: à convite da equipe da rádio Mínima, aqui de Porto Alegre, produzo e apresento, desde o dia sete de abril, a versão radiofônica do Cinema e Argumento. Semanalmente, o programa traz as estreias da semana, notícias, clássicos e entrevistas com profissionais da área e de projetos relacionados à cinema. Para essa missão, tenho ao meu lado Clarissa Cé e Louisiane Cardoso, duas amigas também apaixonadas por cinema. Ou seja, mesmo com o blog de férias, não tem desculpa para não nos ouvir. O Cinema e Argumento vai ao ar todas as quintas-feiras, ao vivo, a partir do meio-dia, com reprise na sexta-feira às 14h. Para ouvir, basta sintonizar na minima.fm ou baixar gratuitamente o aplicativo disponível no Google Play ou na Apple Store. 

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