A Grande Aposta

Everyone, deep in their hearts, is waiting for the end of the world to come.

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Direção: Adam McKay

Roteiro: Adam McKay e Charles Randolph, baseado no livro “The Big Short”, de Michael Lewis

Elenco: Steve Carell, Christian Bale, Brad Pitt, Ryan Gosling, Marisa Tomei, John Magaro, Finn Wittrock, Jeremy Strong, Hamish Linklater, Wayne Pére, Melissa Leo, Margot Robbie, Selena Gomez, Tony Bentley

The Big Short, EUA, 2015, Comédia, 130 minutos

Sinopse: Michael Burry (Christian Bale) é o dono de uma empresa de médio porte, que decide investir muito dinheiro do fundo que coordena ao apostar que o sistema imobiliário nos Estados Unidos irá quebrar em breve. Tal decisão gera complicações junto aos investidores, já que nunca antes alguém havia apostado contra o sistema e levado vantagem. Ao saber destes investimentos, o corretor Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe a oportunidade e passa a oferecê-la a seus clientes. Um deles é Mark Baum (Steve Carell), o dono de uma corretora que enfrenta problemas pessoais desde que seu irmão se suicidou. Paralelamente, dois iniciantes na Bolsa de Valores percebem que podem ganhar muito dinheiro ao apostar na crise imobiliária e, para tanto, pedem ajuda a um guru de Wall Street, Ben Rickert (Brad Pitt), que vive recluso. (Adoro Cinema)

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Não é por não vivermos nos Estados Unidos que A Grande Aposta é um filme de temática complicadíssima. Até mesmo para os estadunidenses falar sobre o mercado imobiliário de Wall Street parece uma tarefa desafiadora. Uma prova disso é o fato da Paramount, distribuidora do filme, só ter embarcado nele depois do diretor Adam McKay concordar em assinar uma sequência da comédia O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy. Ou seja, quiseram garantir um bom retorno financeiro caso o filme fracasse (e era exatamente isso o que o estúdio esperava). Além disso, a própria forma como McKay, em parceria com Charles Randolph, constrói o roteiro acusa a consciência de que o assunto é erudito: frequentemente, a história praticamente estaciona para colocar pessoas comuns como eu e você explicando, de forma simplista e comparada a ideias corriqueiras do cotidiano de qualquer pessoa, detalhes dos negócios imobiliários em questão.

É óbvio que não deixa de ser frustrante ter que acompanhar A Grande Aposta como uma aula de economia onde só falta você ter que usar um caderninho de anotações para não esquecer teorias importantes, mas, por outro lado, essa consciência de que não está lidando com um assunto fácil só ajuda o filme a se tornar mais digerível e, principalmente, a ter uma personalidade das mais autênticas. A Grande Aposta consegue achar um belo meio termo entre o inacessível (não é o caso de você sair da sala de cinema sem ter entendido coisa alguma) e o didático (muito menos ficamos com a sensação de que Adam McKay está ministrando um curso rápido de economia imobiliária), o que é consequência direta do tino cinematográfico do filme e da longa trajetória do diretor com as comédias. Um exemplo disso é que, em certo ponto, o narrador chega a nos perguntar se estamos entediados com tantas explicações sobre o assunto, o que simboliza tudo o que precisamos saber sobre a pegada cômica de A Grande Aposta.

Basicamente, sempre há algo de novo para se aprender em cada cena. Do início ao fim, o filme metralha novas siglas e teses para falar sobre a crise que afetou os Estados Unidos em 2008. Entretanto, por mais que não se capte tudo o que é explicado sobre o universo financeiro em que os personagens estão inseridos, isso não é fator decisivo para se compreender a dramaticidade e o humor essencial de A Grande Aposta. Isso mesmo, pode ser que depois da sessão ninguém mais lembre o que é subprime, mas a discussão moral sobre até que ponto se deve tirar proveito de uma crise e a inacreditável cruzada de personagens que apostaram em uma probabilidade quase ridícula são plenamente sentidas pelo espectador.

Além de ter esse mérito quase inalcançável de tornar tragável – e até mesmo divertido e dramático – esse texto tão desinteressante e distante de nossas vidas, McKay acerta em outros aspectos fundamentais. É admirável, por exemplo, o trabalho que ele firma com o montador Hank Corwin, tornando A Grande Aposta um filme rápido e dinâmico, mas nunca frenético e responsável por tontear ainda mais o espectador. No entanto, principalmente, o que que resume a maturidade do diretor é a forma como ele conduz seus personagens, tanto para o humor quanto para o drama. E não estamos falando apenas da piada intrínseca que existe em trazer alguém como a cantora pop Selena Gomez para explicar um dos tantos termos técnicos de economia imobiliária, mas dos próprios protagonistas mesmo.

Deixo de lado a performance celebrada de Christian Bale para falar de um injustiçado: Steve Carell. Enquanto Bale adicionou uma indefensável (e preguiçosa) indicação ao Oscar de coadjuvante por seu trabalho aqui, não há dúvidas que o verdadeiro show de A Grande Aposta é de Carell, que já era um grande ator muito antes do mundo descobri-lo dramaticamente em Foxcactcher – Uma História Que Chocou o Mundo (não deixem de procurar ou rever a força de sua sutileza em pequenos grandes filmes como Pequena Miss SunshineEu, Meu Irmão e Nossa Namorada). Ele rouba a cena aqui porque sintetiza todo o universo mostrado pelo filme: nervoso e irritado, seu Mark Baum parece sempre prestes a infartar tamanha a preocupação com os negócios. Elogiá-lo pela comédia é fácil (com o detalhe de que ele em nada repete trejeitos do seu clássico Michael Scott do seriado The Office) e aqui ainda existe espaço para que ele exercite novamente seu lado puramente dramático, já que o personagem é assombrado pelo suicídio do irmão e por sua parcela de responsabilidade em um negócio que tem o poder de abençoar ou destruir vidas.

O que mais influencia na avaliação final de A Grande Aposta é a discussão sobre até que ponto a falta de identificação com um tema pode minar o nosso interesse por um filme, mesmo que ele seja inegavelmente original e bem conduzido. É esse mesmo o caso da obra de Adam McKay, que, em sua forma é condução, dribla as complicações do tema que debate. Agora, se realmente vamos cair de amores por ele é uma história bastante diferente. Não deixo de lembrar de grandes professores que tive ao longo da minha trajetória acadêmica, em especial àqueles das ciências exatas que, de forma tão original e inovadora, descomplicavam as disciplinas já sabendo que elas eram extensivamente rejeitadas por boa parte dos estudantes. Apesar da minha admiração pelo talento deles, devo confessar: nunca tais professores me fizeram gostar de verdade do conteúdo que ensinavam mais do que eu apreciava uma aula convencional de português, inglês, história ou literatura. Às vezes, realmente é apenas uma questão de gosto. A Grande Aposta que me perdoe.

Melhores de 2015 – Trilha Sonora

Melhor Trilha Sonora - Sicario

Foi somente em 2014 que o islandês Jóhann Jóhannsson recebeu reconhecimento por seu trabalho no cinema. É claro que as lembranças pela bela trilha de A Teoria de Tudo foram merecidas, mas Jóhannsson já era digno de nota desde Os Suspeitos, suspense que marcou a sua primeira e assombrosa parceria com o diretor Denis Villeneuve. Os dois voltam a trabalhar juntos em Sicario: Terra de Ninguém, e a nova colaboração da dupla é a mais impactante do ano no que se refere ao segmento de trilhas sonoras. Imersivo e perturbador, o trabalho de Jóhannsson dá a devida intensidade para essa história sobre o lado sombrio do ser humano frente à busca sem medidas pela justiça. O compositor potencializa a sua criatividade ao acompanhar a trama com composições que nos deixam a sensação de que o chão está prestes a se abrir sob os nossos pés. Ainda disputavam a categoria: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)Dívida de HonraMad Max: Estrada da FúriaA Teoria de Tudo.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 Ela | 2013 – Gravidade | 2012 Tão Forte e Tão Perto | 2011 A Última Estação | 2010 Direito de Amar | 2009 O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008Desejo e Reparação | 2007 A Rainha

Joy: O Nome do Sucesso

Don’t ever think that the world owes you anything, because it doesn’t.

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Direção: David O. Russell

Roteiro: David O. Russell

Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Virginia Madsen, Diane Ladd,  Isabella Rossellini,  Édgar Ramírez, Dascha Polanco, Elisabeth Röhm, Susan Lucci,  Laura Wright, Maurice Benard,  Donna Mills, Jimmy Jean-Louis, Ken Howard

Joy, EUA, 2015, Drama, 124 minutos

Sinopse: Criativa desde a infância, Joy Mangano (Jennifer Lawrence) entrou na vida adulta conciliando a jornada de mãe solteira com a de inventora e tanto fez que tornou-se uma das empreendedoras de maior sucesso dos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

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Não deve ter sido fácil para David O. Russell, depois de uma escalada inabalável de sucesso nos últimos anos, ver Joy: O Nome do Sucesso fracassar diante de público e crítica, especialmente quando as premiações sugerem que somente Jennifer Lawrence é digna de nota em seu mais novo filme. Por outro lado, curiosamente, não há grandes razões para terem rebaixado tanto Joy, um longa que, sem dúvida, é menor e menos expressivo dentro da carreira do diretor, mas que sequer chega perto da irritabilidade causada por O Lado Bom da VidaTrapaça, obras anteriores assinadas por ele e misteriosamente celebradas pelo mundo inteiro. Ora, Joy realmente não faz nada de tão grave para ser o patinho feio da recente filmografia de David O. Russell. Ou talvez isso seja apenas consequência da expectativa zerada desse meu coração que nunca entendeu muito bem tanta festa para um diretor que não passa do mediano.

Joy já começa anunciando que é sobre a força feminina e uma celebração a histórias de mulheres como a personagem-título, que venceram adversidades e prosperaram na vida apesar das dificuldades. Também é logo após esse letreiro que O. Russell coloca na tela a cena de uma telenovela clichê e exagerada, sugerindo que é justamente o tom de quase-fábula que o filme pretende seguir. Ambas são intenções muito válidas, mas nunca desenvolvidas com firmeza. O que acontece é que Joy se prende demais aos fatos de um fiapo de história (a da mulher que inventou um esfregão que se retorcia sozinho!) do que na personalidade visionária e à frente de seu tempo da protagonista. Já no tom empregado, é curioso como O. Russell baixa o tom da caricatura em uma história que, para flertar com a fábula, precisava exatamente de alternativas como os barracos e as gritarias tão mal calibradas em seus longas anteriores.

É até estranho constatar que Joy seja um dos filmes mais pé no chão do diretor, já que não faz muito sentido com o que o roteiro propõe. Puxando a história para o realismo, David O. Russell evidencia os problemas que devem ter afastado seus fieis escudeiros. Afinal, se o diretor não utiliza sua veia cômica para brincar com a ideia de Joy Mangano (Jennifer Lawrence, novamente indicada ao Oscar) ser uma espécie de Gata Borralheira, não dá para engolir a unilateralidade de personagens como o pai da moça, basicamente um senhor insensível e interesseiro desprovido de senso paternal. Sem uma pegada mais criativa, também não é fácil levar na esportiva a série de abusos emocionais que a protagonista sofre passivamente de uma verdadeira família de urubus que se instalou em sua casa. Calcada no realismo, a dramaticidade de Joy não tem impacto, e um pouco de imaginação pop ou pueril só faria bem à saga de nossa heroína.

Conformados com a ideia de que Joy opta por seguir o caminho oposto do que o roteiro precisava para entregar algo diferente, encontramos um filme tradicional cozinhado em baixíssima fervura. Não há nada de muito especial na condução dessa história de uma mulher empreendedora que só passa a demonstrar personalidade de verdade quando o filme se encaminha para o final – e é aí que Jennifer Lawrence realmente tem algo diferente para trabalhar. A atriz é um capítulo à parte na discussão de Joy porque, em um espaço muito curto de tempo na carreira, conquistou a maior bênção e maldição que se pode ter em Hollywood: o estrelato. É inegável que a superexposição e até mesmo a supervalorização de sua figura (sou do time que considera seu Oscar de melhor atriz muito prematuro) dificultam diretamente a aceitação que temos de seu trabalho, já que precisamos sempre fazer um certo esforço para distinguir Jennifer Lawrence de um verdadeiro personagem em cena, mas a moça é boa e, apesar de ter sido erroneamente escalada para o papel só por ser a galinha dos ovos de ouro do diretor (uma atriz de idade mais avançada traria muito mais credibilidade ao papel), é quem eventualmente dá brilho a um filme de elenco subutilizado. Realmente, somente Lawrence é digna de alguma nota em Joy, o que, ainda assim, não quer dizer muita coisa.

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards 2016

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“Me disseram que eu não era magra o suficiente, que eu não era branca o suficiente, que eu não era baixa o suficiente, que eu não era homem o suficiente… Dane-se, eu sou o suficiente! Eu sou Queen Latifah e eu sou uma atriz!”

Um temporal dos fortes atingiu Porto Alegre na última sexta-feira (29) e, sem brincadeiras, deixou a cidade parecendo uma locação de O Impossível. No meu bairro, uma árvore caída em cada esquina, telhados destroçados, lugares interditados… O resultado? A luz foi embora, assim como a internet, a água e a TV a cabo, o que fez com que, pela primeira vez na vida, eu não acompanhasse a cerimônia de premiação do Screen Actors Guild Awards. Comento agora um pouco atrasado e começo falando justamente de Queen Latifah, que abriu a cerimônia com um desses depoimentos que viriam a resumir a noite (esse mesmo que ilustra a foto do post).

Foi lindo ver o Screen Actors Guild Awards abraçando a diversidade. Dizem que é um tapa na cara do Oscar, mas não vamos tão longe: com o assunto do racismo em polvorosa, era óbvio que o SAG seguiria esse caminho. Sendo mais específico, é importante perceber que a comparação com o Oscar não deixa de ser um tanto equivocada, já que, apesar da vitória de Idris Elba como ator coadjuvante por Beasts of No Nation (o primeiro ator na história a ganhar um prêmio do Sindicato sem uma indicação ao Oscar pelo mesmo papel), as consagrações de Uzo Aduba (melhor atriz em comédia por Orange is the New Black), Queen Latifah (melhor atriz em minissérie por Bessie), Viola Davis (melhor atriz em drama por How to Get Away With Murder) e Idris Elba em dobradinha (ator em minissérie por Luther) são todas relacionadas ao universo televisivo. Dessa forma, o SAG foi, na realidade, um tapa na cara do Globo de Ouro, que só conseguiu premiar Taraji P. Henson como melhor atriz dramática por Empire.

O que quero dizer é que o passo dado pelo SAG foi extremamente importante, mas é bom que não seja uma jogada óbvia para um momento extremamente delicado e para inconscientemente se desviar das tantas polêmicas que têm surgido em relação ao assunto. Isso precisa perdurar para que discussões sobre racismo na indústria não sejam assunto apenas para tempos de Oscar. Principalmente porque muitas dessas vitórias (pelo menos as que conferi) são pra lá de justas: Viola Davis é magnífica no mero guilty pleasure que é How to Get Away With Murder e Queen Latifah tem um dos grandes momentos de sua carreira em Bessie (dá para entender sua derrota no Emmy para Frances McDormand por Olive Kitteridge, ao contrário do papelão que foi vê-la sendo derrota por Lady Gaga no Globo de Ouro por American Horror Story: Hotel). Talento é o que não falta em qualquer ator de qualquer raça, sexualidade ou cor de pele. Citando Viola novamente, o que faz a diferença é a oportunidade.

Falemos agora sobre cinema e o que realmente significou a premiação em termos práticos. Antes de conhecer a lista de vencedores, comentava que o SAG só serviria para iluminar a categoria mais imprevisível até então: atriz coadjuvante. Ora, uma suposta vitória de A Grande Aposta em melhor elenco não resolveria muita coisa, principalmente se lembrarmos que Pequena Miss Sunshine, também uma comédia, foi a alternativa do SAG e do PGA em 2007, outro ano de competição extremamente confusa. E, como bem sabemos, isso não se refletiu no Oscar, que optou por finalmente consagrar Martin Scorsese com o seu Os Infiltrados

Pode até ser que, com a vitória de Spotlight – Segredos Revelados, a corrida pela estatueta de melhor filme continue aberta, mas o quarteto vencedor dos prêmios de atuação já está basicamente resolvido agora que Alicia Vikander, vindo também de uma recente vitória no Critics’ Choice Awards, ganhou como atriz coadjuvante por A Garota Dinamarquesa (a sua derrota no Globo de Ouro nada significa porque ela concorria certeiramente como protagonista e não tinha como rivalizar com Brie Larson por O Quarto de Jack). Moral da história: vamos para o Oscar confusos de verdade apenas nas categorias de filme e direção. Confira abaixo a lista completa de vencedores do Screen Actors Guild Awards 2016:

CINEMA

MELHOR ELENCOSpotlight – Segredos Revelados
MELHOR ATRIZ: Brie Larson (O Quarto de Jack)
MELHOR ATOR: Leonardo DiCaprio (O Regresso)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Idris Elba (Beasts of No Nation)

TV

MELHOR ELENCO DE SÉRIE DRAMÁTICA: Downton Abbey
MELHOR ELENCO DE SÉRIE DE COMÉDIAOrange is the New Black
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DRAMÁTICA: Viola Davis (How to Get Away With Murder)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DRAMÁTICA: Kevin Spacey (House of Cards)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Uzo Aduba (Orange is the New Black)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jeffrey Tambor (Transparent)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Queen Latifah (Bessie)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Idris Elba (Luther)

 

Melhores de 2015 – Figurino

Melhor Figurino - Macbeth

Macbeth: Ambição e Guerra tem plena consciência de que filmes de época não precisam de figurinos óbvios. Claro que isso vem da experiência de alguém como Jaqueline Durran, que já assinou o guarda-roupa de filmes emblemáticos nesse segmento como Anna Karenina Desejo e Reparação, mas o conceito adotado por Macbeth é realmente mais comedido para alcançar um outro tipo de grandiosidade: é nos mínimos detalhes, do tipo de tecido às discretas cores e costuras de cada vestimenta, que o figurino do filme estrelado por Michael Fassbender e Marion Cotillard comunica universos sobre a evolução de seus personagens em trama e sentimentos. A ascensão social paralela à degradação moral dos protagonistas está inteligentemente transmitida em cada peça, onde Durran segue a melhor das lógicas: menos é sempre mais. Ainda disputavam a categoria: Caminhos da FlorestaCinderelaSr. TurnerAs Sufragistas.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – Anna Karenina | 2012 W.E. – O Romance do Século | 2011 – O Discurso do Rei | 2010 A Jovem Rainha Victoria | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Elizabeth – A Era de Ouro | 2007 – Maria Antonieta

Steve Jobs

I don’t want people to dislike me. I’m indifferent to whether they dislike me.

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Direção: Danny Boyle

Roteiro: Aaron Sorkin, baseado no livro “Steve Jobs”, de Walter Issacson

Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Jeff Daniels, Seth Rogen, Michael Stuhlbarg, Katherine Waterston, Makenzie Moss, Ripley Sobo, Perla Haney-Jardine, Sarah Snook,  John Ortiz,  Adam Shapiro

EUA/Reino Unido, 2015, Drama, 122 minutos

Sinopse: Três momentos importantes da vida do inventor, empresário e magnata Steve Jobs: os bastidores do lançamento do computador Macintosh, em 1984; do NeXT, em 1989; e o do iMac, em 1998.

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Entre meus desafetos cinematográficos que vão na contramão do que público e crítica celebram, o nome de Aaron Sorkin está certamente entre os primeiros da lista. A falta de identificação é questão de longa data: já considero quadradíssima a estreia de Sorkin nos cinemas, quando ele adaptou, em 1992, Questão de Honra (sua própria peça) para a tela grande. No meio do caminho, vieram trabalhos tediosos e desinteressantes que nem elencos consagrados conseguiram salvar (Jogos do Poder, lamentavelmente o último filme assinado por Mike Nichols, é um dos maiores desperdícios de talentos do cinema recente) ou, então, histórias que, por pura questão de gosto pessoal, simplesmente não me envolviam, como o distante e verborrágico A Rede Social. Na TV, Sorkin ainda me decepcionou profundamente com The Newsroom, aquela série sobre jornalismo que chegou a render um Emmy de melhor ator para Jeff Daniels. O programa era uma zona porque obrigava o roteirista a trabalhar em cima daquele que considero o maior de seus problemas: a dificuldade em eventualmente abandonar a racionalidade e dar calor humano a qualquer personagem. Por isso, dado o histórico, nunca escondi minha falta de interesse por Steve Jobs, um filme que, entretanto, só me fez comemorar: às vezes é delicioso estar redondamente enganado.

Humanizar Steve Jobs (Michael Fassbender) faz toda a diferença para o filme de Danny Boyle porque é muito fácil odiar um personagem como ele. Sujeito vaidoso e irredutível, o criador da Apple dizia ser indiferente à ideia das pessoas gostarem dele ou não. Ele fazia por onde em todas as instâncias para corroborar eventuais aversões: no plano familiar, ignorava seu papel e suas responsabilidades mais básicas como pai; no círculo de amizades, não pensava duas vezes antes de dar adeus a um amigo quando esse reivindicava autoria criativa em um projeto; e, por fim, no convívio profissional, era ciente de sua inegável genialidade e usava tal poder para tratar qualquer pessoa como bem entendia. Assim, ao cercar o protagonista de figuras que clamam constantemente por sua humanidade, como Joanna Hoffman, a executiva de marketing da Apple vivida por Kate Winslet, Sorkin evita que nosso protagonista se torne aquele estereótipo de gênio insensível e quase unilateral em sua frieza que já vimos o roteirista construir na figura de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) em A Rede Social, por exemplo. Em essência, Steve Jobs é o bom e velho Sorkin de diálogos rápidos e incessantes, mas, dessa vez, com o bônus de se atentar a outros aspectos que não sejam relacionados apenas à simetria perfeita das suas construções frasais.

A escolha de ambientar Steve Jobs em três momentos pontuais (os lançamentos de produtos assinados pelo protagonista) obviamente traz repetições porque tudo parece conspirar contra Steve sempre minutos antes de ele subir ao palco para apresentar ao público e à imprensa suas mais novas criações. A fórmula é basicamente sempre a mesma: enquanto se prepara para o grande momento do dia, ele recebe uma visita bombástica atrás da outra nos bastidores (o antigo chefe aparece, a assistente resolve se revoltar, o amigo reivindica reconhecimento e até a ex-mulher aparece com a filha!). São coincidências demais que exigem certa boa vontade do espectador em acreditar que tudo aconteça de forma tão agrupada, mas, ao mesmo tempo, o roteiro ganha muitos pontos ao delimitar tal recorte de tempo. Primeiro porque não existe melhor maneira de um filme mostrar sua excelência em uma biografia do que extraindo toda a personalidade e história de seu biografado a partir de situações específicas. E segundo porque a fórmula obriga Sorkin a ser o mais objetivo possível ao lidar com a emoção de seus personagens (o que acabava com The Newsroom era justamente o roteirista inventando paixonites e dramas bobos para preencher dramaticamente um considerável espaço de tempo). Dessa forma, a concisão traz força maior a Steve Jobs, proporcionando momentos realmente emblemáticos, como a nervosa discussão entre Steve e John Sculley (Jeff Daniels, ótimo) que remonta a noite em que o protagonista foi surpreendentemente demitido da Apple.

O diretor Danny Boyle orquestra muito bem todos os elementos de Steve Jobs, trabalhando obviamente com um tom mais teatral (afinal, o filme se divide em três blocos ambientados quase em um único local), mas sem perder o senso cinematográfico. A forma como Boyle explora o design de produção para não cair em repetições e dar a dimensão temporal das evoluções e retrocessos do protagonista em três recortes diferentes é fundamental para que Steve Jobs não se torne uma mera sucessão de diálogos e discussões em cima ou atrás de um palco (literalmente). Fora isso, como era de se esperar, o elenco é parte decisiva desse processo, e todos estão em momentos especiais. Chama a atenção, particularmente, a forma como Michael Fassbender consegue se despir de sua marcante e inegável beleza para mergulhar sem medo nas angústias deste homem brilhante mas que, de um jeito ou de outro, é atormentado por uma eterna batalha consigo mesmo. E se Kate Winslet faz maravilhas com uma personagem sem qualquer história prévia para contar (só sabemos que sua Joanna é de origem polonesa), pequenas participações são certeiras pelo que o roteiro proporciona e pela composição de atores como Seth Rogen e Michael Stuhlbarg. Steve Jobs é, enfim, uma vitória, já que, ao contrário do que qualquer desânimo com o projeto possa indicar (não são todos que superaram o total e recente fracasso de Jobs, estrelado por Ashton Kutcher em 2013), estamos diante de um dos mais surpreendentes filmes deste início de ano.

Melhores de 2015 – Design de Produção

Melhor Design de Produção - Expresso do Amanhã

Com distribuição atrasada e desleixada, Expresso do Amanhã passou praticamente em branco nos cinemas brasileiros, mas é uma experiência recompensadora para quem se propôr a garimpá-lo. Já original em suas próprias ideias de trama e desenvolvimento, o filme também reserva gratas surpresas técnicas como o trabalho de maquiagem e, principalmente, o de design de produção, nosso escolhido como o melhor de 2015. Compondo diferentes universos em cada vagão do imenso trem que abriga personagens em um futuro pós-apocalíptico, Expresso do Amanhã vai de cenários delicados e infantis como uma simples sala de aula a ambientes sujos, escuros e bagunçados que salientam a grande disparidade social entre os grupos confinados no veículo em questão. Essa multiplicidade de criações encanta pelas ideias e torna ainda mais crível a proposta criativa do diretor Bong Joon Ho. Ainda disputavam a categoria: Macbeth: Ambição e GuerraMad Max: Estrada da FúriaSr. TurnerStar Wars: O Despertar da Força.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 O Grande Hotel Budapeste | 2013 Anna Karenina | 2012 A Invenção de Hugo Cabret | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet | 2007 – Maria Antonieta

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