Ricki and the Flash: De Volta Pra Casa

It’s like the ’80s all over again!

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Direção: Jonathan Demme

Roteiro: Diablo Cody

Elenco: Meryl Streep, Mamie Gummer, Kevin Kline, Rick Springfield, Rick Rosas, Joe Vitale, Bernie Worrell, Ben Platt, Peter C. Demme, Keala Settle, Joe Toutebon, Ripley Sobo, Sebastian Stan

Ricki and the Flash, Comédia/Drama, 101 minutos

Sinopse: Encarando de perto o envelhecimento, uma estrela do rock (Meryl Streep) tenta se reaproximar dos filhos e recuperar a intimidade familiar perdida por ter colocado a carreira em primeiro lugar. (Adoro Cinema)

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São poucos os roteiristas que têm uma linha de conceito tão interessante quanto a de Diablo Cody. Vencedora do Oscar de melhor roteiro original em 2008 por Juno, a ex-stripper costuma praticar a inversão de clichês em suas histórias. Ricki and the Flash: De Volta Pra Casa segue o padrão, já que acompanhamos a história não de um homem, mas sim de uma mulher que abandonou a família para tentar uma carreira de sucesso no mundo da música. Ao contrário de outros filmes, Ricki (Meryl Streep) não retorna como uma milionária arrependida ou reconhecida a cada esquina: falida e aclamada apenas em um barzinho quase sempre vazio, a mãe tenta se reconectar com os filhos sabendo que os perdeu em uma missão que não lhe trouxe absolutamente nada de concreto na vida. Desta forma, por mais leve e simples que seja em outros aspectos, Ricki and the Flash acerta na delicadeza com que constrói um drama familiar sustentado por ideias que fogem do lugar-comum.

Quando estreou nos cinemas norte-americanos em agosto deste ano, o filme de Jonathan Demme chegou a ser criticado por sua superficialidade e, inclusive, pelo modo com que Meryl Streep não convencia como uma estrela do rock. Ora, especialmente em relação a segunda afirmação, dá para perceber que Ricki and the Flash não foi apreciado como merece, pois, se Streep não convence como uma cantora do gênero, é porque a própria personagem não convenceu ninguém ao longo de sua existência: Ricki conseguiu gravar apenas um esquecível álbum de rock e hoje trabalha como caixa de supermercado para poder pagar suas contas. Enquanto isso, tenta se agarrar a algum tipo de prestígio ao cantar para 10 ou 15 pessoas em um pub comum e pouco frequentado. Quando retorna para casa após uma tentativa de suicídio da filha recém divorciada, Ricki vê o que perdeu ao longo dos anos, mas, como bem canta em Cold One, canção escrita originalmente para o filme, também não existe, apesar dos fracassos, mais ninguém que ela gostaria de ter sido.

Se estiver disposto a ter um olhar mais sensível e atento, o espectador poderá ver Ricki and the Flash além dos diálogos eventualmente expositivos (mas nem por isso ineficientes) e das piadas mais fáceis. Demme, que já havia trabalhado com Meryl Streep em 2004 no thriller Sob o Domínio do Mal, apostou em uma abordagem afetiva para falar sobre distâncias e proximidades familiares. Os próprios clichês, como o inevitável jantar em família repleto de venenos destilados e mágoas abertas, surgem divertidos nas mãos do diretor, que compreende ainda que um longa de dimensões pequenas como esse deve – e merece -, ser entregue a um bom elenco. No entanto, isso não quer dizer que é apenas Meryl Streep que tem seus momentos aqui. Kevin Kline, por exemplo, encontra o tom certo como o senhor certinho e quase “coxinha” que, em um primeiro momento, aparenta não ser o tipo que se apaixona por uma mulher transgressora como a protagonista. Só que basta um momento emotivo dedicado aos dois (aquele na cozinha enquanto a filha dorme) para que ele e Meryl nos convençam por completo que aquelas são duas figuras que já viveram muitas coisas juntos.

Para os cinemas brasileiros, fica uma reivindicação: é uma pena que o repertório que vai de Lady Gaga (Bad Romance) e Pink (Get the Party Started) a U2 (I Still Haven’t Found What I’m Looking For) e Brunce Springsteen (My Love Will Never Let You Down) não esteja legendado em nossas salas. Isso porque o público que desconhece as canções ou não domina o inglês certamente perderá o que algumas das músicas significam para a história, em especial a de Springsteen, interpretada em um momento-chave da história. Streep, que teve aulas de guitarra com Neil Young (sim, ela própria domina o instrumento nas cenas), empolga em todos os momentos musicais, inclusive naqueles que, repito, evidenciam uma cantora decadente que, frente a velhice, ainda tenta se agarrar a um êxito musical e profissional que nunca teve. Não há mais o que ser dito sobre a atriz, pois todos os elogios direcionados a ela já caem no lugar comum, mas é fato que Ricki and the Flash é uma excelente adição ao seu currículo de personagens que se distinguem por completo uns dos outros. E o melhor: em um filme que inicialmente pode até ser um mero feel good drama, mas que é sim, lá no fundo, mais esperto do que aparenta.

Bessie

I’m a young woman, and I ain’t done runnin’ around.

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Direção: Dee Rees

Roteiro: Bettina Gilois, Christopher Cleveland e Dee Rees, baseado em história de Dee Rees e Horton Foote

Elenco: Queen Latifah, Mo’Nique, Tika Sumpter, Michael Kenneth Williams, Bryan Greenberg, Oliver Platt, Khandi Alexander, Mike Epps, Tory Kittles, Charles S. Dutton, Onira Tares

EUA, 2015, Drama, 112 minutos

Sinopse: Uma cinebiografia da “Imperatriz dos Blues”, Bessie Smith. O caminho que a levou de uma infância simples no Tennessee ao estrelato como uma das principais divas da música norte-americana. (Adoro Cinema)

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É o que existe de mais comum em biografias produzidas para o cinema e para a TV: atores maiores que os próprios filmes. Queen Latifah não foge à regra em Bessie, telefilme da HBO sobre Bessie Smith, cantora conhecida como a Imperatriz do Blues por sua forte influência no gênero musical durante os anos 1920 e 1930. A atriz já estaria grandiosa por si só em um filme de escolhas inteligentes, mas Bessie é cercado de escolhas fáceis, o que permite que Latifah realmente roube todo o impacto da obra para si. Se existe algo que vale a pena na experiência é o seu desempenho, que vai muito além do trabalho corporal e da naturalidade em dar voz aos sucessos da famosa cantora.  

Bessie tem uma história isenta de vários clichês que poderiam deixar o relato ainda mais aborrecido. Não existe aqui, por exemplo, uma artista que coloca a sua carreira em risco por ter problemas com drogas ou muito menos alguém que perde tudo em função da ganância ou da bebida. Ainda bem! E é exatamente por isso que chateia o fato de Dee Rees não ser mais criativa ao falar sobre uma mulher à frente do seu tempo: Bessie Smith era abertamente bissexual, não levava desaforo para casa e ainda tinha a coragem de enfrentar a Klu Klux Klan em tempos de imenso racismo. Ao invés de explorar com maior liberdade a forte personalidade da protagonista – que frequentemente se reduz a barracos pessoais e profissionais -, a diretora e roteirista prefere seguir a cartilha de ascensão e queda de uma pessoa humilde e talentosa que batalha por um lugar ao sol, grava o primeiro disco, tenta esquecer os fantasmas familiares do passado e enfrenta tantos outros conflitos que já conhecemos.

É mais do que possível trazer originalidade a uma história essencialmente óbvia, e Bessie tem algumas jogadas nesse sentido, como a cena em que a cantora sai da maca de hospital e, ao atravessar uma porta, se vê em um palco para cantar sua dor. Só que basta puxar um pouco a memória para ver que até mesmo tal investida não é necessariamente nova: mais recentemente Piaf – Um Hino ao Amor fez exatamente a mesma coisa quando colocou Marion Cotillard indo de uma cena de imensa dor à beira de um palco para cantar a bela L’Hymne à L’Amour. Ou seja, por mais que eventualmente tente, Bessie não tem frescor e, assim como muitas outras biografias, surpreende mesmo apenas na escolha da protagonista e, claro, na parte técnica, aqui novamente de alto nível para os padrões da HBO.

Da direção de arte aos figurinos, passando por uma emotiva e funcional trilha instrumental, Bessie cumpre sua missão nesse sentido, mas realmente só sai do lugar-comum com a criação de Queen Latifah. Ela, que tem ótimo e já conhecido timing cômico, faz justamente um contraponto a essa fama no telefilme. Sim, ela também volta cantar maravilhosamente bem (mais uma marca registrada de papeis em longas como Chicago Hairspray), porém poucas vezes a vimos tão preocupada com outros detalhes de sua interpretação. O resultado é a construção de um ser humano verdadeiro e próximo a nós que chega a ser emocionante. Toda delicadeza e força do longa está no trabalho dela. Estamos na torcida para que mais momentos como esse venham por aí – e tomara que estejam todos em obras mais transgressoras do que Bessie.

Ponto Zero

Presta atenção! Só existem três coisas nesse mundo: existe a vida, existe a morte e existe a sorte.

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Direção: José Pedro Goulart

Roteiro: José Pedro Goulart

Elenco: Sandro Aliprandini, Patrícia Selonk, Eucir de Souza, Nicolas Conceição, Thiago Ruffoni, Lisandro Belloto, Paulo Adriane, Carlos Azevedo, Luis Franke, Heinz Limaverde, João Carlos Carpendo, Camila Vergara, Giulia Perillo, Simone Telecchi, Luciana Domiciano e Larissa Tavares

Brasil, 2015, Drama, 94 minutos

Sinopse: Esta é a história de Ênio, um menino de 14 anos, capturado em uma claustrofóbica teia familiar que lhe toma a alma e lhe detém o desejo. Ao tentar escapar, ele enfrenta uma noite tempestuosa que o fará mergulhar no imprevisível, no fantástico, no aleatório.

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Foram diversas as vezes em que sentei frente ao computador para escrever sobre Ponto Zero, filme gaúcho que conferi no dia 13 de agosto durante a programação competitiva do 43º Festival de Cinema de Gramado. Falhei em todas as tentativas. Isso não aconteceu por distração ou falta do que dizer, mas porque nunca encontrei as palavras certas para descrever o quanto Ponto Zero me comoveu – e talvez nunca encontre. De forma bem genérica, a explicação é a seguinte: esse é o tipo de experiência que, a cada minuto, me lembrava o porquê de eu ter me tornado um apaixonado por cinema. Sinceramente? Não sei se é necessário racionalizar cada detalhe que fez Ponto Zero conversar comigo. Às vezes é simplesmente um mergulho, algo cósmico, exatamente como acontece quando a gente se apaixona sem sequer se importar com as razões. Só que volta e meia vem essa necessidade de exteriorizar o sentimento, falar sobre a identificação com a obra, como se escrever sobre ela amenizasse a vontade que frequentemente vem de revê-la. Ou seja, o filme em si é a causa disso tudo, mas também a cura. Vou tentar agora, do jeito que for, falar um pouco sobre essa obra.

Durante o Festival de Cinema de Gramado, estranhava o fato do diretor José Pedro Goulart falar pouco em entrevistas, revelar quase nada sobre o filme e até mesmo escolher minuciosamente as fotos de divulgação de Ponto Zero (nenhuma delas sequer revela o rosto do protagonista). Frescura? Pretensão? Nada disso, mas, sim, ele involuntariamente criou muitas expectativas em torno do filme, e lembro que, quando a sessão começou, virei para minha colega e disse “é bom que esse filme seja uma obra-prima depois de tanto mistério”. E foi. De repente, o mínimo que o diretor falava sobre a obra fez todo sentido porque Ponto Zero se revelou uma obra digna de ser sentida e não necessariamente de ser explicada. É o típico caso de quanto menos se falar sobre o filme, mais imersiva e surpreendente será a jornada. Para quem gosta de comparações, muitos o relacionam a Depois de Horas, de Martin Scorsese, e eu não deixo de me lembrar da adolescência igualmente solitária e angustiante de Os Famosos e os Duendes da Morte. Mas Ponto Zero tem uma pegada própria e, mesmo com as similaridades temáticas, se distancia bastante desses dois filmes.

Já nos primeiros minutos é perceptível que o primeiro longa-metragem da carreira de Goulart (que dirigiu ao lado de Jorge Furtado O Dia Em Que Dourival Encarou a Guarda, um dos mais célebres curtas da cinematografia brasileira)  tem um apuro técnico impressionante. A piscina que se confunde com o espaço, a narração que fala sobre distância ao relatar um problema entre dois astronautas e a lindíssima trilha sonora de Léo Henkin já dão o tom: gostando ou não, esta é uma obra que não lhe causará indiferença – e sempre gosto de reforçar que não existe melhor elogio para um filme. Aos poucos, e muito silenciosamente, vamos entrando no conturbado mundo de Ênio (Sandro Aliprandini), um jovem que apanha dos colegas de escola e em casa vive um verdadeiro pesadelo frente aos problemas matrimonias de seus pais. Ele quase não é visto como alguém de personalidade própria – e seus longos cabelos já indicam que Ênio também comprou a ideia de que precisa estar constantemente escondido -, mas, em uma noite específica, embarcará sozinho em uma viagem pelas ruas de Porto Alegre que marcará sua vida para sempre.

Filmado quase inteiramente em ordem cronológica e com os atores recebendo os roteiros de suas cenas minutos antes de gravá-las, Ponto Zero é um filme de poucas palavras e de notável força visual. Dos impactantes momentos noturnos e chuvosos ao modo como é retratada a capital gaúcha (os carros aqui andam de trás para frente), todas as escolhas “técnicas”, digamos, comunicam alguma coisa, ao contrário dos que dizem que esta é uma obra que tem mais forma do que conteúdo. Assim como em Direito de Amar, outro filme que admiro imensamente, cada detalhe diz sim muito sobre o personagem e todos os seus conflitos. Afirmar que Ponto Zero tem embalagem demais para conteúdo de menos é uma verdadeira heresia – e pior: só comprova uma desatenção com cada mensagem escondida nas entrelinhas. Não é uma experiência fácil, admito, mas, para mim, essa definição vem por outros motivos: a história é mesmo quase desesperançosa, obscura, pessimista. E a desestruturação familiar – tema que pontuou basicamente todos os filmes do Festival de Cinema de Gramado deste ano – é apenas uma das feridas mexidas por José Pedro Goulart em meio a uma adolescência de solidão, ímpetos sexuais e uma incontrolável vontade de crescer logo.

Apesar do difícil drama transmitido também em imagens (Ponto Zero consegue uma viagem tão sensorial e hipnótica que nem percebemos um peso crescer em nossas costas), o resultado é perfeitamente contundente em sua concepção. Admiro a coragem do jovem Sandro Aliprandini, que, aos 14 anos, topou destemidamente embarcar em um projeto complexo como esse. Seu personagem é dos mais difíceis: quase não conhecemos a voz de Ênio e Sandro precisa exteriorizar em gestos e expressões a personalidade e as angústias de seu sufocado personagem. Tirou de letra. Apesar das sombras, entretanto, Ponto Zero é um filme sobre a busca por algum tipo de luz e, principalmente, sobre como essa procura só depende de nós. Fiquei dias processando a história (tanto que só agora consegui escrever sobre ela) e, nesse meio tempo, durante o Festival, consegui dar um abraço no jovem Sandro durante a entrevista que fiz com ele, e também dizer pessoalmente ao Zé Pedro o quanto eu torcia pelo filme dele. Não costumo fazer isso, mas o que eu sentia pelo filme pediu. Isso porque a obra falou comigo não apenas em função das minhas preferência cinéfilas, mas também por conseguir alcançar o meu interior como ser humano mesmo. Não vejo a hora de reencontrar Ponto Zero.

43º Festival de Cinema de Gramado #13: um balanço dos vencedores e da edição deste ano

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O tradicional registro dos vencedores do Festival de Cinema de Gramado. Ausência, de Chico Teixeira, foi o grande vencedor da 43ª edição. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Em maior ou menor grau, a desestruturação familiar foi o tema que norteou todos os longas brasileiros exibidos na 43ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Por isso a vitória de Ausência como o melhor filme da edição é tão simbólica, já que o filme de Chico Teixeira é justamente o desolador retrato de um jovem menino abandonado pelo pai e que precisa ser o ponto de equilíbrio em uma família fragilizada. Além do prêmio principal, Ausência faturou ainda as categorias de direção, roteiro e trilha musical, quebrando o padrão dos últimos anos de distributivismo nas categorias principais. Isso é resultado direto de uma escolha mais cuidadosa do júri, que, entre recentes descobertas (Rita Carelli, atriz de Permanência) e grandes mestres (o compositor Jaques Morelembaum) na sua formação, compensou bem as escolhas desgovernadas do ano passado.

Gosto muito de Ausência, mas a minha preferência era toda – sem qualquer bairrismo – do gaúcho Ponto Zero, de José Pedro Goulart. Impecável em sua técnica (esse parece ser, conforme comentaram nos debates, o filme mais caro da história do Rio Grande do Sul), o longa é um sensorial mergulho nas angústias e fantasias de um jovem de 14 anos que, solitário, é agredido fisicamente pelos colegas e, por que não, emocionalmente em casa pelos pais, que, quando não ignoram sua existência, usam o menino para achar alguma solução para profundos problemas matrimoniais. É um estupendo trabalho que comentaremos futuramente aqui e que foi subavaliado pela premiação, onde saiu vitorioso apenas nos prêmios técnicos de desenho de som e montagem, quando merecia, na realidade, inquestionavelmente, os Kikitos de melhor trilha musical e fotografia – no mínimo. Também teria sido para lá de justo que o jovem Sandro Aliprandini fosse coroado por seu difícil desempenho em um filme onde quase não há falas para ele. A lembrança seria especial para um ano onde os pequenos e adolescentes roubaram a cena (ainda tínhamos as boas surpresas de Matheus Fagundes em Ausência e Davi Galdeano em O Outro Lado do Paraíso).

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Mariana Ximenes e Breno Nina foram os melhores atores por Um Homem Só e O Último Cine Drive-In, respectivamente. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Outros destaques entre os brasileiros foram O Último Cine Drive-In, de Iberê Carvalho, e Um Homem Só, de Cláudia Jouvin. O primeiro, uma obra pra lá de carinhosa, ganhou os prêmios de ator (Breno Nina), atriz coadjuvante (Fernanda Rocha) e direção de arte, além do troféu Cidade de Gramado entregue pelo júri da crítica. Um pouco demais, talvez, para uma obra que pega mais pelo afetivo do que necessariamente por sua força cinematográfica. Já o segundo não agradou a crítica presente em Gramado, o que é bastante lamentável. Muitos questionaram sua presença no evento (“isso não é filme de Festival!”), e o que chateia é que passe quase despercebido o fato de Jouvin fazer um filme de gênero e totalmente diferente do que estamos acostumados a ver. A própria diretora comentou que a ideia era fazer uma estranha história de amor, algo que a crítica parece não ter comprado. A vitória de Mariana Ximenes como melhor atriz também não repercutiu bem (vale lembrar que este não foi um grande ano mesmo para os desempenhos femininos), mas soa mais como uma implicância com a obra que, conforme já comentamos, seria saudada como um sopro contemporâneo de originalidade caso fosse realizada por nossos hermanos argentinos. O gramado do vizinho sempre parece mais verde.

Por falar em implicância, já estão ficando chatos e repetitivos os questionamentos envolvendo o ineditismo no Festival de Cinema de Gramado. A curadoria se posicionou diversas vezes: não vão deixar de exibir filmes bons só porque já passaram em outros Festivais. O trio formado por Eva Piwowarski, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho também afirma que ineditismo não é sinônimo de qualidade, o que está refletido, inclusive, na seleção deste ano com o duvidoso Introdução à Música do Sangue. Em entrevistas e declarações em coletivas, a imprensa questiona o esquecimento de filmes como Beira-Mar, por exemplo, exibido em Berlim este ano – mas basta pesquisar um pouco para ver que o filme da dupla gaúcha Filipe Matzembacher e Márcio Reolon simplesmente não esteve presente em qualquer festival brasileiro. Quem sabe a dupla optou apenas por uma carreira internacional em tempos que quase todos os festivais exigem ineditismo? Por falar nisso, fica mais uma reflexão: o que será de nosso circuito se os filmes tiverem que optar por apenas um evento? Outro detalhe: um festival, ao contrário do Oscar, só pode selecionar filmes inscritos e não os que estiveram em cartaz, o que diminui consideravelmente o universo de possibilidades. A discussão é complexa, mas o drama parece ser debatido por público e crítica de forma displicente e pouco fundamentada 

Voltando à premiação, as escolhas entre os longas latinos seguiam dentro do esperado até a última categoria. A vitória de La Salada, da Argentina, como o melhor filme da edição deste ano foi um choque, já que o filme conquistou somente esta categoria (é até pior que a situação A Estrada 47, ano passado, entre os brasileiros) e foi unanimemente a produção menos expressiva da mostra. Nos curtas-metragens, uma distribuição sem maiores injustiças para uma seleção pouco surpreendente. O Corpo, o grande vencedor, não é um trabalho que me agrada, mas reconheço o apelo e sua boa execução técnica. Meu favorito, o transgressor Virgindade, não convenceu os votantes e até mesmo o público, que deu risadas de constrangimento ao se deparar com o franco e explícito relato de um homem sobre as suas fantasias sexuais como um garoto gay ainda virgem. Se não fosse para esse filme pernambucano, que tivessem dado mais atenção para o dinâmico e contemporâneo Quando Parei de Me Preocupar Com Canalhas, que levou merecidamente os prêmios de roteiro e ator para Matheus Nachtergaele. Enfim, os júris, no geral, acertaram nas escolhas, fazendo realmente um resumo das obras que mais agradaram e se destacaram nesta edição. É sempre impossível agradar gregos e troianos, mas este ano, pelo menos, os crimes foram quase inexistentes. Até 2016, Gramado!

Confira aqui lista completa de vencedores.

43º Festival de Cinema de Gramado #12: Sandro Aliprandini, um viajante em outras vidas

43º Festival de Cinema de Gramado - O ator Sandro Aliprandini. Foto: Igor Pires/Agência PressPhoto www.edisonvara.com.br

Aos 16 anos de idade, Sandro Aliprandini apresenta no Festival de Cinema de Gramado o denso Ponto Zero, um dos filmes mais marcantes da seleção deste ano. Foto: Igor Pires/Pressphoto

Foi uma pequena peça de teatro em um colégio de Passo Fundo que trouxe o gaúcho Sandro Aliprandini para o Palácio dos Festivais. Protagonista do longa Ponto Zero, em competição nesta 43ª edição do evento, o jovem ator nunca imaginou que o papel coadjuvante de um mordomo na peça Zastras lhe levaria para tão longe… e tão cedo! Aos 16 anos, Aliprandini concorre em Gramado como protagonista do primeiro longa-metragem do consagrado diretor gaúcho José Pedro Goulart (O Dia em Que Dourival Encarou a Guarda). O encontro se deu por puro acaso: ao ver a notícia que o jovem estudante havia recebido o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival Intercolegial de Teatro Notre Dame, no Rio de Janeiro, Goulart teve a intuição de chamá-lo para um teste. Não demorou muito para que o diretor tivesse a certeza de aquele era Ênio, o personagem protagonista de seu aguardado primeiro longa-metragem.

Ator desde os sete anos de idade, quando começou a frequentar o grupo de teatro de colégio, Aliprandini, que hoje está terminando o ensino médio e tem planos de sair de Passo Fundo para estudar teatro em Porto Alegre, passou primeiro por uma minuciosa preparação física: teve que esperar um ano para ter a idade exata do personagem (14 anos), deixou o cabelo crescer ao longo desse tempo a pedido do diretor e ainda passou por uma maratona de trabalhos vocais e preparações físicas para as longas cenas de corrida presentes em Ponto Zero. “Enquanto o cabelo crescia, comecei a absorver toda a energia do Ênio, que se esconde de tudo e de todos com esse visual. Também fui preparado pela Ligia Motta, que realizava exercícios vocais comigo até por Skype. Mas tenho pouco do Ênio, até porque minha relação com meus pais é completamente diferente. Talvez me identifique apenas com essa vontade de crescer logo e ser adulto, mas isso é o legal de ser ator: viajar em vidas completamente diferentes”.

A construção de Ponto Zero foi estratégica: todos os atores só leriam as suas cenas minutos antes de gravá-las. Até mesmo o envolvimento com o projeto foi cercado de expectativas, conforme lembra Aliprandini: “Quando fui chamado para o projeto, eu só sabia o que estava na sinopse, que não é muito reveladora. Mas o Zé [Pedro Goulart] sempre me passou muita segurança e ajuda o fato de termos visões muito parecidas sobre cinema”. Apesar do conceito aparentemente amedrontador, o jovem ator não se intimidou com o desafio. “Confesso que ficaria mais nervoso se tivesse um roteiro para ficar me preparando, decorando textos, ensaiando muitas vezes. Não saber previamente como seria cada cena me trouxe adrenalina, e eu gostei disso”, conta o ator.

Filmado quase inteiramente em ordem cronológica, Ponto Zero, por ambientar boa parte de sua trama em uma noite chuvosa, exigiu dos atores um cronograma completamente diferente. Ou seja, Aliprandini, além de viajar a Porto Alegre em tempos de aula, precisou também adaptar seu relógio biológico para cerca de 30 diárias noturnas de gravação. “Mas isso não foi algo sofrido, e sempre tive o apoio da minha família e do meu colégio – afinal, eu estava lá por causa de um projeto deles, o que também os deixava orgulhosos”, avalia. Fã do cinema de Stanley Kubrick e Ingmar Bergman, o gaúcho viu Ponto Zero finalizado pela primeira vez aqui no Festival de Cinema de Gramado. Ele conta que, no princípio, ainda estava muito ligado às memórias dos bastidores durante a sessão, mas que, aos poucos, foi se tornando um espectador comum, embarcando na viagem de Ênio em uma experiência que, segundo ele, não imaginava ter ficado tão “surrealista”.

Sobre a possibilidade de vencer o Kikito aos 16 anos de idade por seu primeiro trabalho no cinema, Sandro Aliprandini não esconde o nervosismo: “Não sei se mereço, mas sem dúvida será mais um importante incentivo para a minha carreira”. Ele prefere não criar expectativas para a noite de hoje e só o que deseja, por enquanto, é agradecer à equipe de Ponto Zero e ao diretor José Pedro Goulart. Assim como Ênio, Sandro Aliprandini ainda tem muito pela frente. E ele, apaixonado por seu ofício, já está pronto para navegar em outras vidas.

* matéria produzida originalmente para a assesoria de imprensa do 43ª Festival de Cinema de Gramado

43º Festival de Cinema de Gramado #11: Karen Akerman, a montadora de histórias

43º Festival de Cinema de Gramado – Karen Akerman, jurada dos longas latinos. Foto: Edson Vara/Agência Pressphoto – www.edisonvara.com.br

Com mais de 40 filmes no currículo, incluindo o recente e celebrado O Lobo Atrás da Porta, a montadora Karen Akerman fala sobre sua trajetória durante passagem por Gramado, onde integra o júri de longas latinos. Foto: Edison Vara/Pressphoto

O diretor Quentin Tarantino, em uma de suas mais célebres declarações, disse que nunca foi à escola de cinema, mas que foi ao cinema em si. Tal afirmação poderia ser feita também pela montadora carioca Karen Akerman, que está em Gramado integrando o júri de longas-metragens latinos. Formada em Jornalismo, não exerceu a profissão e, ao conhecer os bastidores do cinema em estágios na área de produção, acabou se apaixonando pela arte de montar filmes. “Com o cinema foi amor desde sempre. Eu via filmes e ficava curiosa em saber como eles eram feitos. Já com a montagem, foi quando percebi, nas minhas experiências em produção, que os montadores eram mais solitários e concentrados em construir linguagens”, lembra Akerman.

Observando o trabalho de outros montadores de quem foi assistente como Idê Lacreta, Diane Vasconcelos e João Paulo de Carvalho, Karen foi aprendendo os segredos da profissão até, por acaso, montar o seu primeiro filme, Gaijin 2, em substituição a outra profissional. Hoje, já são 40 filmes no currículo e uma certeza: “diretor tem estilo, montador não”. Para ela, o trabalho de montagem está diretamente ligado à visão do diretor, e a troca precisa ser despida de preconceitos. “Os montadores são psicólogos dos diretores”, brinca, “e precisamos buscar o que o diretor quer e o que material exige”. O método da carioca se baseia nessa relação: Karen Akerman mergulha em todas as referências apontadas pelo diretor, sejam elas fílmicas, musicais ou até mesmo textuais. “Só compreendendo o universo do diretor conseguimos contribuir”, aponta a montadora.

Entre os trabalhos mais célebres da carioca está O Lobo Atrás da Porta, que realizou ao lado do amigo e diretor Fernando Coimbra. Ela destaca a experiência especialmente pela proximidade com ele e o envolvimento no projeto. “Foi uma bela experiência porque me envolvi desde o primeiro tratamento do roteiro. Por isso, quando fui montar o longa do Fernando, com quem já havia trabalhado em curtas-metragens, tudo já estava muito bem afinado”, recorda. Ela diz ter inúmeras referências quando chega a hora de montar um novo filme, mas que todas variam muito a cada época. “O que tento é trazer à tona a mise en scène, que tem papel fundamental nas ficções”, avalia. Apesar das inspirações, a carioca faz questão de lembrar que um montador pode se inspirar em métodos, mas que criação cada um precisa ter a sua.

Finalizando o longa-metragem Talvez Deserto, Talvez Universo, documentário que se passa no hospital psiquiátrico Julio de Matos, na Unidade de Internamento de Psiquiatria Forense, e que dirige e monta em parceria com Miguel Seabra Lopes, Karen Akerman volta a Gramado depois de mais de 14 anos. A primeira vez que esteve na serra gaúcha foi em 2001, quando participou com o filme Breve de uma mostra paralela que exibia produções em Super 8. Agora jurada de longas latinos, Karen está feliz com o retorno ao Festival e conta que as trocas com seus colegas de júri rendem grandes debates. “Temos debates de altíssimo nível e conversas diárias sobre o que assistimos. Temos visto obras latinas muito diferentes entre si e é uma boa oportunidade para vermos um tipo de cinema que não costuma chegar no Brasil. Espero que essa mostra latina continue para sempre na programação!”, torce.

* matéria produzida originalmente para a assesoria de imprensa do 43ª Festival de Cinema de Gramado

43º Festival de Cinema de Gramado #10: “Um Homem Só”, de Cláudia Jouvin

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Mariana Ximenes e uma beleza sui generis: tanto ela quanto Vladimir Brichta se saem muito bem na surpresa que é Um Homem Só.

Um Homem Só representa um tipo de cinema que o Brasil ainda não aprendeu a fazer – ou pelo menos que ainda não explorou como deveria. É um cinema que os argentinos dominam com notável proeza e que nos causa tanta inveja: aquele que consegue ser popular e simples mas ao mesmo tempo criativo e inteligente. Por isso, não dê bola para o selo Globo Filmes (que vem cada vez mais se redefinindo para o bem), pois Um Homem Só, além da premissa diferenciada por si só, apresenta uma execução cuidadosa que nunca deixa de dialogar com todos os públicos – algo que, ao contrário do que a crítica muitas vezes torce o nariz, é sim algo muito positivo. 

Estreia da roteirista Cláudia Jouvin na direção de longas, Um Homem Só não tem um título muito atraente (é o nome que leva o livro que deu origem a Direito de Amar, de Tom Ford, e que ainda lembra demais outro filme estrelado recentemente por Vladimir Brichta: Muitos Homens Num Só), mas merece ser descoberto por ser muito mais do que a vitória de uma roteirista do circuito cômico televisivo em seriados como A Diarista e A Grande Família. Jouvin realmente se desvencilhou de qualquer amarra comercial ou resquícios destes programas, realizando uma produção que se utiliza de uma ideia de ficção científica (a possibilidade da clonagem) para falar sobre questões íntimas. Ou seja, Um Homem Só pode até ter um pé no plano futurista, mas é sempre muito humano na abordagem de seus dilemas.

De um jeito ou de outro, todos os personagens são pessoas perdidas. O protagonista Arnaldo (Brichta) se vê infeliz em um casamento fracassado e em um emprego desestimulante, enquanto Josie (Mariana Ximenes) lida com a perda recente da mãe enquanto trabalha com a madrasta no cemitério de animais administrado pela família. É óbvio que os caminhos dos dois se entrelaçarão, e é a partir desse encontro que Um Homem Só começa a falar sobre qual o momento e como realmente devemos abandonar antigos vícios para começar a escrever uma nova história. O melhor é que nada na concepção da história é banal, desde a ideia da clínica de clonagem ao próprio fato de Josie trabalhar em um cemitério de animais. 

Só por suas ideias iniciais Um Homem Só já chama a atenção, mas ainda existe muito a ser percebido, como a cuidadosa direção de arte e a própria escolha dos figurinos (o protagonista começa vestindo roupas certinhas e bem alinhadas para depois, na medida em que se liberta, apostar em camisetas simples e roupas mais despojadas). Tanto os sentimentos quanto os acontecimentos do longa estão refletidos nas escolhas técnicas, o que demonstra uma grande maturidade de Jouvin como realizadora. A escolha de elenco também não poderia ser mais acertada, em especial a de Vladimir Brichta, um ator que vem se tornando cada vez mais prolífero e que mostra novamente grande versatilidade, já que é fácil distinguir – pelo trabalho corporal do ator – a versão original da versão clonada de Arnaldo. Enquanto isso, Ximenes, desta vez ruiva e cheia de sardas, segue a inspiração de Brichta e nunca faz com que sua personagem maluquinha descambe para o caricatural. 

Um Homem Só é uma experiência rápida de rasteiros 88 minutos, mas isso não é motivo para que o roteiro não tenha a sua dose de profundidade. Aliás, é aí que reside um grande feito do filme de Jouvin: ser diferente e educar uma grande plateia para algo mais refinado, encontrando um meio termo entre o acessível e o sofisticado. Às vezes o texto derrapa em diálogos de frases prontas, e a estrutura tem quase um problema quando se encaminha para o final (ao invés de continuar esmiuçando dramas, inverte todo o foco para um suspense que toma mais tempo do filme do que deveria), mas a boa notícia é que Um Homem Só nunca é previsível. Tomara que encontre seu lugar ao sol aqui no Brasil, pois, se chegasse às nossas salas com um selo argentino e Ricardo Darín no lugar de Vladimir Brichta, certamente seria devidamente abraçado. Vamos ser mais justos com as nossas conquistas?

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