Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Celso Sabadin

Meus primeiros contatos com crítica de cinema – e com a descoberta de que é realmente possível trabalhar com isso – passam pelo trabalho do jornalista Celso Sabadin, que, em mais de 30 anos de carreira, acumula experiência em veículos como Folha de São Paulo, Estadão e Rede Bandeirantes. Além da trajetória como crítico, é autor  dos livros “Vocês Ainda Não Ouviram Nada – A Barulhenta História do Cinema Mudo”, “Éramos Apenas Paulistas”, e “O Cinema como Ofício” e já trabalhou como roteirista na TV e no cinema. Já há alguns anos convivo com Sabadin durante as edições do Festival de Cinema de Gramado, evento que ele orgulhosamente cobre há exatos 27 anos, e é realmente um privilégio tê-lo por aqui com indicações inéditas entre todas as atuações já selecionadas para a coluna. Confiram abaixo as escolhas!

Ed Harris (Os Eleitos)
Ed Harris é um achado no filme Os Eleitos. Além de ser fisicamente parecido com o astronauta pioneiro John Glenn, personagem que interpreta, Harris encarna como poucos aquele “bom mocismo” norte-americano do pós Segunda Guerra, aquele momento em que os EUA se firmam como a potência mais midiática do mundo, onde as aparências e o faz-de-conta valem mais do que a própria realidade. Um grande filme do ótimo diretor Phillip Kaufmann que, por estas injustas questões de mercado, está desde 2004 sem emplacar um filme para o cinema.

Vincent Lindon (O Preço de Um Homem)
Vincent Lindon no drama francês O Preço de um Homem também é um ponto fora da curva. Seu semblante duro e seu olhar que mistura frieza e indignação caem como uma luva no papel de um desempregado de meia-idade preso nas engrenagens da burocracia estatal e na desumanidade do capitalismo neoliberal. Uma interpretação que prova, mais uma vez, que menos é mais. Principalmente no cinema.

José Wilker (Bye Bye Brasil)
E fecho com José Wilker no marcante Bye Bye Brasil, filme icônico não só dos anos 80, como também da história do cinema brasileiro como um todo. No papel de Lord Cigano, Wilker é o próprio Brasil travestido de ator: sacana, matreiro, sedutor, alegre, mentiroso, divertido, irônico. Com um meio sorriso de canto de lábio, diz mais que horas de discurso sociológico sobre a alma de todo um país condenado a nunca dar certo. Filmaço.

Os vencedores do Emmy 2017

Ann Dowd com o seu primeiro Emmy: o prêmio não veio como convidada por The Leftovers, mas sim como coadjuvante por The Handmaid’s Tale.

Ao contrário do que se poderia esperar, a cerimônia do Emmy 2017 não trouxe maiores surpresas, consagrando The Handmaid’s TaleVeepBig Little Lies nas categorias de drama, comédia e minissérie, respectivamente. É curioso como a Academia se voltou para uma série mais de nicho como The Handmaid’s Tale em um ano repleto de programas marcados pelo sucesso com o público. Desmerecido? De forma alguma, já que a série da Hulu é a mais relevante dessa temporada, além, claro, de ser incrivelmente bem produzida, dirigida, escrita e atuada (e o prêmio de atriz coadjuvante para a sempre excelente Ann Dowd não poderia ser mais merecido!). No segmento das comédias, era inevitável mais uma consagração para Veep em tempos políticos tão conturbados. Minha maior ressalva mesmo fica entre as minisséries, e não é apenas porque não tenho boa relação com Big Little Lies: o Emmy realmente pesou a mão ao festejar a produção, conferindo estatuetas inegavelmente questionáveis, como direção para Jean-Marc Vallée, que nunca foi um cineasta particularmente criativo ou marcante, e ator coadjuvante para Alexander Skarsgård, reduzido a um personagem limitado tanto pelo texto quanto pela interpretação do próprio ator. É realmente de se lamentar que não tenham achado espaço para Feud: Bette and Joan, a recordista de indicações entre as minisséries. De qualquer forma, percebam uma lindíssima vitória: todos os programas celebrados nas principais categorias (drama, comédia, minissérie e telefilme) são centrados em figuras femininas. Confira abaixo a lista de vencedores nas principais categorias:

MELHOR SÉRIE DRAMAThe Handmaid’s Tale
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Veep
MELHOR MINISSÉRIEBig Little Lies

MELHOR TELEFILMEBlack Mirror: San Junipero
MELHOR ATRIZ DRAMA: Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Nicole Kidman (Big Little Lies)

MELHOR ATOR DRAMASterling K. Brown (This is Us)
MELHOR ATOR COMÉDIA: Donald Glover (Atlanta)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Riz Ahmed (The Night Of)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE DRAMA: Ann Dowd (The Handmaid’s Tale)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE COMÉDIA: Kate McKinnon (Saturday Night Live)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Laura Dern (Big Little Lies)
MELHOR ATOR COADJUVANTE DRAMA: John Lithgow (The Crown)
MELHOR ATOR COADJUVANTE COMÉDIA: Alec Baldwin (Saturday Night Live)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Alexander Skarsgård (Big Little Lies)

Quem serão os vencedores do Emmy 2017?

Com exceções aqui ou ali, o Emmy é sempre uma loteria. Mesmo com aparentes favoritos, o radar para possíveis surpresas não deve ser desligado. Esse ano, em especial, a cerimônia promete dar uma guinada para esse lado, já que, depois de duas edições consecutivas, Game of Thrones não pode reinar, já que não exibiu seus novos episódios a tempo para concorrer ao Emmy. Com a ausência do fenômeno da HBO, três hits despontam na corrida pelo título de melhor série dramática: Stranger ThingsWestworldThis is Us. Elogiadíssima, a requintada e corajosa The Handmaid’s Tale também é uma possibilidade real, ainda que destoe de uma seleção dominada majoritariamente por grandes sucesso de público. Estaria o Emmy disposto a ignorá-los para abraçar uma série mais de nicho?

Entre as comédias, não há estreia que possa derrubar Veep, sempre tão atual em um conturbado momento político que não deixa de impulsionar o programa estrelado por Julia-Louis Dreyfus. Contudo, a disputa mais acirrada está mesmo entre as minisséries, onde Big Little Lies desponta na corrida ao mesmo tempo em que parece muito estranho a recordista de indicações Feud: Bette and Joan sair de mãos abanando. Vá saber também o que acontecerá na categoria de melhor atriz desse segmento, que promove uma batalha de gigantes de resultado praticamente imprevisível. Nela, assim como em várias outras categorias do Emmy, nenhuma aposta é maluca. Confira abaixo a nossa lista de palpites e não deixe de conferir a cerimônia, que será transmitida neste domingo, 17 de setembro, a partir das 21h, na TNT (o canal também fará cobertura do Tapete Vermelho a partir das 20h).

MELHOR SÉRIE DRAMA: Stranger Things / alt: The Handmaid’s Tale
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Veep / alt: Atlanta
MELHOR MINISSÉRIE: Big Little Lies / alt: Feud: Bette and Joan
MELHOR TELEFILME: Black Mirror: San Junipero / alt: The Wizard of Lies
MELHOR ATRIZ DRAMA: Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale) / alt: Claire Foy (The Crown)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep) / alt: Allison Janney (Mom)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jessica Lange (Feud: Bette and Joan) / alt: Carrie Coon (Fargo)

MELHOR ATOR DRAMA: Sterling K. Brown (This is Us) / alt: Anthony Hopkins (Westworld)
MELHOR ATOR COMÉDIA: Jeffrey Tambor (Transparent) / alt: Donald Glover (Atlanta)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Robert De Niro (The Wizard of Lies) / alt: Ewan McGregor (Fargo)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE DRAMA: Ann Dowd (The Handmaid’s Tale) / alt: Chrissy Metz (This is Us)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE COMÉDIA: Anna Chlumsky (Veep) / alt: Judith Light (Transparent)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Laura Dern (Big Little Lies) / alt: Judy Davis (Feud: Bette and Joan)
MELHOR ATOR COADJUVANTE DRAMA: John Lithgow (The Crown) / alt: Ron Cephas Jones (This is Us)
MELHOR ATOR COADJUVANTE COMÉDIA: Alec Baldwin (Saturday Night Live) / alt: Louie Anderson (Baskets)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Alfred Molina (Feud: Bette and Joan) / alt: David Thewlis (Fargo)

Bingo – O Rei das Manhãs

Você só pensa em pequenos prazeres.

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Luiz Bolognesi

Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Ana Lucia Torre, Cauã Martins, Augusto Madeira, Tainá Müller, Emanuelle Araújo, Soren Hellerup, Pedro Bial, Raul Barreto, Domingos Montagner, Ricardo Ciciliano

Brasil, 2017, Drama/Comédia, 113 minutos

Sinopse: Cinebiografia de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo no programa matinal homônimo exibido pelo SBT durante a década de 1980. Barreto alcançou a fama graças ao personagem, apesar de jamais ser reconhecido pelas pessoas por sempre estar fantasiado. Esta frustração o levou a se envolver com drogas, chegando a utilizar cocaína e crack nos bastidores do programa. (Adoro Cinema)

Quantas cinebiografias realmente se livraram das amarras do gênero – ou pelo menos as deixaram em segundo plano – para abraçar de forma livre e autêntica a verdadeira essência de seu respectivo biografado? Não foram poucas, mas sim pouquíssimas. Do que adianta atravessar décadas, centenas de acontecimentos e um punhado de músicas se, por exemplo, Elis não conseguia traduzir na tela a personalidade avassaladora da mítica Elis Regina? Idem para A Dama de Ferro, que, refém desse mesmo defeito, ignorava as controvérsias envolvendo a britânica Margaret Thatcher com o objetivo de humanizá-la, como se não fosse possível tornar complexa uma figura a partir de suas próprias contradições. Não é necessariamente questão de formato, já que Cazuza – O Tempo Não Para percorre, de forma linear, dezenas de anos sem nunca soar datado ou inexpressivo, o que é reflexo de um projeto que compreende a importância de contemplar todo comportamento e temperamento de um personagem icônico. Mais um longa que comprova essa tese é o recente Bingo – O Rei das Manhãs, que, além de ter sido escolhido para representar o Brasil em uma possível vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro, contribui para a linda carreira de filmes imperdíveis que o cinema brasileiro vem apresentando este ano (Corpo ElétricoAs Duas IrenesComo Nossos Pais).

Primeiro filme de Daniel Rezende como diretor (ele ficou mundialmente conhecido por assinar a montagem de longas como Cidade de DeusDiários de MotocicletaEnsaio Sobre a Cegueira A Árvore da Vida), Bingo incorpora a malandragem, o talento, a ambição e o carisma de Arlindo Barreto, que interpretava anonimamente o inesquecível palhaço Bozo, aqui chamado de Bingo, sucesso estrondoso na tela do SBT durante os anos 1980. Rezende conduz o filme com um ritmo invejável, subsidiado pela excelente mistura entre drama e comédia do roteiro escrito por Luiz Bolognesi, que não tem medo de abraçar toda a subversão tão característica de Bozo, personagem que não tinha papas na língua para tentar conquistar a aprovação e posteriormente o afeto da religiosa diretora do programa e que mudava, ao vivo e sem aprovação, o roteiro da atração simplesmente por não concordar com as orientações exibidas no teleprompter. No meio disso tudo, coloque algumas carreiras de cocaína, muito whisky e palavrões, mas também uma relação carinhosíssima do protagonista com o filho e a mãe, a vontade de vencer na vida apesar das recusas profissionais e, claro, o inegável talento de um homem que ficou nacionalmente famoso sem sequer mostrar o rosto de verdade (o contrato não permitia que Arlindo revelasse sua identidade enquanto interpretasse o palhaço).

Mesmo que o roteiro do experiente Bolognesi, atualmente também em cartaz com Como Nossos Pais, diminua consideravelmente a marcha em um terço final que se entrega às convencionalidades do gênero com o clássico arco envolvendo todas as etapas de ascensão e queda de uma celebridade, Bingo chega lá já tendo conquistado o espectador com seu personagem e principalmente com a sua personalidade, tornando fácil o processo de relevar a conclusão apressada e abreviada. Afinal, o que ficará mesmo com o espectador é a diversão proporcionada por um filme que alcança momentos extasiantes, como quando introduz a cantora Gretchen (Emanuelle Araújo) com a famosa Conga, La Conga, e que proporciona ao carismático e desenvolto Vladmir Brichta, em ótima parceria com Leandra Leal, o melhor desempenho de sua prolífera carreira no cinema até aqui. Abraçando seu protagonista de corpo e alma, Bingo se torna especial por lembrar que o melhor cinema é realmente aquele que confia em seu espectador, sem redimensionar histórias ou omitir fatos para se tornar, digamos, mais palatável. Em termos de cinebiografias, se todas realizadas por aqui seguissem o mesmo padrão, nosso padrão realmente seria outro.

As telas são delas

Uma perspectiva da representação feminina no cinema brasileiro contemporâneo a partir dos filmes exibidos na edição comemorativa de 45 anos do Festival de Cinema de Gramado

Laís Bodanzky nos bastidores do longa-metragem Como Nossos Pais: uma das raras diretoras com carreira prolífera e vitoriosa no cinema brasileiro. Foto: Beatriz Lefèvre

Os dados apresentados pela Agência Nacional do Cinema – ANCINE em abril deste ano refletem objetivamente a falta de equidade na produção audiovisual brasileira. Embora mais da metade da população de nosso país seja feminina, apenas 17% das 2.583 obras registradas na agência em 2016 foram dirigidas por mulheres. O número, por outro lado, cresce conforme a área de atuação seja mais específica e menos protagonista: ainda segundo a ANCINE, 21% dos roteiros são escritos por mulheres, enquanto 41% de quem cuida da produção executiva de um filme é do sexo feminino. A análise é muito clara: quanto maior a posição de destaque, menores são as chances de as realizadoras chegarem lá. Os tempos que vivemos, em contrapartida, já sinalizam uma mudança irreversível para os próximos anos. Se os números trabalham contra a presença feminina no cinema brasileiro, artisticamente há muito o que ser celebrado porque tanto a sociedade passou a debater o protagonismo feminino nas mais diversas plataformas, da mídia ao ambiente acadêmico, quanto os próprios eventos do gênero já se atentam, em questão de representatividade e mérito, ao fato de que as mulheres são – e merecem ser – cada vez mais protagonistas das telas de cinema.

Como forma de mensurar, avaliar e debater tal cenário, há pelo menos dois grandes festivais de cinema realizados em território nacional que podem ser tomados como referência para esse movimento no ano de 2017. O mais recente é o Festival do Rio, que, no dia 5 de setembro, divulgou os concorrentes de sua edição com uma estatística animadora: sete dos nove filmes concorrentes na mostra competitiva brasileira de longas de ficção são dirigidos por mulheres, incluindo desde cineastas experientes como Lúcia Murat, concorrente com Praça Paris, até nomes da nova geração, a exemplo de Juliana Rojas, com As Boas Maneiras, codirigido em parceria com Marco Dutra.

Um mês antes, entre os dias 18 e 26 de agosto, o tema do protagonismo feminino já ganhava a Serra Gaúcha durante a histórica edição de 45 anos do Festival de Cinema de Gramado, o maior evento do gênero realizado de forma ininterrupta no Brasil. No festival serrano, a estatística na mostra competitiva de longas-metragens brasileiros era proporcionalmente animadora: quatro dos sete filmes na disputa pelo tradicional Kikito levavam a assinatura de mulheres na direção. E elas foram além, já que Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, foi o grande vencedor da edição em seis categorias, incluindo melhor filme e direção, endossando as importantes conquistas vividas pelas realizadoras não apenas em um evento clássico como Gramado, mas na própria cinematografia brasileira.

O plano feminino, universal e cotidiano

Levando em consideração as obras exibidas em Gramado, chegamos a um belo panorama dos diferenciais temáticos, técnicos e narrativos entregues pelas respectivas diretoras e roteiristas. Como Nossos Pais, por exemplo, impulsiona uma composição que não costuma ser sinônimo de reconhecimento: a de uma história que se desenvolve a partir da dinâmica entre duas mulheres. Mas, ainda que parta dos dilemas de uma “supermulher” – definição usada pela própria diretora -, que finalmente assume não dar conta de tudo em uma vida caótica que se divide entre casa, família, casamento e trabalho, o longa leva as discussões para um plano mais universal, dividindo-se entre temas como contrastes geracionais, turbulências afetivas e falência matrimonial.

Estrelado por Maria Ribeiro como a filha que reavalia sua identidade após a descoberta de um antigo caso extraconjugal da mãe (Clarisse Abujamra), Como Nossos Pais é uma obra feminista e humanista que novamente ilumina aquela que é a característica mais marcante do cinema de Laís Bodanzky: a de buscar a humanidade no lado mais simples do ser humano. Foi assim em obras como Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudade, As Melhores Coisas do Mundo, Mulheres Olímpicas e, agora, Como Nossos Pais, onde, pela primeira vez, ela entrega uma narrativa ficcional inteiramente a uma protagonista feminina. Não à toa, é o seu filme mais celebrado desde Bicho de Sete Cabeças, da primeira exibição na seção Panorama do Festival de Berlim à total consagração em Gramado, onde quebrou um jejum de 12 anos: desde 2005, com Tizuka Yamazaki (Gaijin – Ama-me Como Sou), uma mulher não conquistava o Kikito de melhor direção.

Eliane Giardini dirige, protagoniza e escreve o drama A Fera na Selva, baseado em texto de Henry James. Foto: FernandoHenrique.efe

E a mulher do século passado?

À frente e atrás das câmeras, a veterana Eliane Giardini também esteve em Gramado para apresentar o seu primeiro longa-metragem como diretora: o drama A Fera na Selva, assinado junto ao ator Paulo Betti. Baseado na novela homônima escrita pelo inglês Henry James em 1903, A Fera na Selva segue um caminho completamente oposto ao de Como Nossos Pais, trazendo à tona a multiplicidade de olhares que obviamente também existe entre as realizadoras femininas. De veia assumidamente teatral e realização modesta, o filme acompanha um homem que, à espera de um grande acontecimento que o possa distinguir de todas as outras pessoas, esquece de viver o agora e as coisas simples da vida. Ao lado desse homem está Maria, vivida por Giardini, que decide acompanhá-lo nessa longa espera.

Em termos de representação feminina, Eliane, que também assina o roteiro do longa, enxerga A Fera na Selva como uma obra que pode ser reinterpretada através do ponto de vista histórico. “Maria é essa mulher do século passado que fica ao lado do homem e que se submete, servindo de confirmação para a história dele, como se essa fosse a única maneira de ela se sentir incluída em alguma coisa. Graças a Deus isso está mudando hoje em dia, mais do que nunca”, comemorou a atriz e diretora, em entrevista oficial ao evento serrano. É uma tomada de consciência fundamental para uma história como essa, uma vez que é comum observar, seja em produções brasileiras ou internacionais, especialmente nas assinadas por realizadores homens, o papel da mulher como mera escada para uma trajetória masculina, onde elas não têm personalidade nem vontades. Talvez A Fera na Selva se desenhe um pouco dessa forma, mas o olhar de Giardini para o filme que coloca na tela certamente faz a diferença para o que deve ser discutido – e questionado – em histórias que trabalham a dinâmica, especialmente a amorosa, entre homens e mulheres.

A inversão da força e o olhar rebuscado

Por falar nesse tipo de dinâmica, é especialíssimo o que estreante na direção de longas Caroline Leone faz em outro título apresentado em Gramado: o drama Pela Janela. Inspirando-se na história de um casal que conheceu em uma viagem, Leone narra os dias em que Rosália (Magali Biff) precisa superar a perda de um emprego de anos e reconstruir toda uma vida que até então dava como certa. Mas existe um detalhe fundamental que é invertido conscientemente pela diretora na versão cinematográfica: ao invés de colocar Rosália na estrada ao lado de um interesse romântico, ela faz com que a protagonista viaje com o irmão. A assumida decisão de Leone subverte a tônica tão presente em filmes estrelados por mulheres: aqui, Rosália encontra forças para recomeçar a partir do amor fraterno e de suas próprias reflexões interiores. O amor clássico pelo homem e sua dependência dele para recomeçar não fazem parte do retrato que Pela Janela faz de uma mulher ainda mais específica: a da terceira idade, nicho frequentemente ignorado nas telas do cinema. Por isso, novamente, faz toda a diferença a presença de uma cineasta como Caroline Leone para conseguir tornar as representações de um trabalho como Pela Janela uma realidade.

Camila Morgado vive uma jornada praticamente solo em Vergel, uma coprodução Brasil/Argentina que retrata os dias de uma mulher em pleno luto.

Não houve, entretanto, filme que explorasse os talentos e o universo feminino de forma tão radical na última edição de Gramado quanto Vergel, uma coprodução Brasil/Argentina sobre os dias de uma mulher sem nome que se encontra à beira da loucura após um luto repentino. É radical porque Vergel, dirigido e escrito pela argentina Kris Niklison, não faz concessões ao explorar a confusão entre o real e o irreal, além de acompanhar de forma microscópica a vivência de incômodos trâmites familiares e as primitivas pulsões sexuais de uma protagonista que praticamente se encarcera em um apartamento onde vive um profundo luto. Vergel é um filme praticamente solo, que disseca inúmeras camadas emocionais de uma personagem feminina que se destrói e se reconstrói ao longo de uma curta jornada – o filme se passa em questão de poucos dias -, mas que mergulha em sentimentos e reações que sugerem uma viagem interna infinitamente mais extensa.

A atriz Camila Morgado, que vive a protagonista de Vergel, disse, durante sua temporada em Gramado para promover o filme, que ter uma cineasta assinando a direção e o roteiro fez toda a diferença para a história. “Já nos ensaios eu via que ela tinha um olhar muito rebuscado em relação ao feminino. E quando vi o filme pronto, fiquei impressionada com o quanto ela filma bem essa figura feminina, o corpo dessa mulher que passa por tantas compulsões sexuais para de alguma forma perceber que ainda está viva”, atestou Camila. E é o que de fato está na tela: Kris captura um universo de luto com muita crueza e claustrofobia, além de um apuro estético raro ao escolher meticulosamente enquadramentos, tonalidades, figurinos e a própria observação física e emocional da protagonista.

Ser mais do que Angelina Jolie

Um dos responsáveis pela seleção dos longas em competição em Gramado, Rubens Ewald Filho toma como referência para o atual momento o cinema de grandes diretores como Bergman, Fellini e Antonioni, que sempre trabalhavam histórias com e sobre mulheres. Afinal, por que, hoje, nem mesmo os grandes diretores se interessam em exaltar ou criar novas musas? “Não entendo, porque acho que as mulheres são mais fortes, mais espertas, mais talentosas”, comenta o curador, jornalista e crítico de cinema. Rubens, que é um profundo conhecedor de cinema do ponto de vista jornalístico, mas também através de suas próprias experiências nos bastidores de produções audiovisuais nacionais e internacionais, aponta que, claro, o que leva à escassez do número de mulheres à frente de projetos é o fato dos homens ainda dominarem a coordenação de estúdios e orçamentos, onde, sendo mulher, “é preciso ser Angelina Jolie para abrir alguma porta e conseguir oportunidades. E, mesmo assim, não dúvidas de que até estrelas como ela ganham salários inferiores aos homens”.

Ao frequentar os estúdios de Hollywood e fazer a cobertura de diversos eventos do gênero em uma carreira com mais de quatro décadas de atuação, Rubens revela que, lá atrás, nos anos 1980, já perguntava por onde passava: por que há tão poucas mulheres diretoras, já que, desde o cinema mudo, elas sempre foram pioneiras? A resposta dada era sempre a mesma: um lacônico “não sei”. Ainda hoje, ele diz estar sem a resposta. “Arrisco a dizer que os homens não gostam de ser dirigidos por mulheres. Aliás, só uma delas ganhou o Oscar na categoria até agora [Kathryn Bigelow, em 2010, por Guerra ao Terror], e mesmo assim com muita dificuldade”, lembra. De qualquer forma, gostando ou não, como apontou Gramado em sua última edição e como registra uma importante e pioneira série de tendências, conquistas e movimentos em busca do protagonismo, chegou a hora de elas ocuparem seu devido espaço, dentro e fora das telas. Mais do que nunca, queremos ouvir suas palavras, seus sentimentos, suas expressões. Que o cinema ajude cada uma delas nessa linda jornada!

O som das trilhas

É APENAS O FIM DO MUNDO, por Gabriel Yared: Conhecido pela compilação de músicas  para seus filmes (Mommy era irresistível com uma coletânea que ia de Beck a Lana Del Rey, passando por Vivaldi, Andrea Bocelli e Simple Plan), o diretor Xavier Dolan preferiu seguir um caminho diferente em É Apenas o Fim do Mundo: dessa vez, a atmosfera musical fica muito mais a cargo de uma trilha instrumental do que de canções selecionadas especialmente para o filme. Quem recebe a missão é o experiente compositor libanês Gabriel Yared (O Talentoso RipleyA Vida dos OutrosCold Mountain), que entrega, como de costume, um trabalho elegante e funcional. Por outro lado, curiosamente, Yared procura o minimalismo musical em uma história quase sempre contada de forma hiperbólica pela direção e pelas atuações. Não deixe de ouvirAprès Toutes Ces Années-làLouis et Catherine e Louis et Antoine.
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ELLE, por Anne Dudley: Reflexo de uma deficiência que atinge o cinema como um todo, a ausência de mulheres na assinatura de trilhas sonoras é realmente lamentável. Entretanto, se dermos um pulinho na Europa, de vez em quando encontramos talentos como Anne Dudley, que já acumula mais de 20 trilhas no currículo e que recentemente apresentou um de seus momentos mais marcantes no excelente Elle. Com 17 faixas que exploram basicamente diferentes variações de instrumentos de corda, Dudley cria uma perfeita atmosfera de thriller, transitando entre a discrição e o alto som do suspense. É um resultado envolvente para um gênero que não costuma ser muito criativo nesse quesito e que aqui ganha excelente roupagem em mãos femininas. Não deixe de ouvirMain TitlesPrimal ScreamIt Was Necessary.
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FEUD: BETTE AND JOAN, por Mac Quayle: Frequente colaborador de Ryan Murphy em programas como American Horror Story e The People v. O.J. Simpson: American Crime Story, Mac Quayle volta a unir forças com o realizador na antologia Feud: Bette and Joan. Em 2016, Quayle levou o Emmy pela inventiva trilha da primeira temporada de Mr. Robot e é uma pena que não tenha levado este ano uma segunda estatueta por Feud. De melodias marcantes que contemplam tanto a era de ouro de Hollywood como o próprio drama pessoal de duas atrizes do calibre Bette Davis e Joan Crawford, a trilha de Feud é uma pérola por homenagear um período marcante da indústria hollywoodiana sem cair no comodismo da mera reprodução de estilo. Não deixem de ouvirThis Awful Silence, Feud: Bette and Joan (Main Titles) e Feud: Bette and Joan (Epilogue).
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FRAGMENTADO, por West Dylan Thordson: O desafio parecia impossível – não sentir falta de James Newton Howard, compositor que permaneceu firme e forte com o cineasta indiano M. Night Shyamalan mesmo nos tempos difíceis de A Dama na ÁguaO Último Mestre do ArDepois da Terra -, mas West Dylan Thordson, em seu primeiro grande momento no cinema, compensou a ausência. Elemento fundamental para a inegável tensão de Fragmentado, longa que pontua a recuperação de Shyamalan após uma sucessão de desastres, a trilha sonora idealizada por Thordson tem um ritmo invejável, além de uma personalidade marcante, alcançando o feito de nos remontar aos primeiros filmes do diretor, onde a música exercia pleno destaque na construção do suspense. Não deixe de ouvirA Way OutI Know You Want to Tell Me SomethingRejoice.
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JACKIE, por Mica Levi: Pode até ser que minha relação com Jackie seja extremamente problemática, mas não reconhecer a excelência da parte técnica é realmente coisa de maluco. E a trilha sonora de Mica Levi – ou simplesmente Micachu – imediatamente se destaca como um dos elementos que mais contribuem para a narrativa proposta pelo chileno Pablo Larraín em parceria  com o roteirista Noah Oppenheim. Anteriormente festejada pela crítica por seu trabalho em Sob a Pele, Mica ignora caminhos fáceis para criar uma trilha sonora devidamente atípica e incômoda, o que vai diretamente ao encontro da complicada situação vivida pela protagonista. É um álbum relativamente curto, mas que carrega uma qualidade rara: a de ser sempre imprevisível. Não deixe de ouvir: ChildrenVanityBurial.
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LION: UMA JORNADA PARA CASA, por Dustin O’Halloran & Hauschka: Se Lion frequentemente escorrega no melodrama, o mesmo não pode ser dito sobre a trilha sonora. Na verdade, é até tocante e admirável como a dupla Dustin O’Halloran e Hauschka traduz e complementa todo o drama verídico em que o longa é baseado. Segura, a trilha acerta mesmo no constante uso do piano, escolha que costuma simplificar as emoções de histórias motivacionais como a contada no filme de Garth Davis. Nada no conjunto musical de Lion resulta genérico ou enjoativo, muito pelo contrário: você não estará sozinho se perceber que a trilha terminou em um piscar de olhos e que, aqui ou ali, a emoção bateu. De quebra, ainda tem Sia com a ótima Never Give Up, escrita especialmente para o longa. Não deixe de ouvirLion Theme, TrainLayers Expanding Time.
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MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR, por Nicholas Britell: Moonlight é um filme incompleto em função de um terceiro ato altamente frustrante, mas o mesmo não pode ser dito da trilha sonora de Nicholas Britell, que exerce um efeito hipnotizante do início ao fim. Isso acontece porque Britell compreende perfeitamente o poder dos instrumentos tanto para faixas inegavelmente ambiciosas quanto para melodias que surgem cortantes não pela imponência, mas pela extrema delicadeza. Existe uma unidade muito sólida aqui, onde muitas das faixas se parecem, mas jamais soam redundantes ou repetitivas. É trilha de gente grande porque se dedica a construir um arco também através da música, como se ela tivesse o seu próprio ciclo. Não deixe de ouvir: Little’s ThemeThe Middle of the World The Culmination.
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THE LEFTOVERS (SEASONS 2 & 3), por Max Richter: Mais do que um grande drama, The Leftovers entra para a história como uma das séries mais transgressoras e afiadas, o que certamente se estende ao trabalho técnico. E Max Richter, que sempre foi grande compositor (é dele a dolorosa composição On the Nature of Daylight, que abre e encerra A Chegada), embarcou no alto nível do programa criado por Damon Lindelof e Tom Perrotta. Enquanto a primeira temporada serviu como terreno para a criação de temas que pontuariam personagens e situações, os dois anos seguintes exploraram, com criatividade, emoção e sensibilidade, as variações dos temas criados lá no início da série. É o caso raríssimo de uma trilha que esmiúça, em cada composição, o poder potente dessa ferramenta em uma narrativa seriada. Simplesmente inesquecível. Não deixe de ouvirThe Quality of MercyAnd Know the Place for the First TimeThat Solitary Moment Together.
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THE YOUNG POPE, por Lele Marchitelli: É inacreditável como todas as premiações conseguiram ignorar The Young Pope, facilmente uma das melhores séries exibidas nos últimos anos. Era obrigação do Emmy deveria ter dado, ao menos, uma enxurrada de indicações para a embasbacante parte técnica, que, sem dúvida, inclui a excelente trilha sonora assinada por Lele Marchitelli. Fugindo do óbvio ao ignorar as esperadas melodias religiosas, as criações musicais de The Young Pope marcam pela sutileza e pela total atenção aos personagens, apostando muito mais em traduzir universos particulares do que na grandiosidade de uma história passada no imponente mundo católico do Vaticano. Fora isso, o álbum traz ainda uma empolgante coletânea com músicas mundialmente famosas mas que aqui ganham novos tons ou sentidos, como I’m Sexy and I Know It, do grupo LMFAO, e Halo, da Beyoncé. Não deixe de ouvirCardinalsDussolierSister Mary.

Três atores, três filmes… com Marçal Vianna

Marçal é um amigo cinéfilo que a internet me trouxe ainda nos tempos do saudoso Orkut. E o que mais curto ao trocar ideias sobre cinema com ele é que não existe preconceito com qualquer tipo de filme. Marçal, assim como eu, vai do cinema cult ao cinema feito para o povão, e por isso toda conversa com ele é sempre livre e prazerosa. De Woody Allen ao cinema independente, ele agora participa da nossa coluna destacando três desempenhos femininos de estilos completamente distintos, mas igualmente marcantes para as respectivas carreiras das atrizes selecionadas. É um trio de performances fortes e de personagens que, sem dúvida, trazem à tona as viagens internas mais lindas e perturbadoras de seres humanos singulares. Boa leitura! 

Charlize Theron (Monster – Desejo Assassino)
Quando se fala em “atuação poderosa”, o meu cérebro imediatamente me leva para Marion Cotillard em Piaf – Um Hino ao Amor e Charlize Theron em Monster – Desejo Assassino. Vi Monster em 2003. Eu tinha 12 anos e me lembro exatamente que essa foi a primeira atuação que realmente me impactou. O personagem é pesado, o filme é denso e a atriz principal passou por uma verdadeira transformação física e psicológica para interpretá-lo. O making of do filme mostra Charlize tendo fortes crises de choro após a realização de algumas cenas. É de doer o coração. E também motivo para muito orgulho! Adoro ver a entrega absoluta de um ator. Hoje Charlize é um ícone pop. Além do hit Mad Max – Estrada da Fúria, ela foi muito bem paga para ser a vilã sexy do megalomaníaco Velozes e Furiosos 8. Também vale ressaltar que eu A.M.O. Jovens Adultos. Eu realmente acredito que Charlize Theron tenha se encontrado nesse cinema mais blockbuster e comercial, mas nenhum papel seu será tão desafiador e instigante quanto o de Monster.

Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona)
Preciso admitir que não sou grande fã de Penélope Cruz. Não acho que ela esteja bem na maioria dos papéis que interpreta nem que possua uma carreira brilhante. Sahara, Bandidas, Zoolander 2 e até mesmo Nine são alguns dos filmes que me tiram o encanto por essa atriz espanhola. No entanto, eu preciso admitir que, quando bem dirigida, Penélope é um estouro. E ela NASCEU para interpretar determinados papéis. Eu poderia facilmente mencionar aqui a sua maravilhosa atuação em Volver, mas preferi lembrar de sua memorável personagem em Vicky Cristina Barcelona: a desequilibrada e instável Maria Elena. É incrível como Penélope surge apenas na metade do filme e rouba todas as atenções para si. É um notável caso em que a atriz coadjuvante rouba o protagonismo e revigora o filme por completo. Penélope Cruz tem um merecido Oscar em sua prateleira. Honre ele com carinho.

Felicity Huffman (Transamérica)
Transamérica é o filme perfeito para me conquistar. É simples, possui bons personagens, um excelente roteiro, ótimos atores e o principal de tudo: ele mescla drama e comédia de uma maneira extraordinária. E eu realmente acredito que a vida seja isso: uma eterna mescla de comédia e drama. Felicity Huffman é engraçada e dramática ao mesmo tempo. Ela consegue a dosagem perfeita do riso e do drama. E acreditem: isso é muito difícil de atingir! A sua transexual poderia cair em um mar de clichês e caricaturas, mas Huffman nos brinda com uma atuação comovente e animadora. Eu AMO esse filme! Me lembro como se fosse exatamente hoje: eu saindo do cinema – o Cine Arte UFF em Niterói – risonho, feliz, pleno e leve. E eu amo o cinema por me proporcionar momentos como esse.

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