Cinema e Argumento

44º Festival de Cinema de Gramado #6: “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho

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Em Aquarius, que estreia dia 1º de setembro no circuito comercial, Sonia Braga tem o papel que o cinema brasileiro lhe devia há décadas.

O febril momento político que o Brasil atravessa influencia Aquarius para o bem e para o mal. No sentido positivo, o novo longa-metragem do pernambucano Kleber Mendonça Filho se engrandece em diálogos como aquele em que Clara (Sonia Braga), jornalista aposentada que resiste às tentativas de uma grande empreiteira que deseja comprar seu apartamento, enfrenta Diego (Humberto Carrão) dizendo que as pessoas costumam relacionar o problema da falta de educação aos pobres, quando, na verdade, o problema do Brasil é a má educação dos ricos, pessoas que acreditam que dinheiro define caráter. Em contrapartida, os cartazes empunhados pelo elenco do filme em Cannes denunciando o indiscutível golpe que o Brasil sofre podem ofuscar a tese de que Aquarius é um filme grande por si só – e sobre muitas coisas além da provocação de contar uma história sobre uma experiência de vida que entra em rota de colisão com um poder supostamente maior.

Dividido em três partes (O Cabelo de ClaraO Amor de ClaraO Câncer de Clara), Aquarius é, antes de mais nada, o retrato de uma mulher de meia-idade com suas alegrias, anseios e frustrações, contemplando desde a sua reivindicação pela atenção dos filhos não tão presentes a uma divertidíssima noite de bebida e música com o seu grupo de melhores amigas. No meio disso tudo, vem a empreiteira Bonfim, que, após comprar todos os apartamentos do edifício da protagonista, tenta, a todo custo, convencê-la a se desfazer da moradia. Em tese, é uma trama aparentemente simples, mas Kleber Mendonça Filho, cineasta e cinéfilo experiente que é, sabe dar as devidas simbologias à jornada de uma verdadeira heroína. Sim, Clara, interpretada magistralmente por Sonia Braga em um papel que o cinema brasileiro lhe devia há décadas, é uma grande heroína – e não simplesmente por ser uma mulher que, apesar de doce, contida e aparentemente frágil, resistiu à vida inteira, inclusive a um câncer que até hoje, eventualmente, volta a assombrar sua vida. Na representação de Aquarius, a grandeza de Clara surge também a partir da personificação do mal, representado na figura do jovem empreiteiro que a cerca cada vez mais.

Interpretado com certeira ironia por Humberto Carrão, Diego representa essa geração que já nasce com o futuro nas mãos e alça voos altos e rápidos na vida. É o jovem que, mesmo tão novo, se apresenta de forma estranhamente conservadora, acreditando que nome e dinheiro são indiscutivelmente superiores a qualquer história de vida que a protagonista queira conservar no edifício onde mora. Entendemos o carinho que Clara nutre pelo prédio porque, no primeiro ato, ao encenar uma memória da protagonista, o filme desenha saudosamente um aniversário que diz tudo sobre sua família, seus amores e suas dores (e, talvez, um aparador nunca tenha tido um significado tão simbólico no cinema brasileiro). Ao passo em que Aquarius demora a apontar os caminhos que realmente vai seguir, Kleber vai, aos poucos, discretamente fazendo essa costura entre a íntima história de uma mulher de idade avançada e os significados muito maiores de cada situação. Pode ser um filme sobre resistência, maturidade, família e, principalmente, direitos – o que fica claramente exposto na grande cena em que a protagonista, em mais um embate com o jovem empreiteiro, diz que só sairá morta do edifício-título. O apartamento é de Clara. Ela quer ficar. Ela não não vai vender. E ela tem esse direito. Simples assim.

Sonia Braga, que, em inúmeras ocasiões, faz questão de afirmar que Aquarius lhe devolveu o cinema brasileiro, é impecável em todas as frentes de personalidade de sua personagem. É o típico momento em que uma grande atriz lembra o espectador, a cada minuto, do porquê ter se tornado um ícone. Todo o elenco, na realidade, é muito coeso porque fora ela e o próprio Carrão, ainda há outros atores extremamente críveis em cena, entre eles, Maeve Jinkings que, trabalhando com uma personagem difícil, tem um momento particularmente marcante em uma reunião familiar com a mãe. Com estreia comercial prevista para o dia 1º de setembro, Aquarius consolida Kleber Mendonça Filho como um de nossos maiores realizadores. É impressionante como o melhor de toda a sua carreira como jornalista e cinéfilo está novamente e plenamente convergida na tela. Assim como O Som ao Redor, é provável que nem todos comprem o conceito do estilo, mas, aos que souberem e conseguirem apreciar, Aquarius é mesmo tudo o que foi dito até agora. Mais uma vez, Gramado abre uma de suas edições em grande estilo.

44º Festival de Cinema de Gramado #5: a festa vai começar

gramado44Não são poucas as expectativas para a edição deste ano do Festival de Cinema de Gramado. O evento serrano só comemora a sua simbólica 45ª edição em 2017, mas, julgando pelo line-up de 2016, a festa bem que já poderia ser agora. Particularmente, muito me encanta o alto nível do quarteto de homenageados: Sonia Braga, uma de nossas maiores divas; José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão, mestre do terror brasileiro; Cecilia Roth, chica de Almodóvar e estrela do cinema ibero-americano; e Tony Ramos, sinônimo de grandes bilheterias. Acho que esse time chega a superar o de 2012 (Betty Faria, Eva Wilma, Juan José Campanella e Arnaldo Jabor), o meu favorito até então. Gramado 2016 tem tributo a ícones de todos os estilos de cinema, e essa característica é importantíssima por desmistificar a ideia de festivais como festas segmentadas.

Continuo discordando da insistência de crítica e imprensa de que um festival como Gramado deve ter apenas títulos inéditos para fazer jus ao seu prestígio. Isso é balela. Ainda assim, a “falha” foi corrigida e o evento deste ano, pelo menos na mostra brasileira, terá apenas títulos que farão suas estreias nacionais na Serra Gaúcha. A aposta em comédias é arriscada, mas conceitualmente relevante: mesmo que determinados filmes não inspirem tanta confiança, o curador Rubens Ewald Filho foi certeiramente enfático ao defender a tese de que a crítica ainda precisa fazer o exercício de não ter preconceito com o gênero (e isso é global: até o Oscar tem sérias dificuldades em reconhecer o humor em categorias que não sejam as de roteiro). Vamos ver se a quebra de paradigma será bem sucedida ou se tudo indica mesmo que O Silêncio do Céu, aguardado drama assinado pelo cult Marco Dutra, é o favorito pela matemática da exclusão.

A falta de pluralidade e representatividade da mostra brasileira (filmes assinados somente por homens e todos do eixo Rio-São Paulo) é significativamente compensada na latina, onde dez países estão representados em diversas coproduções e três mulheres colocam sua assinatura nas direções das obras. Internacionalmente falando, ainda há outro aspecto que carimba as expectativas em torno da edição: em parceria inédita, Gramado recebe representantes do prestigiado Festival de Sundance para a exibição de dois filmes, intercâmbios culturais e discussões acerca da consolidação desse novo relacionamento. Por falar nos filmes que Sundance exibe na Serra Gaúcha, um deles conta com uma sessão comentada por sua protagonista: Mammal traz ninguém menos que Rachel Griffiths para o Festival. E, como fã incondicional de Six Feet Under e grande adorador da era de ouro de Brothers & Sisters e do filme O Casamento de Muriel, vocês podem imaginar meu entusiasmo.

Novamente, pelo sexto ano consecutivo, estaremos no evento contando tudo para vocês com matérias especiais e críticas dos filmes concorrentes. A festa já vai começar: o 44º Festival de Cinema de Gramado acontece de 26 de agosto a 03 de agosto, antecedido por uma noite especial para a comunidade gramadense no dia 25. Até lá!

A Intrometida

Who doesn’t love love?

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Direção: Lorene Scafaria

Roteiro: Lorene Scafaria

Elenco: Susan Sarandon, Rose Byrne, J.K. Simmons, Jerrod Carmichael, Cecily Strong, Lucy Punch, Michael McKean, Jason Ritter, Sarah Baker, Amy Landecker, Casey Wilson, Billy Magnussen

The Meddler, EUA, 2016, Comédia/Drama, 100 minutos

Sinopse: Para Marnie Minervini (Susan Sarandon) a maternidade não é um dever, mas sim uma vocação. Mesmo após a recente morte do marido, ela não deixa de ser alegre, sempre mandando mensagens, ligando e aparecendo sem avisar na casa da filha, Lori (Rose Byrne). Almejando algum controle sobre sua vida, principalmente após o término de um relacionamento, Lori tenta sair das asas da mãe, mas Marnie segue a filha até Los Angeles e acaba desenvolvendo uma conexão com um policial (J.K. Simmons). (Adoro Cinema)

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As situações são facilmente identificáveis e comicamente aplicáveis aos dois lados da moeda: enquanto os filhos enxergam, com muito humor, o superprotecionismo expansivo e natural de todas as mães, as progenitoras compreendem perfeitamente as necessidades de presença e carinho que tanto movem alguém como Marnie (Susan Sarandon), a protagonista de A Intrometida, que, ainda lidando com a morte do marido, encontra, na filha, uma forma de não ter seus dias tão vazios. Surpreendentemente, o filme escrito e dirigido com muita simplicidade por Lorene Scafaria se desapega da diversão envolvendo as barreiras (ou falta delas) que se estabelecem a partir de laços familiares e opta por narrar as cotidianidades de uma mulher que, após a mudança da filha para outra cidade, precisa aprender a recomeçar, na meia-idade, uma vida que já lhe parecia tão certa.

Não há comparações depreciativas que possam diminuir o valor simbólico que tem um filme como A Intrometida. Cada vez mais discutimos a representatividade no cinema, e é bom ver que roteiros que contemplem esse nicho tão frequentemente esquecido pelo cinema que é o público de meia-idade. Sempre reforço que os europeus sabem tratá-lo como ninguém, o que deveria ser uma aula para os norte-americanos, que costumam colocar personagens de idade mais avançada apenas como os pais coadjuvantes sem vida pessoal que só servem para ouvir histórias e dar conselhos aos filhos, especialmente em comédias de gosto altamente duvidoso. Por isso é de se celebrar um projeto com a proposta de A Intrometida: aqui, esse público é o centro das atenções em uma história que não chega a ser necessariamente sofisticada, mas que compensa amplamente essa limitação com uma boa dose de afeto.

É a partir de pequenos momentos da vida de sua protagonista – a amizade com o vendedor de uma loja, a dificuldade em se relacionar com as novas tecnologias, o sentimento de solidão que surge entre uma risada ou outra com uma conhecida qualquer – que o roteiro estrutura a construção de uma personagem simplesmente adorável. Claro que sempre achamos as mães dos outros um máximo, mas a Marnie de Susan Sarandon é realmente especial em sua generosidade eventualmente excessiva que não deixa de ser questionada por sua psicóloga vivida por Amy Landecker. Afinal, tanta dedicação ao próximo não deixa de ser uma desculpa para não ter que olhar para a própria vida? Como na maioria dos filmes sobre mulheres de meia-idade em pleno recomeço, A Intrometida tem uma intérprete das mais impecáveis. Se Diane Keaton tem um dos melhores momentos de sua carreira em Alguém Tem Que Ceder e Meryl Streep se diverte à beça no fragilíssimo Simplesmente Complicado, Susan Sarandon (que, sabe-se lá como, não envelhece e fica mais bela a cada dia) tem sua melhor chance em anos, transmitindo uma humanidade que é muito característica do seu arsenal de talentos.

Não deixa de ser frustrante, contudo, que relatos sobre o público de meia-idade simplifiquem tanto as coisas para suas protagonistas. Ou não é um tantinho mais fácil sofrer quando a Erica Barry de Alguém Tem Que Ceder viaja a Paris com o dinheiro de sua carreira vitoriosa na dramaturgia, a Jane Adler de Simplesmente Complicado se vê dividida entre dois amores enquanto reforma sua confeitaria de grande sucesso e, agora, a Marnie Minervini de A Intrometida procura uma nova vida enquanto se diverte ao bancar casamentos alheios com a fortuna deixada pelo falecido marido? Isso não deixa de reduzir todos esses filmes ao velho drama de que ricos também sofrem, e é assim que falta complexidade ao carinhoso mundo da personagem vivida por Susan Sarandon porque tudo acaba se resumindo a circunstâncias que desviam a atenção do que realmente merece ser contado. Quando A Intrometida permite que Marnie finalmente considere um novo amor ou que ela dê sinceras gargalhadas com a filha após um incidente que constrói um novo momento de aproximação entre as duas, o resultado ganha o sentido de que agora sim estamos realmente vendo a representatividade ideal de seu público-alvo.

44º Festival de Cinema de Gramado #4: “Minha relação é de puro amor com as câmeras”, conta Sonia Braga, a homenageada do Troféu Oscarito

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Foto: André Arruda

Um dia antes de conceder sua entrevista oficial para o Festival de Cinema de Gramado, Sonia Braga havia feito, em Nova York, um teste de câmera. Ao chegar ao estúdio, foi apresentada à marca onde deveria se posicionar para a gravação. A atriz, no entanto, resolveu quebrar a cerimônia: circulou pelo set, observou bem o ambiente e foi até o diretor de fotografia para cumprimentá-lo. “Ele, surpreso, quase caiu da cadeira quando ultrapassei essa linha que costumam colocar entre quem está à frente e atrás das câmeras. Nós nos abraçamos e eu agradeci a toda equipe por aquele encontro. Não podemos dispensar essa troca, esse dia de vida que vamos ter juntos”, relata. Esses são métodos adotados desde sempre por Sonia, que dispensa com veemência o título de “atriz profissional” e as formalidades em uma equipe de cinema. Para ela, não faz sentido colocar barreiras no processo criativo realizado por um coletivo. Afinal, “em um set, todos estão trabalhando com um mesmo objetivo: fazer o melhor filme possível”.

O mesmo senso de troca e colaboração existe na Sonia Braga fora do set. Depois de brilhar no Tapete Vermelho com seus lenços esvoaçantes e arrebatar a crítica do prestigiado Festival de Cannes com sua performance em Aquarius, novo longa-metragem do pernambucano Kleber Mendonça Filho, a atriz de clássicos do cinema brasileiro como Dona Flor e Seus Dois Maridos e O Beijo da Mulher-Aranha agora se prepara para trocar os holofotes da Riviera Francesa pelo charme da Serra Gaúcha. E não é apenas para apresentar Aquarius, hors-concours, junto à equipe, mas também para receber a mais tradicional homenagem do Festival de Cinema de Gramado: o Troféu Oscarito, distinção dedicada a grandes atores do cinema brasileiro.

Mesmo adorando a relação que estabelece com fotógrafos e jornalistas, Sonia Braga ainda não se acostumou com celebrações. “É incrível e muito bonito, sem dúvida, mas ainda acho muito estranho essa ideia de receber uma homenagem, pois acho que o maior prêmio que um ator pode receber é o trabalho. O que vem depois disso é apenas a consequência do amor pelo cinema”, avalia a intérprete. É a primeira vez que Sonia Braga vem a Gramado, mesmo já tendo em casa dois Kikitos por suas performances em Eu Te Amo (1981) e Memórias Póstumas (2001). Ela mora há 25 anos em Nova York, onde consolidou uma carreira que lhe proporcionou participações que vão desde seriados populares como Sex and the City a filmes dirigidos por Clint Eastwood e Robert Redford, mas faz questão de reforçar a ideia de que nunca se desconectou do Brasil. “Existe essa sensação de que, se estou longe, não faço mais parte da cultura brasileira. A verdade é que levei o Brasil por todos os lugares onde viajei ao redor do mundo. Sempre fui uma representante do meu país”, conta.

Operação resgate

A homenageada do troféu Oscarito não trabalha tanto quanto gostaria no Brasil também em função de simplesmente não receber convites, o que, segundo ela, é resultado de uma certa cerimônia dos realizadores com determinados ídolos. E foi justamente a quebra desse paradigma que já chamou a atenção da atriz para Aquarius. “Essa relação já começou diferente porque todos trabalham com a ideia de que não existem limites. Para eles, se é para pensar, que seja bem alto. Pedro Sotero sugeriu meu nome, a equipe entrou em contato comigo e o resultado foi que, poucos dias depois de receber o roteiro, eu já estava embarcando no projeto. Foi uma operação resgate”, brinca Sonia.

Sobre o filme que lhe rendeu críticas entusiasmadas no Festival de Cannes deste ano, diz ter realizado o antigo sonho de estar em um set de cinema plenamente democrático e que, caso pudesse reviver as gravações de apenas um filme entre todos de sua carreira, esse seria o escolhido. “Sempre fiquei muito constrangida de fazer ensaios porque não sou boa neles, mas com Kleber [Mendonça Filho, o diretor], perdi essa vergonha. Ele mexeu em botões que me transformaram. Talvez por me olhar como um ser humano e não apenas como atriz. Estar no set de Aquarius foi um verdadeiro sonho”, lembra.

O vulcão e a serenidade de uma manteiga no pão

Sonia Braga não gosta de elencar os filmes que mais marcaram sua carreira, e sim os momentos especiais que compartilhou com amigos e colegas ao fazer cinema. Com Eu Te Amo, filme que trouxe a sua primeira consagração na Serra Gaúcha, ela destaca uma intimidade profissional que julga ter se esvaído com o passar dos tempos. “Eu e Paulo César Pereio andávamos nus o tempo inteiro durante as filmagens, seja na cena em si ou até mesmo no set. Qual o problema nisso? Nós todos estávamos vivendo uma mesma vida, que era intensa e impressionante. Foi tudo muito especial: o filme e as relações que estabelecemos a partir dele”, recorda. Ainda sobre o longa dirigido por Arnaldo Jabor, a homenageada diz que, nele, está uma das cenas que mais se lembra de toda a sua carreira: “Eu estava na cozinha, passando manteiga em uma pão. Era só isso, mas o momento era tão palpável… Eu sentia tudo – o movimento, a personagem – e lembro de ter pensado: ‘é isso o que eu quero como atriz’. Para mim, a cena foi um completo vulcão, mas o que está na tela é de uma serenidade absoluta”.

Fazer graça, algo diferente

A homenagem de Sonia Braga está marcada para 26 de agosto, mesmo dia em que Aquarius abre a programação do 44º Festival de Cinema de Gramado. Para a noite de sua homenagem, a atriz promete não poupar fotógrafos e jornalistas para celebrar o momento. “Amo o Tapete Vermelho e os fotógrafos, que são profissionais que me dão muito alegria. Minha relação é de puro amor com as câmeras. É minha obrigação parar, fotografar e estabelecer uma relação de respeito com eles. Se eu puder fazer graça ou algo diferente, melhor ainda! Para Gramado, deixo, pelo menos, a garantia de boas fotos e entrevistas!”, antecipa. Já quando as luzes se apagarem para a sessão de Aquarius no Palácio dos Festivais, Sonia fala em entrega: “É nesse momento que minha vida pertence a todos que respiram o mesmo ar. Juntos, naquele escuro, dividimos o mesmo cinema, a mesma sala, as mesmas surpresas. Por isso o cinema é tão bonito”.

* matéria produzida originalmente para a assesoria de imprensa do 44º Festival de Cinema de Gramado

Rapidamente: “O Clube”, “Marguerite” e “Trumbo – Lista Negra”

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Catherine Frot em Marguerite: tanto ela quanto Meryl Streep em Florence: Quem é Essa Mulher? compreendem a trágica inocência de uma mesma personagem.

O CLUBE (El Club, 2015, de Pablo Larraín): Vencedor do grande prêmio do júri no Festival de Berlim em 2015 e indicado ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro este ano, O Clube é o sexto longa-metragem assinado pelo chileno Pablo Larraín. Para quem ainda não acompanhava o nome dele de perto (em 2012, fez o excelente No, estrelado por Gael García Bernal e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro), é bom reparar o erro a partir de agora com O Clube, um filme profundamente desconfortável (no bom sentido) e munido de muita coragem ao narrar os dias de padres isolados pela igreja católica em uma casa litorânea sob a suspeita de crimes de pedofilia. O clima invernal, o tom taciturno, a fotografia nebulosa e uma morte na porta do retiro dos padres são os pontos altos da ambientação desse filme que não economiza, seja abordagem ou vocabulário, para falar sobre os crimes nunca encenados que os sacerdotes teriam cometido. Com um desfecho particularmente surpreendente e até mesmo perturbador, O Clube reafirma o talento de Larraín como contador de histórias – e, ainda que No seja mais marcante, sua nova investida atrás das câmeras não deixa de ser uma experiência de alto valor cinematográfico e narrativo.

MARGUERITE (idem, 2015, de Xavier Giannoli): Realizado quase paralelamente ao ótimo Florence: Quem é Essa Mulher?, o belga Marguerite prefere carregar menos no tom anedótico para contar a história da personagem-título, transpondo a história verídica de Florence Foster Jenkins para o imaginário de língua francesa. Por isso acho tão complicado – e até injusto – colocar na balança o trabalho de Xavier Giannoli com o longa estrelado por Meryl Streep e Hugh Grant, já que o segundo, mesmo dando conta da dimensão dramática da personagem, prefere ser um (satisfatório) produto cômico. Enquanto isso, Marguerite opta por fazer um estudo mais minucioso de sua personagem, explorando muito mais os detalhes da trágica inocência de uma mulher que, apesar do marido compreensivo e do mordomo fiel, enfrenta uma crise no casamento e constantemente se depara com pessoas que querem secretamente abusar de sua ingenuidade. Elegante, o longa de Giannoli, assim como o de Stephen Frears, respeita e compreende o que existe de mais fascinante em sua protagonista, principalmente porque também acerta na escolha da intérprete: aqui, Catherine Frot é excelente como protagonista que sempre conquista a nossa compaixão.

TRUMBO – LISTA NEGRA (Trumbo, 2015, de Jay Roach): Quem escreveu que Trumbo – Lista Negra é o filme que coloca um diretor de comédia no mundo dos dramas e da biografia certamente desconhece a carreira de Jay Roach. É lógico que seus maiores sucessões são filmes cômicos como Austin PowersEntrando Numa Fria, mas a comparação lógica para falar sobre Trumbo seria com Recontagem Virada no Jogo, duas grandes histórias verídicas sobre importantes momentos da política norte-americana que ele adaptou para a HBO. Isso porque Trumbo, que já decepciona por si só, acaba se tornando ainda menos interessante quando lembramos do que Jay Roach já foi capaz com esses dois filmes específicos. Fica claro, no longa estrelado Bryan Cranston, que o diretor tem sérios problemas em narrar biografias que compreendem um longo espaço de tempo. Enquanto em Recontagem Virada no Jogo ele era cirúrgico ao distribuir a construção de seus personagens a partir de momentos cotidianos de um pequeno recorte, em Trumbo a situação é dispersiva pela amplitude cronológica, resultando no recorrente problema de filme biográficos que, desejando narrar tudo o que é possível sobre a vida de um personagem, acabam comunicando muito pouco. Bryan Cranston faz o que está ao seu alcance em um elenco mal aproveitado e até caricato (Helen Mirren não passa da caracterização, por exemplo), mas isso não é o suficiente para tirar o filme do status de mero relato esquemático e sem refinamento.

Esquadrão Suicida

You know what they say about the crazy ones…

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Direção: David Ayer

Roteiro: David Ayer

Elenco: Viola Davis, Will Smith, Margot Robbie,  Jared Leto, Joel Kinnaman,  Cara Delevingne, Ike Barinholtz, Scott Eastwood, David Harbour, Jai Courtney,  Robin Atkin Downes, Jim Parrack

Suicide Squad, EUA, 2016, Aventura, 123 minutos

Sinopse: Após a aparição do Superman, a agente Amanda Waller (Viola Davis) está convencida que o governo americano precisa ter sua própria equipe de metahumanos, para combater possíveis ameaças. Para tanto ela cria o projeto do Esquadrão Suicida, onde perigosos vilões encarcerados são obrigados a executar missões a mando do governo. Caso sejam bem-sucedidos, eles têm suas penas abreviadas em 10 anos. Caso contrário, simplesmente morrem. O grupo é autorizado pelo governo após o súbito ataque de Magia (Cara Delevingne), uma das “convocadas” por Amanda, que se volta contra ela. Desta forma, Pistoleiro (Will Smith), Arlequina (Margot Robbie), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), El Diablo (Jay Hernandez) e Amarra (Adam Beach) são convocados para a missão. Paralelamente, o Coringa (Jared Leto) aproveita a oportunidade para tentar resgatar o amor de sua vida: Arlequina. (Adoro Cinema)

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Uma confissão importante: tenho problemas em organizar ideias quando escrevo sobre filmes que me despertam emoções extremas, para o bem ou para o mal. É um desafio deixar o lado passional de lado e sistematizar racionalmente o que deu certo ou errado em determinada obra para justificar minha opinião. Digo isso porque encontrei novamente essa árdua tarefa ao conferir Esquadrão Suicida, que vem faturando altas cifras mesmo com uma catastrófica recepção da crítica.  As análises depreciativas estão cobertas de razão, pois é realmente um choque ver um filme de “super-herois” tão mal realizado quanto esse. Para quem gosta de definições simplistas, basta dizer que Esquadrão Suicida está na mesma gaveta de desastres que há muito já pareciam impossíveis, como Demolidor e até mesmo Mulher-Gato.

Uma breve pesquisa na internet é o suficiente para que inclusive os leigos percebam o quanto Esquadrão Suicida foi mutilado pelo tempo. Reza a lenda que o projeto começou com uma ideia muito mais dark antes de se tornar uma meleca colorida que lembra apenas os programas infantis da Nickelodeon. Imaginem que interessante um filme sobre anti-herois com suas contradições e reflexões! A tese funciona (Detona Ralph fez um lindo trabalho ao concentrar toda sua história em um rejeitado “vilão”), mas Esquadrão Suicida não esperava encontrar o sucesso repentino do humor de Deadpool ou a aversão à falta de maior senso de entretenimento de Batman vs. Superman: A Origem da Justiça. Na pós-produção, o estúdio tentou maquiar o produto final para tentar se encaixar às respostas do público. Deu tudo errado, e a aventura que chega aos cinemas é ineficiente no humor e no espírito de mera adaptação caça-níqueis.

A desconstrução comercial da personalidade do projeto tem sido usada como justificativa para Esquadrão Suicida ser tão ruim. Ora, estão pegando muito leve, pois ela é dos males o menor. Mesmo em sua essência, o filme de David Ayer é um completo caos repleto de amadorismos. São transcorridos poucos minutos e a trama já mostra sua capacidade narrativa rasteira e preguiçosa: extremamente explicativa, a apresentação dos personagens narra o passado de cada um deles com uma preguiça assustadora. Ao colocar na tela um vilão por vez com suas histórias e razões para terem chegado a um universo de crimes e rupturas de caráter, Esquadrão Suicida repete uma espécie de passo a passo inventado por alguém que nunca soube lidar com dois personagens ou mais em cena. Como se não bastasse isso, também é necessário que uma protagonista esteja na mesa de um jantar narrando justamente cada uma dessas histórias para outros personagens. Quanta criatividade! 

Desde o início já falta tom interessante, costura inteligente, ritmo bem dosado e personalidade ao que é mostrado em Esquadrão Suicida. São no mínimo desleixadas as tentativas de Ayer de tornar seu filme um produto pop, começando pela infinita lista de clássicas canções utilizadas para imprimir uma alma cool ao filme (ninguém precisa mais, por exemplo, ouvir Sympathy for the Devil em 2016 de forma tão gratuita). Isso certamente nos remonta à ideia de que tentaram maquiar Esquadrão Suicida na pós-produção para que ele se tornasse algo mais popular. Coloco minha mão no fogo pela ideia de que essa e outras tantas músicas não estavam no esboço original do projeto. Ademais, é primário o erro da aventura de se utilizar tanto de computação gráfica (já faz anos que os bons filmes desse “gênero” deixaram de parecer um videogame) para criar uma antagonista que deseja… dominar o mundo! Sério mesmo? Em que anos estamos?

Parado no tempo, Esquadrão Suicida poderia, então, pelo menos compensar na ação, certo? Errado. Em cada cena de adrenalina, o diretor abusa de milhões de clichês como as balas caindo em slow motion de uma metralhadora ou vidros se estilhaçando de forma supostamente elegante. Tem muitos tiros e pancadaria, é verdade, mas não dá para se encontrar muito ali: é de se duvidar que alguém tenha entendido bem quem faz o quê em cada cena de ação, onde determinado personagem pulou ou qual tiro acertou quem. Não há apuro geográfico na forma como a câmera do diretor se movimenta na ação. Agora, uma coisa é certa: é questão de poucos minutos até Arlequina (Margot Robbie) fazer uma piada ou estourar uma bolinha de chiclete mesmo quando o circo está pegando fogo – e isso nos leva a mais um problema gravíssimo de um filme cuja lista de defeitos parece não ter fim.

Nada mais trágico em um longa da natureza de Esquadrão Suicida do que você não se interessar pelos personagens em cena. E já começo falando da Arlequina de Margot Robbie porque ela está sendo defendida, na realidade, por ser apenas um alento em um casting de personagens apáticos – e isso é realmente muito pouco para chamá-la de destaque. Para ser bem justo, dá sim para dizer que Robbie tem um apurado timing cômico. Entretanto, sua Arlequina é tão mal escrita que fica difícil ter boa vontade. Indo além: ela serve apenas para fazer graça a partir de uma loucura muito mal explicada e literalmente parar um exército ao ostentar seu corpo esbelto em um micro short. Não dá mais para amenizar objetificação da mulher hoje em dia, inclusive porque Esquadrão Suicida se esmera ainda mais (no mau sentido) ao fazer com que Arlequina represente o estereótipo de mau gosto da figura feminina que vive apenas para reencontrar seu homem e que só falta usar um colar que mais parece uma coleira com o apelido do amado que comanda cada passo de sua vida. Só que… ei, espera, ela usa!

Por falar em amado, que homem mais horroroso! Jared Leto é sonolento com a interpretação repetitiva de um Coringa sem propósito, personalidade e função. Nesse casso, a culpa é tanto do ator, que se preocupou mais em vender sua caracterização na mídia do que em de fato fazer um trabalho decente, quanto do diretor, que não dá qualquer dimensão à nova construção desse personagem que certamente faz Heath Leder se revirar no caixão e até Jack Nicholson respirar aliviado. De resto, dá pena ver Viola Davis no meio de tantas figuras irritantes e esquecíveis, inclusive porque ela própria só causa indiferença em Esquadrão Suicida. Rejeito comentários tão definitivos, mas não há nada que se salve nesse desastre. Não importa o quanto alguém tente lhe preparar: tudo é pior do que se pode imaginar. Dessa forma, o longa de David Ayer virou um filme-evento por ser tão ruim. Todos querem tirar a prova para ver se algo pode mesmo ser tão absurdo. As pessoas têm razão em ir ao cinema apesar das advertências. Só mesmo vendo para acreditar.

Um milhão de acessos (ou o meu maior presente)

Hoje é um dia muito especial para mim.

Um milhão. Essa é a marca de acessos que o blog alcançou nessa sexta-feira (05). Não entendo muito bem de estatísticas na internet – e, na verdade, pouco me importa se estou fazendo tanto barulho por isso –, mas o número me comoveu muito. O garoto que começou a rabiscar alguns comentários sobre cinema há quase dez anos pode ter sonhado com isso, mas, como já escreveu James Michener, nós nunca estamos realmente preparados para aquilo que desejamos.

Ao ver esse número de acessos, fiquei pensando: já que não existe uma formação oficial, o que define um crítico de cinema? Qual linha alguém precisa ultrapassar para ser considerado um? Sofisticação de texto? Número X de filmes assistidos? Fazer os amigos certos? Ou simplesmente dedicação à escrita? Não sei. Prefiro dizer que sou um jornalista que comenta sobre cinema, pois acho que quem pode dizer se sou realmente um crítico são os outros. E confesso que já ouvi, ao longo desse tempo, coisas que me emocionaram muito de quem realmente coloco na minha singela listinha de prioridades.

No entanto, para não me desviar do assunto, queria deixar registrado um abraço, nem que seja virtual, para as tantas pessoas que me influenciaram até aqui. Não vou listar nomes porque não quero ser injusto e deixar alguém de fora por desatenção, mas espero que essas pessoas saibam que devem se sentir abraçadas hoje. Principalmente porque elas entendem – ou pelo menos respeitam – esse meu jeitinho de ver o cinema sem preconceitos, de dizer o que penso de um filme sem qualquer restrição (mesmo quando tem pessoas conhecidas envolvidas) e de me encantar com o cinema sem qualquer fórmula pronta, até mesmo quando estamos falando de um filme considerado por muitos como bobo ou mero entretenimento hollywoodiano.

Afinal, como uma vez me disse a minha ex-professora Raquel Cirne, para ter valor, nem sempre um filme precisa ser questionador, enigmático ou difícil de entender. Também ter que ter música luminosa, leveza, beleza, uma linda celebração de um casamento com velas penduradas nas árvores… Cinema é magia, e deve ter a função de inspirar, de estimular os sonhos, de colorir a vida. Acredito muito nisso. Ao longo desses quase oito anos de existência e, agora, um milhão de acessos, o Cinema e Argumento me ajudou a compreender melhor o cinema – e, claro, a colorir a minha vida. Fico mesmo emocionado de saber que tanta gente já me leu. Ter vocês ao meu lado sempre foi o meu maior presente. Podem acreditar.

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