Cinema e Argumento

As mulheres imbatíveis e eternas de “Feud: Bette and Joan”

Bette Davis (Susan Sarandon) e Joan Crawford (Jessica Lange) em Feud: Bette and Joan: o que poderia ser uma mera diversão envolvendo a rivalidade entre duas mulheres se revela um profundo estudo sobre o machismo em Hollywood.

As atrizes Bette Davis e Joan Crawford faziam questão de afirmar que eram mulheres e profissionais bastante diferentes quando, na verdade, compartilhavam mais semelhanças do que estavam dispostas a admitir. Ambas abandonadas por seus respectivos patriarcas, Bette e Joan vieram de famílias pobres, tornaram-se famosas entre os anos 1920 e 1930, ganharam Oscar de melhor atriz, eram democratas e feministas, casaram quatro vezes, adotaram crianças e tiveram filhos que, posteriormente, ficariam famosos por escrever biografias que exploravam as complicadas relações que tiveram com suas mães. Isso só comprova como, no fundo, as duas estrelas de Hollywood sabiam que a lendária inimizade entre elas era uma situação criada por uma Hollywood machista e avessa ao envelhecimento das atrizes. No entanto, também compreendiam que, infelizmente, tal dinâmica era uma ferramenta de sobrevivência na indústria: sem essa tônica, faltavam as manchetes em jornais, as aparições em colunas sociais e até mesmo os papeis em filmes que já não vinham mais naturalmente. 

O que Bette Davis e Joan Croawford não sabiam é que, além das mazelas profissionais, a situação acarretaria profundas cicatrizes pessoais. E é com esse olhar que Feud: Bette and Joan, antologia criada por Ryan Murphy junto à dupla Jaffe Cohen e Michael Zam, procura abordar a tortuosa relação entre as atrizes, cuja inimizade foi muito além das gravações de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, filme que marcou o primeiro e único encontro entre as duas imortalizado nas telas do cinema. Ao longo de oito episódios, o primeiro ano da série que, em temporadas posteriores, contará outras rixas mundialmente famosas, tem o mérito de se esquivar da mera curiosidade cinéfila (esse poderia muito bem ser um relato cheio de referências e brincadeiras endereçado aos fãs da sétima arte) para se tornar um registro universal e, claro, profundamente atual, visto que, hoje, muita gente ainda lucra e se diverte com a inimizade entre mulheres, especialmente na indústria fonográfica, onde parece impossível enaltecer uma diva pop como Madonna ou Lady Gaga sem depreciar outra na mesma intensidade.  

Susan Sarandon é um milagre como Bette Davis. Além das semelhanças físicas, a atriz ressuscita toda a personalidade forte e o temperamento difícil de uma das intérpretes mais celebradas de todos os tempos.

Feud: Bette and Joan termina de forma bem diferente do que começou, transformando uma certa frustração em algo extremamente recompensador. Explico: inicialmente vendido como a reprodução dos bastidores de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, o projeto, já no quarto episódio, encerra as gravações do célebre filme para, aos poucos, ter sua trama cada vez mais concentrada na vida de Joan Crawford (Jessica Lange), cultivando no espectador a frustração de ver Bette Davis (Susan Sarandon) escanteada em cena. Afinal, como não lamentar o fato de Feud: Bette and Joan negar igual protagonismo a essa mulher forte e de trajetória vitoriosa que, entre tantas coisas, foi a primeira mulher presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, a atriz com o salário mais alto de sua época quando realizou A Malvada e, até hoje, a única mulher, ao lado de Greer Garson, a alcançar o recorde de cinco indicações consecutivas ao Oscar de melhor atriz? Só que não demora muito para a série nos atentar ao fato de que Bette, por uma série de razões, sempre será a grande protagonista da famosa relação com Joan Crawford, e que existe muito mais a ser contado por trás dessa história. Feud não deixa de fazer uma reparação ao apostar em uma abordagem bastante diferenciada: aqui, a maior parte do protagonismo está finalmente entregue a Crawford, que, riquíssima em conflitos, é dramaticamente mais interessante por, ao contrário de Bette, ser insegura, emocionalmente instável, secretamente desesperada pela aprovação da colega e incapaz de lidar com rejeições.

Tamanha é a conscientização da série acerca do danoso incentivo ao confronto entre mulheres que toda a diversão de ver Bette e Joan se sabotando nas gravações de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? se transforma em puro mal estar, mais especificamente no episódio And the Winner is… (The Oscars of 1963), onde o diretor Ryan Murphy delicia os fãs do cinema com inúmeras recriações e referências (o plano-sequência de Crawford transitando entre os bastidores do Oscar é impecável) ao mesmo tempo em que usa tudo isso como munição para potencializar os conflitos internos das protagonistas. Enquanto uma vê seu sonho de ganhar um terceiro Oscar ser destruído pela colega (Crawford fez uma ampla e reconhecida campanha contra Bette após não receber uma indicação pelo mesmo filme), a outra encontra um falso e doentio conforto ao receber o Oscar de melhor atriz em nome de Anne Bancroft (O Milagre de Anne Sullivan), que superou o nome de Bette na disputa pela estatueta e não pôde comparecer à cerimônia devido a outros compromissos profissionais. A partir daí, é um soco no estômago atrás do outro, pois Feud: Bette and Joan não poupa esforços para mostrar o quanto envelhecer em Hollywood é algo extremamente doloroso para as mulheres em função da oferta quase inexistente de papeis e das humilhações que a indústria faz com que elas se submetam só para continuar trabalhando.

Vindo de uma trajetória vitoriosa na TV com American Horror Story, Jessica Lange brilha novamente como Joan Crawford. É pelo seu olhar que se desenvolve a trama de Feud: Bette and Joan.

Retratados como frouxos ou medíocres, mas devidamente explorados em suas dimensões, os homens da série tem papel fundamental nessa degradação. Se Jack Warner (Stanley Tucci), o magnata da Warner Bros., é inescrupuloso ao conscientemente jogar lenha na fogueira de Bette e Joan para conseguir promover mais um sucesso de bilheteria, Robert Aldrich (Alfred Molina), o diretor de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, prefere se enxergar como um homem inseguro e injustiçado ao ter que administrar tantas disputas no set e não como peça decisiva para acelerar ou frear a maliciosa engrenagem que coloca as atrizes em confronto. Ainda que muito do que as protagonistas colheram fosse fruto do que elas próprias plantaram (Joan especialmente tem um longo histórico de decisões destrutivas tomadas por pura vaidade e orgulho, como ter se recusado a promover Baby Jane junto a Bette, o que certamente influenciou sua indicação ao Oscar pelo filme), Feud: Bette and Joan jamais deixa de reforçar o fato de que elas são resultado inegável de um entorno que nunca foi generoso com qualquer uma das duas. É por isso que um episódio como Abandoned! dói tanto: o diálogo em que as duas atrizes, após uma discussão, baixam a guarda e se (re)conhecem na mesma situação de vida ao lembrar o quão prazeroso era sentir a alegria de serem as atrizes mais talentosas e bonitas de sua geração é de partir o coração. E, claro, um show de duas grandes intérpretes.

Por sinal, enfim chegamos a elas: Jessica Lange e Susan Sarandon, que encabeçam um elenco feminino excepcional. Dando orgulho a Bette e Joan não só pelas representações humanas e respeitosas dessas figuras, mas também por já passarem dos 60 anos com carreiras bastante ativas, Lange e Sarandon brilham em cena e são dignas de notas particulares. A primeira, que vem de um recente histórico vitorioso na TV com American Horror Story (foram dois Emmys pela antologia também criada por Ryan Murphy), abraça todas as imperfeições de Joan Crawford e torna a personagem crível mesmo quando fica difícil defendê-la em seus ataques de vaidade. Ela dá conta total da minissérie quando a trama se volta muito mais para sua percepção ao mesmo tempo em que estabelece um dinâmica sempre cercada de generosidade com Sarandon. Como Bette Davis, a colega de Lange é um milagre: além da semelhança física ao reproduzir filmes como A MalvadaPérfida, Sarandon capta a atriz de dentro para fora, trazendo à tona, com plena fidelidade e sensibilidade, a intensa personalidade que lhe era tão caraterística. Ao contrário do que a imprensa quis criar (Murphy diz ter sido procurado diversas vezes sobre uma possível inimizade entre as duas atrizes), estamos falando de uma dupla com pura sinergia. Juntas, elas são imbatíveis.

De forma mais racional, Feud: Bette and Joan tem lá suas fragilidades, como a artificialidade de encenar a gravação de um documentário onde atrizes como Olivia de Havilland (Catherine Zeta-Jones) e Joan Blondell (Kathy Bates) comentam a rivalidade do título da minissérie. O formato é artificial porque, além de subutilizar Kathy Bates (não há razão alguma para sua inclusão, já que ela sequer é introduzida na história de Bette e Joan), está ali apenas para fazer contextualizações (cinéfilas, na maioria das vezes), simplificar passagens do tempo e explicar determinadas situações que não são recriadas. Por outro lado, há de se entender que essa é uma ferramenta identificável e até necessária para os padrões da TV aberta, bem como o ajuste de fatos e datas para maior impacto dramático. Errado? De forma alguma. A obrigação com a fidelidade cirúrgica dos fatos pode ficar para os documentários, até porque Feud: Bette and Joan tem pleno domínio de suas emoções ao arquitetar aos ajustes honestos que faz. No embate entre as protagonistas, faz pensar. Já em qualquer momento de generosidade entre elas, consegue cortar até o coração mais pedregoso. Afinal, como o próprio título do episódio derradeiro indica ao relembrar uma frase clássica de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, elas realmente poderiam ter sido amigas durante todo aquele tempo.

Os registros pioneiros de “When We Rise”

Mary-Louise Parker e Rachel Griffiths em When We Rise: a minissérie criada por Dustin Lance Black reúne um excelente grupo de atores que fizeram carreira na TV.

Vencedor do Oscar de melhor roteiro original por Milk – A Voz da Igualdade, Dustin Lance Black diz que nunca houve um registro audiovisual tão amplo sobre a luta dos direitos LGBT quanto o da minissérie When We Rise. Criada, roteirizada e eventualmente dirigida por ele, a atração exibida em março pela ABC teve uma trajetória tímida em termos de repercussão, mas é importante que seja reconhecida exatamente pelo ineditismo citado por Black: começando em 1969 para chegar ao governo Barack Obama, que tornou inconstitucional a Proposição 8, iniciativa que bania a realização de casamentos de pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos, When We Rise é realmente ambiciosa e pioneira do ponto de vista de registro histórico, chegando a compensar as superficialidades e decisões comerciais tão inerentes a programas realizados originalmente para a televisão aberta norte-americana.

Com um elenco repleto de excelentes atores que fizeram carreira na TV ou pelo menos tiveram um momento de glória nela (Mary-Louise Parker, de Angels in America Weeds; Rachel Griffiths, de Six Feet UnderBrothers & Sisters; Carrie Preston, de True BloodThe Good Wife; e até Guy Pearce, que ganhou um Emmy como o interesse romântico de Kate Winslet na minissérie Mildred Pierce), When We Rise acerta ao narrar a trajetória de toda uma geração a partir de histórias íntimas e pessoais. Isso confere ao resultado um estofo dramático diferenciado em termos de relatos LGBT, já que uma quantidade significativa de produções com a temática prefere uma pegada mais documental, incluindo filmes como o próprio Milk, escrito por Black. Já When We Rise reúne personagens comuns, torna todos facilmente identificáveis e, a partir daí, explora a emoção que vem organicamente das batalhas coletivas em que todos eles se engajam.

De 1969 a 2008, When We Rise é, segundo o criador Dustin Lance Black, o maior registro audiovisual já feito sobre os direitos LGBT.

Mesmo lidando com uma infinidade de personagens e passagens de tempo, a minissérie tem um ótimo tino para fazer diferente em muitas de suas representações. Uma freira, por exemplo, pode sim ser compreensiva quando descobre um caso de homossexualidade em sua escola. When We Rise também não demonstra qualquer hesitação ao narrar as contradições e preconceitos que inacreditavelmente existem dentro de grupos que lutam pelas minorias – e, nesse sentido, é embasbacante a passagem em que um coletivo feminista se recusa a ajudar ou ter qualquer simpatia por gays portadores do vírus HIV porque eles supostamente não dão a mínima para o câncer de mama. Por sinal, o segmento que explora a disseminação do HIV nos Estados Unidos é um dos mais contundentes do programa porque também explora outra abordagem importantíssima: a dos políticos conservadores que usaram a doença como argumento para potencializar suas propostas políticas calcadas no preconceito e na intolerância.

Ao abraçar tantas representações diferenciadas, é possível até esquecer os personagens clássicos que When We Rise também coloca em cena, como o gay que vive no armário por ser filho de um político homofóbico, o casal de lésbicas que precisa lidar com a vontade da filha adotada de conhecer seu verdadeiro progenitor e, claro, o jovem que abandona os pais para viver em outra cidade e finalmente ser quem ele é. Mas assim é o mundo: diverso e com pessoas de histórias que já conhecemos como a palma da nossa mão ou que sequer imaginamos. Um adendo, no entanto, precisa ser feito: é importante lembrar que When We Rise foi produzida para a TV aberta, o que exige trilha sonora explicativa, arcos dramáticos mais palatáveis, escolhas estéticas simplificadas e uma série de outras escolhas que tornem o programa atraente para o maior número possível de espectadores. Compreendendo e principalmente aceitando esse formato, também há muito o que se garimpar na história.

Quando o drama se sobrepõe ao documental, When We Rise vai além dos registros pioneiros e se torna um programa vivo também em criações.

O que acontece, porém, com esse programa que desenvolve personagens envolventes, um olhar mais íntimo do que genérico e representações importantes mas tão preteridas pela maioria das produções audiovisuais? Na reta final, lá pelo sexto episódio, Dustin Lance Black não resiste e se entrega por completo à narrativa documental. Com convencionalidades, conclui conflitos e contextualiza conquistas sociais e políticas apoiado em um formato para lá de didático, deixando de escanteio o dia a dia dos personagens que antes acompanhávamos de tão perto. É quando reproduz ou reencena incontáveis gravações da vida real e momentos de tribunal que When We Rise passa a se arrastar e se atrasar. Além disso, faz com que os encaminhamentos finais de determinados personagens pareçam apressados (um casamento específico no episódio derradeiro ganha emoção por acontecer em um determinado contexto histórico e não necessariamente pela execução de cena). Quem sai perdendo é o elenco: com ótimas personificações, intérpretes como Mary-Louise Parker, Rachel Griffiths e, principalmente, Guy Pearce mereciam encantar também por méritos do texto e não somente deles próprios. É uma pisada na bola quase imperdoável porque a minissérie dava a entender que tinha dominado muito bem a sua concepção. Dramaticamente falando e à beira da conclusão, When We Rise realmente não precisava ter entrado na vala comum de tantos outros registros tradicionais sobre a temática LGBT.

Três atores, três filmes… com Bruno Kott

Com quinze peças de teatro no currículo, o ator e diretor Bruno Kott fez a estreia de El Mate, seu primeiro longa-metragem atrás das câmeras, no 44º Festival de Cinema de Gramado, em 2016, quando saiu do evento com o Kikito de melhor ator coadjuvante na mala. E foi lá que esbarrei com o Bruno, que, na conversa que tivemos para o site do Festival, revelou ser um artista que gosta de potencializar as mínimas coisas em seus projetos. Esse conceito não deixa de estar presente nas três escolhas do Bruno para a coluna, onde ele destaca, por exemplo, o desempenho do ótimo Guillermo Francella em O Segredo dos Seus Olhos quando quase todos só enaltecem Ricardo Darín e até Soledad Villamil. Não deixem de conferir as outras escolhas e todos os comentários do Bruno!

Guillermo Francella (O Segredo dos Seus Olhos)
O cinema argentino é recheado de grandes filmes. Além de ótimos roteiros e grandes diretores, destacam-se atores extremamente afiados e versáteis, como é o caso de Guillermo Francella e sua ótima atuação em o Segredo dos Seus Olhos. Conhecido nos anos 90 por papéis cômicos, Francella vem mostrando seu grande potencial dramático. Em O Segredo dos Seus Olhos, ele interpreta Sandoval, amigo íntimo do protagonista Benjamín Esposito, interpretado por Ricardo Darín. A linha tênue entre o carisma e a fragilidade que Francella imprime ao personagem leva o espectador de um singelo sorriso a grandes emoções.

Daniel Aráoz (O Homem ao Lado)
Ainda nos filmes argentinos, destaco também o ator Daniel Aráoz pela excelente atuação em O Homem ao Lado, de Gastón Duprat e Mariano Cohn. Neste thriller despretensioso de humor e suspense, Daniel interpreta Victor, o rústico vizinho de muro de um esnobe arquiteto que mora em uma casa projetada por Le Corbousier. Victor precisa abrir uma janela para obter um pouco de luminosidade para a própria casa, porém a casa do arquiteto não pode sofrer nenhuma alteração no projeto. Daniel, que também é conhecido na Argentina por seu trabalho como escritor e produtor, mostra grande versatilidade ao brincar com a violência e a doçura desse rico personagem.

Sean Penn (O Pagamento Final)
Por último, um clássico de ação norte americano, O Pagamento Final, de Brian de Palma. O filme conta com um grande elenco, mas é Sean Pean na pele do advogado de Al Pacino que rouba a cena. Além da transformação física do ator, Sean construiu um personagem dúbio e com muitas camadas. Sean Pean, sem dúvida, alguma é um dos grandes norte-americanos.

A Bela e a Fera

I want so much more than they’ve got planned!

Direção: Bill Condon

Roteiro: Evan Spiliotopoulos e Stephen Chbosky

Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Audra McDonald, Stanley Tucci, Nathan Mack, Haydn Gwynne, Hattie Morahan, Ray Fearon 

Beauty and the Beast, EUA, 2017, Musical, 129 minutos

Sinopse: Moradora de uma pequena aldeia francesa, Bela (Emma Watson) tem o pai capturado pela Fera (Dan Stevens) e decide entregar sua vida ao estranho ser em troca da liberdade dele. No castelo, ela conhece objetos mágicos e descobre que a Fera é, na verdade, um príncipe que precisa de amor para voltar à forma humana. (Adoro Cinema)

Sem reajuste de inflação, a versão live action de A Bela e a Fera ostenta, até o momento, o status de maior musical já produzido mundialmente para o cinema. Foram nada menos do que 160 milhões de dólares investidos nessa adaptação da animação homônima de 1991 dirigida pela dupla Gary Trousdale e Kirk Wise! O retorno financeiro que obviamente veio pelas bilheterias já era esperado pela Disney, mas o que justamente faz a diferença para o sucesso dessa versão dirigida por Bill Condon é o salto ambicioso dado pelo estúdio, o que, para total surpresa de quem assiste ao filme, logo se descobre que tem pouco a ver com dinheiro. Na verdade, A Bela e a Fera se diferencia do insosso Cinderela, por exemplo, ao redimensionar a animação em uma série de aspectos, principalmente no de dar ainda mais ênfase à música como pilar fundamental para a jornada da protagonista.

É o tipo de caso que vale alertar: A Bela e a Fera, muito antes de ser apenas uma transposição de um universo animado para outro de carne e osso, é um grande musical, com direito a diálogos cantados e até resoluções que se desenham a partir da música. Isso mesmo, a adaptação de Bill Condon se sustenta a partir de uma cantoria quase incessante, o que revela primeiro a já comentada ambição do estúdio de fazer algo diferenciado e segundo a confiança em um diretor que foi chamado justamente por sua aproximação com o gênero (para quem não lembra, Condon dirigiu, em 2006, Dreamgirls – Em Busca de um Sonho). Missão duplamente cumprida: não só A Bela e a Fera consegue brilhar no universo de repetitivas adaptações de animações como também tem pleno domínio da narrativa musical. E o fato do mestre Alan Menken, compositor do longa de 1991, ter retomado seu posto só qualifica ainda mais o projeto.

Mais longo do que a animação (são 45 minutos a mais, com três novas canções, três outras estendidas, novos personagens e detalhes adicionais sobre a vida dos protagonistas), A Bela e a Fera chegou a ser idealizado pela Warner Bros. com Guillermo Del Toro na direção. A ideia, entretanto, acabou ficando mesmo com a Disney, que custou a comprar a ideia de que a adaptação deveria ser um musical, algo rapidamente incentivado por Condon em suas conversas com o estúdio. O longo processo de idealização e o alto investimento financeiro são percebidos na tela muito mais pelo alinhamento técnico de todo o filme do que pela extensa etapa de pós-produção (as gravações terminaram em agosto de 2015!): é digna de nota a grandiosidade estética da adaptação, que, com figurinos exuberantes de Jaqueline Durran e imponente design de produção de Sarah Greenwood, faz jus ao imaginário de toda uma geração apaixonada pela animação e também de quem é fã de musicais. 

Em termos de história há de se considerar leituras cada vez mais consideradas nos dias de hoje como A Bela e a Fera narrar um romance que nasce a partir do aprisionamento da mocinha por um príncipe que logo a encantará com um castelo imenso e bibliotecas impressionantes. Ainda é válido questionar o quanto a representação de LeFou (Josh Gad) é correta, uma vez que ele não passa de um personagem gay que, obcecado pelo amigo hétero, unidimensional e até mesmo machista, abre mão a todo momento de sua própria personalidade para causar algum tipo de impressão ao moço. De resto, A Bela e a Fera, mesmo com alguns excessos na história, é uma experiência encantadora aos olhos e aos ouvidos, entregando, com doses certeiras de ambição, a transposição para o live action que há tempos merecíamos conferir. 

E o que se leva, no final das contas, de “Big Little Lies”?

Big Little Lies é uma vitória da força feminina em resposta aos bastidores de Hollywood, mas um programa que, na prática, não marca tanto quanto merecia.

Foi intrigante acompanhar Big Little Lies, a nova minissérie da HBO estrelada por um elenco dos sonhos (Reese Witherspoon! Nicole Kidman! Laura Dern! Shailene Woodley!). Lamentavelmente, não porque a história instiga a partir de um misterioso assassinato para narrar as aparências, os anseios e as complexidades de mulheres riquíssimas que vivem na cidade de Monterey, nos Estados Unidos, mas por motivos exteriores ao programa: afinal, o que levou o público a se encantar tanto com um resultado tão morno? Produzida por Reese e Nicole, que compraram os direitos do livro homônimo de Liane Moriarty e desistiram de outros projetos para dar vida à adaptação (a primeira do novo filme de Alexander Payne, a segunda do blockbuster Mulher-Maravilha), Big Little Lies terminou no último domingo (03) como uma unanimidade entre público e crítica. Já o escriba que vos fala só tem pontos de interrogação para lançar ao diretor canadense Jean-Marc Vallée acerca desse trabalho irregular realizado com um elenco tão excepcional.

Para início de conversa, é preciso refletir sobre essa necessidade cada vez mais presente em séries e minisséries de construir histórias que partem de um assassinato revelado a partir de idas e vindas no tempo. Afinal, quantos programas realmente se beneficiaram com essa estrutura? Citanto exemplos mais recentes, é fácil lembrar de The Affair, que perdia metade de seu envolvimento com um assassinato que não combinava com sua pegada dramática; de Bloodline, que teria muito mais impacto se não revelasse tão cedo a identidade de sua vítima; ou de How to Get Away With Murder, que não se afundaria tanto caso se preocupasse mais em contar uma história do que chocar com revelações que, muitas vezes, transbordam o implausível. No caso de Big Little Lies, é problemático adotar a mesma estrutura em função do fator expectativa, já que o roteiro não se preocupa em satisfazer qualquer curiosidade do espectador: é somente no último episódio, mais especificamente nos últimos 15 minutos, que será revelada a identidade da vítima (e também de quem a matou!). Tanta demora, contudo, não é o problema. O mais grave é não existir uma construção em torno do crime, tornando o fatídico acontecimento uma mera curiosidade, como se Big Little Lies fosse uma atração de TV aberta que precisasse manter a curiosidade do espectador a cada episódio para garantir audiência.

Expectativas e teorias não são recompensadas em Big Little Lies. Além de respondidas tarde demais, as interrogações são frequentemente repetitivas.

Como se não bastasse a longa espera, Big Little Lies dificilmente surpreenderá alguém com suas revelações, até porque não é preciso ser nenhum perito para, lá no terceiro episódio, associar tematicamente dois personagens e deduzir que, apesar da implausibilidade das coincidências, é nessa conexão que está concentrada boa parte das respostas da trama e do misterioso crime que o roteiro insiste tanto em martelar ao longo de todo o arco dramático do programa. Enquanto as resoluções não chegam, é impossível não criar teorias e expectativas com conflitos que, como logo descobrimos, simplesmente não levam a nada, a exemplo da tão falada peça de teatro de Madeline (Reese Witherspoon) ou da vontade rapidamente esquecida de Celeste (Nicole Kidman) de voltar a advogar depois de abandonar a carreira para se dedicar ao lar e cuidar dos filhos. Há outro tempero da mistura que começa saboroso, mas gradativamente se revela insosso: a relação entre as mães e seus pequenos filhos. E se há um momento digno de nota nesse sentido e que deveria ter servido de referência para todas as outras situações da minissérie, esse é o que a professora da escola acusa, no meio da rua, o adorável Ziggy (Iain Armitage) de agredir Amabella (Ivy George). A cena é um verdadeiro choque porque evidencia, com muita crueza e um roteiro afiadíssimo, o quanto a maturidade entre adultos e crianças podem perfeitamente se inverter em situações de conflito.

Com razão, muito se comparou Big Little Lies à comédia Desperate Housewives, que não deixa de ser a irmã mais velha do novo programa da HBO: ambas apresentam histórias que, dadas as proporções, têm como base o forte laço de amizade entre mães ricas e suburbanas que se veem envolvidas em uma série de mistérios e eventuais assassinatos. Desperate Houewives, por se tratar de uma comédia, sabia tirar graça de muitas de suas superficialidades (em um drama, a dondoca Gabrielle Solis de Eva Longoria poderia ser apenas uma rica mimada sem qualquer problema palpável), algo que não acontece com Big Little Lies, onde, em sua maioria, o roteiro tenta dar alguma dimensão aos famosos white people’s problems. Entre 80 pares de sapatos no closet, festas riquíssimas de aniversário e caravanas para espetáculos da Disney, as protagonistas são uma representação da ideia de que os ricos também sofrem, quando, na realidade, deveriam dar vida a questões mais profundas e pertinentes a todos nós, como aquela em que Renata Klein (Laura Dern) explica ao marido que existe uma diferença gigantesca entre fazer sexo todo dia no casamento e se sentir de fato uma mulher desejada após tantos anos de matrimônio.

Mesmo contracenando com um personagem unidimensional, Nicole Kidman, com o passar dos episódios, toma para si as atenções com os conflitos mais incômodos de Big Little Lies.

Desestimula Big Little Lies ser tão rasa mesmo em suas discussões mais sérias (há quem ache um primor de revelação as cenas de Nicole Kidman na terapia, mas não há nada dito ali que se aproxime, por exemplo, dos embates complexos e frequentemente abusivos protagonizados por Josh Charles e Embeth Davidtz na já extinta In Treatment) porque o programa tem, claro, um elenco formidável, mas também personagens riquissímas. Kidman, que acumulou as melhores críticas pelo programa, tem o papel mais fácil de brilhar: como a esposa que ultrapassa a barreira da negação para perceber que é vítima de um relacionamento abusivo, ela tem um de seus papeis mais desafiadores em anos. Mesmo que não pareça, o trabalho de Reese Witherspoon também é complicadíssimo, pois sua Madeline costuma agir por impulsos, sem medir palavras e ações, além de ser o estereótipo da mulher rica que não pensa duas vezes antes de usar a influência de seu status para estabelecer certas relações de poder. Ainda na linha das missões difíceis, Laura Dern dribla um papel facilmente odiável e oferece ao espectador pelo menos certa compreensão por uma mãe que, ao tentar defender a filha em uma missão desconfortável, acaba se descontrolando perante todo um círculo social. Já a Jane de Shailene Woodley não está nem perto de ser rica, mas vem como um alento humano e um olhar exterior para esse subúrbio tão submerso em picuinhas e competições causadas por dinheiro, status e, óbvio, pelo incentivo ao ódio entre mulheres.

É muito simbólico ver as personagens juntas no desfecho do programa para literalmente lutar por uma causa muito maior do que a disputa cotidiana entre elas porque Big Little Lies, mesmo que decepcionante em diversos aspectos, é uma verdadeira resposta aos bastidores de Hollywood, onde estúdios e executivos continuam a fazer escolhas baseadas em idade e sexo. Na TV, a situação é bem diferente, já que nela existe espaço para atrizes como Reese Witherspoon e Nicole Kidman investirem em seus próprios projetos e até mesmo serem alvos de disputa (a HBO ganhou uma corrida acirradíssima com a Netflix pelos direitos de Big Little Lies). E o que dizer, então, quando a TV faz de um programa produzido e protagonizado por quatro intérpretes femininas um grande evento em sua grade de programação? Isso é coisa rara de se ver. Os ventos têm sido favoráveis para as mulheres nos formatos seriados (não deixem também de acompanhar Feud, que continua a ser exibida e tem sido altamente representativa nesse sentido de visibilidade), e isso ninguém pode jamais questionar. Posso desgostar bastante do resultado final de Big Little Lies. Agora, não reconhecer a importância de um projeto como esse ganhar vida… Isso sim é coisa de maluco. 

 

A Piscina

We’re all obscene. Everyone’s obscene. That’s the whole fucking point.

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Direção: Luca Guadagnino

Roteiro: David Kajganich, baseado em história de Alain Page

Elenco: Tilda Swinton, Matthias Schoenaerts, Ralph Fiennes, Dakota Johnson, Corrado Guzzanti, Aurore Clément, Lily McMenamy, Elena Bucci, Salvatore Gabriele, Francesco Lo Pinto, Youness Zrhaiba

A Bigger Splash, Itália/França, 2015, Drama, 125 minutos

Sinopse: A estrela do rock Marianne Lane (Tilda Swinton) passa férias em uma ilha italiana na companhia de seu parceiro (Matthias Schoenaerts) quando é surpreendida por Harry (Ralph Fiennes), um ex-caso que aporta no paraíso com a filha (Dakota Johnson) e desencadeia uma onda de nostalgia e perigosos jogos de sedução. (Adoro Cinema)

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Vivida por Tilda Swinton, a estrela do rock Marianne Lane é a perfeita síntese de toda a dramaticidade de A Piscina, longa que marca a quarta colaboração entre a atriz e o diretor italiano Luca Guadagnino. Recuperando-se de uma cirurgia nas cordas vocais, a cantora praticamente não consegue falar e precisa evitar ao máximo qualquer expressão de voz. Para tanto, Marianne opta por se refugiar com o namorado Paul (Matthias Schoenaerts, o par romântico de Marion Cotillard em Ferrugem e Osso) em uma belíssima ilha italiana, onde, por coincidência, acaba vivendo justamente o contrário, pois é lá que também está de férias o excêntrico Harry Hawkes (Ralph Fiennes), ex-marido da artista que também produziu e agenciou sua carreira musical durante anos. E se grande parte dos cineastas faria desse encontro um verdadeiro melodrama sobre um amor mal resolvido que renasce a partir do acaso, Guadagnino usa um pincel muito mais fino: quando Harry canta, dança, fala o tempo inteiro e faz o que bem entende em qualquer lugar como um verdadeiro furacão para qualquer círculo social, A Piscina se torna um estudo sobre tudo o que nasce a partir do silêncio em meio ao caos – e por isso é tão simbólico uma estrela da música se encontrar praticamente muda em um turbilhão interno tão intenso.

Inteligentemente, Harry está longe de ser um sujeito meramente insuportável. Sua necessidade de estar constantemente falando e chamando atenção revela, na verdade, uma autenticidade que, sim, extrapola a paciência e o limite de muita gente, mas que não deixa de ser… autenticidade. O próprio personagem questiona: por que ele precisa pedir desculpas por simplesmente ser quem é? Isso nos leva à ideia de que Harry tem um mérito que, parando para pensar, é raríssimo em boa parte das relações que estabelecemos. A própria Marianne compreende isso (e não à toa esse parece um dos aspectos que fizeram com que ela um dia caísse de amores por ele), o que, em contraste, não amortece a incômoda sensação de tê-lo de volta em sua vida que, no exato momento retratado por A Piscina, é muito bem estabelecida do ponto de vista profissional e amoroso. Toda a ação do filme de Luca Guadagnino parte dessa chegada turbulenta de Harry, que ainda viaja com uma filha adolescente (Dakota Johnson) que diz recém ter descoberto existir. Na convivência do quarteto (Marianne e seu namorado, Harry e sua filha), A Piscina apresenta dilemas sexuais, amorosos e até mesmo sociais partindo de cotidianidades. Os subtextos que surgem desde uma mera diversão no karaokê até um duvidoso passeio de campo reforçam o naturalismo do longa, que, como outros do diretor italiano, prefere lançar um olhar microscópico para situações corriqueiras ao invés de apostar em reviravoltas para criar estofo dramático.

Saindo dos registros bucólicos de Um Sonho de Amor para as paisagens veranis de A Piscina, Luca Guadagnino segue filmando histórias com grande requinte estético. Se Tilda Swinton novamente é um deslumbre com figurinos invejáveis (todo o guarda-roupa dela foi desenhado pela Gucci, incluindo o icônico óculos de sol usado do início ao fim) e as paisagens litorâneas da Itália são de encher os olhos, o diretor nunca deixa que a estética seja apenas um personagem extra do filme ou que  sirva apenas para tornar ainda mais atraente a inegável beleza de Matthias Schoenaerts, por exemplo. Tudo tem um propósito: a sofisticada roupagem de Tilda justifica seu status de estrela da música mundialmente reconhecida e as praias criam um clima de despojamento que é fundamental para a o desejo físico que se cria secretamente ou não entre os personagens. Afinal, assim são os filmes que reverberam como A Piscina: grandes também nos detalhes técnicos e não apenas no roteiro. Por falar em texto, aqui o roteirista David Kajganich revela um talento surpreendente. Responsável pelos péssimos Invasores (a ficção estrelada por Nicole Kidman e Daniel Craig em 2007) e Renascido das Trevas (mais uma bagunça dirigida por Joel Schumacher, dessa vez um terror com Henry Cavill), Kajganich é pontual ao administrar a ciranda de sentimentos entre os personagens de A Piscina, todos muitíssimos bem desenvolvidos em suas personalidades e na forma como elas se afetam.

Muito da verossimilhança de A Piscina se dá pelo alto nível de interpretação do quarteto de atores reunidos no longa, incluindo até mesmo Dakota Johnson, que, com um papel consideravelmente menor em tempo de projeção se comparado ao de seus colegas, consegue transmitir toda a esperteza de uma jovem que tenta compreender (ou quem sabe se aproveitar?) dos conflitos a sua volta. Mas se Tilda Swinton já dispensa comentários há anos (aqui está novamente fantástica com um papel que só poderia ser dela) e faz uma ótima dupla com Matthias Schoenaerts, que interpreta um homem atraente e comum na medida exata, quem realmente dá show é o sempre subvalorizado Ralph Fiennes. É claro que seu personagem, por ser o centro das atenções (e da ação), já ganharia destaque naturalmente, mas Fiennes sabe calibrá-lo com grande precisão, atentando-se a dois pontos fundamentais: primeiro o de Harry como um homem verborrágico que torna qualquer momento um grande acontecimento e segundo como sujeito confiante que, muito no fundo, aos poucos compreende que não pode controlar tudo nesse mundo (a cena em que Marianne pergunta por que Harry não consegue aceitar a ideia de ela ser feliz sem sua presença é uma das melhores do filme). Em uma das entrevistas que concedeu para divulgar A Piscina, Guadagnino diz que trabalhar com esses atores foi a melhor experiência que já teve com um elenco em toda a sua carreira. Se como espectador é fácil acreditar na grande verdade dessa afirmação, imagine estando lá…

Rapidamente: “A Estranha Passageira”, “Amores Urbanos”, “Minha Vida de Abobrinha” e “Toni Erdmann”

Distante das mulheres geniosas e de temperamento forte que tanto marcaram sua carreira, Bette Davis tem, em A Estranha Passageira, um de seus desempenhos mais camaleônicos.

A ESTRANHA PASSAGEIRA (Now, Voyager, 1942, de Irving Rapper): Com a estreia da minissérie Feud, que conta os bastidores das filmagens de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, longa de 1962 estrelado por Bette Davis e Joan Crawford, volta a vontade de rever ou vasculhar o que ainda não vimos da filmografia das duas atrizes. Foi justamente o programa de Ryan Murphy que me levou a continuar a missão de ver, pelo menos, todas as indicações de Bette ao Oscar (foram dez, ao total, todas como protagonista). Nessa jornada, cheguei recentemente ao longa A Estranha Passageira, que traz uma das interpretações mais camaleônicas dessa atriz marcada por quase sempre interpretar mulheres de gênio difícil, temperamento forte ou simplesmente de má índole. Definitivamente não é o caso do filme de Irving Rapper, onde Bette dá vida a Charlotte Vale, jovem que, rejeitada e massacrada pela mãe, nunca viveu sua própria vida, até o dia em que resolve se libertar das amarras familiares e se tornar a mulher que sempre quis ser. A transição de filha submissa que se porta quase como alguém da terceira idade para uma figura feminina elegante, autêntica e dona de seu próprio destino ganha tônica surpreendente nas mãos da atriz, compensando a duração excessiva do filme e arcos dramáticos perfeitamente melodramáticos ou conduzidos de forma óbvia até para a época (é imperdoável que a mãe da protagonista seja reduzida a uma pessoa apenas maquiavélica e desagradável). Bette, sem dúvida, garante o encantamento que falta ao filme como um todo. Aos brasileiros, uma curiosidade extra: é durante uma viagem ao Rio de Janeiro que Charlotte finalmente se descobre uma nova pessoa.  

AMORES URBANOS (idem, 2016, de Vera Egito): Não vou negar que, como um jovem de 25 anos, saí da sessão de Amores Urbanos com um gosto amargo na boca. E isso se deve exclusivamente ao retrato fidelíssimo que a diretora Vera Egito faz da juventude contemporânea. Em seu filme de estreia como diretora, ela se diferencia da infinidade de filmes sobre adolescentes ao pegar uma faixa etária muito mais madura (os protagonistas já estão na casa dos 30 anos) e ao utilizar, como o próprio título indica, a questão urbana como elemento fundamental para todas as questões emocionais do roteiro, escrito pela própria Vera. Habitantes de uma São Paulo efervescente em histórias e oportunidades, mas também intimidante e excludente por conta de seu tamanho gigantesco, Júlia (Maria Laura Nogueira), Diego (Thiago Pethit) e Micaela (Renata Gaspar) pouco sabem o que estão fazendo da vida, seja na forma um tanto confusa como as relações se configuram nos dias de hoje, na compreensão deles próprios sobre suas personalidades e nos impulsos ou na indefinição de uma vida profissional cobrada cada vez mais cedo pela sociedade. É no turbilhão de tentar conciliar tudo isso e de encontrar um ponto de equilíbrio entre o que queremos fazer e que os outros esperam de nós que Amores Urbanos se revela um filme dramaticamente antenado e relevante. Pode ser que, na forma, a história não se esquive de estereótipos para chegar a determinadas discussões, mas o filme tem um tino tão grande sobre a geração em questão que fica fácil relevar seus caminhos fáceis.  

MINHA VIDA DE ABOBRINHA (Ma Vie de Courgette, 2016, de Claude Barras): Como não lamentar o fato do Oscar de melhor animação estar sempre reservado para produções Disney/Pixar? A mais recente vítima dessa sistemática preguiçosa dos votantes da Academia é Minha Vida de Abobrinha, a animação mais sincera e delicada que você verá em muito tempo. Partindo de uma premissa corajosa para o gênero (os dias de um garoto que, após perder a mãe em um acidente causado por ele próprio, passa a viver em um orfanato), o filme de Claude Barras já prometia uma imensidão de sutilezas somente por ter como roteirista a francesa Céline Sciamma, que dirigiu, com muita dignidade e humanidade, o ótimo Tomboy. E ela não desaponta em Minha Vida de Abobrinha: tratando de forma muito discreta, mas nem por isso rasteira, a identidade das crianças que foram parar no orfanato (algumas por terem pais abusivos, outras simplesmente por terem sido rejeitados ao nascimento), Sciamma extrai beleza da inusitada circunstância desse garoto que aprende o significado do amor justamente em um lugar habitado por crianças que não sabem o que é tal sentimento. De forma objetiva, Minha Vida de Abobrinha, que não chega a ter 70 minutos de duração, constrói dramas sem qualquer previsibilidade, além de fazer graça não com situações criadas exclusivamente para balancear o drama ou fisgar os pequenos, mas com a própria personalidade das crianças, todos únicas em suas características. É uma experiência emocionante e altamente expressiva, dos personagens feitos com massinha à maneira como lida com assuntos dificílimos, como o abandono infantil e a depressão.

TONI ERDMANN (idem, 2016, de Maren Ade): Poucas vezes fiquei tão ansioso com a ideia de Hollywood refilmar um filme de língua não-inglesa. Isso porque a versão estrelada por e a pedido de Jack Nicholson para Toni Erdmann pode reparar aquele que considero o maior problema do filme de Maren Ade: a quantidade expressiva de excessos. Demasiadamente longo tanto na metragem em si quanto na forma como o filme prolonga muitas de suas sequências, Toni Erdmann, em contrapartida, acerta na pegada curiosa que adota para tratar sobre o difícil relacionamento entre pai e filha. Obviamente, por abraçar tanto a comédia, o filme dividiu opiniões: há quem ache o resultado genial, enquanto outros chegam a dizer que é puro constrangimento. À parte identificações com o material cômico, é preciso compreender que é somente através dos absurdos dessa vertente que um sujeito como Winfried (Peter Simonischek) poderia se reaproximar de Ines (Sandra Hüller), uma filha bastante linha dura e avessa a diálogos. A química entre os dois atores é fantástica e muito de Toni Erdmann se sustenta em função da dupla, o que só aumenta a sensação de que, caso tivesse, no mínimo, meia hora a menos, essa comédia alemã poderia brilhar ainda mais em suas qualidades e resultar menos exaustiva. Se o remake já acumularia expectativas por finalmente trazer Jack Nicholson de volta e por dar um grande papel que parece cair como uma luva para Kristen Wiig, particularmente fico mais ansioso pela possibilidade da releitura aparar muitas arestas do filme original.

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