Contagem regressiva e um pouco de “Cold One”

Já estamos em contagem regressiva para o 43º Festival de Cinema de Gramado, onde, pelo quarto ano consecutivo, atuamos na equipe de assessoria de imprensa com a Pauta – Conexão e Conteúdo. Por isso, até lá, para acertar os últimos detalhes da cobertura do evento, o blog ficará inativo, voltando a partir do dia 07 de agosto com as últimas novidades deste que é o maior festival de cinema ininterrupto do Brasil. Enquanto isso, durante esse intervalo, deixamos como trilha sonora essa cena de Ricki and the Flash, que traz Meryl Streep cantando “Cold One”. Já amamos: sim ou com certeza? Até mais, queridos leitores! 

43º Festival de Cinema de Gramado #1: a lei do talento

Marília Pêra é a 25ª homenageada do troféu Oscarito, a mais tradicional distinção entregue pelo Festival de Cinema de Gramado. Foto: Priscila Prade

“Eu adoro Gramado!”. Esse foi o primeiro pensamento que Marília Pêra teve quando recebeu o convite da organização do Festival de Cinema de Gramado para ser a 25ª homenageada do troféu Oscarito. A distinção é destinada a grandes atores do cinema brasileiro e, nas suas bodas de prata, traz novamente à cidade gaúcha a consagrada atriz, que já levou para casa dois Kikitos: um em 1983, por Bar Esperança – O Último Que Fecha, e outro em 1987, por Anjos da Noite. “Volto ao Festival com muita alegria, e a minha expectativa é que tudo seja muito lindo”, comenta Marília.

A relação com as artes vem do berço – seus pais Dinorah Marzullo Pêra e Manoel Pêra também eram atores -, e o convívio com as artes desde a infância foi fundamental para o caminho que a pequena Marília viria a percorrer ao longo de sua vida. Já aos quatro anos, ela pisou pela primeira vez nos palcos com a tragédia grega Medeia e, a partir daí, só se aperfeiçoou: de espetáculos marcantes como a clássica montagem de My Fair Lady, com Bibi Ferreira e Paulo Autran, ao protagonismo de peças sobre figuras emblemáticas como Dalva de Oliveira e Maria Callas, o indiscutível talento de Marília Pêra ultrapassou as fronteiras brasileiras, chegando a diversos países do mundo. Na França, por exemplo, foi ovacionada pela crítica parisiense por sua personificação da lendária estilista Coco Chanel no espetáculo Mademoiselle Chanel.

Dos palcos foi para a TV, onde, em 1965, teve a sua primeira aparição em Rosinha do Sobrado, na rede Globo. Rosinha também é curiosamente o nome de seu primeiro papel no cinema, que veio logo dois anos depois da estreia na telinha. Em O Homem Que Comprou o Mundo, Marília Pêra começou sua trajetória cinematográfica com o pé direito: dirigida pelo saudoso mestre Eduardo Coutinho, dividiu a cena desta sátira do regime militar no Brasil com Flávio Migliaccio, Milton Gonçalves, Hugo Carvana, Cláudio Marzo e Raul Cortez. Desde então, foram nada menos do que 23 filmes sob a tutela de nomes como Cacá Diegues, Domingos Oliveira, Hector Babenco e Walter Salles.

Na memória da atriz estão os dois filmes que lhe consagraram em Gramado. Com Bar Esperança, as lembranças são para lá de carinhosas: “Esse é um filme que o querido Hugo Carvana dirigiu com muita soltura e improviso. Nós podíamos brincar como quiséssemos e ele ajustava depois. Tudo era uma brincadeira em Bar Esperança, mas uma brincadeira organizada, claro”, brinca Marília. Já em relação a Anjos da Noite a palavra de ordem durante as gravações foi dedicação. “Tive um papel relativamente pequeno, mas a experiência foi dificílima, já que filmávamos apenas a noite e era sempre frio. A produção também envolvia maquiagem, coreografias, vestidos costurados diretamente no corpo… Foi um desafio!”, relembra.

É impossível, no entanto, falar da carreira da Marília Pêra no cinema sem mencionar Pixote – A Lei do Mais Fraco. Dirigido por Hector Babenco em 1981, o longa garantiu o prêmio de melhor atriz na Boston Society of Film Critics Awards. Contando a triste realidade dos meninos de rua, Pixote viajou o mundo e conquistou ainda uma indicação ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. “Pixote foi fundamental para a minha carreira de atriz, pois me deu um aprendizado muito grande sobre cinema. Foi um filme que confirmou o que eu já sabia sobre essa realidade específica do Brasil. Quando vi pela primeira vez, me enchi de medo e orgulho. Medo pela crueza dos detalhes com que mostramos a realidade do abandono e orgulho de estar em um filme dirigido com tanta precisão”, comenta.

O reconhecimento nacional e internacional de público e crítica orgulha Marília Pêra, mas, quando pensa sobre tudo o que conquistou até aqui como atriz, diretora e bailarina, o que mais toca seu coração é a lembrança familiar: “Venho de uma família de atores que viveram uma época onde não existia divulgação ou incentivo ao teatro no Brasil. Meus pais, por exemplo, foram profissionais que se dedicaram a vida inteira a esta arte e morreram sem reconhecimento e com dificuldades financeiras. Eu já vivo uma outra realidade, e me deixa muito contente esse privilégio de viver uma época completamente diferente e de ter conquistado tantas coisas como atriz”.

A ampla trajetória de Marília Pêra no cinema será rememorada pelo Festival de Cinema de Gramado com o troféu Oscarito. “Eu adoro Gramado! E isso vem antes do próprio Festival existir. Quando ia a Porto Alegre, sempre viajava a Gramado de carro, por prazer mesmo, só por estar lá. Fiquei muito contente com a homenagem, já que, além de conhecer bem a importância do Festival de Cinema de Gramado, tenho uma grande família aí no sul. Quando vou a Pelotas, sempre aparece um primo, um tio ou um novo Pêra. Estar entre os gaúchos é uma grande alegria. É o meu ninho!”, conta. Marília Pêra recebe o troféu Oscarito na noite do dia 11 de agosto no Palácio dos Festivais.

* matéria originalmente produzida para a assesoria de imprensa do 43ª Festival de Cinema de Gramado

Os indicados ao Emmy 2015

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A lista do Emmy 2015 reflete a imensa diversidade temática e narrativa que a TV e as plataformas on demand vêm oferecendo. Das discussões envolvendo identidade e gênero em Transparent ao retorno da recentemente esquecida Mad Men, os indicados deste ano, com algumas ressalvas, reforçam a ideia de que nunca vivemos tempos tão ricos e democráticos no mundo dos seriados. É bem verdade que em alguns pontos não dá para levar o Emmy a sério – oito indicadas em atriz coadjuvante de comédia?! -, mas é sempre irresistível acompanhar premiações, não é mesmo? Abaixo, nossos breves comentários sobre os indicados, cuja lista completa está disponível no site oficial do Emmy.

– Mad Men precisou se despedir da TV para voltar a concorrer ao Emmy (ano passado o programa não teve uma indicação sequer), com direito a lembranças para Jon Hamm, Christina Hendricks e Elisabeth Moss. No entanto, a série deve seguir os passos de Six Feet Under: ter seu unanime elenco se despedindo da premiação sem ter conquistado prêmios individuais ao longo dos anos;

– Homeland, que anos atrás chegou a ganhar como melhor série dramática, volta ao páreo na categoria. Dizem que o programa está em uma boa fase, mas quase ninguém fala mais nele. Inclusão no mínimo inesperada;

– Better Call Saul também não foi lá muito popular ou sequer discutida com entusiasmo pela crítica, mas o prestígio de Vince Gilligan conseguiu surpreendentemente levar a série para a categoria principal;

– Entre as comédias, Modern Family parece finalmente ter seus dias contados, já que não conseguiu indicações a roteiro e direção e ainda teve lembranças apenas para Ty Burell e Julie Bowen na lista de coadjuvantes. Enquanto isso, The Big Bang Theory passou em branco e nem Jim Parsons chegou entre os finalistas. Já estava na hora, né?;

– Apesar da novidade que é Unbreakable Kimmy Schmidt, a série é muito específica e deve ter sorte apenas entre os coadjuvantes, em especial com o impagável Tituss Burgess. A disputa está merecidamente entre Veep, que chega ao quarto ano com o mesmo e justificado prestígio de sempre, e a inspiradora e delicada Transparent, já vencedora do Globo de Ouro;

– Kyle Chandler como protagonista em drama e Ben Mendehlson como coadjuvante em drama foram as duas únicas lembranças de Bloodline, que, mesmo com criadores celebrados e elenco de qualidade, não vingou entre os votantes. O hit Empire também performou abaixo do esperado, conseguindo uma única e merecida indicação de melhor atriz para Taraji P. Henson;

– Surpreendente a inclusão de Lily Tomlin como melhor atriz de comédia por Grance and Frankie enquanto sua colega de cena Jane Fonda amarga o esquecimento. Uma pergunta para quem assiste a série: esse não é um trabalho de dupla? E, por ter Oscar em casa, era esperado que Fonda fosse lembrada caso optassem apenas por uma;

– Vencedora do Emmy de melhor atriz dramática ano passado, Julianna Margulies não foi lembrada pelo sexto ano da sempre ótima The Good Wife. Na realidade, a categoria deixou de indicar vários nomes há anos fixados na lista ou então dados como certos: Ruth Wilson, vencedora do Globo de Ouro por The Affair, Michelle Dockery por Downton Abbey e Kerry Washington por Scandal. Quem sai ganhando é Tatiana Maslany, por The Orphan Black, considerada uma das boas surpresas;

– Oito indicadas em atriz coadjuvante de comédia? A indecisão foi tanta assim? De qualquer forma, não dá para reclamar quando tem Niecy Nash lembrada por Getting On (a melhor série de comédia que ninguém vê) e Jane Krakowski por Unbreakable Kimmy Schmidt. A disputa é acirrada, já que Allison Janey (Mom) é queridinha dos votantes e Anna Chlumsky (Veep) parece ter o episódio perfeito para uma vitória;

– No mais, fica registrada aqui a nossa torcida para que Christine Baranski finalmente ganhe como melhor atriz coadjuvante em drama. Uma curiosidade: The Good Wife sempre teve uma mulher premiada por temporada no Emmy. Em ordem cronológica: Archie Panjabi (injustamente esquecida este ano), Margulies, Martha Plimpton, Carrie Preston e Margulies de novo. Que a a estatística siga vencedora em 2015!

Na TV… a lenta linhagem familiar de “Bloodline”

O filho problemático volta ao lar: “Bloodline”, nova série produzida Netflix, só é verdadeiramente envolvente quando se foca nos meandros de antigas feridas familiares.

Mesmo com uma boa equipe, Bloodline foi um dos lançamentos de menor repercussão da prolífera Netflix. A criação do seriado ficou por conta do trio Glenn Kessler, Todd A. Kessler e Daniel Zelman, os mesmos responsáveis por Damages, celebrado drama jurídico que trouxe uma nova era de ouro para a carreira de Glenn Close em 2007. No elenco ainda estão nomes como Kyle Chandler, protagonista da queridinha Friday Night Lights, e Sissy Spacek, vencedora do Oscar que dispensa apresentações. Mas a estreia do programa foi tímida e seu esquecimento em tempos tão movimentados no mundo das séries é compreensível: ao longo de 13 episódios, não há dúvidas de que este é um drama convencional em todos os sentidos – e que ainda comete o erro de prolongar excessivamente os seus lugares comuns.

Os irmãos Kessler em parceria com Daniel Zelman idealizaram Bloodline com a mesma lógica estrutural de Damages: um futuro bombástico é pincelado por flashforwards, e cabe ao espectador tentar adivinhar quais fatos do presente acarretarão eventos tão surpreendentes. Se o seriado estrelado por Glenn Close foi de certa forma pioneiro nesse tipo de narrativa na TV, hoje a escolha já se mostra ultrapassada. Isso porque são incontáveis os programas que utilizam tal estrutura para prender o espectador (How to Get Away With Murder True Detective são alguns dos exemplares mais recentes). O que se revela problemático, entretanto, é que, em tramas como as dos seriados citados, o vai e vem da história é perfeitamente compreensível dada a natureza de suspense dos conflitos. Já em Bloodline a escolha é ineficiente, pois este é um drama que não é necessariamente misterioso em sua essência. 

Neste caso, revelar cedo demais um importante fato do futuro estraga o impacto que ele teria com uma narrativa linear. Prometer demais nunca é bom, pois pode ser que o desenvolvimento até lá não seja necessariamente engenhoso. É o que acontece com Bloodline que, ao invés de construir uma trama complexa como Damages ou True Detective, apenas se prolonga em fatos e situações comuns desnecessariamente. Além disso, reúne diversos estereótipos de um relato familiar, como o filho rejeitado que foi embora e agora está de volta, a mãe que nunca teve personalidade frente ao marido e o primogênito responsável que é o porto seguro do clã. Só quem tem paciência sobrevive aos longos episódios (seja pela duração de uma hora ou pela própria condução), e é difícil chegar ao fim de uma série que não surpreende dramaticamente. São muitos rodeios para, no final das contas, descobrirmos o que já facilmente deduzíamos.

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Enquanto Ben Mendehlson toma a série inteira para si, Kyle Chandler e Linda Cardellini só se destacam de fato nos momentos derradeiros da primeira temporada.

No ritmo arrastado de Bloodline, pouco se desenvolve de precioso sobre a personalidade dos personagens – todos bem definidos já em poucos episódios. Por outro lado, um deles se mantem intacto ao longo de toda a temporada: o misterioso Danny, vivido com grande talento por Ben Mendehlson. A série sabe conduzir toda a dubiedade do rejeitado caçula, um sujeito que frequentemente desorienta nosso senso de confiança: ele vai de alguém digno de segunda chance a homem detestável em questão de minutos. Mendehlson é tudo o que Damian Lewis, por exemplo, não era em Homeland. Ou seja, um ator sutil e eficiente ao seduzir o espectador para minutos depois também afastá-lo. Assim, não é à toa que os melhores episódios da temporada são as partes 11 e 12, onde todos os acontecimentos e questionamentos são movidos em função quase exclusivamente dele. Todos são críveis no elenco de Bloodline, mas Mendehlson é indiscutivelmente o mais beneficiado.

Tudo o que envolve o ator representa o que existe de melhor no seriado, especialmente as discussões envolvendo mágoas familiares guardadas por anos. Essa abordagem não é novidade, mas sempre que são despertados antigos problemas entre o clã dos Rayburn, Bloodline dá chances maiores aos seus atores e ganha novo fôlego. Quando o Danny de Mendehlson, então, é o catalisador de todos os conflitos, a série chega a quase compensar toda a inércia de suas partes arrastadas. Neste primeiro ano um ciclo é completado e pouco existe em vista para uma já confirmada segunda temporada. Sempre considero um problema quando um programa encerra basicamente toda a sua premissa logo de cara, deixando apenas cliffhangers até mesmo forçados para que a história continue rendendo posteriormente (aqui temos a velha jogada de um personagem cuja existência nos era desconhecida aparece de surpresa na última cena) e, dado o fato de que neste primeiro ano de Bloodline, a história em si já não era rica para tantos prolongamentos, o futuro não deslumbra momentos mais especiais para o programa. Tomara que provem o contrário.

Rapidamente

Gaspard Ulliel e Louis Garrel estrelam a segunda cinebiografia sobre Yves Saint-Laurent que chegou aos cinemas em 2014. Apesar da seleção para Cannes, o filme está longe de captar intimamente a lenda que era o estilista francês.

CAKE: UMA RAZÃO PARA VIVER (Cake, 2014, de Daniel Barnz): Vítima da antiga maldição dos atores de TV que não conseguem fazer carreira no cinema, Jennifer Aniston volta a provar que, dos seus colegas de Friends, ela é, sem dúvida, a que mais chegou longe. E isso não tem nada a ver com a infinidade de comédias (bobocas, diga-se de passagem) que Aniston protagonizou, mas com filmes sensíveis e que representam desafios para sua vida de atriz, como Por Um Sentido na VidaA Razão do Meu Afeto. Só que fazia tempo que Aniston não participava de algo relevante, e Cake: Uma Razão Para Viver veio para mudar este cenário. Ainda que não seja uma injustiçada do Oscar 2015 (muitos reclamam que Marion Cotillard teria roubado a sua vaga com Dois Dias, Uma Noite), a atriz está particularmente bem aqui, conseguindo administrar uma personagem difícil e até mesmo desagradável. Já o filme não chega a engrenar e, com exceção da atuação de Aniston, da boa presença de Adriana Barazza e de uma ótima regravação de Halo, da Beyoncé, Cake pouco surpreende como um drama independente norte-americano.

A ESTRADA 47 (idem, 2014, de Vicente Ferraz): Gerou grande polêmica a vitória de A Estrada 47 no Festival de Cinema de Gramado ano passado. E não é só porque A Despedida, de Marcelo Galvão, era claramente o melhor trabalho em competição, mas também porque o filme de Vicente Ferraz está longe de ter qualquer brilho. Fora a história diferenciada (você sabia que o Brasil também lutou na Segunda Guerra Mundial?) não há absolutamente nada de novo – ou até mesmo envolvente – na execução em si. O comprometimento da equipe com a trama está explícito na tela, bem como a qualidade técnica: A Estrada 47 foi filmado no inverno italiano e os atores enfrentaram estas condições bravamente. O ritmo, entretanto, não ajuda, e o resultado é arrastado e nada instigante. Faltam conflitos pessoais consistentes (eles estão meramente abreviados em uma narração do protagonista Daniel de Oliveira) e envolvimento com a guerra. Ainda tento compreender o porquê desta história ter conquistado Gramado e, posteriormente, o Cine Ceará, onde também foi consagrado como melhor filme.

SAINT-LAURENT (idem, 2014, de Bertrand Bonello): Foram produzidas duas cinebiografias sobre o lendário estilista Yves Saint-Laurent em 2014. A primeira, realizada de forma mais tímida e com equipe pouco conhecida, já era decepcionante, o que nos levava a acreditar que Saint-Laurent, selecionada para a competição do Festival de Cannes para aquele ano, pudesse suprir as lacunas deixadas sobre a vida do protagonista no cinema. A má notícia é que nada adiantou trazer dois jovens galãs contemporâneos da filmografia francesa para fazer este trabalho alçar voo. Infinitamente mais cansativo e decepcionante que o longa anterior sobre Laurent, o registro de Bertrand Bonello é confuso no desenho dos personagens e principalmente nos saltos temporais que faz ao longo de intermináveis 150 minutos. Continuamos sem saber quem era de fato Yves Saint-Laurent intimamente, e suas aventuras sexuais regadas a drogas pouco ajudam o espectador a se envolver com o confuso e problemático ser humano que ele era. Construindo um personagem muito mais afetado do que Pierre Niney na outra biografia, Ulliel é mais sedutor do que bom ator como Laurent – o que parece ser sua única arma para se destacar em um filme problemático, vazio e sem força. Somente na cena em que o protagonista mostra a uma mulher como ela pode se tornar alguém mais radiante com as roupas certas é que Saint-Laurent capta o estilista em sua profissão espírito.

O som das trilhas

birdmanscoreBIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA), por Antonio Sánchez: Desclassificada para o Oscar 2015 por, segundo a Academia,  usar composições de outros músicos como Tchaikovsky e Rachmaninov, a trilha de Birdman é uma das mais interessantes do ano até aqui. Composto e executado pelo bateirista de jazz mexicano Antonio Sánchez, o álbum utiliza basicamente apenas bateria para construir a atmosfera do filme de Alejandro González Iñárritu. O resultado é imersivo e a trilha, frequentemente surpreendente, torna a já completa experiência de se assistir ao filme ainda mais instigante. Não deixe de ouvirDirty Walk, Internal WarThe Anxious Battle for Sanity

breakingtwoscoreBREAKING BAD (Volume 2), por Dave Porter: A TV faz um magnífico trabalho em trilhas sonoras atualmente, mas nem todas as emissoras parecem dispostas a valorizar este setor devidamente. São poucos os programas que têm suas trilhas lançadas, e Breaking Bad felizmente é um deles. Nada mais justo, já que, neste segundo e último volume, Dave Porter se supera nas criações que embalam o universo do emblemático protagonista Walter White. Assim como a própria série, não espere escolhas fáceis aqui, já que as composições dedicadas aos momentos de suspense se tornam frenéticas ou nervosas não pelo mero básico bem feito, mas pela novidade de combinações e uso de diferentes instrumentos. Não deixe de ouvirFolliclesDead FreightThe Final Hat.

shadesgscoreCINQUENTA TONS DE CINZA, por Vários Artistas: Ainda vai levar um tempo para que este filme errado e tedioso seja superado, mas igualmente difícil vai ser deixar de dar play na ótima coletânea que embala a “história de amor” entre Anastasia (Dakota Johnson) e James Gray (Jamie Dorman). Começando com Annie Lennox dando voz à charmosa I Put a Spell On You, a trilha ainda traz relevantes nomes da música contemporânea para novas canções e releituras, como Beyoncé, que surpreende com uma Crazy in Love inteiramente nova e tão marcante quanto a original. Ellie Goulding e Sia também estão listadas aqui ao lado de Frank Sinatra e Rolling Stones. Um álbum para ninguém colocar defeito e que merecia estar a serviço de um filme infinitamente melhor. Não deixe de ouvirI Put a Spell On YouCrazy in LoveLove Me Like You Do

homesmanscoreDÍVIDA DE HONRA, por Marco Beltrami: É um dos trabalhos mais inspirados do ano até agora para um filme que inclusive pode ser considerado incompreendido. Marco Beltrami, indicado duas vezes ao Oscar (por Guerra ao Terror ao lado do amigo Buck Sanders e Os Indomáveis) nunca foi grande compositor, mas neste álbum apresenta composições tão originais e condizentes com o próprio filme que já pode ser considerado um profissional de nova grandeza. Com algumas gravações realizadas ao ar livre nas paisagens onde o filme se desenvolve para capturar o próprio espírito deste western diferenciado, a trilha de Dívida de Honra entrega desde um tema marcante para o gênero a composições super melancólicas. Todos deveriam descobrir. Não deixe de ouvirMain TitleEntering TownOnto the Ferry.

empirescoreEMPIRE, por Vários Artistas: A música de Empire tem influência direta no sucesso estrondoso de audiência da série. Não se engane, contudo, ao pensar que a trilha estreou em primeiro lugar na Billboard só por preencher a lacuna do hip hop existente na TV estadunidense: o disco pensado e produzido por Timbaland é mesmo cheio de canções interessantes. Fácil ficar com Keep Your Money na cabeça ou então curtir um som mais calmo mas igualmente envolvente como Conqueror. É o hip hop em sua essência (as letras são, por vezes, nada inteligentes, por exemplo), mas você pode muito bem se surpreender e até mesmo se empolgar com o que Empire criou musicalmente. Não deixe de ouvirKeep Your MoneyConquerorDrip Drop.

maxfuryscoreMAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA, por Junkie XL: Não é o tipo de trilha para necessariamente ser apreciada fora do filme. Sim, Junkie XL fez um trabalho espetacular para este filme que é um dos maiores espetáculos cinematográficos do ano, mas o álbum funciona muito mais como uma ferramenta narrativa para impulsionar e imergir o espectador em toda a ação deliciosamente frenética do longa dirigido por George Miller. Por acompanhar basicamente todos os momentos de Mad Max, a trilha ultrapassa duas horas de duração e eventualmente empolga tanto quanto o filme, mas se engrandece somente com ele, onde realmente é fundamental para criar a atmosfera da insana fuga protagonizada por Max (Tom Hardy) e Furiosa (Charlize Theron). Não deixe de ouvirBrothers in ArmsSpikey CarsLet Them Up.

Cássia

Eu nunca conheci ninguém como a Cássia. Ela era diferente. Ela era melhor.

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Direção: Paulo Henrique Fontenelle

Roteiro: Paulo Henrique Fontenelle

Brasil, 2015, Documentário, 115 minutos

Sinopse: O documentário Cássia retrata o ícone do cenário musical brasileiro nos anos 90. Em sua breve trajetória, Cássia Eller deixou uma marca inegável na cultura do país. Além da projeção musical, sua história pessoal expos tabus e ganhou repercussão nacional após sua morte, quando a guarda de seu filho “Chicão” ficou com sua companheira Maria Eugênia. O filme descreve através dos depoimentos de amigos como Zélia Duncan, Nando Reis e de Maria Eugênia toda a sua trajetória desde o inicio da carreira; além de narrar a personalidade paradoxal de Cássia, contrastando sua timidez e delicadeza com a irreverência e personalidade nos palcos.

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Cássia Eller era um verdadeiro furacão nos palcos. Das performances explosivas à voz inconfundível, mostrou os seios diversas vezes, desafiou o público careta e abriu para todos a sua orientação sexual sem qualquer hesitação. Não era exclusivamente tanta “força”, entretanto, que a tornava única. O mais fascinante sobre Cássia era a sua capacidade de conseguir ser tudo isso e o oposto. Quando engravidou, abandonou as roupas rebuscadas para usar delicados vestidos. Se em determinada época não ligava para a opinião de quem dizia que ela gritava ao invés de cantar, logo mudou a diretriz da carreira quando ouviu a mesma avaliação do próprio filho, que revelou preferir Marisa Monte na época. Tinha opiniões fortes, mas era tímida e insegura frente à imprensa. Cantava Nirvana no Rock in Rio com uma fúria que impressionou David Grohl ao mesmo tempo que interpretava repertórios de Renato Russo e Édith Piaf. Cássia Eller era furacão e calmaria. Por isso, sintetizar em um único filme todo o seu espírito de conciliação era uma tarefa das mais difíceis. Felizmente, o documentário Cássia, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, cumpre a missão com o mesmo intenso talento da cantora que retrata.

Uma das discussões mais clássicas é se a forma importa mais que o conteúdo. Cássia está no lado do conteúdo, já que Fontenelle optou por realizar um documentário em uma forma clássica: depoimentos com pessoas sentadas frente a uma câmera, fotos, recortes de jornais e eventualmente trechos de consagradas apresentações musicais. E sabem o que é o mais interessante? O filme está longe de parecer um documentário quadrado tamanha a singularidade que Cássia Eller alcançou como pessoa e artista. Uma produção como essa nunca soaria tradicional tendo uma personagem tão complexa, rica e subversiva. E é exatamente isso o que acontece, mesmo que Cássia  tenha uma linearidade super óbvia que começa  nos dias de anonimato da cantora e segue até a sua morte prematura, estendendo-se ainda à batalha judicial que concedeu a guarda de seu filho Chicão à companheira Maria Eugênia – e esse é um dos pontos altos do documentário não só pela força emocional envolvendo a recém falecida cantora mas pela vitória que significou para a classe LGBT.

O passo a passo temporal quase não é percebido aqui, pois acompanhamos a vida de uma mulher que nunca cansava de (se) surpreender. Musicalmente falando, Cássia Eller só cresceu a cada ano e um de seus momentos mais marcantes nos palcos é amplamente registrado aqui: a gravação do Acústico MTV, onde, abandonando quase por completo a Cássia “furiosa” que todos conheciam, apresentou músicas e novas versões de seu repertório que chegavam a se aproximavar da melancolia. Durante toda a vida, a cantora foi celebrada como unanimidade, e Fontenelle faz com que até o espectador mais leigo consiga sair de Cássia também admirando a artista. Inclusive, mesmo para quem tem um pouco de noção da vida da personagem-título irá se surpreender com alguns fatos apresentados, como o que desconstrói a ideia de que Cássia Eller teria morrido em função de uma overdose (ela já vinha sofrendo crises de pânico que culminaram em um infarto do miocárdio, conforme laudo do IML que foi distorcido pela imprensa). 

Contemplando o imenso ecleticismo da carreira da cantora, Cássia nos faz lembrar de sucessos como MalandragemPor EnquantoRelicárioO Segundo Sol, e é impossível sair do filme sem querer ouvir novamente toda a discografia dela, que ainda hoje é lembrada como uma das poucas que conseguiu unificar os fãs dos mais variados gêneros. Poucos conseguem fazer música de qualidade para todos e o documentário de Fontenelle, além de completo e delicado ao passear pela vida da cantora, acerta na sua lição de casa ao explorar a contribuição musical da carioca que até os dias de hoje é considerada referência. Respeitoso, Cássia nos leva ao íntimo de sua personagem com depoimentos de amigos e admiradores e também com um vasto material pessoal (as fotos, muito íntimas, são de uma beleza única, assim como as cartas lidas por Malu Mader). É ainda digno ao não se aproveitar das polêmicas envolvendo Cássia Eller, não se propondo a julgar qualquer uma de suas atitudes. Um belo tributo que todo artista relevante para qualquer arte deveria receber.

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