Melhores de 2014 – Trilha Sonora

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Trilhas sonoras assinadas por artistas já consagrados na música quase sempre resultam em pérolas. O debut de Daft Punk em Tron – O Legado, Jonny Greenwood (o guitarrista do Radiohead) em suas colaborações com o mestre Paul Thomas Anderson, o grupo francês M83 em Oblivion… Todas colaborações no mínimo interessantes e que oxigenizaram o universo das trilhas. E o que dizer, então, da colaboração do Arcade Fire para Ela? Além de isoladamente já ser um trabalho muito lindo e delicado, o resultado, quando avaliado dentro do filme, mostra que o grupo canadense compreendeu todo o poder da música instrumental no processo cinematográfico. A grande melancolia que o filme de Spike Jonze precisa está reunida neste álbum tocante e obrigatório para quem curte trilhas emotivas. Inventiva e clássica ao mesmo tempo, desperta muitas memórias e sentimentos relacionados a Ela quando ouvida posteriormente – e esse é um dos maiores elogios que uma trilha sonora pode receber. Ainda disputavam esta categoria: Até o FimGarota ExemplarO Grande Hotel BudapesteInterestelar.

EM ANOS ANTERIORES: 2013 – Gravidade | 2012 Tão Forte e Tão Perto | 2011 A Última Estação | 2010Direito de Amar | 2009 O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 Desejo e Reparação | 2007 A Rainha

Rapidamente

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Nicole Kidman estrela Antes de Dormir, um suspense monótono que nos remonta à baixa que a carreira da atriz sofreu anos atrás.

ANTES DE DORMIR (Before I Go To Sleep, 2014, de Rowan Joffe): Recebido como uma versão de suspense da comédia Como Se Fosse a Primeira VezAntes de Dormir é um filme sem ânimo. Não é só a condução morna e sem qualquer mistério interessante que faz a monotonia imperar neste novo trabalho do diretor Rown Joffe – que, em 2010, chegou a dirigir Helen Mirren em Pior dos Pecados. O problema é que o filme é repetitivo e entrega resoluções perfeitamente deduzíveis, incluindo na própria escalação do elenco. Com 90 minutos que parecem 120, o resultado é arrastado e nada instigante, onde nem mesmo Nicole Kidman (novamente em um abacaxi que nos remonta à baixa de sua carreira de anos atrás) consegue imprimir alguma personalidade à trama. Com um clímax que beira o constrangedor por sua obviedade e também pela forma como encena uma luta entre dois personagens, Antes de Dormir, para completar, se arrasta em seus minutos finais quando decide trazer momentos dramáticos e de reflexão para a protagonista. É uma “barriga” que o filme poderia ter evitado, tornando-se objetivo pelo menos em sua conclusão.

JOGO PERIGOSO (Second Serve, 1986, de Anthony Page): Muito antes de Felicity Huffman em Transamérica existiu Vanessa Redgrave neste telefilme dos anos 1980 chamado Jogo Perigoso. Redgrave sempre foi uma grande atriz, mas aqui ela tem um de seus momentos mais impressionantes: começa como um homem que se veste de mulher e faz inúmeros tratamentos (hormonais e psicológicos) para depois finalmente se transformar em uma figura inteiramente feminina. No caso, a famosa tenista estadunidense Renée Richards, que, sim, existiu na vida real. O cunho biográfico de Jogo Perigoso não é, no entanto, um limitador para o telefilme dirigido por Anthony Page, que obviamente tem em Redgrave a sua maior força. Convincente em todas as etapas de sua personagem (é impossível reconhecê-la como homem), a atriz, apoiada por um impecável trabalho de maquiagem, dá corpo e alma à personagem com bastante força e delicadeza, fazendo até com que esqueçamos eventuais ferramentas melodramáticas como a invasiva trilha sonora e cenas mais extremadas, a exemplo daquela envolvendo uma agressão preconceituosa em um restaurante. Felicity Huffman deve ter feito suas aulas aqui.

GOD HELP THE GIRL (idem, 2014, de Stuart Murdoch): O estreante diretor Stuart Murdoch tem uma longa carreira como compositor, com músicas que já integraram coletâneas de filmes independentes marcados por ótimas trilhas como Juno(500) Dias Com Ela. Seu debut no cinema como diretor não poderia, claro, ter outra vertente a não ser a musical. Exibido no Festival de Berlim, God Help the Girl é um simpático e por vezes melancólico musical britânico que abraça a música como componente narrativo fundamental para contar a história de uma garota que, tentando se recuperar de vários problemas emocionais em uma clínica, encontra na música e nos novos amigos que este mundo lhe proporciona um combustível para que finalmente possa dar uma virada em sua vida. É bem certo que em determinado ponto God Help the Girl se torna excessivamente musical, com canções que pouco acrescentam à história (percebam que este não é um filme do gênero como Os Miseráveis, onde todos os diálogos são musicalizados), o que traz um perceptível problema de ritmo para o longa. O fato do diretor escancarar a todo minuto que está fazendo um filme “queridinho” para jovens indies também eventualmente atrapalha um pouco a paciência que o resultado às vezes exige, mas o elenco é bom e God Help the Girl nunca deixa de ser convincente – e, para a proporção da produção, isso é mais do que suficiente.

Melhores de 2014 – Maquiagem

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Mark Coulier, que venceu o Oscar com Roy Helland por A Dama de Ferro anos atrás, voltou a ganhar mais uma estatueta de melhor maquiagem agora em 2015 com O Grande Hotel Budapeste. Desta vez, Coulier fez dupla com a veterana Frances Hannon, conhecida por trabalhar mais com produções de grande escala como X-Men: Primeira Classe e Guerra Mundial Z. Da pesada mas eficientemente impressiva maquiagem de Tilda Swinton como Madame D. ao sutil trabalho envolvendo à simetria de pequenos detalhes envolvendo a personalidade de diversos personagens (o jovem Zero faz questão ter desenhado em seu rosto um bigode para se identificar até fisicamente com o admirado mestre Gustave), o trabalho de maquiagem de O Grande Hotel Budapeste está à altura de todos os outros setores técnicos deste filme já excepcional em todos os seus outros detalhes. Na disputa desta categoria ainda estavam: Amantes EternosTrapaça.

EM ANOS ANTERIORES: 2013 A Morte do Demônio | 2012 – A Dama de Ferro (primeiro ano da categoria)

Na coleção… O Leitor

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É provável que O Leitor tenha a sua parcela de “contribuição” na mudança de cinco para dez indicados na categoria de melhor filme do Oscar. Na disputa de 2009, era esperado que filmes como Batman – O Cavaleiro das TrevasWALL-E conseguissem uma indicação na corrida pelo prêmio principal. Aparentemente a disputa tinha uma vaga em aberto, que acabou ficando justamente como este terceiro filme do diretor britânico Stephen Daldry. Os detratores criticaram a produção em peso, alegando que a lembrança veio unica e exclusivamente em função de O Leitor ser sobre o Holocausto. Eles não deixam de ter razão, especialmente porque a adaptação do livro homônimo de Bernhard Schlink é bastante acadêmica, mas existem sim outros assuntos complexos e interessantes discutidos no roteiro adaptado por David Hare.

Ainda que o tempo não tenha sido muito generoso com O Leitor (hoje parece um longa muito mais antigo do que realmente é), vários aspectos positivos se preservam de forma intacta, como a unânime primeira parte da narrativa, onde acompanhamos toda a construção do relacionamento entre o jovem tímido e virgem Michael Berg (o iniciante David Kross, que dá conta do recado) e a reservada e quase bruta mulher mais velha Hanna Schmitz (Kate Winslet, vencedora do Oscar de melhor atriz por seu desempenho aqui). Com delicadeza, Daldry constrói a relação dos protagonistas com um envolvimento singular, nunca deixando que a diferença de idade e experiência entre o casal se torne um empecilho para a verossimilhança dele. Por mais que seja fácil sentir que existe algum mistério ou algo ali que de fato não está encaixando, é fácil torcer pelos dois, em especial porque ele, maravilhado, começa a desbravar um mundo até então desconhecido e ela passa a adquirir uma sensibilidade que não lhe parecia possível justamente com a pessoa mais inesperada: um mero garoto inexperiente de 15 anos.

A mesma força não é preservada pelo filme a partir de sua metade, quando a trama revela um importante segredo sobre Hanna Schmitz que muda o tom da narrativa por completo. A discussão proposta é muito interessante, mas aí O Leitor se torna gélido, preocupando-se muito mais em discutir a culpa e o horror do nazismo em um longo arco ambientado em um tribunal do que se aprofundar no turbilhão de emoções que tomam conta do jovem Michael Berg ao literalmente testemunhar a desconstrução do ícone afetivo e sexual chamado Hanna Schmitz. Ao optar por longas cenas nos tribunais – que obviamente cumprem a missão de entregar ótimos momentos para Winslet (a sequência em que ela discute a autenticidade da escritura de um relatório é de cortar o coração) -, Daldry descamba para as formalidades. Inclusive o diretor não resiste a colocar o protagonista visitando antigos campos de concentração para complementar a discussão sobre o Holocausto.

Quando retoma a relação dos dois protagonistas e volta a compreender que o retrato de toda uma geração traumatizada pelo nazismo está mais simbolizada nos conflitos internos do próprio Michael Berg e nas razões de Hanna Schmitz do que no desenvolvimento linear de um julgamento, O Leitor retoma parte de sua força emocional. Contudo, outro filme já se formou e, por mais que Daldry tente imprimir emoção ao resultado, a abordagem já se tornou racional demais – e a boa mas excessiva trilha de Nico Muhly só incentiva essa percepção de que O Leitor tenta mas não consegue ser mais acalantador. Winslet e Kross – ele posteriormente substituído em sua versão adulta pela discrição habitual de Ralph Fiennes – seguem eficientes e plenamente convincentes até o final enquanto o roteiro de Hare também traz vislumbres de momentos preciosos (a conversa com a personagem de Lena Olin é um dos pontos altos da história), mas o tom acadêmico parece sufocar demais uma história que merecia – e deveria – ter uma perspectiva muito mais humana.

Melhores de 2014 – Edição/Mixagem de Som

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Para um filme sem diálogos ambientado em alto-mar, o som se torna uma ferramenta fundamental para a narrativa. Até o Fim se atenta a essa importância com afinco e entrega o trabalho de som mais detalhista e inteligente de 2014. Utilizando todas as estratégias possíveis em sua edição e mixagem de som para envolver o espectador na solidão do protagonista sem nome vivido por Robert Redford, o quinteto Brandon Procor, Gillian Arthur, Micah Bloomberg, Richard Hymns e Steve Boeddeker ainda é extremamente feliz ao nos deixar a par de toda a angústia do protagonista frente a situações que colocam sua vida em risco, seja quando tubarões cercam o seu bote ou quando vê seu barco ser invadido pela água. Até o Fim mexe com nossos sentidos e, bem como Gravidade (também um filme solo de sobrevivência e vencedor desta categoria no ano passado), é excepcional ao usar o som como um discreto mas poderoso detalhe de imersão. Na disputa desta categoria ainda estavam: Até Que a Sbórnia nos SepareInside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum, InterestelarPlaneta dos Macacos: O Confronto.

EM ANOS ANTERIORES: 2013 Gravidade | 2012 007 – Operação Skyfall | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Cinderela

Have courage and be kind.

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Direção: Kenneth Branagh

Roteiro: Chris Weitz

Elenco: Lily James, Cate Blanchett, Richard Madden, Helena Bonham Carter, Stellan Skarsgård, Holliday Grainger, Sophie McShera, Stellan Skarsgård, Derek Jacobi, Ben Chaplin, Hayley Atwell, Rob Brydon, Tom Edden, Alex Macqueen

Cinderella, EUA, 2015, Drama/Fantasia, 105 minutos

Sinopse: Após a trágica e inesperada morte do seu pai, Ella (Lily James) fica à mercê da sua terrível madrasta, Lady Tremaine (Cate Blanchett), e suas filhas Anastasia e Drisella. A jovem ganha o apelido de Cinderela e é obrigada a trabalhar como empregada na sua própria casa, mas continua otimista com a vida. Passeando na floresta, ela se encanta por um corajoso estranho (Richard Madden), sem desconfiar que ele é o príncipe do castelo. Cinderela recebe um convite para o grande baile e acredita que pode voltar a encontrar sua alma gêmea, mas seus planos vão por água abaixo quando a madrasta má rasga seu vestido. Agora, será preciso uma fada madrinha (Helena Bonham Carter) para mudar o seu destino. (Adoro Cinema)

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Não adianta tentar ignorar as releituras de clássicos infantis. Assim como a onda de adaptações envolvendo best sellers de aventuras infanto-juvenis, as histórias que encantaram as gerações de milhares de crianças agora ganham nova vida no cinema a todo momento. Cinderela, entretanto, deve ser a primeira adaptação plenamente fiel ao material original, sem qualquer subversão ou mudança de abordagem. Por um lado, existe a preservação da inocência e da magia, o que vem para conquistar novas gerações em tempos que a infância parece cada vez mais… adulta! Por outro, avaliando o novo filme de Kenneth Branagh como um cinéfilo já distante da fase infantil, existem detalhes importantes a ser considerados, sendo o principal aquele que envolve os prós e contras de transpor exatamente a mesma narrativa de uma animação para um filme live action.

Se Cinderela se propõe a não ser nada além de uma versão carne e osso de uma história já conhecida há várias décadas, não dá para deixar de levar em consideração que, desta forma, o fator novidade está ausente aqui, pois sabemos todos os caminhos da trama e qual o desfecho da protagonista. Mas talvez o maior incômodo seja o fato de que, para um filme live actionCinderela preserve muitas das abordagens que só conseguimos relevar em animações, como a unidimensionalidade das vilãs e a bondade inabalável da heroína. Malévola agora se mostra influente porque aqui faz falta ver a Madrasta (Cate Blanchett) com um outro lado além do cruel – e, nesse sentido, Blanchett, elegantíssima, tem pouco material para tornar a sua vilã memorável. E o que dizer das enteadas de Cinderela (Lily James), irritantes de tão caricatas e que nada acrescentam ao resultado? Não que o roteiro de Chris Weitz precisasse fazer um grande estudo psicológico dessas figuras, mas uma inteligente costura de suas personalidades merecia aparecer aqui.

A protagonista Cinderela só não se torna uma figura difícil de torcer porque Lily James surpreende ao sustentar bem um papel que, nessa versão em carne e osso, é quase implausível se assistirmos ao filme com outro olhar a não ser o infantil. Como a jovem, ciente de suas origens e influências, se deixa ser pisoteada e humilhada pelas novas integrantes da família sem razões consistentes? “Seja gentil”, disse a mãe de Cinderela antes de falecer. Só que, ao que tudo indica, ela entendeu algo como “seja sem personalidade”, já que não reage a praticamente nenhum dos absurdos a que é submetida. Ok, estamos falando de uma história mágica, encantadora e direcionada ao público infantil, mas aí voltamos à questão levantada anteriormente: transpor uma narrativa infantil sem qualquer mudança de tom para o live action pode ter seus contras. Esse é um deles. Como espectador adulto, percebo um filme dramaticamente frágil, cujo encantamento não é o suficiente para relevar determinados detalhes. Já os pequenos não devem ligar para isso, uma vez que Cinderela, no sentido de preservar classicamente os encantadores valores da história original, consegue cumprir sua missão.

Tecnicamente, não há o que se reclamar do longa de Branagh. Nos figurinos da veterana Sandy Powell, a exuberância reina como poucas vezes vimos em filmes recentes desse gênero, mesmo que muitas vezes o guarda-roupa escancare demais certas leituras (para mostrar que as enteadas da protagonista são desprezíveis, Powell não é nada discreta ao vesti-las quase como palhaças). Enquanto isso, na direção de arte, o mestre Dante Ferreti consegue novamente fazer um belo balanço entre grandiosidade e detalhismo em cada uma de suas escolhas. Por fim, a trilha de Patrick Doyle – um compositor que particularmente não desperta minha admiração – faz o básico funcional para dar o tom ao resultado. Ou seja, Cinderela apenas repete uma história clássica com uma parte técnica bastante impressiva e com o tom adequado para as crianças. Quanto aos adultos, eles podem até se sentir em uma viagem no tempo, mas também correm o risco de perceber que, bem lá no fundo, Cinderela é apenas uma bonita viagem visual sem qualquer diferencial além da nostalgia envolvendo o material original.

O Garoto da Casa ao Lado

Let me love you, Claire!

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Direção: Rob Cohen

Roteiro: Barbara Curry

Elenco: Jennifer Lopez, Ryan Guzman, Kristin Chenoweth, John Corbett, Ian Nelson, Lexi Atkins, Hill Harper, Jack Wallace, Adam Hicks, François Chau, Bailey Chase, Kent Avenido, Travis Schuldt, Brian Mahoney, Raquel Gardner

The Boy Next Door, EUA, 2015, Suspense, 91 minutos

Sinopse: Após ser traída pelo marido, a professora Claire Peterson (Jennifer Lopez) está em vias de se divorciar. Ela vive sozinha com o filho adolescente, até perceber que um jovem acaba de se mudar para a casa ao lado. O sedutor Noah Sandborn (Ryan Guzman) rapidamente oferece ajuda nas tarefas da casa e se torna o melhor amigo do filho de Claire. Aos poucos, o vizinho passa a seduzi-la, levando a uma noite de amor entre os dois. No dia seguinte, a professora está decidida que tudo foi apenas um erro, mas Noah não pretende abandoná-la tão cedo. O caso de amor torna-se uma perigosa obsessão. (Adoro Cinema)

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Dizer que um filme é previsível está diretamente ligado com a bagagem da pessoa que faz tal afirmação. Se você considera algo óbvio é porque certamente já viu a mesma situação milhares de vezes – e mais: já deve ter visto também experimentos que servem como verdadeiras aulas sobre como escapar das armadilhas que afundam determinadas tramas em clichês e previsibilidades. Já Barbara Curry, a roteirista estreante de O Garoto da Casa ao Lado, não deve, no entanto, ter uma vida cinéfila muito dedicada, visto que seu trabalho para esse filme de Rob Cohen (Velozes e FuriososTriplo X) parece ser assinado por alguém que nunca viu sequer um suspense bobinho na vida. Para corroborar tal hipótese, listamos abaixo alguns elementos clássicos (no sentido ruim, claro) que estão amadoramente presentes no empoeirado O Garoto da Casa ao Lado:

a) Qual a necessidade de aprofundar personagens ao longo do filme? É melhor jogar tudo na tela de uma vez só

Nem bem o filme completou 10 minutos e todo o elenco de O Garoto da Casa ao Lado já foi apresentado com suas “personalidades” bem definidas. Da protagonista ao avô cadeirante do vizinho, os personagens já surgem com as suas personalidades escancaradas. Claire (Jennifer Lopez) é a professora bonitona carente, Noah (Ryan Guzman) é o novo vizinho cujos braços fetichizados com graxa e suor são mais atraentes para a câmera do que seu próprio rosto, Vicky (Kristen Chenoweth) é a melhor amiga engraçadinha que não tem vida pessoal e por aí vai… Acrescente à conta todo o histórico da nossa heroína condensado em diálogos incrivelmente simplistas e expositivos.

b) A protagonista está emocionalmente vulnerável

Não dá para fazer um suspense sem alguém viajando para curar uma mágoa ou buscando uma redenção. No caso de O Garoto da Casa ao Lado, Claire tenta superar a traição do marido, que dormiu com a secretária nove meses atrás. Ela ainda não assinou o divórcio, pois, no fundo, ainda gosta dele. O filho também é muito apegado ao pai, o que dificulta a situação. Mas não dá para apagar a traição da lembrança e Claire não consegue continuar com o marido assombrada por essa lembrança. Ela precisa de uma mudança na sua vida. E quem sabe o novo vizinho que acaba de se mudar para casa ao lado não pode ser o homem perfeito para mexer com a sua vida?

c) O novo pretendente é tudo aquilo que a protagonista precisava e o oposto de quem ela se relacionava

Se o marido de O Garoto da Casa ao Lado é um traidor, o vizinho é o romântico. Se o marido já é um homem de mais idade e de camisas sociais, o vizinho é o jovem sarado e irresistível de 20 anos que circula de regata. Os assuntos em um jantar já não são mais interessantes com o antigo cônjuge, enquanto com o novo interesse a paixão pela literatura é um belo afrodisíaco. O marido não soube preservar a família ao dormir com a secretária? Bom, o garoto ao lado se mudou para a cidade apenas para cuidar de seu avô doente. Tudo o que ela precisava! Clássico.

d) Os coadjuvantes basicamente não tem vida pessoal e servem apenas para morrer ou ouvir desabafos

O que a divertidíssima Kristen Chenoweth está fazendo nesse filme? Ela é um belo exemplo de um dos erros mais básicos dos filmes de suspense: a amiga sem personalidade e vida pessoal que serve apenas para dar conselhos à protagonista (Cissa Guimarães mandou lembranças aqui no Brasil). Faz uma piadinha aqui, outra ali, mas, no final das contas, não sabemos nada sobre sua personalidade. Enquanto isso, John Corbett vive o marido cuja missão é apenas aparecer insistentemente para dizer o quanto está arrependido e precisa do perdão da esposa. Nada mais. E o que dizer do avô do protagonista, que surge em duas cenas, sendo uma logo no início em uma cadeira de rodas e outra lá no final, onde está milagrosamente em pé perambulando pela casa só para dar um susto na protagonista?

e) As situações não prezam pela lógica e nunca aconteceriam na vida real

Como assim a protagonista transa com o tal vizinho e vira vítima de sua obsessão em silêncio? Tudo bem que ela não quer contar para o filho que dormiu com seu mais novo amigo ou muito menos arruinar sua carreira acadêmica, mas, espera… Será que essas desculpas são realmente suficientes quando o jovem se mostra cada vez mais psicopata colocando em risco a vida de todos? Não sei quanto a vocês, mas por mais que eu tenha cometido algum erro, prefiro não viver pensado que meus amigos e familiares podem por minha causa. E o que dizer, então, da cena em que Noah quase mata um aluno na frente de toda a escola (e da própria vice-diretora) e tudo o que ele ganha é… Uma expulsão? Ninguém denunciou essa tentativa de homicídio? 

f) A burrice dos personagens, o suspense óbvio e o clímax estapafúrdio completam a festa

Qual a primeira coisa que você pensa quando alguém joga gasolina em todo um ambiente com um isqueiro na mão? Empurrar essa pessoa? Para Claire, é claro que sim! É mais um detalhe tolo de O Garoto da Casa ao Lado que serve de suporte para cenas preguiçosas de suspense. Ah, e não pode faltar a protagonista deletando arquivos de um computador enquanto o vilão perigoso se aproxima da casa. Óbvio que, nesse exato momento, a lixeira vai demorar mais do que o normal para se esvaziar. É tudo preparação de terreno para aquele clímax espetaculoso, onde todos vão estar amarrados e confinados em um mesmo ambiente sob a ameaça do revólver do protagonista. Aí tem luta, gritos fogo, cortes, facadas, injeção no olho… E o final vocês devem deduzir sem maiores dificuldades.

Deixando de lado a brincadeira, O Garoto da Casa ao Lado realmente é um filme preguiçoso e conduzido sem qualquer senso de humor. Se você dá risada do que acontece, é involuntariamente – o que só comprova como o diretor Rob Cohen errou no tom empregado ao filme. Chega a assustar como é possível prever a consequência de cada ação da história, que em momento algum chega perto de ser um guilty pleasure. É a velha tentativa de reproduzir os méritos de Atração Fatal (e, para começo de conversa, aqui ninguém é uma Glenn Close da vida) que mais uma vez vai por água abaixo. Não funciona como diversão (mesmo que o filme se proponha a ser propositalmente tosco a piada já é velha) e basta apenas um passar de olhos no Facebook do seu celular após a sessão para já esquecer a sessão. Não vou ao cinema para isso. O Garoto da Casa ao Lado não mancha a carreira de ninguém – até porque toda a equipe não tem nada em jogo -, mas fica para aquela listinha de produções que servem para você definitivamente dar uma aula sobre como não se fazer um filme de suspense.

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