Melhores de 2014 – Direção de Arte

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Já não é de hoje que os filmes de Wes Anderson tem bom apuro técnico, mas O Grande Hotel Budapeste alcança um nível muito superior. A direção de arte, assinada pela dupla Adam Stockhausen e Anna Pinnock, traduz toda a grandiosidade do hotel do título sem deixar de construir pequenos elementos que, anos depois, seriam lembrados com grande nostalgia pelos personagens que viram a era de ouro do Budapeste, hoje um local decadente. Da cuidadosa decoração de sets a cada cor colocada em cena, o trabalho de Stockhausen e Pinnock captura ainda toda a alma de fábula tão característica dos últimos filmes de Anderson. É fácil se encantar pelo Hotel Budapeste e também inconscientemente compreender um pouco mais sobre cada personagem e situação por meio da minuciosa e amplamente criativa direção de arte. Wes Anderson deve ter ficado orgulhoso. Na disputa desta categoria ainda estavam: 12 Anos de EscravidãoAté Que a Sbórnia nos Separe, Ela Era Uma Vez em Nova York.

EM ANOS ANTERIORES: 2013 - Anna Karenina | 2012 A Invenção de Hugo Cabret | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet |2007 – Maria Antonieta

Dívida de Honra

I live uncommonly alone.

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Direção: Tommy Lee Jones

Roteiro: Kieran Fitzgerald, Tommy Lee Jones e Wesley A. Oliver, baseado no romance “The Homesman”, de Glendon Swarthout

Elenco: Hilary Swank, Tommy Lee Jones, Grace Gummer, Miranda Otto, Sonja Richter, Hailee Steinfeld, Meryl Streep, John Lithgow, James Spader, Jo Harvey Allen, Barry Corbin, David Dencik, William Fichtner, Evan Jones, Caroline Lagerfelt, Jesse Plemons

The Homesman, EUA/França, 2014, Western, 122 minutos

Sinopse: 1854. Por mais que seja forte e independente, Mary Bee Cuddy (Hilary Swank) guarda uma profunda mágoa devido à solidão que sente. Ela precisa levar três mulheres insanas até o Iowa, onde poderão viver em paz. No caminho ela encontra George Briggs (Tommy Lee Jones), um criminoso que tem sua vida salva por Mary Bee. Em retribuição, ele segue viagem ao lado dela e a ajuda em sua jornada. (Adoro Cinema)

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Poucos gêneros morreram tanto com o passar dos anos quanto o western. Pelo menos na safra mais recente do cinema é preciso forçar a memória para lembrar de exemplares deste nicho. E o pior: mais difícil ainda é se recordar de westerns recentes de grande qualidade. Uma vez ou outra surge uma diversão descompromissada como Os Indomáveis, mas é quase raro encontrar produções do gênero, que teve seu último momento realmente excepcional em 1992 com Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood. Surpreendentemente, o western é agora oxigenado por Tommy Lee Jones com Dívida de Honra, um filme sensível, envolvente e bastante subversivo. Mesmo fracassando nas bilheterias estadunidenses (faturou apenas pouco mais de dois milhões de dólares), merece lugar cativo na agenda de todos os apreciadores do gênero e do cinema em geral.

Se a tarefa de elencar westerns recentes já é complicada, o que dizer, então, de um estrelado por uma mulher? Dívida de Honra, além de ser não ser centrado em uma figura masculina, inova por ter uma forte veia feminista. Em terras predominadas por homens, Mary Bee Cuddy (Hilary Swank, ótima) é uma mulher que foge dos padrões de seu tempo e espaço: com mais de 30 anos, é solteira e não tem filhos, administrando sozinha uma propriedade. Se deseja um casamento, não é por convenções sociais, e sim para preencher uma solidão que já a assombra há anos. Assim, as paisagens desérticas do filme dirigido por Tommy Lee Jones são mais do que apropriadas para ilustrar a vida da protagonista que, mais uma vez subvertendo as expectativas de uma sociedade, topa abraçar uma missão rejeitada covardemente por todos os homens da região: a de atravessar milhas até Iowa para levar três mulheres repudiadas pela cidade após surtos de loucura (uma delas por ter perdido três filhos em uma semana para a difteria, por exemplo) a um lugar onde possam ser devidamente tratadas e viver em paz.

Mary Bee Cuddy encontra no caminho George Briggs (Jones), que passa a ser seu companheiro na tal jornada, mas, mesmo quando não está em cena, a personagem permanece com o espectador. É resultado da presença marcante de uma mulher repleta de dúvidas como todos nós, mas forte e a frente de seu tempo. Ou seja, os holofotes de um western estão em uma mulher e só por isso Dívida de Honra, integrante da mostra competitiva do Festival de Cannes de 2014, já não merecia amargar fracasso ou muito menos esquecimento. O filme em si também é realmente muito bom, optando por deixar o bangue bangue ou as corridas a cavalo de lado para se focar na relação que se estabelece entre os dois protagonistas. A ambientação e as possibilidades de um western, portanto, servem justamente para falar sobre pessoas. O contraste entre Briggs e Cuddy (ele, apesar de mais experiente, não tem o pulso firme dela) ainda é fundamental para manter o interesse na história, ao mesmo tempo que Dívida de Honra ganha pontos em sua sustentação pela questão da loucura: como percorrer milhas em paisagens solitárias carregando três mulheres instáveis, surtadas e imprevisíveis?

Por mais que carregue sua dose de tensão em função de toda a circunstância dos protagonistas, o filme de Jones tem seus melhores momentos mesmo na relação e nas discretas transformações dos personagens. Dívida de Honra cumpre com louvor o mais básico conceito de um road movie: a de que nunca chegamos ao final da estrada da mesma forma que entramos nela. Com um excelente design de produção e uma bonita trilha sonora (é Marco Beltrami voltando ao mundo dos westerns com algo bastante diferente de Os Indomáveis), o longa pode não ter o desfecho mais revelador ou impactante como se poderia esperar, mas toda a construção até lá é riquíssima, sempre de forma sóbria e sem exposições escancaradas. Solenemente ignorado na temporada de premiações (nem uma esperada indicação a melhor atriz para Hilary Swank se concretizou), Dívida de Honra parece não ter sido compreendido muito bem nem pela crítica. Porém, assim como Mary Bee Cuddy, merece quebrar barreiras e ser lembrado com carinho por aqueles que o encontrarem.

Três atores, três filmes… com Marcelo Galvão

galvaotresFoi quando trabalhei pela primeira vez no Festival de Cinema de Gramado em 2012 que entrei em contato com a filmografia do carioca Marcelo Galvão. Vencedor do Festival naquele ano com o espirituoso Colegas, Galvão retornou ao evento em 2015 para exibir o sensível e belo A Despedida, que lhe rendeu um novo Kikito – dessa vez o de melhor direção. Gentilmente, Galvão topou participar da nossa coluna e, abaixo, sintetiza em um depoimento algumas das interpretações que marcaram sua vida de cinéfilo. De Jack Nicholson em O Iluminado a Leonardo DiCaprio em O Aviador, passando por Björk e Gary Oldman, ele é mais um convidado para quem abrimos uma exceção no número de desempenhos selecionados. E todos os lembrados por Galvão são inéditos aqui! Confiram abaixo todas as escolhas do diretor!

A interpretação do Jack Nicholson em O Iluminado é bárbara, incluindo tudo o que ele criou para o personagem atrás das câmeras: um clima ruim entre ele e a Shelley Duvall, onde ele era bem frio com ela, se portando como um astro em relação a colega propositalmente. Tudo para que se criasse na tela um casal que você via que não estava dando certo. Acho que era essa um pouco a ideia e ele conseguiu imprimir bastante essa sensação no filme. Também tem todo o processo de loucura, uma proposta de criar uma figura diabólica para um pai de família… Acho muito boa a interpretação do Jack Nicholson nesse filme.

Já em O Aviador foi primeira vez que eu senti o Leonardo DiCaprio fora daquele estereótipo de garoto bonitinho que o físico dele acaba propagando. Nesse filme eu vi o quão bom ator ele é. Toda a construção do processo de loucura do Howard Hughes foi muito bom. Também tem Björk em Dançando no Escuro, entregando uma interpretação genial para uma iniciante no cinema; Gary Oldman roubando a cena e dando um show de interpretação em O Profissional, mesmo com Jean Reno sendo o herói do filme; e Christoph Waltz, que parece servir apenas para um tipo de personagem, mas que consegue sim fazer coisas diferentes, como em Django Livre, onde surpreende. Ele é o cara, sendo que a cara dele não dá a entender que ele é o cara!

Melhores de 2014: indicados

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O Grande Hotel Budapeste é o recordista de indicações na lista de melhores de 2014 do Cinema e Argumento

É inegável: 2014 não teve uma infinidade de filmes surpreendentes, mas concentrou grande qualidade em um pequeno grupo de produções realmente respeitáveis. Elas vieram do Brasil (O Lobo Atrás da PortaHoje Eu Quero Voltar Sozinho), da Argentina (Relatos Selvagens) e da Suécia (Alabama Monroe). Também foram assinadas por nomes já respeitados (Wes Anderson com o seu O Grande Hotel Budapeste, David Fincher com Garota Exemplar) e de outros que estão construindo carreira (J.C. Chandor e seu surpreendente Até o Fim). De ácidas comédias a dramas inovadores em estética e narrativa, 2014 agradou todos os públicos. Ninguém ficou de fora. Por isso, a missão de compilar tudo o que o ano teve de melhor no cinema não foi nada fácil. Mas acho que o resultado reunido na nossa lista que pode ser conferida abaixo reproduz com boa fidelidade os títulos que se destacaram.
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A lista do Cinema e Argumento para os melhores de 2014 já começa com um recorde: O Grande Hotel Budapeste é o filme que mais recebeu indicações em toda a história do nosso prêmio, que já acontece desde 2007. Indicado a dez categorias, o filme de Wes Anderson acaba de ultrapassar os recordistas anteriores: O Mestre007 – Operação SkyfallDireito de Amar, todos com oito indicações. Faltou espaço para filmes que tenho grande apreço, como o belo e sensível Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, e aposto todas as minhas fichas que o puxão de orelha que vou receber de vocês será pela ausência quase completa de Boyhood, lembrado apenas na categoria de ator coadjuvante. Mas, de qualquer forma, espero que gostem do resultado. Confiram a relação completa de indicados, considerando os filmes lançados comercialmente no Brasil em 2014:
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MELHOR FILME
Garota Exemplar
O Grande Hotel Budapeste
O Lobo Atrás da Porta
Nebraska
Relatos Selvagens
 
MELHOR DIREÇÃO
Damián Szifrón (Relatos Selvagens)
David Fincher (Garota Exemplar)
Felix Van Groeningen (Alabama Monroe)
J.C. Chandor (Até o Fim)
Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste)
 
MELHOR ATRIZ
Charlotte Gainsbourg (Ninfomaníaca – Parte 2)
Judi Dench (Philomena)
Leandra Leal (O Lobo Atrás da Porta)
Rosamund Pike (Garota Exemplar)
Veerle Baetens (Alabama Monroe)
 
MELHOR ATOR
Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão)
Jake Gyllenhaal (O Abutre)
Joaquin Phoenix (Ela)
Johan Heldenbergh (Alabama Monroe)
Matthew McCounaghey (Clube de Compras Dallas)
 
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Erica Rivas (Relatos Selvagens)
June Squibb (Nebraska)
Lesley Manville (Mais Um Ano)
Lupita Nyong’o (12 Anos de Escravidão)
Uma Thurman (Ninfomaníaca – Parte 1)
 
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Ethan Hawke (Boyhood: Da Infância à Juventude)
Jared Leto (Clube de Compras Dallas)
Jesuíta Barbosa (Praia do Futuro)
Michael Fassbender (12 Anos de Escravidão)
Ricardo Darín (Relatos Selvagens)
 
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Ela
O Grande Hotel Budapeste
O Lobo Atrás da Porta
Nebraska
Relatos Selvagens
 
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Alabama Monroe
Garota Exemplar
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho
O Homem Duplicado
Philomena
 
MELHOR ELENCO
12 Anos de Escravidão
O Grande Hotel Budapeste
O Lobo Atrás da Porta
Relatos Selvagens
Trapaça
 
MELHOR MONTAGEM
Alabama Monroe
Garota Exemplar
O Grande Hotel Budapeste
O Lobo Atrás da Porta
Relatos Selvagens
 
FOTOGRAFIA
Até o Fim
O Grande Hotel Budapeste
Ida
Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum
Nebraska
 
MELHOR TRILHA SONORA
Até o Fim
Ela
Garota Exemplar
O Grande Hotel Budapeste
Interestelar
 
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
12 Anos de Escravidão
Até Que a Sbórnia nos Separe
Ela

Era Uma Vez em Nova York
O Grande Hotel Budapeste
 
MELHOR FIGURINO
12 Anos de Escravidão
Amantes Eternos
O Grande Hotel Budapeste
Malévola
Trapaça
 
MELHOR EDIÇÃO/MIXAGEM DE SOM
Até o Fim
Até Que a Sbórnia nos Separe
Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum
Interestelar
Planeta dos Macacos: O Confronto
 
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante)
“Everything is Awesome!!!” (Uma Aventura Lego)
“Lost Stars” (Mesmo Se Nada Der Certo)
“Ordinary Human” (O Doador de Memórias)
“Please, Mr. Kennedy” (Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum)
 
MELHOR MAQUIAGEM
Amantes Eternos
O Grande Hotel Budapeste
Trapaça
 
MELHORES EFEITOS VISUAIS
Interestelar
Planeta dos Macacos: O Confronto
X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

Dois Lados do Amor

He went soft. I stayed hard. That was that.

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Direção: Ned Benson

Roteiro: Ned Benson

Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, Isabelle Huppert, Viola Davis, William Hurt, Ciarán Hinds, Bill Hader, Jess Weixler, Nina Arianda, Nikki M. James, Wyatt Ralff, Jeremy Shamos, Daron Stewart, June Miller, Julee Cerda, Johnathan Fernandez, Justine Salata

The Disappearance of Eleanor Rigby: Them, EUA, 2014, Drama, 123 minutos

Sinopse: Nova York, Estados Unidos. Connor Ludlow (James McAvoy) e Eleanor Rigby (Jessica Chastain) são casados, mas a incurável dor de um trágico acontecimento a faz deixar repentinamente o marido e a vida que levava até então. Enquanto ela tenta recomeçar e busca novos interesses, ele tenta reencontrar o amor desaparecido e entender o que de fato aconteceu. (Adoro Cinema)

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Certa vez li que Namorados Para Sempre é um filme que não funciona porque simplesmente é impossível se importar com um casal que já começa um filme separado. Tal afirmação é de uma tolice tremenda. Ora, desde quando precisamos acompanhar de forma linear todos os passos de uma cartilha romântica para que possamos nos importar com dois personagens? E será mesmo que, na desconstrução de um relacionamento, não conseguimos encontrar as forças que uniram duas pessoas? Sou um grande fã de histórias românticas que não deram certo e muitas delas (que não vou citar aqui para não estragar a surpresa de quem não as conferiu) ganham um lugar especial exatamente porque se aproximam da vida e mostram que as memórias pós-separação podem tornar momentos pregressos ainda mais significativos. Seguindo essa linha, Dois Lados do Amor (mais uma tradução brasileira equivocada e oportunista) evoca novamente a abordagem para falar sobre duas pessoas que vivem jornadas individuais em busca de um recomeço.

Concebido como um filme de duas partes, Dois Lados de Amor chegou a ser exibido comercialmente nos Estados Unidos com esse formato, onde cada um dos volumes explorava mais a percepção de um personagem do que de outro. A versão que chega ao Brasil, entretanto, condensa tudo em um longa de duas horas, também exibida no Festival de Cannes do ano passado. Não existem prejuízos nessa escolha, pois Dois Lados do Amor é bem sucedido ao se focar muito mais na versão de Eleanor (Jessica Chastain) do que na de Connor (James McAvoy). Isso porque ela tem os dilemas mais envolventes, trazendo a história de uma jovem que, após o afastamento, é salva de uma tentativa de suicídio. Figuras femininas por si só normalmente já se destacam em dramas dessa natureza, mas aqui o texto está a favor de Jessica Chastain, especialmente quando o diretor Ned Benson coloca em seu núcleo atores do calibre de Isabelle Huppert, William Hurt e Viola Davis, todos coadjuvantes com pelo menos algum tenro significado na trajetória de recuperação emocional da protagonista.

O início de Dois Lados do Amor pode facilmente enganar e fazer jus a sua equivocada tradução brasileira. Apostando em um tom popular, a história começa mostrando o casal protagonista em um dos maiores clichês de histórias românticas: a divertida fuga do restaurante quando ambos, recém descobrindo as alegrias de uma nova paixão, percebem que estão sem dinheiro para pagar a conta. Mas é apenas questão de tempo para que o tempo avance e encontremos duas pessoas distantes, de vidas separadas e que tentam encontrar algum tipo de recomeço. Aos poucos descobrimos que a tristeza que permeia a vida de Eleanor e Connor é muito mais complexa do simplesmente não terem dado certo como um casal. A partir do roteiro que ele próprio escreveu, o diretor Ned Benson, porém, não faz com que seus personagens explodam em cena ou teçam longos diálogos sobre culpas e arrependimentos. O que existe em Dois Lados do Amor é um tom pausado e melancólico para que adentremos ainda mais no emocional dos dois protagonistas.

Ainda que permeado por uma grande melancolia e um tratamento bastante intimista sobre os reflexos de um rompimento, o longa não chega, por exemplo, ao peso de Alabama Monroe, considerando histórias mais recentes sobre relacionamentos desconstruídos ou acometidos por uma tragédia. De certa forma isso chega a ser um alento (difícil algum filme superar a dor daquele longa sueco), mas não pense que Benson se exime de dar uma devida carga de intensidade ao resultado. A diferença é que aqui ela está focada muito mais nos pequenos momentos, onde Dois Lados do Amor prefere mastigar o mínimo possível para deixar a dor muito mais como uma atmosfera indissipável na vida dos personagens do que como algo escancarado. É nesse silêncio de conversas que sugerem ser sobre assuntos cotidianos mas que na realidade significam muito mais que a experiência se torna tão reflexivo.

A venda errada aqui no Brasil não deve ajudar essa obra atípica e preocupada em mostrar sobre como se sobrevive ou não a uma separação (e a outras tragédias pessoas também). O amor está ali sim, mas fatigado, dolorido e como apenas uma (boa?) memória que hoje já não parece fazer mais tanto sentido. É uma história bem contada, com excelentes atores (James McAvoy se sai bem e continua sendo um dos atores mais subaproveitados da atualidade, ao passo que o ponto alto fica mesmo na atuação de Jessica Chastain) e que não merecia ser disseminada com um viés que simplesmente não é o foco. Se o resultado cru já não é facilmente palatável para muitas plateias, imaginem, então, com as ideias erradas que a distribuidora adotou para levar o filme às salas. Já para quem souber onde está embarcando, certamente essa será uma experiência bastante diferente e recompensadora.

Na TV… crime, castigo e traição em “The Affair”

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Dominic West e Ruth Wilson, os protagonistas de The Affair: enquanto ele não passou da indicação, ela se consagrou com uma vitória no Globo de Ouro 2015 por seu desempenho. A série também foi vitoriosa na categoria principal da premiação.

Se existe uma emissora que frequentemente surpreende com premissas inovadoras para o formato televisivo, essa é a Showtime. Quem não lembra de Dexter, que trazia Michael C. Hall como um inspetor forense que, na realidade, também era um serial killer? Ou de The Big C, onde Laura Linney interpretava uma professora de história que, após a descoberta de um câncer, resolve viver tudo o que protelou ao longo dos anos? Prêmios Homeland também teve de sobra ao mostrar as obsessões de uma agente do FBI na secreta investigação pelas verdadeiras intenções de um soldado estadunidense recém libertado por terroristas. Sim, todas tramas atípicas e diferenciadas – só que no bom e no mau sentido. Se por um lado é instigante acompanhar propostas que fogem do lugar-comum das opções na TV, por outro também existe uma certa preocupação ao acompanhá-las, já que são todas histórias que não parecem ter material suficiente para render várias temporadas. DexterThe Big CHomeland andaram de mãos dadas nesse sentido: começaram muito bem, mas perderam audiência e prestígio com o tempo porque patinaram em temas que não poderiam ser tão prolongados e que exigiam objetividade – ou melhor, uma vida curta. 

É interessante fazer esse retrospecto porque The Affair, a mais nova queridinha da Showtime, já começou sua trajetória com grande festa. Na última edição do Globo de Ouro, o programa criado pela dupla Hagai Levi e Sarah Treem, conquistou os prêmios de melhor série dramática e melhor atriz para Ruth Wilson. A fórmula novamente é inovadora: um caso de traição contado a partir de diferentes visões. Primeiro, a de Noah Solloway (Dominic West), um escritor frustrado que anseia por escrever algo de relevante enquanto passa as férias na casa litorânea de seus sogros. Depois, a de Alison Bailey (Ruth Wilson), uma garçonete que tenta superar a trágica morte de seu filho de seis anos. Intercalando as duas abordagens e cenas do futuro onde Noah e Alison dão depoimentos a um investigador acerca de um misterioso assassinato, a proposta se revela pra lá de interessante, mas repete a dúvida: será que com ideias suficientes estruturar uma série com duração expressiva (episódios de quase uma hora) e em várias temporadas? Os criadores já anunciaram que pensaram o arco dramático para três temporadas, mas é possível esse programa escapar da máxima dos seriados da Showtime que arrancam bem mas não conseguem dar continuidade na inovação?

Complicado saber para onde The Affair caminhará depois do primeiro ano. Que fique registrado, no entanto, que, na temporada de estreia, o programa dá conta do recado, com a novidade felizmente se sustentando aqui. O terreno é delicado, mas os roteiristas saem ganhando ao falar sobre traição onde os dois envolvidos na relação são casados. Isso mesmo, não é sobre um homem de meia idade encantado por uma mulher mais nova que, ao longo dos episódios. Muito menos sobre uma ninfeta carente que ficará implorando para que ele deixe a mulher e vá viver com ela. Ambos tem algo – e uma família inteira – a perder nesse envolvimento. Mesmo que fique claro que a vida de Noah é a menos interessante (ele é o típico homem em crise de meia-idade que já não nutre mais entusiasmo pela mulher rica e pelos quatro filhos pequenos e adolescentes), fica claro que existem sim aspectos complexos a serem abordados, como a sua eterna vontade de significar algo para alguém em sua derrotada carreira de escritor e o fato de que, após uma longa vida seguindo todas as regras e realizando as vontades dos outros, sente finalmente o desejo de transgredir ou achar uma voz que seja realmente sua.

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Alison (Ruth Wilson) e o marido Cole (Joshua Jackson): nas costas dele, uma tatuagem que lembra a tragédia que abalou a relação. Na versão de Alison, os conflitos são mais complexos e densos.

Driblando as obviedades envolvendo Noah e encontrando diferentes possibilidades para esse personagem que não se revela necessariamente um cretino mas sim apenas um homem confuso, The Affair, no entanto, concentra a maior parte de sua complexidade em Alison. E não é só por ela estar vivendo um luto interminável iniciado todos os dias quando acorda e vê o nome de seu falecido filho tatuado nas costas do marido que a personagem vivida por Ruth Wilson interessa mais dramaticamente. O luto em si funciona, na realidade, como influenciador direto nas decisões de Alison. Ela se envolve com Noah por carência? Por raiva da vida? Por amor mesmo? Ou simplesmente por atração sexual? Sua insegurança e principalmente seu comportamento inconstante são claras consequências de uma mulher que, após uma tragédia inimaginável como a que viveu, de repente já não se reconhece mais. Assim como Noah, Alison tenta achar algo de novo na vida. Talvez aí resida a crucial intersecção dos dois. 

Ter duas visões ao longo de um episódio enriquece The Affair porque a série não reprisa simplesmente as cenas, mas reconstrói o diálogos e por vezes muda drasticamente a abordagem dependendo do personagem. Cabe a você decidir qual foi o tom de uma conversa e a intensidade de um acontecimento, por exemplo. The Affair nunca julga seus protagonistas e deixa para que o espectador o faça. Tais questões muitíssimo delicadas quase se dilui em uma ideia simplória: a de construir a trama a partir de um misterioso – e suposto – assassinato. Já vimos essas idas e vindas no tempo para explicar um crime várias vezes e aqui os roteiristas simplesmente não souberam lidar bem com a ideia. Não espere uma revelação instigante envolvendo a identidade da vítima ou muito menos resoluções mirabolantes para a situação, até por que ainda há muito a ser respondido na segunda temporada. Infelizmente, a investida frustra, tira tempo da série e nada acrescenta à construção dramática da história. 

The Affair ainda encontra fragilidades nos fáceis estereótipos que cria da mãe megera e indiferente ou da filha adolescente aborrecida que não se comunica com os pais. Na construção de cenas decisivas também tem seus deslizes, como quando coloca um personagem frente a uma arma que o faz tomar uma importante decisão que deveria acontecer de maneira menos extrema e mais inteligente. Coisa de novela mexicana. Mas muito além da decepção final envolvendo o desfecho e as bobeiras relacionadas aos personagens coadjuvantes, The Affair deixa boas lembranças quando vista como um todo. Ao passo que Dominic West e Ruth Wilson conduzem com segurança seus difíceis personagens (especialmente ela), a série, vale repetir, tem seu grande valor por escapar conceitualmente de escolhas fáceis. Agora, se o material rende outra temporada de qualidade como essa… Bom, aí é outra discussão. E o histórico da emissora não entusiasma.

Annie

I’m putting on my best show under the spotlight.

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Direção: Will Gluck

Roteiro: Aline Brosh McKenna e Will Gluck, baseado nos desenhos “Little Orphan Annie” e no texto teatral homônimo de Thomas Meehan

Elenco: Quvanzhané Wallis, Jamie Foxx, Cameron Diaz, Rose Byrne, Bobby Cannavale, David Zayas, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Zoe Margaret Colletti, Nicolette Pierini, Eden Duncan-Smith, Amanda Troya, Dorian Missick, Tracie Thoms

EUA, 2014, Comédia/Musical, 118 minutos

Sinopse: Annie (Quvenzhané Wallis) é uma jovem órfã que vive em um orfanato comandado com mão de ferro pela senhora Hannigan (Cameron Diaz). Sua vida muda ao ser escolhida para passar alguns dias na mansão de um milionário político (Jamie Foxx), onde acaba fazendo amizade com seus funcionários e sendo usada para fins eleitoreiros. (Adoro Cinema)

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Will Gluck é um diretor que sabe dialogar com o grande público. Ao criar obras previsíveis e até mesmo manjadas mas devidamente agradáveis, Gluck construiu certa linearidade em sua carreira com filmes como Amizade ColoridaA Mentira. É só você não exigir muito dele que a diversão está garantida. Por isso, ele parecia ser o nome certo para comandar a nova versão cinematográfica Annie, espetáculo da Broadway já adaptado anteriormente para o cinema em 1982 e para a TV em 1999. A teoria é endossada pelos primeiros minutos de filme, onde acompanhamos a protagonista Annie (Quvanzhané Wallis) em seu último dia de aula antes das férias cantando nas ruas de Nova York e no apartamento onde mora com suas amigas órfãs sob a tutela de uma impostora (Cameron Diaz). As passagens são repletas de graça e inocência, com uma linguagem que teria colocado Annie, anos atrás, como um verdadeiro clássico infantil da Sessão da Tarde. Tudo funciona até. Já quando o filme começa a construir uma história, o jogo inverte por completo.

Seria maravilhoso ver Annie se tornar uma fábula contemporânea para os pequenos, que estão cada vez mais carentes de obras populares com pequenas mas importantes lições. Também seria um alento curtir um musical descontraído, leve e inocente ao estilo Hairspray – Em Busca da Fama. Tudo isso era possível em Annie, mas é curioso ver como Gluck acerta no tom empregado em sua direção mas peca demais na adaptação do texto feita em parceria com Aline Brosh McKenna (cujo trabalho mais célebre no cinema foi o roteiro de O Diabo Veste Prada). A refilmagem, toda embalada para dar certo, frustra com um conteúdo frágil demais para sustentar a atenção de qualquer pessoa. Na jornada da garotinha órfã em busca dos pais que esbarra na vida de um candidato a prefeito (Jamie Foxx) sedento por uma novidade para impulsionar sua campanha, não existem grandes originalidades. O problema, porém, não é a ausência delas, mas sim a falta de consistência da história, que resulta vazia e desinteressante. 

Fora as transformações óbvias ou repentinas dos personagens,  pouco acontece em Annie - e isso é um verdadeiro problema para um longa de quase duas horas que pede ao espectador que compre a ingenuidade de uma trama infantil e, principalmente, toda a cantoria de um musical. Haja paciência. Com as situações rasas, a fragilidade se estende, infelizmente, ao lado musical, que não chega a ter canções particularmente empolgantes. Claro que aqui estamos falando de um musical que, mesmo tendo que conquistar os ouvidos (principalmente dos pequenos), utiliza a música basicamente como uma ferramenta narrativa, mas, dada a falta de força da história, a sensação é que os atores começam a cantar simplesmente do nada – e o pior: sobre trivialidades, com destaque para o tedioso dueto de Wallis e Foxx admirando Nova York em um voo de helicóptero.

Quem Annie pensou que agradaria com esse resultado? Os pequenos? Certamente não, pois o filme não chega a ser um passatempo infantil de bom ritmo para prendê-los frente à tela. Os adultos? Muito menos, pois para eles fica ainda mais evidente as a ausência de uma história interessante. Em termos de elenco, os atores também não ajudam: se a pequena Quvanzhané Wallis tem a graça necessária para o papel que nada exige além da já esperada naturalidade para alguém de sua idade, o resto do elenco sofre com uma das piores interpretações da carreira de Cameron Diaz (achando que, para interpretar uma vilã, precisa de infinitas caras e bocas – uma decisão que lhe valeu uma merecida indicação ao Framboesa de Ouro de pior atriz coadjuvante) e com a habitual repetição de Jamie Foxx, que, fora Django Livre, pouco fez de relevante em sua carreira depois do Oscar por Ray.

Frustra Annie alcançar esse resultado completamente irregular porque que existe um realizador ideal atrás das câmeras para uma história como essa. Dessa vez, no entanto, Will Gluck não colheu bons frutos: o musical não fez sucesso nos Estados Unidos (mesmo sendo um espetáculo bem sucedido na Broadway), foi lembrado entre os indicados do Framboesa de Ouro como pior remake e aqui no Brasil passou completamente despercebido pelas salas de cinema (decepcionando também a própria distribuidora, que resolveu lançar o filme apenas com cópias dubladas, em uma clara intenção de alcançar o grande público). Mereceu o fracasso. Aguentar uma história tão frouxa permeada por canções que pouco acrescentam narrativamente ou como diversão para os ouvidos é complicado. Uma chance desperdiçada.

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