Cinema e Argumento

Elle

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Direção: Paul Verhoeven

Roteiro: David Birke, baseado no livro “Oh…”, de Philippe Djian

Elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Virginie Efira, Judith Magre, Christian Berkel, Jonas Bloquet, Alice Isaaz, Vimala Pons, Raphaël Lenglet, Arthur Mazet 

França/Alemanha/Bélgica, 2016, Drama/Suspense, 130 minutos

Sinopse: Michèle (Isabelle Huppert) é a executiva-chefe de uma empresa de videogames, a qual administra do mesmo jeito que administra sua vida amorosa e sentimental: com mão de ferro, organizando tudo de maneira precisa e ordenada. Sua rotina é quebrada quando ela é atacada por um desconhecido, dentro de sua própria casa. No entanto, ela decide não deixar que isso a abale. O problema é que o agressor misterioso ainda não desistiu dela. (Adoro Cinema)

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O plano inicial era ambientar Elle nos Estados Unidos com os personagens, claro, falando inglês. No entanto, o diretor Paul Verhoeven sofreu para encontrar uma protagonista que topasse embarcar no projeto. E isso não é exagero: você consegue imaginar um filme recusado por Julianne Moore, Nicole Kidman e Kate Winslet, atrizes reconhecidas por eventuais papeis despidos de vaidade e atraídas por projetos transgressores? Segundo Verhoeven, que, junto aos produtores, ainda abordou nomes como Cate Blanchett e Sharon Stone, a situação que se repetia na maioria dos casos era a seguinte: as atrizes recusavam o roteiro já em uma primeira leitura ao invés de, como é de praxe, esperar alguns dias para dar um retorno negativo.

Com tantas recusas, Elle foi transferido para a França, onde finalmente encontrou Isabelle Huppert, atriz que, antes mesmo de chegar ao roteiro, havia lido a obra original (o romance “Oh…”, escrito por Philippe Djian) e acreditava que aquele era um papel que precisava interpretar. Pode ser que outras atrizes tenham rejeitado o projeto simplesmente por questão de agenda (o que seria uma coincidência tremenda, dada a declaração de Verhoeven sobre o roteiro ser muitas vezes descartado já em um primeiro contato), mas o nome de Huppert aponta para uma tese clara: talvez somente ela, a atriz mais corajosa da Europa, teria mesmo aceitado personificar Michèle Leblanc, a protagonista incrivelmente desafiadora de Elle.

Ironicamente, no final das contas, Elle é um trabalho de pegada muito mais européia do que norte-americana, começando pela ideia de que, como define a própria Huppert, o filme se apoia não em uma história, mas em uma personagem, traço muito característico do cinema europeu. Essa categorização é fundamental para compreender que, antes do thriller que estabelece envolvendo a desconhecida identidade de um estuprador, Elle é sobre as múltiplas e contraditórias facetas de uma mulher que já é um mistério por si só: deixando de lado a necessidade de causar simpatia no espectador para apostar nas imperfeições do realismo (e não é aí que residem os grandes papeis?), Michèle Leblanc se apresenta como uma pessoa que, ao reagir de forma inesperada após um ato de violência, é imprevisível em atos e pensamentos, desde a convivência com seus funcionários no trabalho até os julgamentos que faz acerca da vida sexual da mãe.

Sem nunca utilizar o estupro como ferramenta de vitimização para uma personagem de conduta frequentemente questionável, Elle se engrandece menos quando quer fazer mistério sobre o ato de violência em questão e mais quando documenta os dias de uma mulher que vive a partir de suas próprias regras. Um exemplo disso é como a agressão pode ser vista sob a luz do próprio passado da protagonista, que esconde um grande trauma envolvendo o pai ausente. Não seria a atípica reação de Michèle ao estupro uma forma de ela também tentar entender a conturbada índole de seu progenitor? A violência está frequentemente em pauta no roteiro de David Birke, e ela funciona melhor como uma forma de enriquecer as complexidades de uma mulher madura e solitária cujos ímpetos sexuais ainda são decisivos em suas atitudes (algo que raramente o cinema gosta de discutir em personagens como essa). 

Só que Michèle Leblanc é uma figura que, na vida real, causaria aversão em quase todos nós. Ao passo em que é vitoriosa na vida profissional como a prestigiada executiva-chefe de uma empresa de videogames  (o que não a livra de ter que às vezes levantar a voz para lembrar seus funcionários sobre quem manda no recinto, iluminando a questão de gênero no ambiente de trabalho), a protagonista encara as relações humanas a partir de um modelo próprio e que julga ser o ideal. Intolerante, não economiza ironias para desprezar as decisões do filho, abre mão de cerimônias e pesos de consciência para admitir erros e traições e diz qualquer coisa que venha à cabeça, o que a torna uma figura bela (e quem sabe evoluída) pela inabalável franqueza ou profundamente desumana por não considerar outros sentimentos que não sejam os dela.

Não há redenção para a protagonista de Elle – nem mesmo com a questão do estupro vindo à tona -, o que torna a missão de interpretá-la um desafio dos mais complexos. E Isabelle Huppert, atriz especialista em personificar tipos “difíceis” como esse, sabe transformar Michèle Leblanc em uma mulher fascinante do ponto de vista dramático (e até cômico, já que o longa também é munido de um humor muito peculiar) ao invés de simplesmente reduzi-la ao status de ser humano desprezível por suas atitudes desregradas. Hoje é difícil imaginar qualquer atriz em seu lugar, pois o trabalho realizado aqui é de quinta grandeza e principalmente de total imersão em uma personagem que nunca é (e nem precisa) ser justificada ou redimida pelo roteiro. Huppert, que nunca busca tornar sua personagem palatável ao público, traz uma belíssima adição ao rol de papeis femininos fortes de 2016. Não à toa, ela e Sonia Braga (Aquarius) foram as divas mais aplaudidas no último Festival de Cannes por suas atuações.

Em um filme onde o fascínio se encontra no mundo feminino (todos os homens são fracos ou medíocres), outra qualidade se sobressai na construção dramática de Elle: a do diretor Paul Verhoeven em nunca armar um circo a partir dos inúmeros acontecimentos propostos pelo roteiro. São várias as tragédias pessoais vividas pela protagonista, o que felizmente não torna o conjunto implausível ou inverossímil. Pelo contrário: tudo serve para complementar as complexidades de um relato que, assim como o recente O Silêncio do Céu, parte de um estupro, mas nunca se torna necessariamente um filme sobre estupro. Experiência bastante desafiadora para a plateia, Elle, no entanto, é plenamente recompensador para quem aceita ser provocado. Se esse for o seu caso, pode acreditar: teremos longas e instigantes conversas sobre a obra durante um bom tempo.

Na coleção… Longe do Paraíso

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Julianne Moore vivia a era de ouro de sua carreira com Longe do Paraíso, filme que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza e uma indicação ao Oscar de protagonista no mesmo ano em que concorria como coadjuvante por As Horas.

Hoje é impossível voltar no tempo para revisitar Longe do Paraíso sem vê-lo como o irmão primogênito de Carol. Em ambos os filmes, o diretor Todd Haynes coloca os anos 1950 de forma romantizada na tela para falar sobre preconceitos, mas com uma diferença fundamental para distinguir as duas obras na forma: enquanto o filme protagonizado por Cate Blanchett e Rooney Mara lançado este ano nos cinemas brasileiros evidencia o preconceito com a homossexualidade a partir de uma história de amor muito íntima e pessoal, o drama estrelado por Julianne Moore em 2003 opta pelo olhar mais amplo da sociedade, onde a protagonista, uma dona-de-casa que estampa colunas sociais por sua devoção ao lar e à família, é julgada pela opinião alheia e vê sua vida ser desconstruída quando descobre a verdadeira natureza sexual do marido ao mesmo tempo em que passa a se relacionar de forma “questionável” para os padrões da época com o seu jardineiro negro.

No centro de Longe do Paraíso estão os preconceitos e as contradições de uma conservadora população norte-americana (e por que não mundial?) dos anos 1950. Que sentido existe no posicionamento dos estadunidenses que abandonam uma piscina após a entrada de um negro na água, mas não hesitam em comer uma refeição preparada pela empregada negra uniformizada? E qual a real carga de preconceito existente no comentário aparentemente corriqueiro da melhor amiga que diz respeitar homossexuais, mas preferir “homens que são homens”? Nada panfletário ou gratuito ao abordar esses temas, Haynes acerta mesmo quando resolve ser mais expositivo, compensando a simplicidade do roteiro escrito por ele com uma direção que, cheia de estilo, engrandece o seu próprio texto. 

Frequentemente criticado por romantizar e florear demais a década de 1950 (e que mal há nisso?), o californiano usa estilo com inteligência – e, francamente, só implica mesmo quem quer: se Carol embeleza todo e qualquer frame, é porque faz todo sentido, já que estamos acompanhando o nascimento de uma paixão através dos olhos de uma jovem em plena descoberta amorosa; já em Longe do Paraíso, ele faz uma carta de amor ao cinema da década em questão, compondo o visual da obra com todas as características de uma produção daquela época. É como se a história realmente se teletransportasse para o passado tamanha a fidelidade estética, contemplando desde a perfeita estilização dos créditos iniciais à linda fotografia de Edward Lachman trabalhada toda a partir de equipamentos, lentes e técnicas características do fazer cinematográfico dos anos 1950. Novamente, toda a estilização está a serviço de uma inteligência muito maior. 

Contudo, seria fácil reduzir Longe do Paraíso a um filme meramente estético (os figurinos de Sandy Powell e a trilha de Elmer Bernstein também são fantásticos), pois toda essa romantização, além de servir como homenagem cinematográfica, age como um grande complemento narrativo para a vida cercada de aparências da protagonista. É notável a trajetória da Cathy Whitaker de Julianne Moore (o papel foi escrito especialmente para a atriz), que começa o filme perturbada com a descoberta da homossexualidade do marido e aos poucos percebe que a melhor saída para a sua vida é deixar de ser apenas “a grande mulher por trás de um grande homem”.

Interpretada magistralmente por Moore, que vivia a era de ouro de sua carreira (naquela temporada, conquistava Veneza por Longe do Paraíso e Berlim por As Horas), Cathy se descobre uma mulher à frente do seu tempo, o que, assim como em Carol, revela-se dolorosamente trágico. Não é fácil se apresentar ao mundo como realmente somos, e não há romantização que possa amortecer essa tristeza ainda tão presente nos dias de hoje, quando a paixão e a sexualidade alheia ainda são misteriosamente julgadas pela sociedade. Homossexual assumido, Todd Haynes sempre soube dessa batalha. E ele tem toda razão em tornar uma realidade triste por si em algo mais bonito, palatável e, por que não, idealizado. Afinal, às vezes, relatos como o de Longe do Paraíso precisam realmente de algum tipo de alento frente à dura realidade, seja ela a dos anos 1950 ou a de agora.

Doutor Estranho

We never lose our demons. We only learn to live above them.

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Direção: Scott Derrickson

Roteiro: C. Robert Cargill, Jon Spaihts e Scott Derrickson, baseado nos quadrinhos de Steve Ditko

Elenco: Benedict Cumberbatch, Tilda Swinton, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, Benjamin Bratt, Michael Stuhlbarg, Scott Adkins, Alaa Safi, Katrina Durden, Topo Wresniwiro

Doctor Strange, EUA, 2016, Aventura, 115 minutos

Sinopse: Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) leva uma vida bem sucedida como neurocirurgião. Sua vida muda completamente quando sofre um acidente de carro e fica com as mãos debilitadas. Devido a falhas da medicina tradicional, ele parte para um lugar inesperado em busca de cura e esperança, um misterioso enclave chamado Kamar-Taj, localizado em Katmandu. Lá descobre que o local não é apenas um centro medicinal, mas também a linha de frente contra forças malignas místicas que desejam destruir nossa realidade. Ele passa a treinar e adquire poderes mágicos, mas precisa decidir se vai voltar para sua vida comum ou defender o mundo. (Adoro Cinema)

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Vem de longa data a minha rejeição aos filmes baseados em histórias de quadrinhos, e isso não tem nada a ver com qualquer aversão aos personagens em si ou ao fato de que as adaptações dão origem, em sua quase totalidade, a blockbusters meramente descompromissados. Não há problema algum em abraçar a diversão pela diversão. Minha rejeição vem pela constante redundância dessas obras. Mercadologicamente, é inevitável que cada vez mais tenhamos aventuras derivadas de HQ’s e que todas elas, apesar de seus universos e heróis distintos, assemelhem-se em estrutura porque o alto investimento dos estúdios precisa ter resultados financeiros – e é fácil reconhecer a fórmula que o público gosta para mantê-la em looping. Já artisticamente, o cansaço também é compreensível: como não ser um geek e ainda ter expectativas ou até mesmo paciência com filmes que apenas se encaixam dentro de uma mesma cartilha repetida há anos? Pois Doutor Estranho invade os cinemas provando que não é necessário fazer escolhas tão diferentes para entregar uma experiência indiscutivelmente acima da média para o gênero.

O que pode parecer apenas um detalhe se revela um acerto fundamental na mistura diferenciada do filme dirigido por Scott Derrickson: o elenco. Habitualmente estreladas por atores reconhecidos mais pela beleza ou pela famosidade do que propriamente pela excelência em atuação (Chris Hemsworth, Ryan Reynolds, Henry Cavill, Chris Evans), as adaptações de quadrinhos raramente ganham pontos nesse quesito. Pode ser que Robert Downey Jr. tenha carisma como o Homem de Ferro ou que Hugh Jackman já tenha criado suas marcas como Wolverine. No entanto, são raros os casos como o de Doutor Estranho, onde todos os atores do elenco vêm de uma boa trajetória no cinema ou na TV e conferem uma verossimilhança significativa aos seus personagens ao invés de apenas ligarem o piloto-automático no meio de tantos uniformes e efeitos especiais. O resultado é visto na prática, em especial nas figuras de Benedict Cumberbatch, que é ótimo ao dar visceralidade a um personagem que carrega o arco dramático clichê do homem arrogante que precisa passar por uma tragédia para se transformar, e de Tilda Swinton, sempre distribuindo versatilidade (e dubiedade, quando preciso) para até mesmo emocionar em sua cena derradeira. Inclua ainda nomes Rachel McAdams, Mads Mikkelsen e Chiwetel Ejiofor na mistura e encontre um elenco seguro, consistente e realmente diferenciado.

Dos tradicionais cenários estadunidenses que são destruídos a cada lançamento, vamos para o Nepal (e um pouco mais além para Hong Kong), onde a geografia asiática se torna a circunstância perfeita para uma trama que não se origina a partir de experimentos tecnológicos e muito menos evolui em função de vilões com planos hiperbólicos: Doutor Estranho é sobre um neurocirurgião que, ao sofrer um grave acidentes nas mãos, viaja o mundo para corrigir sua nova incapacidade física com a ajuda de um misterioso grupo que está muito mais para o plano espiritual do que para o prático – e é por causa dessa abordagem que a experiência se torna, na medida do possível, uma aventura muito mais identificável a todos nós, pois, assim como Stephen Strange (Cumberbatch), embarcamos na jornada realmente nos questionando sobre tudo aquilo que não sabemos e que supostamente sempre subestimamos ser possível. O desconhecimento desse mundo de explicações menos racionais é a porta de entrada para uma ação mitológica em que personagens passam a adquirir poderes imprevisíveis: ao mesmo em que um portal para o outro lado do planeta pode se abrir com um simples movimentos das mãos, toda uma cidade fica literalmente de ponta-cabeça quando esses poderes se aperfeiçoam com a prática. Tal imprevisibilidade encanta em termos de adrenalina porque tudo pode acontecer na luta entre dois personagens que conseguem tornar realidade basicamente tudo aquilo que é imaginação.

Com uma carreira que evidencia seu talento para contar histórias focadas mais em pessoas do que em artificialidades (enquanto o remake da ficção O Dia em Que a Terra Parou é uma tremenda decepção, O Exorcismo de Emily Rose é uma marco por ter uma pegada até mais dramática do que de terror), Scott Derrickson nunca cria um filme esteticamente fake mesmo com a obrigatoriedade do espetáculo visual: as cenas em que os cenários se deslocam como em A Origem, de Christopher Nolan, são realmente impressionantes, mas todas as outras também são bem executadas, o que é reflexo de uma parte técnica frequentemente criativa (nesse aspecto podemos citar ainda a ótima trilha sonora assinada por Michael Giacchino). Derrickson orquestra tudo com competência – inclusive o elenco, já que, vale lembrar, nada adianta um casting incrível se um diretor que não sabe conduzi-los, como no desastroso Esquadrão Suicida –, e o resultado se reflete muito além das bilheterias: até a data de publicação desse texto, Doutor Estranho alcança a marca de 90% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes em um universo de mais de 250 avaliações. Reconhecimento merecido e diversão mais do que garantida para você que, assim como eu, precisa de muita boa vontade para conferir um filme de super herói.

Animais Fantásticos e Onde Habitam

So you’re the guy with the case full of monsters?

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Direção: David Yates

Roteiro: J.K. Rowling

Elenco: Eddie Redmayne, Dan Fogler, Colin Farrell, Ezra Miller, Samantha Morton, Zoë Kravitz, Jon Voight, Katherine Waterston, Alison Sudol, Carmen Ejogo, Kevin Guthrie, Johnny Depp, Gemma Chan

Fantastic Beasts and Where to Find Them, EUA/Reino Unido, 2016, Aventura, 133 minutos

Sinopse: O excêntrico magizoologista Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega à cidade de Nova York levando com muito zelo sua preciosa maleta, um objeto mágico onde ele carrega fantásticos animais do mundo da magia que coletou durante as suas viagens. Em meio a comunidade bruxa norte-america, que teme muito mais a exposição aos trouxas do que os ingleses, Newt precisará usar todas suas habilidades e conhecimentos para capturar uma variedade de criaturas que acabam fugindo. (Adoro Cinema)

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Colosso literário e cinematográfico, a saga Harry Potter teve trajetória singular por acompanhar seu público ao longo dos anos. Enquanto as livrarias receberam a história assinada por J.K. Rowling durante uma década, o cinema coincidentemente atravessou o mesmo número de anos ao produzir adaptações, o que permitiu que tanto a escritora quanto os diferentes cineastas que capitanearam os filmes desbravassem os perfis de leitores e espectadores que embarcaram na história ainda crianças e se despediram dela já na vida adulta. Se regular a batida de uma trama acompanhando as rápidas transformações de uma geração foi uma difícil tarefa cumprida com proeza por Harry Potter, a situação é mais difícil agora com Animais Fantásticos e Onde Habitam, longa que não é uma sequência ou um prequel dos filmes anteriores, mas sim uma extensão independente ambientada no mesmo universo. Afinal, qual é o diálogo a ser estabelecido com um público agora adulto mas para sempre nostálgico com o material que marcou milhões de infâncias e adolescências? David Yates, que dirigiu os quatro últimos filmes de Harry Potter, não titubeou: novamente no comando do universo bruxo, o britânico opta por uma concepção visual indiscutivelmente taciturna para uma história que procura ser mais pessoal do que grandiloquente.

Há feitiços, criaturas imensas e inúmeras possibilidades imaginativas em Animais Fantásticos e Onde Habitam, mas esse é um filme centrado em pessoas. A caça quase literal às bruxas em uma Nova Iorque dos anos 1920 dá o tom para o conflito coletivo, tornando-se a porta de entrada para a agora roteirista J.K. Rowling – que também produz o filme – seguir o caminho oposto e se atentar a universos particulares. Da personalidade tímida mas inteligente do protagonista Newt Scamander (Eddie Redmayne) à jornada dramática do sofrido Credence (Ezra Miller), Rowling dá uma certa desacelerada na ação para apostar no drama e no humor de seus personagens. Se na saga Harry Potter seria estranho constatar tantos holofotes para uma figura como Jacob Kowalski (Dan Fogler, ator com excelente tino para o humor), aqui descobrimos que sua apenas aparente função de alívio cômico se transforma em puro afeto quando, ao final, é possível até mesmo se emocionar com uma cena protagonizada por ele sob uma simbólica chuva. Neste sentido, Rowling preservou no cinema aquela que é uma de suas maiores qualidades como escritora: a de criar personagens envolventes e funcionais mesmo quando, em um primeiro julgamento, eles possam parecer descartáveis ou até mesmo rejeitáveis.

Ironicamente, é por ter J.K. Rowling como única roteirista que Animais Fantásticos e Onde Habitam se estagna. Irrepreensível ao conceber universos e tecer metáforas para suas tramas e personagens, Rowling, no entanto, pouco acerta no desdobramento das bases que cria. Fazer literatura é bem diferente de escrever um roteiro para o cinema, e o que acontece nesse filme é que todo o contexto é promissor, mas a sensação de que nada realmente se cumpre é eterna. Se por um lado é louvável a opção de Rowling por se afastar ao máximo da identidade de Harry Potter, por outro é claro que a escritora-roteirista é frágil ao conceber um novo universo com a dinâmica necessária para as telas. Ainda temos quatro filmes pela frente, o que, ao invés de justificar a falta de consistência da história desse primeiro volume, apenas causa desconfiança, já que Animais Fantásticos e Onde Habitam é um filme que se resolve sozinho com início, meio e fim bem definidos, deixando alguns ganchos, é verdade, mas nenhum deles particularmente sólido para que, por ora, se justifiquem tantas outras sequências que estão por vir. É importante ter em mente que a própria Rowling continuará assinando os roteiros, e esse controle, como já se percebe no primeiro volume, pode ser um verdadeiro empecilho para uma plataforma que exige domínio de um outro tipo de linguagem que não é a especialidade da britânica. Afinal, é preciso reconhecer: Harry Potter não foi um hit cinematográfico somente em função dos livros que deram origem à saga. A transposição também foi peça fundamental nesse sucesso.

O controle quase excessivo de Rowling pelo material obviamente limita o trabalho de um diretor como David Yates, que faz “cinemão”, mas, ainda assim, procura sempre entregar algo mais sofisticado e de personalidade. Há um descompasso entre os dois que prejudica a experiência, uma vez que é frequente a tentativa de Yates de tentar compensar os vazios do texto com apelo gráfico (a história não precisava de uma nuvem de CGI destruindo toda uma cidade com tanto barulho), endossando a ideia de que Rowling sabe criar o entorno com bons personagens e simbologias, enquanto o centro patina e precisa ser compensado com ferramentas cinematográficas que, na verdade, não deveriam ter a responsabilidade de preencher lacunas e sim complementar o que se vê na tela em termos de movimentos narrativos. A falta de um verdadeiro roteirista de cinema dá a Animais Fantásticos e Onde Habitam um ritmo bastante irregular, onde uma grande história fica só na promessa e um diretor competente pouco consegue criar com o material rasteiro, já que discussões como a do protagonista querer provar a todos que os animais devem ser salvos e não exterminados são constantemente esquecidas. Ainda assim, Yates novamente é impecável ao se utilizar do design de produção sempre impressionante de Stuart Craig e da boa fotografia agora assinada por Philippe Rousselot (vencedor do Oscar por Nada é Para Sempre em 1993).

Quem também ajuda a compensar os defeitos e confere grande diversão e carisma a Animais Fantásticos e Onde Habitam é o elenco encabeçado por Eddie Redmayne, que, segundo Rowling, foi, desde o início, a primeira e única escolha para o papel do protagonista. Amplamente detratado pelo Oscar de melhor ator que levou por A Teoria de Tudo e por sua performance em A Garota Dinamarquesa (gosto do britânico em ambos), Redmayne prova aqui que suas celebrações não vieram à toa nos últimos anos: com doçura, cria um herói quase sensível, frágil e desengonçado, aproximando seu Newt Scamander do público como uma figura verossímil e carismática. Ele ainda se sobressai por não se deixar ofuscar pelo surpreendente elenco de coadjuvantes, que traz Ezra Miller e Colin Farrell com certeiras personificações, mas também gratas revelações, como o ótimo Dan Fogler (que, por seu talento e pela esperteza do texto, funciona perfeitamente como um irresistível alívio cômico) e a sensível Katherine Waterston, que, assim como Redmayne, opta por trazer a sua sensível Tina para o plano realista ao conferi-la uma construção de fácil identificação. Todos eles nos remontam à tese inicial desse texto de que o longa é um relato primeiro sobre pessoas e depois sobre espetáculos visuais. Quando fala, por exemplo, sobre amores, afetos, preconceitos e intolerância, seja individualmente ou no coletivo, J.K. Rowling acerta demais. O que falta mesmo é alguém para compensar as arestas deixadas por ela e consolidar a sensação de que, apesar dos vazios, Animais Fantásticos e Onde Habitam escapa do oportunismo e tem sim coisas diferentes a dizer.

A Garota no Trem

I want to start my life over again.

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Direção: Tate Taylor

Roteiro: Erin Cressida Wilson, baseado no livro homônimo de Paula Hawkins

Elenco: Emily Blunt, Justin Theroux, Rebecca Ferguson, Haley Bennett, Allison Janney, Edgar Ramírez, Lisa Kudrow, Luke Evans, Cleta Elaine Ellington, Rachel Christopher, Gregory Morley

The Girl on the Train, EUA, 2016, Drama/Suspense, 112 minutos

Sinopse: Rachel (Emily Blunt), uma alcoólatra desempregada e deprimida, sofre pelo seu divórcio recente. Todas as manhãs ela viaja de trem de Ashbury a Londres, fantasiando sobre a vida de um jovem casal que vigia pela janela. Certo dia ela testemunha uma cena chocante e mais tarde descobre que a mulher está desaparecida. Inquieta, Rachel recorre a polícia e se vê completamente envolvida no mistério. (Adoro Cinema)

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É preciso cautela na hora de acusar um filme de plágio, seja ele temático ou até mesmo estético, porque são muitas as variáveis e as coincidências envolvendo as produções audiovisuais, principalmente em tempos de democratização das tecnologias e das plataformas on demand. No entanto, existem casos específicos em que fica difícil defender tal ideia tamanha a infinidade de semelhanças entre uma obra em questão e outras realizadas previamente. A Garota no Trem, que adapta o best-seller homônimo de Paul Hawkins, se encaixa nesse grupo ao tentar reproduzir, em estilo e narrativa, tudo o que deu certo no fantástico Garota Exemplar, de David Fincher. Só que faltou uma atenção maior do diretor Tate Taylor e da roteirista Erin Cressida Wilson para o fato de que o texto original de Paula Hawkins está bem longe de ser tão provocativo e sofisticado quanto o de Gillian Flynn para o filme estrelado por Rosamund Pike em 2014.

Ao tratar novamente do desaparecimento de uma mulher suburbana em meio a um casamento aparentemente feliz mas frequentemente conturbado, A Garota no Trem procura se cercar, como se já não bastasse a aproximação temática, de todos os elementos estéticos de Garota Exemplar: da trilha de Danny Elfman (como um veterano como ele se entrega ao mero exercício da cópia?) à fotografia assinada por Charlotte Bruus Christensen (que trabalhou com ninguém menos do que Thomas Vinterberg no ótimo A Caça), tudo é carente de personalidade própria nessa adaptação. A fragilidade dessa concepção é um claro reflexo da escolha de ter alguém como Tate Taylor na cadeira de direção. Responsável por ter comandado histórias açucaradíssimas (Histórias Cruzadas), biografias de formato clássico (Get on Up: A História de James Brown) e comédias apoiadas na simplicidade (Grace and Frankie), Taylor não tem o pulso firme necessário para uma história complicada e tão suscetível a clichês como a de A Garota no Trem, entregando prematuramente algumas cartas que o próprio roteiro já não faz muita questão de esconder.

Indo à raiz do problema, a história começa optando por um artifício muito cômodo, colocando em cena uma protagonista desmemoriada que, com o desenrolar dos fatos, se vê obrigada a recuperar suas conturbadas lembranças para juntar as peças de um quebra-cabeça. Ainda não ajuda A Garota no Trem ter uma história que exige tanta boa vontade do espectador para acreditar nas inúmeras coincidências de tantas relações e situações desenhadas pelo roteiro, que falha ao dar a carga dramática necessária a uma protagonista desestabilizada (se não fosse por Emily Blunt, a deprimida Rachel seria apenas a caricatura de uma alcoolista que nunca superou um divórcio) e ao fazer um estudo sobre as trágicas consequências da forma desregulada e distorcida com que cada vez mais tratamos os relacionamentos nos dias de hoje. Ao invés disso, A Garota no Trem se preocupa em fazer o básico de um suspense policialesco que termina caindo em armadilhas facilmente evitáveis.

Quando há mistério envolvido em uma trama, é importante considerar outros fatores além dos desdobramentos factuais do texto. A própria produção de um filme pode revelar mais do que os realizadores gostariam, e um dos descuidos básicos é justamente a escalação de elenco. Atentando-se à constatação de que nenhum ator famoso ou de alto calibre está de bobeira ou como figurante em um filme do gênero, você é capaz de matar a charada de A Garota no Trem ainda na metade. Se o final é abrupto e o elenco como um todo não tem muito o que fazer em cena (inclusive uma Allison Janney com o óbvio papel da dedicada detetive), ao menos se preserva o inegável talento de Emily Blunt. Ela, que já brilhava muito antes de suas merecidas indicações ao Globo de Ouro e ao BAFTA de melhor atriz coadjuvante por O Diabo Veste Prada, vem crescendo nos últimos anos em trabalhos bastante distintos: cantou e encantou mesmo em um filme péssimo como Caminhos da Floresta e entregou um dos seus melhores desempenhos no forte Sicario: Terra de Ninguém, citando duas obras recentes. Por superar com folga o próprio filme, Emily Blunt ao menos sai da experiência com um bom acréscimo ao seu currículo. Isso com certeza deve valer alguma coisa.

A Luz Entre Oceanos

You only have to forgive once. To resent, you have to do it all day, every day.

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Direção: Derek Cianfrance

Roteiro: Derek Ciafrance, baseado no livro homônimo de M.L. Stedman

Elenco: Michael Fassbender, Alicia Vikander, Rachel Weisz, Florence Clery, Jack Thompson, Thomas Unger, Jane Menelaus, Garry McDonald, Anthony Hayes, Benedict Hardie, Emily Barclay, Bryan Brown 

The Light Between Oceans, Reino Unido/Nova Zelândia/EUA, Drama, 133 minutos

Sinopse: Austrália, após a Primeira Guerra Mundial. Tom Sherbourne (Michael Fassbender) é um veterano da guerra contratado para trabalhar em um farol, que orienta os navios exatamente na divisão entre os oceanos Pacífico e Índico. Trata-se de uma vida solitária, já que não há outras casas na ilha. Ao chegar Tom é apresentado a Isabel Graysmark (Alicia Vikander), com quem logo se casa. O jovem casal rapidamente tenta engravidar, mas Isabel enfrenta problemas e perde dois bebês – o que, inevitavelmente, provoca traumas. Até que, um dia, surge na ilha em que vivem um barco à deriva, contendo o corpo de um homem e um bebê. Tom deseja avisar as autoridades do ocorrido, mas é convencido por Isabel para que enterrem o falecido e passem a cuidar da criança como se fosse sua filha, já que ninguém sabia que ela tinha tido um aborto. Mesmo reticente, Tom concorda com a proposta. (Adoro Cinema)

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Afeito a dirigir histórias de autoria própria, o diretor e roteirista Derek Cianfrance resolveu fazer algo diferente e trabalhar pela primeira vez com a adaptação de um material já existente. Ele, que recebeu reconhecimento internacional com o forte Namorados Para Sempre e o subestimado O Lugar Onde Tudo Termina, não poderia, por outro lado, ter escolhido um caminho mais atípico para sua nova experiência. Desconheço o conteúdo literário do romance A Luz Entre Oceanos, lançado por M.L. Steadman em 2012, mas, considerando o que Cianfrance coloca na tela, fica evidente que o material é um desvio de percurso na carreira de um profissional que vinha construindo uma carreira formada por obras criativas e até mesmo subversivas.

Antes das discussões envolvendo sua qualidade, A Luz Entre Oceanos ganha manchetes por ser a obra que juntou o casal Alicia Vikander e Michael Fassbender na vida real, e não deixa de estar evidente, ao longo da projeção, que o casal realmente tem uma boa química, mas o que causa estranhamento mesmo é o tom altamente novelesco e melodramático do filme. Não há problema algum em abordar uma história sob esse viés quando existe emoção, originalidade ou simplesmente uma força maior do que a média para encenar situações convencionais. O que acontece é que A Luz Entre Oceanos se revela previsível do início ao fim com um material frágil demais para sustentar um longa que excede 130 minutos. Afinal, tudo o que é desenvolvido está, sem tirar nem por, na sinopse. Não há qualquer desdobramento mais complexo ou leituras reveladoras, frustrando quem espera, a cada cena, por uma reviravolta diferente das que podemos prever a anos luz de distância. Reviravolta essa que, infelizmente, nunca chega.

Por mais que a forma clássica e novelesca não seja uma grande aptidão de Cianfrance, A Luz Entre Oceanos consegue criar boas expectativas em seu primeiro terço. Muito se deve à construção do romance entre os protagonistas Tom Sherbourne (Fassbender) e Isabel Graysmark (Vikander), duas pessoas solitárias em suas particularidades e que possuem em comum a tragédia: enquanto ele ainda enfrenta os fantasmas da Primeira Guerra Mundial, ela é a única filha que sobreviveu entre as fatalidades envolvendo os irmãos. Cianfrance sabe construir esse romance que acalanta duas vidas marcadas pela dor, aí sim se utilizando da melhor maneira possível das ferramentas melodramáticas para envolver o espectador, indo do clássico beijo no alto de uma montanha à delicadeza de um cotidiano repleto de carinho mesmo nos afazeres mais corriqueiros. O elenco também ajuda, pois Fassbender acerta na composição de um homem cujo semblante reprimido já conota uma história de dores, ao passo que Vikander é muito feliz na criação de uma personagem que floresce para o amor e depois muda conforme as alegrias e dificuldades dele.  

Da elaboração desse romance em diante, A Luz Entre Oceanos só se enfraquece ao desperdiçar boas possibilidades, como trabalhar a desconstrução do romance do casal a partir de um cotidiano isolado em uma ilha ou de tornar mais complexas mudanças de personalidade que, ao invés de ampliarem o que conhecemos de dados personagens, apenas os tornam aborrecidos. Um exemplo disso é o próprio Tom de Fassbender, cujas crises de consciência acerca de uma importante escolha feita com a esposa nunca soam sofisticadas como mereciam. Tudo coopera para que o filme seja uma bonita novela das seis: Vikander e Fassbender são lindos, a fotografia exalta as belas locações, a reconstituição de época é digna e até a trilha de Alexandre Desplat colabora para as lágrimas que muitos devem deixar cair no desfecho. Porém, lembrando de toda emoção franca e madura de Namorados Para Sempre e dos três atos surpreendentes de O Lugar Onde Tudo Termina, falta mesmo algum tipo de vigor para A Luz Entre Oceanos. Aliás, o que falta mesmo é Derek Cianfrance. Espero reencontrá-lo em breve.

King Cobra

Let’s fuck!

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Direção: Justin Kelly

Roteiro: Justin Kelly, baseado no livro “Cobra Killer”, de Andrew E. Stoner e Peter A. Conway

Elenco: Garrett Clayton, Christian Slater, James Franco, Keegan Allen, Alicia Silverstone, Molly Ringwald, Spencer Rocco Lofranco, Sean Grandillo, James Kelley, Edward Crawford, Rosemary Howard

EUA, 2016, Drama, 91 minutos

Sinopse: Brent Corrigan (Garrett Clayton), também conhecido como Sean Paul Lockhart, é uma estrela do mundo pornô gay. Apesar da ascensão rápida, as coisas começam a mudar quando o ator decide trabalhar por conta própria. A partir daí, uma dupla de produtores vê em Corrigan uma oportunidade de lucrar e alavancar a carreira na indústria pornográfica, e faz de tudo para não perder esta chance. (Adoro Cinema)

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Um filme como King Cobra já nasce cercado de expectativas. E também de responsabilidades. As expectativas são para descobrir qual será a abordagem de um tema compartilhado tão cotidianamente na intimidade mundial, mas raramente revelado em uma conversa casual: a pornografia. Já a responsabilidade vem por essa pornografia ser exclusivamente a gay, o que dá aos realizadores o desafio de pensar o retrato de um tema basicamente inédito no cinema e de tentar reparar a covardia de filmes que não sabem lidar com as especificidades da nudez e da sexualidade masculina (ainda acho imperdoável um filme panfletário como Magic Mike ser tão tímido nesse sentido, principalmente por ter uma sequência que não corrigiu os tropeços do filme original). Mais do que despertar a curiosidade de uma significativa parte do público ao trazer para as telas um recorte da vida de Brent Corrigan – que, ainda hoje é considerado um dos mais icônicos atores da história da pornografia gay – King Cobra tinha esses tabus para superar. E o que decepciona no filme dirigido por Justin Kelly não é vê-lo caindo na vala comum de se esquivar de todos eles, mas sim de se atentar apenas racionalmente aos fatos e não ao enorme potencial psicológico e emocional que eles trazem aos personagens.

O momento encenado por King Cobra é delicado: aquele em que o jovem aspirante a cineasta Sean Paul Lockhart (Garrett Clayton) entra no mundo da pornografia gay, ascende no meio como um verdadeiro astro e se vê envolvido em uma relação cheia de vícios com Stephen, dono do estúdio que o coloca no mercado. A situação complica quando Stephen é encontrado morto, o que, segundo os investigadores do caso, foi consequência dos conturbados bastidores de sua vida pessoal e profissional com o ator debutante. A identidade dos assassinos é revelada em King Cobra, mas isso não quer dizer muita coisa, uma vez que o roteiro escrito pelo próprio diretor Justin Kelly com base no livro “Cobra Killer”, de Andrew E. Stoner e Peter A. Conway, captura de forma muito rasa as dimensões dessa tragédia. Para que tivesse o devido impacto, teríamos que compreender melhor as razões que fizeram de Lockhart o ícone Brent Corrigan (somente a beleza é constantemente mencionada, mas não é essa qualidade exclusiva que leva um jovem a estourar como um furacão no mercado pornográfico) e até aprender sobre a dinâmica da indústria, aqui reduzida a produções caseiras de um homem mais velho com uma pequena câmera na mão. Afinal, o que ele e Corrigan fazem de tão especial para ganhar tanto dinheiro? Julgando pelo que é explicado no filme, a questão fica em aberto. Nesse sentido, a referência mais óbvia vem à cabeça: o insuperável Boogie Nights – Prazer Sem Limites, de Paul Thomas Anderson, soberano em todas essas questões.

Quando afirmo que King Cobra é um filme que se desvia da missão de enfrentar os tabus envolvendo a nudez e o sexo masculino, estendo essa crítica à inexplicável economia do diretor e roteirista ao mostrar muito pouco do fazer cinematográfico na pornografia gay e principalmente do sexo também como motivação básica para o universo encenado atrás das câmeras. Ou não é estranho um filme com um tema tão específico se limitar a reproduzir a timidez das cenas de sexo da TV aberta, onde qualquer momento com esse teor acontece embaixo dos lençóis ou com a câmera posicionada bem distante do ponto de ação? Não há dúvidas de que um Azul é a Cor Mais Quente surge muito raramente e que é complicado chegar a uma transgressão quando também é preciso desconstruir a imagem de um astro teen da Disney como Garrett Clayton. Ainda assim, não é justo King Cobra ser um filme tão cheio de amarras, mesmo quando James Franco resolve jogar confetes no projeto (é só o que ele tem feito ultimamente: menos empenho na atuação e mais na polêmica) e quando o tema tem apelo para um público específico. O resultado se reflete na própria distribuição do longa, uma vez que a seleção para o festival de Tribeca parece não ter ajudado a carreira de King Cobra, que estreou em circuito limitado nos Estados Unidos simultaneamente com plataformas on demand como iTunes e Amazon.

O pudor da história poderia ser facilmente contornado se King Cobra se propusesse a fazer um relato mais complexo da vida de Brent Corrigan, que, a partir do texto apresentado pelos roteiristas, não passa de um jovem deslumbrado e facilmente seduzível por compras, dinheiro e oportunidades mais interessantes na carreira. A rasteira dramaticidade se perpetua nos outros personagens: enquando o Stephen de Christian Slater é um mero produtor ganancioso que eventualmente pincela um passado infeliz em diálogos fáceis e expositivos (nunca suficientes para que tenhamos qualquer envolvimento com sua figura), os namorados gays vividos por James Franco e Keegan Allen descambam para caricatura ao serem construídos apenas como dois trambiqueiros destrambelhados, quando, na verdade, são seres humanos completamente perdidos e sabotados por suas equivocadas visões de mundo. Pode até ser que o drama simplificado de King Cobra (ainda vale citar a mãe de Corrigan vivida por Alicia Silverstone, amargando duas cenas quase constrangedoras tamanha a falta de mergulho do texto em suas percepções quanto ao filho) não quisesse dar tanta voz aos dilemas de seus coadjuvantes, mas era obrigatório que fosse mais digno com a viagem emocional de um protagonista que, tão jovem, passou por tanta coisa, indo da fama instantânea ao verdadeiro inferno quando se viu envolvido em um assassinato também resolvido de forma simplista pelo filme.

A abreviação dos dramas frustra, claro, a força do relato e limita, a todo o momento, até o trabalho dos atores. Dois deles, entretanto, acertam tanto em suas criações que conseguem superar as cercas impostas por King Cobra. Destaca-se, por exemplo, como Keegan Allen nunca entra na batida histérica de seu colega James Franco e procura se apoiar em toda a confusão interna de um personagem constantemente manipulado pelo namorado. Enquanto isso, é preciso tirar o chapeu para a interpretação de Garrett Clayton como Brent Corrigan. Seu trabalho não deixa de ser um tanto mais fácil já que o longa pouco coloca o personagem à frente das câmeras como uma estrela pornô (o que exigiria um trabalho muito maior de reprodução de gestos e trejeitos), mas isso não tira os méritos de Clayton, que surpreende ao segurar muito bem o filme com todo o vigor de um jovem em plena descoberta. O ápice da criação do ator é a cena final, que, apesar de tentar emular o momento derradeiro de Boogie Nights em que finalmente é revelado o grande atributo físico de sua estrela pornô, também faz desse o melhor registro de King Cobra: nele, compreendemos quem é a estrela Brent Corrigan, os bastidores de uma produção pornográfica e toda a personalidade de um personagem nunca devidamente explorado. São, enfim, as contextualizações e justificativas que fariam de King Cobra uma experiência mais instigante e menos frustrante.