Cássia

Eu nunca conheci ninguém como a Cássia. Ela era diferente. Ela era melhor.

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Direção: Paulo Henrique Fontenelle

Roteiro: Paulo Henrique Fontenelle

Brasil, 2015, Documentário, 115 minutos

Sinopse: O documentário Cássia retrata o ícone do cenário musical brasileiro nos anos 90. Em sua breve trajetória, Cássia Eller deixou uma marca inegável na cultura do país. Além da projeção musical, sua história pessoal expos tabus e ganhou repercussão nacional após sua morte, quando a guarda de seu filho “Chicão” ficou com sua companheira Maria Eugênia. O filme descreve através dos depoimentos de amigos como Zélia Duncan, Nando Reis e de Maria Eugênia toda a sua trajetória desde o inicio da carreira; além de narrar a personalidade paradoxal de Cássia, contrastando sua timidez e delicadeza com a irreverência e personalidade nos palcos.

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Cássia Eller era um verdadeiro furacão nos palcos. Das performances explosivas à voz inconfundível, mostrou os seios diversas vezes, desafiou o público careta e abriu para todos a sua orientação sexual sem qualquer hesitação. Não era exclusivamente tanta “força”, entretanto, que a tornava única. O mais fascinante sobre Cássia era a sua capacidade de conseguir ser tudo isso e o oposto. Quando engravidou, abandonou as roupas rebuscadas para usar delicados vestidos. Se em determinada época não ligava para a opinião de quem dizia que ela gritava ao invés de cantar, logo mudou a diretriz da carreira quando ouviu a mesma avaliação do próprio filho, que revelou preferir Marisa Monte na época. Tinha opiniões fortes, mas era tímida e insegura frente à imprensa. Cantava Nirvana no Rock in Rio com uma fúria que impressionou David Grohl ao mesmo tempo que interpretava repertórios de Renato Russo e Édith Piaf. Cássia Eller era furacão e calmaria. Por isso, sintetizar em um único filme todo o seu espírito de conciliação era uma tarefa das mais difíceis. Felizmente, o documentário Cássia, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, cumpre a missão com o mesmo intenso talento da cantora que retrata.

Uma das discussões mais clássicas é se a forma importa mais que o conteúdo. Cássia está no lado do conteúdo, já que Fontenelle optou por realizar um documentário em uma forma clássica: depoimentos com pessoas sentadas frente a uma câmera, fotos, recortes de jornais e eventualmente trechos de consagradas apresentações musicais. E sabem o que é o mais interessante? O filme está longe de parecer um documentário quadrado tamanha a singularidade que Cássia Eller alcançou como pessoa e artista. Uma produção como essa nunca soaria tradicional tendo uma personagem tão complexa, rica e subversiva. E é exatamente isso o que acontece, mesmo que Cássia  tenha uma linearidade super óbvia que começa  nos dias de anonimato da cantora e segue até a sua morte prematura, estendendo-se ainda à batalha judicial que concedeu a guarda de seu filho Chicão à companheira Maria Eugênia – e esse é um dos pontos altos do documentário não só pela força emocional envolvendo a recém falecida cantora mas pela vitória que significou para a classe LGBT.

O passo a passo temporal quase não é percebido aqui, pois acompanhamos a vida de uma mulher que nunca cansava de (se) surpreender. Musicalmente falando, Cássia Eller só cresceu a cada ano e um de seus momentos mais marcantes nos palcos é amplamente registrado aqui: a gravação do Acústico MTV, onde, abandonando quase por completo a Cássia “furiosa” que todos conheciam, apresentou músicas e novas versões de seu repertório que chegavam a se aproximavar da melancolia. Durante toda a vida, a cantora foi celebrada como unanimidade, e Fontenelle faz com que até o espectador mais leigo consiga sair de Cássia também admirando a artista. Inclusive, mesmo para quem tem um pouco de noção da vida da personagem-título irá se surpreender com alguns fatos apresentados, como o que desconstrói a ideia de que Cássia Eller teria morrido em função de uma overdose (ela já vinha sofrendo crises de pânico que culminaram em um infarto do miocárdio, conforme laudo do IML que foi distorcido pela imprensa). 

Contemplando o imenso ecleticismo da carreira da cantora, Cássia nos faz lembrar de sucessos como MalandragemPor EnquantoRelicárioO Segundo Sol, e é impossível sair do filme sem querer ouvir novamente toda a discografia dela, que ainda hoje é lembrada como uma das poucas que conseguiu unificar os fãs dos mais variados gêneros. Poucos conseguem fazer música de qualidade para todos e o documentário de Fontenelle, além de completo e delicado ao passear pela vida da cantora, acerta na sua lição de casa ao explorar a contribuição musical da carioca que até os dias de hoje é considerada referência. Respeitoso, Cássia nos leva ao íntimo de sua personagem com depoimentos de amigos e admiradores e também com um vasto material pessoal (as fotos, muito íntimas, são de uma beleza única, assim como as cartas lidas por Malu Mader). É ainda digno ao não se aproveitar das polêmicas envolvendo Cássia Eller, não se propondo a julgar qualquer uma de suas atitudes. Um belo tributo que todo artista relevante para qualquer arte deveria receber.

43º Festival de Cinema de Gramado apresenta filmes concorrentes

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Depois de receber menção honrosa em Sundance por sua atuação, Regina Casé levará para casa o Kikito? Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, faz sua estreia nacional na competição do 43º Festival de Cinema de Gramado

O Festival de Cinema de Gramado, maior evento ininterrupto do gênero no Brasil, revelou na manhã desta terça-feira (30) as mostras competitivas de sua 43ª edição, que será realizada entre os dias 07 e 15 de agosto. É na cidade gaúcha – recentemente eleita o melhor destino turístico do Brasil segundo o TripAdvisor – que o longa Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, faz sua estreia nacional. Ainda inédito no Brasil, o filme estrelado por Regina Casé chegou a receber uma menção honrosa no Festival de Sundance pela atuação da atriz. No Festival de Berlim, a produção ganhou o prêmio da Confederação de Cinemas de Arte e Ensaio na seção Panorama. Muylaert tem trajetória especial com Gramado: Durval Discos, seu trabalho de estreia, foi o grande vencedor do Festival em 2002, com os Kikitos de melhor filme, direção e roteiro. Entre os longas brasileiros selecionados por Eva Piwowarski, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho, mais sete títulos disputam o Festival. 

Internacionalizado desde 1992, quando passou a promover uma mostra de filmes de língua latina (e o primeiro vencedor do Kikito de melhor direção foi ninguém menos que Pedro Almodóvar com De Salto Alto), o Festival de Cinema de Gramado só incluiu uma estrangeira em sua curadoria ano passado. A estreia da argentina Eva Piwowarski foi considerada um tanto decepcionante, visto que a mostra estrangeira apresentava um título a menos do que os habituais seis concorrentes. Este ano, não há o que se reclamar: são sete títulos selecionados, uma pluralidade admirável de países. Colômbia, México, Argentina, Equador, Costa Rica, Cuba e Uruguai estão representados na 43ª edição do evento. O recente vencedor do Oscar Alejandro González Iñárritu produz um dos filmes em competição: En La Estancia, dirigido por Carlos Armella. Além dos longas, o Festival também apresentou os concorrentes entre os curtas brasileiros e gaúchos.

O Troféu Oscarito, distinção do Festival destinada a grandes atores do cinema brasileiro, completa 25 anos em 2015. A simbólica data terá uma homenageada à altura do prêmio: Marília Pêra. Com 24 filmes no currículo, a atriz já foi consagrada duas vezes no Festival com o Kikito de melhor atriz: em 1987, com Anjos da Noite, e em 1983 com Bar Esperança – O Último Que Fecha. Em 2007, ela esteve na serra gaúcha ao lado do saudoso Eduardo Coutinho para encerrar o Festival com Jogo de Cena, considerada uma das obras-primas do diretor. Já o diretor Daniel Filho receberá o troféu Cidade de Gramado, um agradecimento especial da cidade a figuras do meio cinematográfico. As outras homenagens (Kikito de Cristal, para personalidade latina, e Eduardo Abelin, para cineastas) serão divulgadas posteriormente. Confira abaixo a lista completa de filmes selecionados para o 43º Festival de Cinema de Gramado:

LONGAS BRASILEIROS
Ausência, de Chico Teixeira (SP)
Introdução à Música do Sangue, de Luiz Carlos Lacerda (RJ)
O Fim e os Meios, de Murilo Salles (RJ)
O Outro Lado do Paraíso, de André Ristum (DF)
O Último Cine Drive-In, de Iberê Carvalho (DF)
Ponto Zero, de José Pedro Goulart (RS)
Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert (SP)
Um Homem Só, de Cláudia Jouvin (RJ)

LONGAS ESTRANGEIROS
Ella, de Libia Stella Gómez (Colômbia)
En La Estancia, de Carlos Armella (México)
La Salada, de Juan Martin Hsu (Argentina)
Ochentaisiete, de Anahi Hoeneisen e Daniel Andrade (Equador)
Presos, de Esteban Ramírez Jímenez (Costa Rica)
Venecia, de Kiki Alvarez (Cuba)
Zanahoria, de Enrique Buchichio (Uruguai)

CURTAS BRASILEIROS
, de Leandro Tadashi (SP)
Como São Cruéis os Pássaros da Alvorada, de João Toledo (MG)
Dá Licença de Contar, de Pedro Serrano (SP)
Enquanto o Sangue Coloria a Noite, Eu Olhava as Estrelas, de Felipe Arrojo Poroger (SP)
Haram, de Max Gaggino (BA)
Heroi, de Pedro Figueiredo (SP)
Macapá, de Marcos Ponts (MA)
Miss & Grubs, de Camila Kamimura e Jonas Brandão (SP)
Muro, de Eliane Scardovelli (SP)
O Corpo, de Lucas Cassales (RS)
O Teto Sobre Nós, de Bruno Carboni (RS)
Quando Parei de Me Preocupar Com Canalhas, de Tiago Vieira (SP/GO)
S2, de Bruno Bini (MT)
Sêo Inácio (ou O Cinema Imaginário), de Helio Ronyvon (RN)
Virgindade, de Chico Lacerda (PE)

PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA – MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS
Arte da Loucura, de Karine Emerich e Mirela Kruel
Atrás da Sombra, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes
Bruxa de Fábrica, de Jonas Costa
Consertam-se Gaitas, de Ana Cris Paulus, Boca Migotto e Felipe Gue Martini
Da Vida Só Espero a Morte, de Júlia Ramos
De Que Lado Me Olhas, de Carolina de Azevedo e Elena Sassi
– Entre Nós, de Maciel Fischer
Ferro, de Giordano Gio

Kaali, de Gabriel Motta Ferreira
Liga-Pontos, de Teresa Assis Brasil
Madrepérola, de Deise Hauenstein
O Movimento do Escuro, de Alexandre Rossi

Nes Pas Projeter, de Cristian Verardi
O Corpo, de Lucas Cassales
O Sonho, o Limiar e a Porta que Metamorfoseia, de Gustavo Spolidoro
Pele de Concreto, de Daniel de Bem
Plano, de Virginia Simone, Carlos Dias e Matheus Walter
Quanto Mais Suicida, Menos Suicida, de Maurício Canterle Gonçalves
Rito Sumário, de Alexandre Derlam

Divertida Mente

I’m positive that you’ll get lost in there!

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Direção: Pete Docter e Ronaldo Del Carmen

Roteiro: Josh Cooley, Meg LeFauve e Pete Docter, baseado em história de Pete Docter e Ronaldo Del Carmen

Elenco (vozes): Amy Poehler, Phyllis Smith, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Kaitlyn Dias, Diane Lane, Kyle MacLachlan, Paula Poundstone, Bobby Moynihan, Paula Pell, Dave Goelz, Frank Oz

Inside Out, EUA, 2015, Animação, 101 minutos

Sinopse: Riley é uma garota divertida de 11 anos de idade, que deve enfrentar mudanças importantes em sua vida quando seus pais decidem deixar a sua cidade natal, no estado de Minnesota, para viver em San Francisco. Dentro do cérebro de Riley, convivem várias emoções diferentes, como a Alegria, o Medo, a Raiva, o Nojinho e a Tristeza. A líder deles é Alegria, que se esforça bastante para fazer com que a vida de Riley seja sempre feliz. Entretanto, uma confusão na sala de controle faz com que ela e Tristeza sejam expelidas para fora do local. Agora, elas precisam percorrer as várias ilhas existentes nos pensamentos de Riley para que possam retornar à sala de controle – e, enquanto isto não acontece, a vida da garota muda radicalmente. (Adoro Cinema)

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Dois trailers antecederam a minha sessão de Divertida Mente: os de Hotel Transilvânia 2Minions. E haja paciência, pois ambas as prévias já antecipam que ambas são animações que subestimam a inteligência de qualquer espectador. Só que há quem diga – levianamente, claro – que esse gênero existe com o propósito de apenas entreter crianças. Assim, a errada disseminação de tal lógica nos leva a produção de filmes que se utilizam somente de piadas físicas e nada criativas para arrancar risadas dos pequenos. No entanto,  é sim missão do gênero educar o olhar desta geração e, principalmente, diverti-la com histórias refinadas e suscetíveis a crescerem junto com ela. A Pixar, apesar da baixa em qualidade que teve nos últimos anos, foi pioneira em entretenimento inteligente para crianças e obras igualmente fascinantes para os adultos, mas com Divertida Mente alcança um patamar muito acima do esperado, fazendo um contraste gritante com os trailers da minha sessão. Sim, é verdade, inteligência também é fundamental e necessária para as animações. 

Antecedido pelo belo e sensível curta-metragem Lava (sobre um vulcão solitário cuja vontade de ser amado guia uma narrativa musical!), Divertida Mente é, sem dúvida alguma, o trabalho mais complexo já concebido pela Pixar. É, antes de qualquer coisa, uma obra que sintetiza o porquê do selo do estúdio ter alcançado notável reconhecimento: com a Pixar, há diversão para as crianças e material de sobra para que os adultos se envolvam tanto quanto elas. Ninguém é excluído de Divertida Mente, e o êxito do filme, que foi aplaudido em sua primeira sessão no Festival de Cannes este ano, também se reflete nas bilheterias: o trabalho da dupla Pete Docter e Ronaldo Del Carmen é a maior estreia de bilheteria de uma história inteiramente original, superado o até então recordista Avatar. Cannes e bilheteria. Todos aplaudem a Pixar. E não é exagero dizer que bastam 10 minutos de Divertida Mente para se entender as razões desta conquista. 

Mesmo se tratando de Pixar, é surpreendente que uma premissa tão atípica tenha saído do papel: aqui, a animação é passada toda dentro da mente de uma criança, onde os protagonistas são sentimentos! Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho ainda passeiam por lembranças, brincam com a imaginação, entram em pensamentos abstratos e descobrem detalhes de como são “produzidos” os sonhos. Há motivos de sobra para as crianças se entreterem com Divertida Mente, mas é somente com o tempo que elas conseguirão compreender o quão fascinante esse filme realmente é. Dos personagens adoráveis dentro e fora da mente ao plot pra lá de envolvente, a animação é assinada com impressionante segurança por Pete Docter, veterano da Pixar já responsável por Monstros S.A.Up – Altas Aventuras, em parceria com o estreante na direção de longas Ronaldo Del Carmen. Além da direção, a dupla também tem os créditos da criação da história, o que comprova que a ousadia e a genialidade dos dois se estenderam para fora do papel.

Dosando humor e emoção em um universo constantemente surpreendente, Docter e Del Carmen ganham os pequenos com as cores, os personagens e as situações, mas fisgam o coração dos adultos com a escolha de falar sobre como a vida pode ser frustrante e imprevisível. Nós não temos controle sobre ela e às vezes não há otimismo que mude essa situação. Tão genial quanto parece ou quanto qualquer análise pode apontar, Divertida Mente recupera uma força criativa que parecia perdida na Pixar – e o faz transbordando criatividade e emoção em um roteiro atento a todos os detalhes, onde nenhum detalhe é esquecido. Porém, assim como em quase todos os filmes do estúdio, o que fica de mais válido é a série de ensinamentos deixados pela história em questão. No caso deste, é tudo muito claro e verdadeiro: sem alegria é difícil viver, mas a tristeza também faz parte das nossas vidas e é somente ela que nos amadurece e nos faz crescer. Uma reflexão super válida que norteia este novo clássico das animações que acaba de ganhar as telas do cinema.

Na coleção… A Escolha de Sofia

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Demorou apenas três anos para que Meryl Streep ganhasse o seu segundo Oscar. O feito não é comum até os dias de hoje, mas basta conferir A Escolha de Sofia para entender a urgência do prêmio. Aliás, mesmo se tivesse dezenas de Oscars em casa, Meryl ganharia mais um pela atuação no filme de Alan J. Pakula. Isso porque não é nenhuma hipérbole afirmar que seu desempenho como a sofrida Sofia Zawistowska está entre os mais marcantes já entregues ao cinema. Fora ter aprendido a falar polonês e alemão em questão de poucos meses, ela mergulha por completo nos complexos dilemas da personagem e consegue, inclusive, vencer todos os problemas do roteiro escrito pelo próprio Pakula, que insiste em perder um tempo precioso ao colocá-la  à beira de um triângulo amoroso repetitivo e tedioso. 

Em termos históricos, não há o que se reclamar de A Escolha de Sofia. Além de irrepreensíveis para a narrativa (eles justificam com perfeição as razões e os comportamentos de Sofia no presente), as passagens exploram o nazismo de forma atípica. Aqui, os campos de concentração não são encenados com torturas ou câmaras de gás, mas sim com detalhes sufocantes, como no momento em que a protagonista caminha com janelas ao fundo onde enxergamos apenas os braços de pessoas aprisionadas clamando por socorro. Nós não precisamos ver o que acontece lá dentro – e deixar isso para a imaginação é muito mais impactante. Outra escolha preciosa é mostrar os bastidores das vidas das pessoas que cometiam tais atrocidades, uma vez que Sofia passa a trabalhar na casa de uma família nazista.

Toda a força histórica só não é diluída no filme porque sua construção é realmente poderosa. Sem esses momentos, A Escolha de Sofia seria um verdadeiro tédio. Ao escrever o roteiro com foco em Stingo (Peter MacNicol), um jovem escritor que encontra no convívio com o casal Sofia e Nathan (Kevin Kline) o que faltava para seu desabrochar artístico, Pakula dá voltas e mais voltas para sempre cair no estereótipo do casal “entre tapas e beijos”. Não demora muito para que o espectador compreenda o fascínio de Stingo por Sofia ou então o porquê dela suportar o comportamento inconstante de seu namorado. Por isso, A Escolha de Sofia bate demais na mesma tecla, o que testa a paciência de qualquer um em relação àquele quase triângulo amoroso entre os três.

Se A Escolha de Sofia construísse no presente questionamentos e problemáticas suficientes para serem explicados posteriormente pelo passado (que só começa a aparecer após cerca de 90 minutos de duração), a escolha de mostrar tardiamente a vida nazista de sua protagonista seria perfeitamente compreensiva. Não é o que acontece e, com isso, vem a velha – e incômoda – sensação de que existem dois filmes dentro de um. O elo entre presente e passado não é forte, incluindo quando Pakula coloca na tela a tão esperada cena-título. Resultado: ela é guardada para ser explicada a partir de uma desculpa quase rasa (é difícil crer que a protagonista abriria este momento tão doloroso para alguém daquela maneira apenas para não ter que simplesmente negar um convite). Por outro lado, a transição para os flashbacks é estupenda, pois colocar a câmera grudada no rosto de Meryl enquanto ela conta sua história olhando diretamente para o espectador cria uma conexão tremenda entre ela e quem está no lado de cá do filme.

Irretocável, Meryl Streep irradia como a encantadora Sofia, hoje uma mulher aparentemente feliz ao lado de Nathan (e nesta fase seu sotaque é algo absurdamente natural), mas também parte o coração como um ser humano colocado em uma situação simplesmente inimaginável. A cena de sua escolha em específico é uma das mais brutais já realizadas. Concebida sem nenhuma intervenção (não existe trilha ou qualquer artifício nela, deixando a crueza falar por si só), a sequência foi gravada apenas uma vez, já que Meryl se negou a repeti-la tamanha a dor que sentiu ao se colocar na situação da personagem. Esse é o maior testamento do porquê dessa atuação ser uma das mais emblemáticas: é verdade que a prótese dentária, o alemão, o polonês e a perda e o ganho de peso realmente impressionam na atuação de Meryl, mas Sofia Zawistowska só se tornou histórica por ser interpretada uma pessoa que não hesita em se colocar por completo na pele do personagem.

Existe outra escolha que Sofia faz ao final do filme, e é uma que será de importância emblemática para a sua vida repleta de feridas.  É com uma nova decisão que A Escolha de Sofia encerra com notável emoção o relato desta mulher que sobreviveu a uma das decisões mais impossíveis que a vida pode impôr, simbolizando com perfeição a ideia de que algumas dores podem nunca ser superadas. Com este momento, pontuado pelo belo tema de Marvin Hamlisch, finalmente o filme compreende a força de uma narrativa que, ao lidar com diferentes tempos, precisa ter uma conexão especial para que tais épocas conversem. Infelizmente, é somente aos 45 do segundo tempo que Pakula se atenta a isso, o que não faz com que a sensação do quase tédio relacionado ao cansativo relacionamento entre os três personagens principais desapareça. Se não fosse por esse grande tropeço, A Escolha de Sofia seria grande como filme e não apenas como um dos momentos mais inesquecíveis da maior atriz que temos e ainda podemos ver atuando.

A Incrível História de Adaline

Tell me something I can hold on to forever and never let go.

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Direção: Lee Toland Krieger

Roteiro: J. Mills Goodloe e Salvador Paskowitz

Elenco: Blake Lively, Michiel Huisman, Harrison Ford, Ellen Burstyn, Kathy Baker, Amanda Crew, Lynda Boyd, Hugh Ross, Richard Harmon, Anjali Jay, Hiro Kanagawa, Peter J. Gray

The Age of Adeline, EUA, 2015, Drama, 112 minutos

Sinopse: Adaline Bowman (Blake Lively) nasceu na virada do século XX. Ela tinha uma vida normal até sofrer um grave acidente de carro. Desde então, ela, milagrosamente, não consegue mais envelhecer, se tornando um ser imortal com a aparência de 29 anos. Ela vive uma existência solitária, nunca se permitindo criar laços com ninguém, para não ter seu segredo revelado. Mas ela conhece o jovem filantropo, Ellis Jones (Michiel Huisman), um homem por quem pode valer a pena arriscar sua imortalidade.

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A imortalidade é um dos sonhos mais antigos da humanidade. Que maravilha seria não envelhecer e ter todo o tempo do mundo para ver filmes, ler livros, descobrir músicas e conhecer todos os lugares do mundo, certo? Por outro lado, assim como no recente Amantes EternosA Incrível História de Adaline vem para assinar embaixo da teoria de que ter todo o infinito pela frente pode ser pra lá de desinteressante – e, no caso deste filme protagonizado pela gossip girl Blake Lively, uma condição especialmente dolorosa. Para Adaline, qual o sentido de ter a imortalidade em suas mãos se todos a sua volta não partilham da mesma “bênção”? Apaixonar-se, por exemplo, significa – que surpresa! – sofrer, já que a pessoa amada vive com um prazo de validade, e ter filhos é ver sua próxima geração dar adeus à vida antes de você. Por ter esse enfoque diferenciado em relação a uma das utopias mais clássicas do mundo, A Incrível História de Adaline conquista – e sua boa execução só impulsiona a agradável experiência que o filme proporciona.

Enquanto Jim Jarmusch olhava para a imortalidade com fadiga, o diretor Lee Toland Krieger o faz com pesar. A escolha é imensamente mais arriscada, por duas razões bem simples: A Incrível História de Adaline poderia cair facilmente para o melodrama ou apelar apenas para escolhas fáceis afim de agradar o grande público, visto que sua protagonista vem de um relevante sucesso televisivo nos Estados Unidos – e comercialmente tem a chance de mobilizar este público para as salas de cinema (não à toa a tradução brasileira é espetaculosa se comparada ao título original). Ainda que que com ressalvas, o longa consegue sim se esquivar dos defeitos que poderiam estragar seu resultado, acumulando apenas um erro que, caso suprimido, poderia deixar A Incrível História de Adaline mais envolvente. Ao invés de apenas deixar no ar ou tornar fabulesca a magia que impede Adaline de envelhecer, o filme prefere racionalizar a situação com explicações físicas para justificar o fato – e por isso mesmo não é muito difícil deduzir como a situação se resolverá. Tirar um pouco os pés do chão só faria bem ao roteiro da dupla J. Mills Goodloe e Salvador Paskowitz.

Mais importante do que ter uma boa parte técnica a serviço das transições de época encenadas nos flashbacks (a direção de arte e os figurinos acompanham de forma irrepreensível o passar das décadas), A Incrível História de Adaline ganha verossimilhança principalmente pela escolha de seu elenco. Blake Lively prova ter fôlego e simpatia de sobra para carregar um papel que deve esconder o sofrimento de sua condição ao mesmo tempo que precisa irradiar a suposta empolgação de uma juventude cheia de possibilidades. Ela contracena com dois atores experientes e que, dada a proporção de seus papeis, conseguem ter aparições bem dignas: Harrison Ford e Ellen Burstyn, com ele sendo a chave de um dos momentos mais instigantes da trama. Os veteranos incrementam a boa sensação de que A Incrível História de Adaline tem coração e não é meramente uma brincadeira romântica ou dramática envolvendo a fantasia de nunca envelhecer.

É acertada a escolha do roteiro em não estruturar a cronologia da história de forma linear, já que brincar com o tempo poderia levar o filme de Krieger a se perder na transição das décadas com excesso de situações, personagens e até mesmo alegorias de maquiagens e figurinos. A construção só se beneficia com a opção de mostrar o passado apenas quando precisa justificar os porquês das atitudes de Adaline. O que não deixa mesmo que A Incrível História de Adaline seja uma experiência completa é querer explicar uma condição fantasiosa que não precisava de justificativas. Todos nós sabemos que deixar de envelhecer é simplesmente impossível. Por isso, não há narração que possa nos convencer que trovões e descargas elétricas são capazes de alterar o percurso natural da vida. É para se celebrar, no entanto, que tais explicações (pontuadas, claro, por um narrador onipresente) surjam apenas no início e no final do filme – ou não, já que estes são momentos cruciais em uma experiência cinematográfica. No caso de Adaline, os maiores problemas estão justamente aí.

Os curtas brasileiros em competição no 43º Festival de Cinema de Gramado

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Para chegar aos 15 curtas-metragens brasileiros selecionados para a mostra competitiva do 43º Festival de Cinema de Gramado, a comissão de seleção assistiu a mais de 500 produções de todo o Brasil. Foto: Edison Vara/Pressphoto

O Festival de Cinema de Gramado começou 2015 se adiantando e na manhã desta terça-feira (16) divulgou a lista dos curtas brasileiros em competição da sua 43ª edição, marcada para acontecer entre os dias 07 e 15 de agosto. A seleção traz 15 filmes, onde São Paulo lidera com oito títulos. A comissão de seleção foi novamente coordenada pela jornalista e crítica Ivonete Pinto, que, dessa vez, teve a companhia dos seguintes profissionais para formar a mostra competitiva: Andrea Gloria, produtora; Leonardo Garcia, roteirista; Marcos Petrucelli, jornalista e crítico; Rodrigo Grota, diretor; e Sandra Dani, atriz. O grupo assistiu a um universo de 567 filmes. As 15 produções selecionadas vocês encontram abaixo. Mais informações no site http://www.festivaldegramado.net.

, de Leandro Tadashi (SP)
Como São Cruéis os Pássaros da Alvorada, de João Toledo (SP)
Dá Licença de Contar, de Pedro Serrano (SP)
Enquanto o Sangue Coloria a Noite, Eu Olhava as Estrelas, de Felipe Arrojo Poroger (SP)
Haram, de Max Gaggino (BA)
Herói, de Pedro Figueiredo (SP)
Macapá, de Marcos Ponts (MA)
Miss & Grubs, de Camila Kamimura e Jonas Brandão (SP)
Muro, de Eliane Scardovelli (SP)
O Corpo, de Lucas Cassales (RS)
O Teto Sobre Nós, de Bruno Carboni (RS)
Quando Parei de Me Preocupar Com Canalhas, de Tiago Vieira (SP)
S2, de Bruno Bini (MT)
Sêo Inácio (ou O Cinema Imaginário), de Helio Ronyvon (RN)
Virgindade, de Chico Lacerda (PE)

Melhores de 2014 – Filme

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A maior surpresa do cinema em 2014 veio da Argentina. Não há como negar toda a genialidade de Relatos Selvagens, um filme que consegue achar o balanço perfeito entre o popular e o refinado, entre a acidez e a sutileza. Praticamente uma unanimidade, o longa de Damián Szifrón ainda alcança um feito que até então parecia simplesmente impossível: o de contar várias histórias paralelas sem que elas destoem umas das outras em termos de qualidade. O elenco, que vai do astro Ricardo Darín a revelações da TV argentina, interpreta os personagens com grande verossimilhança, dando total sentido a cada história que mostra como qualquer pessoa é suscetível a perder o controle em situações extremas. Divertido do início ao fim graças a todos estes elementos, Relatos Selvagens é uma rara produção que consegue dialogar com todos os públicos sem nunca apelar para escolhas tolas ou previsíveis. É um trabalho surpreendente que mereceu ir de Cannes ao Oscar e ainda de quebra receber o aplauso do público. Confira abaixo os outros filmes do nosso top 10 de 2014 com trechos das críticas publicadas aqui no blog.

EM ANOS ANTERIORES: 2013 – Gravidade | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

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2. GAROTA EXEMPLAR, de David Fincher: “É a partir da desconstrução de Amy (Rosamund Pike) que o filme abandona a mera – mas envolvente – investigação policial para se tornar um incrível estudo de personagem. Existe o lado de Ben Affleck, mas é a personalidade de Amy, a mulher desaparecida, que movimenta a trama. A partir de uma surpreendente revelação ainda em sua metade, Garota Exemplar passa a fugir de escolhas fáceis neste sentido, tornando-se uma viagem imprevisível para qualquer espectador”.

3. O GRANDE HOTEL BUDAPESTE, de Wes Anderson: “Não dá para esconder o entusiasmo com essa escalada que Wes Anderson vem fazendo nos últimos anos, especialmente quando seu mais novo longa não tem um ingrediente novo sequer: é simplesmente o aperfeiçoamento de várias escolhas recentes. Ao contrário de outros realizadores que erram ao repetir estilos, Anderson só se aprimora – e o resultado em momento algum descamba para a reciclagem”.

4. NEBRASKA, de Alexander Payne: “Nebraska é um road movie, um olhar crítico e rabugento da terceira idade, um relato sobre comunicação entre gerações e um belo estudo sobre como pais influenciam filhos e vice-versa. Tudo com a devida calma e sutileza, trazendo aquela sensação tão frequentemente errada de que nada está acontecendo”.

5. O LOBO ATRÁS DA PORTA, de Fernando Coimbra: “Não existem respostas ou julgamentos certos para tudo o que acontece em O Lobo Atrás da Porta. É apenas o retrato franco do quanto o ser humano faz o que bem entende para não se prejudicar ou simplesmente apenas para curar mágoas e injustiças. E falar mais do que isso é estragar as pequenas grandiosidades desse que é, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano”.

6. FROZEN – UMA AVENTURA CONGELANTE, de Chris Buck e Jennifer Lee: “Emotivo e funcional, Frozen tem um excelente ritmo, agrada crianças e adultos e é um verdadeiro sopro de originalidade, força, carinho e cinema em tempos que as animações reforçam a falta de inspiração. Belíssimo início de – quero acreditar – uma necessária retomada do gênero”.

7. ALABAMA MONROE, de Felix Van Groeningen: “Cada alegria de Alabama Monroe é profundamente triste, o que demanda do espectador uma grande força para acompanhar essa viagem constantemente dolorosa. Na equação, adicione ainda um melancólico repertório folk (o casal dedica a vida à música), que é certeiro ao mexer gradativamente com os sentimentos da plateia”.

8. ELA, de Spike Jonze: “Saímos do cinema um tanto arrasados, mas também esperançosos com a vida e com a possibilidade de que, ao contrário do que aponta o protagonista, existem sim novos sentimentos e acontecimentos pela frente. Cabe a nós torná-los uma realidade”.

9. ATÉ O FIM, de J.C. Chandor: Além da direção de Chandor, a inteligente fotografia (subaquática ou não), o estupendo trabalho de som e a certeira trilha sonora de Alexander Ebert ajudam o filme a alcançar toda esse sentimento com muita plausibilidade e com situações nada apelativas. Mesmo o final, que parece tão simples e fácil, pode não ser tão simples assim e apresentar uma outra simbologia”.

10. PHILOMENA, de Stephen Frears: “Philomena é realmente um filme feito de coração, protagonizado por uma atriz que não parece fazer um esforço sequer para ser adorável, crível e encantadora. É do DNA dos britânicos a sobriedade, e Stephen Frears, como um dos expoentes deles, consegue concentrar essa característica em todas as escolhas do seu mais novo longa”. 

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