Volto logo! (e uma novidade importantíssima)

minimaequipe

Tem acontecido tanta coisa na vida pessoal e profissional que, como vocês devem ter percebido, ficou um pouquinho difícil atualizar o blog com a habitual frequência que ele merece e até contar para vocês, em primeira mão, novidades que têm tudo a ver com esse espaço. Antes de falar um pouquinho sobre a mais importante delas, já deixo registrado: é tempo de recarregar as baterias, o que me leva a ficar ausente daqui por um certo tempo. Isso não quer dizer, por outro lado, que paro de falar sobre cinema. Na realidade, é o que me leva às boas novas: à convite da equipe da rádio Mínima, aqui de Porto Alegre, produzo e apresento, desde o dia sete de abril, a versão radiofônica do Cinema e Argumento. Semanalmente, o programa traz as estreias da semana, notícias, clássicos e entrevistas com profissionais da área e de projetos relacionados à cinema. Para essa missão, tenho ao meu lado Clarissa Cé e Louisiane Cardoso, duas amigas também apaixonadas por cinema. Ou seja, mesmo com o blog de férias, não tem desculpa para não nos ouvir. O Cinema e Argumento vai ao ar todas as quintas-feiras, ao vivo, a partir do meio-dia, com reprise na sexta-feira às 14h. Para ouvir, basta sintonizar na minima.fm ou baixar gratuitamente o aplicativo disponível no Google Play ou na Apple Store. 

Melhores de 2015 – Filme

bestfiftmovie

Não há filme que tenha revolucionado mais do que Mad Max: Estrada da Fúria em 2015. O que o diretor George Miller cria vai além de uma grande aula para o gênero ação. Mad Max chega a ser, na realidade, uma reflexão sobre como o cinema pode e deve acompanhar novos tempos e ideias, quebrando barreiras sexistas e subvertendo o que é esperado de mocinhos e vilões. Grandioso em seu realismo técnico e preenchido por uma adrenalina nunca excessivamente frenética, o longa estrelado por Charlize Theron (Tom Hardy que me desculpe, mas o filme se revela indiscutivelmente dela) é mais do que um espetáculo de efeitos visuais e sonoros como a temporada de premiações apontou. A grande verdade é que Mad Max, além de ser por si só uma verdadeira sinfonia de instrumentos muitíssimo bem afinados, chega para marcar época – e não é nem necessário, tamanha a força do filme, esperar o tempo passar para chegarmos a essa constatação. Confira abaixo os outros filmes do nosso top 10 de 2015 com trechos das críticas publicadas aqui no blog.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Gravidade | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

•••

2. BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA), de Alejandro González Iñárritu: “O mexicano sempre foi ótimo diretor de atores (aqui não é diferente), mas nunca entregou uma obra tão completa em temática e técnica como essa. É o auge de sua carreira. Dos meros bastidores de um teatro às calçadas da Times Square, sua câmera, aliada a uma ótima fotografia de Emmanuel Lubezki e a uma trilha difícil mas inovadora de Antonio Sanchez, está sempre surpreendendo, do primeiro a ao último plano (o final com Emma Stone na janela é excepcional)”.

3. QUE HORAS ELA VOLTA?, de Anna Muylaert: “Escapa à memória a última vez que um filme tão simples e pequeno se engrandeceu tanto em seus detalhes. O Brasil e seu povo das mais variadas classes estão retratados nesta história executada sem qualquer artifício. Na verdade, nossa realidade está representada com a maior delicadeza, inteligência, contemporaneidade e verossimilhança possíveis. Aqui, Que Horas Ela Volta? funciona como entretenimento de grande reflexão. Lá fora, como veículo de importantes informações sobre um país que, para os estrangeiros, ainda está resumido aos retratos feitos em Cidade de DeusTropa de Elite“.

4. DIVERTIDA MENTE, de Pete Docter e Ronaldo Del Carmen: “Tão genial quanto parece ou quanto qualquer análise pode apontar, Divertida Mente recupera uma força criativa que parecia perdida na Pixar – e o faz transbordando criatividade e emoção em um roteiro atento a todos os detalhes, onde nenhum detalhe é esquecido. Porém, assim como em quase todos os filmes do estúdio, o que fica de mais válido é a série de ensinamentos deixados pela história em questão”.

5. 45 ANOS, de Andrew Haigh: “Passando do inesperado romance jovem de Weekend para o relato maduro de um casamento de mais de quatro décadas que entra em uma intensa reflexão, Andrew Haigh não tropeça na significativa transição temática e entrega, em 45 Anos, uma sólida história onde o presente é reinterpretado a partir do passado rumo a um futuro agora incerto. Sabendo o mínimo possível sobre os detalhes da trama, a experiência de mergulhar nesta repentina reavaliação matrimonial se torna ainda mais envolvente”.

6. DOIS DIAS, UMA NOITE, de Jean-Pierre e Luc Dardenne: “Não espere ver aqui Marion Cotillard ajoelhada frente aos personagens implorando por emprego ou incansáveis choros desesperados dela. Na verdade, as cenas mais belas de Dois Dias, Uma Noite são aquelas que fazem justamente o contrário – e uma das mais bonitas é aquela em que Sandra, frente ao espelho e prestes a cair em lágrimas, se recompõe e repete para si mesma: “você não tem que chorar”.

7. FOXCATCHER – UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO, de Bennett Miller: “Esta dinâmica [a dos protagonistas] tão suscetível a tons mais elevados é conduzida com plena sobriedade por Miller que, mesmo nos mínimos detalhes, age discretamente para envolver o espectador, como no espetacular uso da trilha sonora de Rob Simonsen. Isto não anula, entretanto, a tensão que existe no ar: sempre algo parece prestes a explodir – o que é mérito justamente do diretor de nunca pesar a mão nas cenas”.

8. WHIPLASH: EM BUSCA DA PERFEIÇÃO, de Damien Chazelle: “O diretor, também autor do roteiro, é certeiro ao desenvolver quase todo o filme em cenas com as duras aulas do personagem de J.K. Simmons e ao transmitir toda a força destes momentos não só para o texto mas também para a técnica: percebam como a todo o momento a câmera está extremamente próxima aos rostos do personagens, além de capturar, com planos bastante fechados, toda a intimidação que o mestre passa quando fala incessantemente ao pé do ouvido do aprendiz Andrew (Miles Teller) na hora de um ensaio”.

8. ACIMA DAS NUVENS, de Olivier Assayas: É de tirar o chapeu como o francês Assayas fala praticamente o tempo inteiro sobre interpretação, escolha de papeis e preparação de elenco sem nunca entregar o seu filme à teatralidade. As longas cenas de ensaios e bastidores entre as personagem de Binoche e Kristen Stewart são bastante envolventes porque, além de filmadas com bastante fluidez, discorrem dinamicamente sobre outros temas pertinentes às figuras em cena e também ao mundo artístico no geral, como o conflito de gerações, os limites de envolvimento de um ator com um papel e os caminhos cada vez mais distorcidos da relação entre obra e público.

9. CÁSSIA ELLER, de Paulo Henrique Fontenelle: “o documentário de Fontenelle, além de completo e delicado ao passear pela vida da cantora, acerta na sua lição de casa ao explorar a contribuição musical da carioca que até os dias de hoje é considerada referência. Respeitoso, Cássia Eller nos leva ao íntimo de sua personagem com depoimentos de amigos e admiradores e também com um vasto material pessoal (as fotos, muito íntimas, são de uma beleza única, assim como as cartas lidas por Malu Mader)”.

10. MAPAS PARA AS ESTRELAS, de David Cronenberg: “Mapas Para as Estrelas não é para qualquer um. Além do final que transborda pessimismo, este é um longa de personagens difíceis inseridos em situações e vidas sufocantes. Assombrados por expectativas e alucinações, tentam colocar suas vidas nos trilhos. Mas tudo isso não impede que o resultado seja uma viagem gratificante, reflexiva e subversiva. Mais do que isso, uma investida bastante completa, como há tempos Cronenberg não fazia”.

Melhores de 2015 – Atriz

bestfiftactress

Desde 2007, quando a premiação do blog foi criada, registramos somente um empate: o de melhor atriz, em 2011, quando Charlotte Gainsbourg e Kirsten Dunst se saíram vitoriosas por Melancolia. A exceção se repete agora, com a mesma justificativa que descreveu o trabalho das atrizes dirigidas por Lars Von Trier: em Que Horas Ela Volta?, Regina Casé e Camila Márdila dependem tanto uma da outra que é impossível descolá-las ao falar da qualidade de suas interpretações. Márdila, provocativa e cheia de personalidade, é o contraponto perfeito para um Regina Casé que esbanja humanidade com uma personagem trágica em sua ingenuidade. Quando as duas estão juntas, Que Horas Ela Volta? chega a ser tenso em função dos conflitos que nascem a partir de suas interações – e isso, claro, é mérito delas também, e não apenas do ótimo texto escrito por Anna Muylaert. Márdila e Casé são impecáveis, transitando entre o drama e a comédia com uma complementariedade invejável. Ainda disputavam a categoria: Charlize Theron (Mad Max: Estrada da Fúria), Charlotte Rampling (45 Anos), Juliette Binoche (Acima das Nuvens) e Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite).

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – Rosamund Pike (Garota Exemplar) | 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente) | 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin) | 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia| 2010 – Carey Mulligan (Educação| 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho| 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!| 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)

Conspiração e Poder

Courage.

truthposter

Direção: James Vanderbilt

Roteiro: James Vanderbilt, baseado no livro “Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power”, de Mary Mapes

Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Dennis Quais, Elisabeth Moss, Topher Grace, Bruce Greenwood,  John Benjamin Hickey, Stacy Keach, Dermot Mulroney,  Rachael Blake, Andrew McFarlane

Truth, EUA/Inglaterra, 2015, Drama, 125 minutos

Sinopse: A produtora da CBS Mary Mapes (Cate Blanchett) suspeita que o presidente George W. Bush usou a influência de seu sobrenome e acionou seus contatos para não combater na Guerra do Vietnã. Com a ajuda de uma fonte, ela consegue os documentos necessários para a comprovação da denúncia e leva a história ao ar no programa 60 Minutes, apresentado pelo lendário Dan Rather (Robert Redford). Ao invés de abalar a campanha de reeleição de Bush, no entanto, o que se vê após a exibição é um processo de descrédito das informações que coloca em xeque todo o trabalho da equipe de reportagem. (Adoro Cinema)

truthmovie

Timing é tudo na vida, e Conspiração e Poder é uma prova disso. Afinal, o filme de James Vanderbilt, roteirista de Zodíaco e que aqui assina seu primeiro trabalho como diretor, sofre inevitáveis comparações por ser lançado logo após o sucesso de Spotlight – Segredos Revelados, o grande vencedor do Oscar 2016. A temática é a mesma, o formato idem e até o teor de jornalismo investigativo se repete. Fora as semelhanças temáticas, vem aquele cansaço de ter que assistir um filme com a mesma proposta de estrutura tão cedo. Spotlight ainda está fresco demais na memória, o que nos impede de ver Conspiração e Poder com um olhar mais apurado e também a constatar que, caso fosse lançado em outra época, o longa estrelado por Cate Blanchett certamente teria o tempo e os espectadores mais ao seu lado.

Em contrapartida, vamos dar os louros a quem merece. Mesmo com tropeços, Conspiração e Poder não abraça aquilo que mais incomodava em Spotlight: a confiança excessiva no texto e a opção por preterir outras ferramentas cinematográficas em detrimento disso. Aqui, Vanderbilt se preocupa sim em entregar um roteiro bem costurado, mas também tem a consciência de que o uso da trilha, por exemplo, amplia os sentidos da história. Pode ser um tanto cafona ver Cate Blanchett chorando em slow motion ao receber uma má notícia por telefone, mas certas passagens de tempo e espaço ficam mais dinâmicas e envolventes com a dramatização dos fatos a partir da técnica. Conspiração e Poder também não esquece que jornalista tem vida pessoal e novamente sai ganhando ao mostrar uma protagonista tão submersa no trabalho que não consegue nem completar direito a simples tarefa de colocar leite e sucrilhos na mesa para que seu filho faça uma refeição matinal.

O problema é que Conspiração e Poder não se engrandece com os fatos investigados pelos jornalistas da equipe do 60 Minutes, programa televisivo da CBS liderado pela produtora Mary Mapes (Blanchett). Enquanto os temas igreja e pedofilia faziam toda a diferença para envolver e impactar em Spotlight, uma específica investigação envolvendo um conturbado passado militar do ex-presidente dos Estados Unidos George Bush não dá ao filme de Vanderbilt o gás que merecia. E a razão do tema não surtir grande efeito é muito simples: toda a busca aconteceu nas eleições estadunidenses de 2004, período que não é devidamente contextualizado pela história. Bush supostamente havia usado de influências para não combater na Guerra do Vietnã, e tal desconstrução da reputação do presidente faria toda a diferença para os eleitores da época, principalmente por se tratar de um assunto militar, algo tão enraizado no cotidiano dos Estados Unidos. No entanto, pouco se fala (e muito menos se mostra) sobre aquele período político.

Em Conspiração e Poder, tudo é visto exclusivamente de dentro da redação, o que deixa a errada impressão de que aquela é apenas mais uma importante mas corriqueira reportagem do programa. Ou seja, toda a cruzada dos personagens para confirmar as suspeitas de que Bush havia fugido da missão de ir ao Vietnã parece não ter tanta influência assim até o momento em que o resultado vai ao ar e passa a sofrer uma série de tentativas de descrédito por parte dos simpatizantes do presidente em busca de reeleição. Com isso, o filme ganha uma maior força cinematográfica e jornalística, discutindo importantes questões como o fato de telejornais, apesar de influentes, não renderem dinheiro até determinada época da profissão ou sobre até que ponto um jornalista deve ter seu trabalho analisado a partir de suas posições políticas. Os processos cotidianos da profissão também são retratados corretamente pelo roteiro, que repete o belo serviço de pontuar muito bem o que cabe ou não a um jornalista em uma complicada investigação repleta de interesses.

A única beneficiada pela aproximação temporal entre Conspiração e PoderSpotlight é Cate Blanchett, pois aqui ela pode reafirmar sua grande versatilidade. Como Mary Mapes, a atriz se distancia do tipo socialite cheia de classe que apresentou em filmes como Blue JasmineCarol para criar uma personagem que em nada se assemelha às citadas, seja na entonação de voz ou em qualquer gesto. Blanchett compreende a força, a vulnerabilidade e a competência de uma mulher comum que claramente sabia o que estava fazendo em uma profissão que viria a abandonar em 2004 após os eventos do filme. Ela rouba por completo a cena de um elenco onde Robert Redford não tem muito a fazer além de emprestar seu inegável prestígio a um personagem que exigia esse simbolismo e onde coadjuvantes pouco acrescentam à narrativa (ainda fazendo comparações com Spotlight, Elisabeth Moss é apenas a Rachel McAdams da vez que só está ali para fazer perguntas). Blanchett é, pelo menos até agora, a força de um longa tradicional e pouco inventivo, mas que nunca chega a parecer cópia. Conspiração e Poder é apenas vítima do acaso. Quem sabe o tempo não conseguirá lhe fazer alguma justiça?

Melhores de 2015 – Direção

bestfiftdirecting

Se o auge da vitalidade de um diretor experiente parecia ser Clint Eastwood aos 76 anos comandando dois ambiciosos dramas de guerra como A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, George Miller veio com tudo para roubar tal título em 2015. Afinal, é embasbacante constatar que um longa tão grandioso, criativo, contemporâneo e visceral como Mad Max: Estrada da Fúria seja capitaneado por um diretor de mais de 70 anos que, nos últimos tempos, estava concentrado apenas em projetos menores e dedicados mais ao coração como O Óleo de LorenzoHappy Feet: O Pinguim Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade. Não é por Miller não ter perdido o tino para ação desde que realizou o último Mad Max em 1985 que Estrada da Fúria se firma desde já como um clássico contemporâneo, mas porque o diretor realmente revoluciona atrás das câmeras, repaginando o gênero, mostrando inteligência ao criar um universo próprio e regulando a ação como há muitos anos não testemunhávamos. Miller ainda inverte o jogo, fazendo o belo serviço de dar total protagonismo para as mulheres e provando que, mais do que se adaptar às novas tecnologias, diretores também precisam aprender a contribuir de forma conceitual para a indústria. Ainda disputavam a categoria: Alejandro González Iñárritu (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)), Andrew Haigh (45 Anos), Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta?) e Bennett Miller (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo).

EM ANOS ANTERIORES: 2014 – David Fincher (Garota Exemplar) | 2013 – Alfonso Cuarón (Gravidade) | 2012 – Leos Carax (Holy Motors) | 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro| 2010 – Christopher Nolan (A Origem| 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?| 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro| 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)

Melhores de 2015 – Roteiro Adaptado

bestfiftadapted

Baseado no conto In Another Country, de David Constantine, 45 Anos reafirmou Andrew Haigh como um talentoso contador de histórias sobre as relações humanas. Dessa vez, no entanto, era difícil prever que ele tivesse tanta maturidade guardada entre suas habilidades. Isso porque o retrato de um casamento que começa a desmoronar a partir de uma notícia aparentemente banal é verossímil a ponto de nos fazer acreditar que Haigh, também autor do roteiro, já tenha experimentado tudo aquilo na vida. Tanto o naturalismo com que ele constrói as cenas quanto a forma angustiante com que o filme envolve o espectador mostram que o roteiro é grande em forma e conteúdo, o que é raro em uma história extremamente desafiadora por si só. Afinal, como narrar com a devida inteligência os dias de uma mulher, que, beirando os 70 anos, vê toda uma história de vida que acreditava ser certa desabar? Não há dúvidas: Andrew Haigh mostra o caminho. Ainda disputavam a categoria: Dívida de HonraExpresso do AmanhãMacbeth: Ambição e GuerraWhiplash: Em Busca da Perfeição.

EM ANOS ANTERIORES: 2014 Garota Exemplar | 2013Azul é a Cor Mais Quente | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

A Juventude

You say that emotions are overrated, but that’s bullshit. Emotions are all we’ve got.

youthposter

Direção: Paolo Sorrentino

Roteiro: Paolo Sorrentino

Elenco: Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano, Jane Fonda, Alex Macqueen, Madalina Diana Ghenea, Loredana Cannata, Gabriella Belisario, Alex Beckett, Nate Dern, Chloe Pirrie, Tom Lipinski

Youth, Itália/França/Suíça/Reino Unido, 2015, Drama, 124 minutos

Sinopse: Fred (Michael Caine) e Mick (Harvey Keitel), dois velhos amigos com quase 80 anos de idade cada, estão passando as férias em um luxuoso hotel. Fred é um compositor e maestro aposentado e Mick é um cineasta em atividade. Juntos, os dois passam a se recordar de suas paixões da infância e juventude. Enquanto Mick luta para finalizar o roteiro daquele que ele acha que será seu último grande filme, Fred não tem a mínima vontade de voltar à música. Entretanto, muita coisa pode mudar. (Adoro Cinema)

youthmovie

Os personagens de A Juventude estão em fuga. Alguns propositalmente e outros por sorte, todos se refugiam em um luxuoso hotel nos alpes suíços, onde o silêncio reina e a ordem é relaxar. Fred Ballinger (Michael Caine), grande compositor agora aposentado, tenta escapar de seu próprio passado glorioso: ninguém parece entender que o artista responsável pelas famosas Canções Simples tem como único desejo curtir a vida depois de intensas décadas de trabalho ao invés de conduzir novamente uma orquestra ou escrever uma autobiografia encomendada por editores franceses. Assistente de seu pai, Lena Ballinger (Rachel Weisz) é abandonada pelo marido e agora precisa seguir em frente, abandonando sua vida passada. Já Mick (Harvey Keitel), que se orgulha de ser um diretor bem sucedido de atrizes e ter revelado a intérprete vencedora de dois Oscars Brenda Morel (Jane Fonda), escreve um novo filme para, como logo descobrimos, tentar se distanciar de uma carreira que, nos últimos anos, vem sido massacrada por público e crítica. Por fim, existe Jimmy Tree (Paul Dano), ator jovem e sensível sempre lembrado por um dos papeis de sua carreira que mais detesta – e que, agora, com um novo projeto, quer justamente deixar uma outra lembrança para o público que não seja a do tosco robô com uma roupa de cem quilos que lhe lançou popularmente.

Como se percebe, A Juventude, exibido em competição no Festival de Cannes de 2015, é um filme que abrange os dilemas mais diversos de gerações bastante distintas: a velhice se contrasta com a juventude, a beleza de uma Miss Universo provoca a suposta superioridade de um homem das artes, a experiência bate de frente com o frescor dos principiantes, a decadência é questionada pelo sucesso e a vida pessoal reivindica o tempo consumido pelo trabalho. É preciso maturidade para não transformar esse caldeirão temático em uma mistura dispersa e sem consistência, e maturidade o consagrado diretor italiano Paolo Sorrentino tem de sobra. Ele, que recentemente levou mais um Oscar de filme estrangeiro para a Itália com A Grande Beleza, agora se refugia nas belas paisagens da Suíça para contemplar cinematograficamente a diversidade emocional da vida com esse belo filme estrelado pelos veteranos Michael Caine e Harvey Keitel. O ritmo adotado é pausado e, apesar de um ou outro momento mais explícito (o monólogo de Rachel Weisz durante uma massagem é um deles), tudo se desenvolve bastante por imagens e por momentos silenciosos eventualmente cortados por observações certeiras. A Juventude não escorrega ao abraçar todos os seus personagens, e faz com que todos eles se tornem figuras próximas e perfeitas em suas imperfeições.

Não procuro medir meu entusiasmo para falar sobre a beleza com que Sorrentino, também autor do roteiro, transforma momentos pequenos em grandes, como um simples passeio na floresta onde Caine e Keitel dão uma daquelas aulas de sobriedade e uso das palavras que só a boa experiência de atores como eles pode trazer. Tudo não deixa de abrir margem para a crítica de que este é um filme sobre “os ricos também sofrem” (afinal, não é todo mundo que pode reavaliar a vida em um SPA em cenários de cair o queixo na Suíça), mas o que é discutido em A Juventude é sim universal. Sorrentino filma com elegância (e isso não tem nada a ver com as paisagens que por si só já ajudam), transformando a experiência em algo sensorial: a música, por exemplo, se mostra ferramenta envolvente desde a abertura com a apresentação de You Got the Love, da Retrosettes Sister Band, até clássicos de Debussy e Stravinsky, enquanto as imagens se revelam até emocionantes, como na brincadeira envolvendo um monge que diz levitar durante a meditação.

Michael Caine é mesmo maravilhoso como o maestro que, por razões pessoais, recusa o convite até mesmo da Rainha da Inglaterra para voltar a tocar, mas, em um filme tão completo sobre o choque de gerações, é preciso dar créditos também a outros dois atores essenciais nessa jornada: o inspirado Harvey Keitel, que, na única cena de Jane Fonda em particular, faz uma excelente dupla com a atriz a partir de um texto sobre as possibilidades de como conduzir uma carreira de cinema na terceira idade, e o sempre ótimo Paul Dano, que não cansa de surpreender como um ator emotivo sem precisar dizer uma palavra sequer – e, se o tempo lhe fizer justiça, ele tem tudo para ser tão grande quanto os atores com quem contracena neste filme. Todos dão o tom certo a A Juventude, que se encerra naquele que é possivelmente o momento mais tocante da história: quando finalmente ouvimos por completo a bela Simple Song #3 (indicada ao Oscar 2016 de melhor canção original). Em certo momento, um jovem garoto que está aprendendo a tocar violino diz que seu professor lhe entregou a canção justamente por ela ser ideal para principiantes. Mas, como bem descobrimos pela fala do menino e por tudo que a história mostra, não é porque a simplicidade reina que a beleza está ausente. Sendo assim, não tenho dúvidas de que quero mais canções simples como A Juventude pela frente.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 131 outros seguidores