Adaptação – The Bear Came Over The Mountain

thebear

“You’ve been gone a long time, I’m so happy to see you… You could have just driven away without a care in the world and forsaken me.”

O conto de Alice Munro se chama “The Bear Came Over The Mountain” e conta a história de Grant e Fiona. Eles são casados faz quarenta anos e apresentam uma notável estabilidade sentimental. Porém, Fiona começa a apresentar alguns lapsos de memória, preocupando seu marido. Quando ambos decidem procurar ajuda, acabam por descobrir que ela é vítima do mal de Alzheimer (doença mental que vai graduamente apagando a memória). A própria Fiona decide que será internada em um instituição para idosos especializada no assunto, Meadowlake. Por causa de uma regra do lugar, Grant fica impossibilitado de visitar Fiona durante trinta dias. Quando ele finalmente consengue voltar a vê-la, ela já não sabe mais quem ele é. Além disso, se afeiçoou a um outro paciente do lugar.

Baseado em minha convivência com uma portadora em estado avançado do mal de Alzheimer, posso dizer que, do ponto de vista técnico, The Bear Came Over The Mountain não condiz muito com as realidades do mal de Alzheimer. O primeiro deslize é o fato da própria Fiona aceitar o fato de sua doença. Se o Alzheimer apaga a memória (em potencial as mais recentes), ela não iria se esquecer do diagnóstico? E, além do mais, não creio que alguém possa realmente estar consciente de que já não possui mais determinada sanidade. Outro aspecto um pouco errado é como Fiona perde a memória facilmente. Em um mês ela já esqueceu completamente quem é o marido com quem ela ficou casada por mais de quarenta anos. Isso só deveria ocorrer após muito, mas muito tempo depois do diagnóstico. O conto (assim como o filme) deixa de lado alguns detalhes da doença – os pacientes perdem até mesmo a capacidade de andar e de falar. Sem falar da total falta de noção de sensações como dor, calor ou frio. A abordagem da doença foi limitada, escolhendo apenas os obstáculos da doença que eram conveniente para a história.

Deixando de lado os aspectos técnicos (que são pouco relevantes para a história), The Bear Came Over The Mountain é um conto, no mínimo, estranho. Estranho no estilo de contar histórias de Alice Munro. Fiquei incomodado com a linguagem extremamente adjetivada que é usada, que acaba dificultando muito a leitura. Ela também não narra da forma mais adequada determinados momentos que poderiam causar emoção (por alguma razão, tende a não se utilizar muito de diálogos), como nas interações entre Grant e Fiona. A trajetória de amor deles, então, fica fraca. Mas tudo mudo quando a personagem Marian entra na história. Ela é a esposa do paciente que criou certo afeto com Fiona. Quando Grant e Marian se encontram, dá pra notar talento na narrativa e um sentimentalismo subjetivo.

The Bear Came Over The Mountain é um conto sentimental sem sentimentalismo. Escrito pra emocionar, mas sem a devida emoção. Não tem brilhantismos, nem uma escritora adequada. Mas ainda assim é um bom material, perfeito para virar filme. A atriz Sarah Polley resolveu ter sua estréia na direção adaptando esse conto. Polley selecionou as principais fontes da trama que poderiam derivar emoções e construiu seu filme de forma muito superior ao conto. A história de The Bear Came Over The Mountain é muito mais aproveitável (e significativa) em estruturas mais longas. Caso fosse um livro, por exemplo, seria muito melhor. No filme, ficou excelente. Nesse caso, o filme fica superior ao conto. Ambos são bem parecidos, mas devido às diferentes estruturas, ficam com qualidades bem diferentes.

7 comentários em “Adaptação – The Bear Came Over The Mountain

  1. Kau, não consegui me envolver com o conto…

    Kamila, essa alternância de momentos ocorre em um estado já mais avançado da doença. No início, a pessoa ainda é lúcida, com apenas alguns lapsos de memória e esquecimentos.

    Vinícius
    , então você não vai mudar a sua opinião sobre “Longe Dela” se você ler o trabalho de Alice Munro.

    Viviana
    , o filme é muito bom!

    Pedro, eu achei o filme mais agradável…

    Sérgio
    , só li “The Bear Came Over The Mountain” porque era uma leitura bem ligeira!

  2. O filme eu gostei bastante, por enquanto não tenho muito interesse em ler o livro já que estou lendo um agora e quando o terminar já tem mais 3 na fila de espera… hehehe

    vlws

  3. Matheus infelizmente ainda não tive a oportunidade de ver o filme nem de ler o conto, mas pelos seus comentários, a adaptação foi realmente boa!
    bjoooooo

  4. De certa forma a admiração por determinado filme dificulta minha visão em relação à obra de origem e vice-versa. Pelo fato de não ter gostado tanto de “Longe Dela”, não fiquei muito interessado do conto original.

  5. Pelo seu texto, parece, então, que o trabalho de adaptação da Sarah Polley foi brilhante, já que você citou vários aspectos negativos do conto da Alice Munro.

    Eu não tenho parentes com Alzheimer e nem conheço muito sobre a doença, mas, se não me engano, os portadores da doença alternam momentos lúcidos com momentos em que perdem totalmente a sanidade. Talvez, por isso, Fiona tenha a consciência da doença, saiba do seu diagnóstico e ajude o marido Grant a tomar a difícil decisão da internação na casa de repouso.

  6. Matheus, permita-me discrodar. Acho conto lindo, mas muito bonito mesmo. E a adaptação ficou belíssima a ponto de me fazer chorar de emoção não só por ter ficado ótimo, mas sim de alegria por Sarah Polley ter feito um trabalho tão bom.

    Abraços.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: