Opinião – A culpa de Briony

Atenção! Se você ainda não assistiu o filme “Desejo e Reparação”, não continue a ler o texto, pois ele possui spoilers.

Quantos anos de idade são precisos ter para saber a diferença entre o certo e o errado? Em 1935, no dia mais quente do verão inglês, a jovem Briony Tallis (Saoirse Ronan, ótima) presenciou uma cena nebulosa – onde nem mesmo o ser humano mais atento poderia dizer o que aconteceu de fato. Ao contrário das garotas de sua idade, Briony interpretou tudo de forma maliciosa, sexual. Isso, enventualmente, fez Robbie Turner (James McAvoy) ir preso, depois para a guerra e, enventualmente, morrer nos campos de combate. Mais do que isso, destruiu o amor entre ele e Cecilia (Keira Knightley), irmã de Briony.

Nutrindo um amor passageiro de adolescência por Robbie, Briony via todas as situações de forma diferente por causa desse sentimento. Sentia ciúmes dele, ficava mal-humorada quando ele a preteria e invejava o relacionamento dele com Cecilia. O que fica evidente, logo nos primeiros minutos de Desejo e Reparação, é que Briony não é uma garota qualquer. Ela é diferente das meninas de sua idade. É inteligente e crítica, com traços adultos em sua personalidade. Mas daí fica a questão: por que ela mentiu descaradamente sobre uma coia tão séria, que ela não tinha certeza alguma? A resposta mais adequada é a que tinha certa raiva pro Robbie não ser a pessoa que ela esperava que ele fosse. A pessoa que lhe desse atenção, que a tivesse com prioridade.

Briony não notou a consequência de sua mentira logo de cara. Tanto, que assiste, na janela da casa, com uma expressão gélida, a prisão de Robbie. Ela era inteligente sim. Mas não quando os sentimentos entravam em cena. Era, ao mesmo tempo, dotada de uma inteligência diferente e de uma inconsequência assustadora. Foi com o passar dos anos que começou a perceber o estrago que fez. Ainda assim, quando já era maior e enfermeira (nessa fase, interpretada come excelência por Romola Garai), nunca teve coragem de expressar o seu arrependimento e também nunca procurou formas de se reconectar com a família – que havia sido destruída depois daquele verão tumultuoso. Ela se escondeu, viveu uma vida solitária. Queria, de certa forma, fugir dela mesma e da terrível decisão que fez quando garota.

Briony era covarde. Só conseguiu expressar toda sua dor e arrependimento através da arte, quando, já idosa e doente, escreveu um livro contando a história de Robbie e Cecilia. Contando, inclusive, sua mentira e sua culpa. Agora, tal “pedido de desculpas” é válido quando as pessoas em questão já morreram? Não seria “mais fácil” para ela assumir a culpa depois que não existe mais ninguém a quem recorrer para pedir perdão? A mesma Briony covarde vivida por Romola Garai continua aqui nessa senhora vivida por Vanessa Redgrave. Contanto, ao mesmo tempo em que temos repulsa por uma personagem tomada pela inconsequência, também enxergamos um ser humano arrependindo – e que era fraco demais para fazer o fundamental: pedir desculpas.

Portanto, fica no espectador aquela mesma sensação despertada por Hanna Schmitz em O Leitor: estamos tendo pena de uma personagem que fez um absurdo, que “matou” pessoas e que destruiu a vida sentimental de alguém. Agora, Briony é diferente de Hanna Schmitz só por ser uma criança? Talvez não. Como já dito aqui, ela era bem consciente de seus atos e, por mais que fosse uma criança, sabia muito bem que tudo poderia ter sido diferente caso não tivesse dito: “I saw him. I saw him with my own eyes“. Pra mim, ela tem sim a sua culpa. Mas, isso não quer dizer que eu também não entenda as dores e o sofrimento da personagem causados pelo arrependimento.

E você, o que acha da Briony? Ela tem culpa ou não?

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Anteriormente:

A culpa do Padre Flynn, em Dúvida

A escolha de Francesca, em As Pontes de Madison

O segredo da vila, em A Vila

A verdade sobre Hanna Schmitz, em O Leitor

A felicidade de Poppy, em Simplesmente Feliz

A obsessão de Barbara, em Notas Sobre Um Escândalo

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14 comentários em “Opinião – A culpa de Briony

  1. É claro que Briony nao devia ter acusado sem ter absoluta certeza.Mas qualquer testemunha de qualquer crime nunca tem certeza, o trauma de presenciar algo desse estilo faz com que a memória nao seja fiel a realidade.

  2. EU NÃO ACHO A BRIONY CULPADA, pois ela acreditava que o robbie era um ‘tarado sexual’, que atacara sua irmã na biblioteca, e que escrevera uma carta desrespeitosa.Aliás Briony já pensava em denuncia-lo a policia por causa da carta!! Cecilia nao deu nenhuma explicação para Briony, nao disse que robbie nao era um tarado, nao explicou a carta, nao explicou a cena na biblioteca.
    De fato Briony não sabia ao certo o que havia visto, mas todos fatos levavam a crer que era robbie, inclusive LOLA, que ao meu ver é a principal culpada, pois foi ela a ÚNICA que sabia que nao havia sido Robbie !!

  3. Kamila, eu preciso urgentemente ler o livro de Ian McEwan!

    Marcelo, bela análise!

    Marcel, obrigado pelo selo! =)

    Bruno, eu só senti raiva de verdade da Briony na fase em que ela era interpretada pela Saoirse Ronan… Depois, até fiquei com pena dela, principalmente quando ela está velha e vê o quanto errou com as suas decisões.

    Vinícius, a Hanna e a Briony nos despertam sensações bem parecidas, né?!

    Charles, não li o livro de Ian McEwan, mas acho que o filme de Joe Wright soube dosar muito bem todas as storylines…

    Mayara, eu não tinha pensado nessa análise: a de ela querer chamar a atenção de outra maneira, já que não conseguiu apresentar sua peça. Esse também é um ótimo argumento!

    Robson, eu também acho que ela tem total culpa, uma fez que ela sabia exatamente o que estava fazendo quando culpou o Robbie.

    Kau, eu não acho que “Desejo e Reparação” tenha se focado tanto no romance entre Robbie e Cecilia. A parte da Briony teve bastante destaque e foi muito bem desenvolvida, na minha opinião.

    Ygor, obrigado pelo selo!

  4. OUtro Selo!!! lhe indniquei para o Vale a Pena Ficar de Olho Nesse Blog veja no Moviemento. Abraço!!

  5. Matt, vc resumiu o que era para ter sido Desejo e Reparação. Deveria ter mostrado A CULPA DE BRIONY e não o romancezinho clichê entre Cecilia e Robbie. Mas enfim, o texto não coloca os erros do roteiro em pauta… hahaha.

    Acho que Briony tem muita culpa no cartório sim! Fez tudo por inveja e esta foi alimentada pela utópica idéia/desejo de um dia ficar com Robbie. O interessante, porém, é que ela – mesmo que tarde – entende que seus atos foram extremamente perversos e tenta se redimir.

    Abs!

    • O fato do filme boss mostrar primeiro um desfecho feliz para o caso, ameniza a nossa indignação com ela. Se desde sempre soubéssemos que ambos morreram… ah…aí não tinha pena certa! E maus. Cecíle abandona a família, de certo contou sobre eles.

  6. A partir do momento que ela sabe que o que viu podia ter sido somente uma ilusão e ela prefere alimentar essa ilusão do que não confirmar o fato, ela sabe, perfeitamente, o que está fazendo, portanto, ela tem total culpa. Eu acho que ela foi fria e calculista e quis tentar consertar o inconsertável depois de perceber a besteira que fez. Seu texto mostrou-se completamente conveniente com meus pensamentos em torno da personagem.

  7. Òtimo argumento. Realmente Briony no auge da idade na época, tinha uma imaginação muito fantasiosa e também uma paixonite. Como queria apresentar sua peça, talvez por ficar chateada e pensar que ninguém estava ligando para sua obra-prima, resolveu “chamar a atenção” dos outros por uma mentira que acabou destruindo não só uma história de amor e sua relação em família, mas também sua própria vida. È isso que entendo, um livro maravilhoso, assim como a película. ;)

  8. Olá Matheus! Essa questão pode ser melhor respondida para quem leu o livro. Sobre o filme, acho que a montagem soube valorizar a culpa de Briony. Ela é tão culpada quanto vítima de ter tido aquele “amor de criança” sobre alguém que admirava. A reparação da protagonista foi seu proprio arrependimento. abs

  9. Esse é um questionamento que fiz após o fim de “Desejo e Reparação” e sem dúvida merece essa discussão aqui. Como já tinha comentado no caso da Hanna, também acho que a Briony tem culpa por aquilo que fez, ainda que eu tenha simpatia pela personagem principalmente pela forma como a história é mostrada para nós.

  10. Cara…
    eu nunca tive TANTA raiva de uma personagem quanto dela na história do cinema. Pouco importa se depois ela se arrepende e tenta consertar o erro. Pouco importa se ela era pequena na época em que mentiu… revoltante!

  11. Desejo e Reparação fala de uma obsessão infantil, mas não aquela infantil de Amar não tem preço, mas uma obsessão infantil drástica, que por ser originada de uma mente não amadurecida, a mente da jovem Briony, torna-se numa obsessão duradoura e cruel. A menina mente em relação á um estupro que ocorreu nas redodenzas de sua casa e acusa o vínculo de paixão de sua irmã, Robbie.

    O que acontence é que Briony tinha um desejo débil e infantil por Robbie, que ao se relacionar com Cecilia, atiçou a obsessão cruel e vingativa de uma mente infantil. As consequencias dessa obsessão são verdadeiramente trágicas: as vidas dos envolvidos na história se alteram intensamente e a reparação desse erro não se mostra tão fácil assim.

    O filme é uma obra de arte em sua história, em sua fotografia, e em seu figurino. Seguindo a linha de Orgulho e Preconceito, Desejo e Reparação é um filme épico que vale a pena ser conferido, uma vez que aborda a mentalidade humana, suas consequencias e usa de plano de fundo, toda a tensão política do século XX.

    Nota: 10

  12. Briony tem MUITA culpa. Acho que tem toda uma conjuntura que contribuiu para o ato dela: a paixonite por Robbie, a vontade de chamar a atenção (e de sentir que Cecilia meio que queria roubar o holofote dela), a falta de conhecimento de mundo, a imaturidade, a criancice, a birra dela. Eu acho que Briony acabou pagando um preço muito caro pelo que cometeu, porque ela nunca conseguiu se livrar da culpa que sentia. E a maneira que ela teve para reparar as coisas foi usando seu dom! Sua imaginação fértil – o mesmo artifício que a levou àquela situação delicada. E isso não deixa de ser curioso! Por isso que amo o livro de Ian McEwan e, por consequência, o filme do Joe Wright.

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