Livro – Os Famosos e os Duendes da Morte

Se tu sentir saudade, deita na minha cama e olha para o teto do meu quarto. Tu vai ver, talvez pela primeira vez, que as estrelas que o velho colou não estão mais lá. Faz tempo que isso aconteceu. Chove toda vez que eu sinto saudade, mas algumas coisas ficam mais bonitas quando se transformam em lembranças. A última caiu, não faz muito tempo. Ela está no bolso de trás da minha calça e vai ficar aqui até quando eu voltar e te abraçar de um jeito tão mais forte do que tu poderá entender…

Identificação é algo essencial para quem quer apreciar a história de Os Famosos e os Duendes da Morte. Identificação não só com a história apresentada mas, também, com o estilo de escrita apresentado pelo autor Ismael Caneppele. O gaúcho parece captar como nenhum outro autor brasileiro a essência das angústias adolescentes e o mundo isolado de pessoas que vivem em sociedades longínquas.

Caneppele, antes de escrever Os Famosos e os Duendes da Morte, já havia percorrido esses horizontes com outra obra, Música Para Quando as Luzes Se Apagam, que também adota um estilo confessional em primeira pessoa (sempre lembrando bastante a narrativa de O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger) e versa sobre os momentos de reflexão do protagonista em relação ao mundo à sua volta.

Os Famosos e os Duendes da Morte surgiu da própria vivência de Caneppele na cidade de Lajeado, onde viveu durante anos. O autor, que já confessou que o enredo é uma espécie de ode ao lugar onde um dia viveu e uma crônica de despedida das lembranças que tem de lá, calcou a sua escrita na vivência que tinha com os amigos que nunca saíram da cidade interiorana e nos primos que enxergavam o mundo através da internet.

Portanto, é muito fácil perceber, em cada página, um ponto de vista quase que autobiográfico (talvez, “pessoal”, seja uma palavra mais apropriada). Os Famosos e os Duendes da Morte dialoga com bastante intensidade com as pessoas que, assim como Caneppele, possuiram ou possuem algum tipo de vivência ou identificação com o mundo do protagonista. De forma alguma isso invalida a leitura para os outros públicos, mas, a aceitação da obra é muito mais abrangente para aqueles que se identificam com a proposta.

O livro, mesmo que não chegue a ter nem cem páginas, deixa a sensação de que tem muito mais. No entanto, esse aspecto não pode ser considerado algo negativo. A linguagem extremamente metafórica e as inúmeras reflexões filosóficas do narrador-protagonista exigem a atenção do leitor e isso, no final das contas, torna a leitura mais lenta e dedicada. Mas, esse era um dos principais objetivos de Caneppele. Ele não queria facilitar nada. Ele queria ter liberdade de criação junto com a possibilidade de inventividades.

Encerrando com uma carta de despedida arrebatadora, o livro de Os Famosos e os Duendes da Morte é uma experiência, no mínimo, curiosa. Assim como o filme, é impossível ficar indiferente com o resultado. Quer você goste ou não, nunca poderá ser dito que algo como esse livro/filme já foi feito anteriormente. É algo totalmente novo e original. Não tanto no conteúdo, mas bem mais no que se diz respeito à forma.

Em uma última análise, o que me incomodou no resultado foi o último ato da história, quando o “menino sem nome” embarca em um passeio com Julian. A partir do momento em que essa parte se instala, o livro perde o ritmo e fica figurativo demais para o meu gosto. Então, ao meu ver, Caneppele pecou no encerramento da história. Mas, com a carta final, os deslizes, de certa forma, puderam ser perdoados. Aliás, seria preciso de muito mais para apagar toda a boa sensação que tive ao me identificar com o enredo…

12 comentários em “Livro – Os Famosos e os Duendes da Morte

  1. eu não sei se. porque senti uma. isso me. bastante. mas concordo quando você. no mais, pouco tenho.

    entendeu?

    então, eu sentia vontade de xingar o Caneppele toda vez que ele fazia isso. porque pode justificar com o que for, e eu sei que os amantes do livro encontrarão inúmeras justificativas para muitas escolhas do autor, mas a maioria delas me soaram como pseudo-cult. gosto da grande incerteza e incompletude da história – algo que me agradou muito no filme, o qual amo, vale dizer -, do diálogo dele com a internet e também a carta final. porém, no geral, é um saco, um martírio. fiz imenso esforço para ler um livro tão curto.

    []s!

  2. O filme ainda é uma enigma pra mim, no sentido de saber se realmente não gostei ou adorei. Sai da sessão com uma estranha sessão que beirava ao bom e ao ruim ao mesmo tempo. Preciso rever, porém não sei se gostaria realmente de ler o livro.

  3. Identificação, realmente, parece ser o ponto principal no livro e no filme. E eu não consegui me identificar com a história, apesar do esforço, no filme, do Esmir Filho. Quem sabe, numa revisita…

  4. Quero demais ver esse filme, mas ele não chegou por aqui. Sempre me interessei pelo texto. Não sei se vou gostar, mas tenho muita vontade de assistir, espero poder um dia.

    abraço!

  5. Acabei de assistir o filme nesse instante e confesso que me sinto como Robson Saldanha…to com um nó aqui dentro em relação a alguma conclusão…

    enfim!
    abraço!

  6. Acho que o livro é bom ler no caso se teve algum tipo de identificação com o filme. Se eu gostar do filme, irei atrás do livro. ;)

  7. Jeff, eu entendo completamente quem acha que essas escolhas do Caneppele soam “pseudo-cult” demais. Eu também senti um pouco disso. Mas não me incomodei. É fato que o livro parece ter o dobro do tamanho que realmente tem… Porém, gostei do resultado, mesmo que eu tenha gostado bem mais do filme.

    Robson, acho que você tem que rever o filme. Eu gostei mais dele em uma revisão.

    Cleber, mesmo que você não goste do livro, procure o filme, que é ótimo!

    Kamila, como eu disse no texto, acho que a identificação realmente é algo essencial para apreciar “Os Famosos e os Duendes da Morte”.

    Vinicius, o filme já está disponível em dvd…

    Wally, confere logo, sei que vai gostar xD

    Bruna, procure rever depois… O filme melhora numa revisão!

    Mayara, exatamente!

  8. Bom parece otimo mais aqui no rio nao se fala nele , como posso ve-lo ?

  9. Eu não entendi aquele final. A menina não estava morta? Porque ela apareceu depois? era um sonho? ficou confuso para nós que estamos acostumados com os filmes hollywoodianos onde tudo é muito bem explicadinho.

  10. Eu lí o livro seis vezes e vi o filme mais de quinze, sem duvida é maravilhoso. Ismael Canappele é um grande escritor!

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