Cisne Negro

The only person standing in your way is you.

Direção: Darren Aronofsky

Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey, Winona Ryder, Janet Montgomery, Benjamin Millepied, Ksenia Solo

Black Swan, EUA, 2010, Drama, 108 minutos

Sinopse: Beth MacIntyre (Winona Ryder), a primeira bailarina de uma companhia, está prestes a se aposentar. O posto fica com Nina (Natalie Portman), mas ela possui sérios problemas interiores, especialmente com sua mãe (Barbara Hershey). Pressionada por Thomas Leroy (Vincent Cassel), um exigente diretor artístico, ela passa a enxergar uma concorrência desleal vindo de suas colegas, em especial Lily (Mila Kunis).

Não consigo entender o que O Lutador faz no currículo de Darren Aronofsky. Apenas correto do início ao fim, o filme estrelado por Mickey Rourke não tem nada a ver com a filmografia do diretor. Ele não é aquela obviedade que vimos em O Lutador. Aronofsky é aquele cara que perturbou meio mundo com um revolucionário retrato das drogas em Réquiem Para Um Sonho. Ou, então, aquele cineasta cheio de linguagem visual e narrativa diferenciada de Fonte da Vida. Aronofsky também é o sujeito que fez com que um casal simplesmente abandonasse a sala de cinema onde eu assistia Cisne Negro.  Tudo o que existe de melhor no talento do diretor está expresso mais uma vez nesse longa protagonizado por Natalie Portman.

O casal que abandonou a sessão desistiu de Cisne Negro quando Natalie Portman e Mila Kunis encenaram um momento lésbico. Não é para menos, já que a cena é intensa e representa um dos picos  de confusão psicológica da protagonista. Mas é exatamente assim que Aronofsky trabalha: ele incomoda, ousa e não quer saber de facilitar qualquer situação para o espectador. Mas, por mais que a cena seja muito realista, foi exagero desse tal casal ter fugido da sala de cinema. Cisne Negro, apesar de sua narrativa anticonvencional, está longe de ser um produto chocante ou de difícil aceitação. Pelo contrário. Esse é um longa-metragem complexo, mas perfeitamente compreensível e assistível. Diferente e ousado, mas nunca repugnante em qualquer forma.

Assim como qualquer outro longa de Aronofsky (e, repito, O Lutador, na minha opinião, não se enquadra nessa lista), o impacto não está no conteúdo e sim no visual e em como a direção conduz a história. Afinal, quantas vezes já não vimos essa história de paranóia? A diferença é que o diretor sabe como ninguém selecionar um tema aparententemente normal e transformá-lo num verdadeiro espetáculo sensitivo. Bem como Réquiem Para Um Sonho, Cisne Negro mexe com todos os sentidos do espectador, que pode se arrepiar com a beleza de um balé incrivelmente bem fotografado ou morrer de agonia em cenas de dor física da personagem. A direção magnificamente bem orquestrada, assim como a extraordinária trilha de Clint Mansell, transforma uma simples história em um completo espetáculo.

Cisne Negro é um filme que vai crescendo gradativamente. Se no início o roteiro faz apenas uma apresentação óbvia de seus personagens e depois aposta numa certa repetição para começar a ilustrar a paranóia da protagonista, aos poucos começa a se apropriar melhor do talento de Aronofsky e de todos os atributos técnicos para construir um filme mais intenso. Por fim, somos brindados com um ato final divino (possivelmente, a melhor execução de um desfecho dos últimos tempos). Tudo isso, claro, não seria possível sem a presença de Natalie Portman, que, assim como o filme, demora um pouco a se encontrar, mas deixa uma forte impressão no espectador. Os coadjuvantes Vincent Cassel, Barbara Hershey e, em menor grau, Mila Kunis, também ajudam na construção geral.

Longe de ser cult demais ou de difícil compreensão como aparenta, Cisne Negro é um filme de arte. Consegue o feito de unir várias linguagens artísticas (música, dança e cinema) em uma história que varia entre o drama e o suspense psicológico. Réquiem Para Um Sonho ainda continua imbatível como a obra-prima de Aronofsky e se Cisne Negro fosse o espetáculo que é a partir da metade desde o início, talvez também conseguisse obter esse título. Como não é, permanece como um filme altamente recomendável e destinado ao público que deseja embarcar em uma experiência diferente do que o cinema está habituado a apresentar. Achando ou não que o filme é uma oitava maravilha do mundo, é impossível ficar indiferente ao resultado de Cisne Negro.

FILME: 8.5


NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO:

19 comentários em “Cisne Negro

  1. Não concordo quando diz que o impacto dos trabalhos do Aronofsky estão centrados, principalmente, no visual e na direção. São, sim, importantes na filmografia do diretor em questão, mas, seu longa de estréia “Pi” apresenta uma força maior justamente no roteiro – ainda que a direção de Aronofsky ajude, e muito.
    Ademais, gostei de sua crítica. E Cisne Negro, junto com O Lutador, são meus preferidos no Oscar.

  2. De um modo geral, concordo com os pontos apresentados em sua resenha, ainda que eu não tenha gostado do filme na mesma intensidade que você. Acho-o correto, comporto por uma direção segura e por uma belíssima interpretação de Natalie Portman – ela, aliás, é a vida dessa obra.
    Mas não acho que seja tudo isso, não. Como disse, acho correto, não surpreendente.

    E também acho que foi extremo exagero do casal sair da sala de cinema, porque, como você mesmo disse, esse filme está longe de ser um produto chocante ou de difícil aceitação – e está longe também de ser desautomatizador.

  3. Teu texto parece mostrar que você não gostou muito deste filme, mas pode ter sido impressão minha. Achei um trabalho grandioso, desde já meu favorito do Oscar. O filme é todo perfeito em suas esferas técnicas e, principalmente, interpretativa.

    Natalie Portman é deusa aqui, expressa uma interpretação única. A maneira como sua personagem se desnuda, aos nossos olhos, é algo revelador…e a mão cuidadosa de Aronofsky ajuda, ao colocar a personagem aos nossos olhos e sentidos, com todas suas fragilidades e anseios, é assombroso. Não acho que ela ‘demorou a se encontrar’. De maneira nenhuma, a sua composição vai além.

    O filme pulsa, é todo psicológico. Me arrepiei bastante. A cena em que Nina explode, visualmente e metaforicamente, seu “Cisne Negro” desde já é um momento clássico do cinema moderno.

    Belo filme mesmo!

  4. Boa crítica Matheus. Concordo que o final deste filme seja das coisas mais sublimes dos últimos anos. Esplêndido mesmo. Não acho que este filme seja tão descolado de O lutador assim. Ele recupera alguns temas do cinema de Aronofsky que não compunham O lutador, mas outros que estavam lá tb estão presentes em Cisne negro. Acho que este filme pode ser chamado de obra prima sim. Como vc disse, uma história simples tornada um espetáculo. Não é qualquer um que faz isso não… Eu fiquei impressionado com a qualidade deste filme…
    abs

  5. Concordo que o filme vai crescendo na medida em que vamos mergulhando na desintegração emocional de Nina. É esse o foco do filme e concordo que a direção do Aronofsky quer nos tirar de nosso ponto de conforto. E ele consegue isso ao realizar um filme altamente perturbador. Dizer que a obra é muito bem orquestrada é uma afirmação mais que feliz, uma vez que os elementos visuais contrastam muito bem com o uso da música, dos espelhos que são objetos de cena e o espetáculo que assistimos alcança esta completude que você menciona com a adição da sensacional performance da Natalie Portman! Um grande filme!

  6. Acho que o filme começa sutil, mas depois ele cresce drasticamente para melhor, deixa sem fólego. rsrs. E achei que o filme é mais do que mostrar os bastidores do balé clássico, mas sim em mostrar a pressão. Um espetáculo de filme! :)

  7. Há muitas temporadas não me encantava tanto por um filme. Desde o princípio é fantástico, demonstrando a dificuldade de Nina em lidar com possíveis fracassos, acendendo a pessoa invejosa e paranóica que existe dentro daquela jovem. Após sua escolha, para o balé O Lago dos Cisnes, então, o longa assume um aspeto perturbador, alucinante, assustador, tecnicamente perfeito… Enfim, fiquei de queixo caído. Mesmo.

  8. Bela crítica, Matheus. Como o Weiner há muitas temporadas não ficava tão encantado quanto fiquei com Cisne Negro. Obra-prima. Sem mais!

  9. Assistir Cisne Negro foi pra mim um privilégio.Assisti um clássico na sala do cinema.

  10. Rodrigo, ainda não assisti o “Pi”… E acho que tu quis dizer “O Vencedor”, né? =D

    Luís, em termos de história o filme não é surpreendente mesmo (como eu disse na resenha, o forte do Aronofsky é a direção, não os roteiros), mas acho todo o resto ÓTIMO!

    Alan, é o meu segundo favorito… Estou torcendo primeiro para “A Origem”!

    Cristiano, não fui tão firme em meus comentários porque tenho a sensação que posso gostar mais do filme em uma revisão – que pretendo fazer logo!

    Reinaldo, em termos de direção e estética, acho que “O Lutador” não tem NADA a ver com o Aronofsky!

    Kamila, o meu favorito do ano até agora!

    Mayara, pelo menos pra mim o filme foi bem morno até a metade. Depois só foi melhorando!

    Othons, também acho!

    Weiner, o filme só começou a ser fantástico pra mim após a metade…

    Fael, ainda faltam algumas revisões para eu chamar “Cisne Negro” de obra-prima… Por enquanto, acho apenas um ótimo filme!

    Renata, nem consigo imaginar esse filme em dvd. Acho que no cinema deve funcionar maravilhosamente melhor.

  11. Perturbador. Magnífico. Quero ver outra vez. A cena da transformação é fantástica. Para mim. com certeza, cena clássica e inesquecível. Só não é uma obra prima pela repetição de algumas cenas. Mas fazia tempo que não tinha tantas reações em um filme. Quase perfeito. Nota 9.

  12. Em primeiro lugar, para entender melhor o filme, o espectador tem que conhecer a história do Cisne Branco e Cisne Negro, ou melhor, das gêmeas Odille e Odette. Depois, conhecer a música de Tchaikowsky. Não adianta ver Big Brother (cérebro de ostra, então) e, depois, querer ver obras densas. Conhecimento começa lá atras, desde pequeno. Somente assim se compreende as grandes obras. O filme é muito bom e deixa-nos impressionado. A cena da dupla morte (do cisne e da bailarina) é magistral.

  13. Realmente um ótimo filme.
    Na minha opnião Natalie Portman mereceu o oscar de melhor atriz.
    Concordo com você, um filme impressionantemente profundo.
    A cena da metamorfose em cisne, foi uma das melhores !
    E um final no mínimo surpreedente e confuso.

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