Cópia Fiel

Direção: Abbas Kiarostami

Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière, Agathe Natanson, Gianna Gianchetti, Adrian Moore, Angelo Barbagallo

Copie Conforme, França, 2010, Drama, 106 minutos

Sinopse: James Miller (William Shimell) é um filósofo inglês que vai a uma pequena cidade da Toscana apresentar seu livro sobre o valor da cópia na arte. Chegando lá, encontra Elle (Juliete Binoche), uma francesa que é dona de uma galeria de arte há muitos anos, que vive com seu filho pré-adolescente (Adrian moore). Eles passam a tarde juntos. Ao mesmo tempo em que vão se conhecendo, começam a desenvolver um complexo jogo de interpretação de personagens.

Sei que vou despertar iras descontroladas após esse comentário, mas devo dizer que Cópia Fiel é um filme admirado por um número significativo de cinéfilos pedantes. Ou seja, é filme de arte, que fala sobre arte e que questiona arte. Portanto, todo mundo tem que adorar. Caso contrário, você  não entende nada de cinema e muito menos compreendeu o que o diretor quis dizer. Então, é com muito receio que escrevo sobre esse Cópia Fiel, um longa-metragem cheio de altos e baixos e que funciona melhor na teoria do que na prática. O filme recebeu maior destaque mundial por ter vencido a Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes para a francesa Juliette Binoche.

Partindo do mesmo argumento que o documentarista brasileiro Eduardo Coutinho utilizou em Jogo de Cena (o jogo entre ficção e realidade), o filme de Abbas Kiarostami demora para mostrar ao público quais são as suas reais intenções. O resultado chega a ser particularmente torturante até a metade, onde longas cenas tomam forma com milhares de diálogos sobre crítica, arte e afins. Ok, isso é necessário para preparar o espectador para o que o filme está prestes a colocar em debate, mas precisava ocupar tanto tempo e apostar em conversas tão cansativas?

A partir do momento em que os personagens param em uma cafeteria da Itália, a situação de tédio é revertida. Nesse momento, o clima de Cópia Fiel fica muito mais instigante e o filme passa a fluir com mais dinamismo. Portanto, a ótima química entre Juliette Binoche e William Shimell passa a ser instrumento fundamental para situar o espectador na misteriosa situação em que os personagens estão envolvidos. Afinal, os personagens estão representando ou, de fato, falando sobre uma história deles próprios?

Binoche, claro, sai beneficiada por ter o papel mais sentimental e expressivo. Shimell não fica muito atrás, mas o brilho é quase todo de Binoche, que já sai ganhando por ter uma sinceridade muito grande em suas expressões. A francesa sempre foi uma atriz que passa muita humanidade e aqui não é diferente. Binoche e Shimell são vitoriosos na hora de transmitir para o espectador tudo aquilo que o roteiro tem certa dificuldade em passar em vários momentos.

Cópia Fiel, como já citado, torna-se um produto cinematográfico muito mais interessante na teoria do que na prática. As discussões geradas pelo diretor Kiarostami são intrigantes. O filme nem tanto. Na realidade, não é aquele tipo de história que necessita de revisões para ser melhor analisado, como Dúvida, por exemplo. Cópia Fiel é objetivo no que deseja passar (leia-se questionamentos), mas não é brilhante nos meios que utiliza para alcançar isso. O resultado, afinal, está longe de ser o que dizem por aí. Filme para se debater, não necessariamente para se admirar. E aí, devo ser levado em menor consideração só por causa disso?

FILME: 6.5


14 comentários em “Cópia Fiel

  1. Pois é, dou parabéns a quem assume que não gostou de uma “obra-prima de arte”, o que costuma ser uma heresia. Quanto a mim, não gostei nem desgostei, o filme prendeu minha atenção justamente na hora em que o escritor inglês vira um “marido” ou marido, falando em francês, e de quebra o filme oferece um final em aberto, qdo ele diz que não podia perder o trem das 21… coisas mais ou menos como as doze badaladas de Cinderela, enfim cinema é diversão e é também provocação. Não me deu prazer, mas me provocou, e vejo que essa foi a intenção de Kiarostami.

  2. Ensinei para minhas filhas gêmeas que tudo na vida tem início, meio e fim. Fiz isso, tanto para que elas soubessem desde cedo da finitude humana, como também para que entendessem que depois de cinco horas brincando e repetindo a mesma brincadeira, ela deveria acabar (de novo, de novo… hahaha).
    Assim, não gosto de filmes sem desenlace*. Filmes feitos para que você em casa crie um final e brigue com os outros para que eles entendam que o seu final é o certo e o melhor.
    Cópia fiel não termina. Não sei nem se os personagens ficaram juntos ou voltaram cada qual para sua casa. Dessa forma, não gostei do filme e daria, no máximo, uma nota 6, pois ele se salva da perdição pela bela atuação dos personagens centrais.

    *Wiki: “Desenlace é o momento final de certa narrativa, conto ou fábula em que tudo se esclarece. Também chamada de conclusão ou simplesmente final”.

  3. Vi o filme ontem.
    Primeiramente quero dizer que sou eclético e gosto muito de cinema. Acho que um filme de comédia pastelão ou um Indiana Jones podem ser ótimos filmes. Ainda assim gosto muito de filmes mais densos e desafiadores.

    Adorei Adaptação, do Kaufmann, e acho um filme completamente maluco, que mexe um pouco com a mesma questão, do que é real e do que é encenação ou imaginário.

    No caso de Cópia Fiel, contudo, acho que realmente o diretor não alcançou o objetivo. Mesmo não sendo tão hermético como Adaptação, por exemplo, acaba deixando pontas soltas demais.

    Me lembro uma história de gibi da turma da Mônica em que o Louco mostrava para o Cebolinha uma tela em branco e dizia que era uma obra de arte. O Cebolinha dizia que ali não havia nada pintado e então o Louco retrucava: “é porque assim você pode imaginar qualquer coisa que quiser”.

    Não gosto de nenhuma obra que precise de manual de instruções. Se eu tenho que ler uma crítica para entender as possibilidades e interpretações é sinal de que o diretor pecou em alguma coisa, pois esse é o caráter da obra, fornecer um elemento guia, uma linha pela qual o apreciador possa fluir.

    Na verdade toda obra é uma tese, e para isso tem que propor algo viável, mesmo que dentro do fantástico, senão parece apenas uma falha de roteiro ou de continuidade.

    Em Cópia Fiel as alternativas propostas são todas inverossímeis, mesmo que apelando para o “Deus Ex Machina”.

  4. Eu já estava me sentindo a própria ANTA, por não ter gostado nada desse filme.
    Assim como a Marina, fui ver o filme sem qualquer informação, sem (pré) conceitos, sem ler críticas.
    Foi duro!
    Pior foi administrar o marido se contorcendo ao lado, louco para acompanhar os casais que debandaram.
    Juro, a sala estava praticamente vazia, primeira sessão depois do almoço, 14hs, e dois casais se levantaram no meio do filme e foram embora. Nunca tinha visto isso.
    Claro que podemos buscar mil formas de anilizar e considerar o conjunto da obra. Mas acompanhar aquele casalzinho sem sal e surreal até o fim, foi dose!

  5. O que dizer de um crítico que considera “cinéfilos pedantes” os que gostaram de um filme que critica??? Não fiquei decepcionada com o filme, muito pelo contrário, mas com o tom arrogante da crítica.

  6. Reinaldo, nossa lógica do tédio foi completamente inversa mesmo hahaha

    Kamila, obrigado =) e quanto ao desempenho da Juliette Binoche… É ótimo!

    Pedro, como eu disse no texto, um “número significativo” é pedante. Não generalizei =) Agora, não acho que “não gostar” do filme é sinônimo de não gostar de ser enganado… Acho possível não apreciar “Cópia Fiel” por outras razões, como as que citei em meu texto.

    Cristiano, vale pelos ótimos desempenhos!

    Mayara, obrigado =)

    Marina, que bom que não estamos sozinhos, então!

    Rodrigo, mesma coisa que eu disse pro Pedro… Não generalizei nada no meu texto. Falei de “número significativo” e não de “todos” pedantes. E, Rodrigo, respeito sim a opinião dos outros. Seria meio hipócrita eu não fazer isso, até porque, normalmente, tenho uma percepção bem diferente dos outros cinéfilos. O que vale, no nosso mundo de blogueiros cinéfilos, é a possibilidade de troca de ideias! E adorei o “puta fã” no final hahaha

  7. Como o amigo ali em cima disse, é perigoso e infundado acusar os que dizem gostar de tais filmes de “pedantes”. Não é demérito alguém valorizar Bergman, Godard, Griffith – e mais pra cá -, Lars Von Trier. Não vamos categorizar tais por meia dúzia de cinéfilos que gostam de posar como amantes do “cinema arte” – caracterização estranha, aliás, como se os trabalhos “simples” de caras como o Nolan não tivessem certo valor artístico. Portanto, Matheus, ao passo de que pede para que lhe respeitem por não gostar do filme – e eu o faço -, respeite aqueles que o admiram.

    Sobre o filme, digo que gosto. Mais, considero um dos melhores filmes que 2010. Não só pelo conteúdo, mas também – e principalmente – pela forma. O modo do qual Kiarostami desenvolve os personagens e entrelaça personalidades, ao mesmo tempo que discute arte e relacionamentos, é soberbo. Não achei em nenhum momento “entediante”, mas esta é uma conclusão mais subjetiva que os demais pontos que você apontou acerca do longa.

    Abraços, Matheus, adoro o seu blog e sou um puta fã.
    =)

  8. Concordo!
    Fui ver o filme sem nenhuma informação, fiquei tentando desvendar, o que foi interessante. mas em todo caso, extremamnete cansativo o filme, e assino em baixo: melhor na teoria!!
    ai, finalmente alguém criticou!!

  9. Gostei da sinceridade do texto, é um dos elementos que mais admiro aqui no seu blog. Sobre o filme, veria pela Binoche. ;)

  10. Gosto é gosto. Indiscutível. Mas quem gosta do filme não pode ser chamado de pedante também, né? Agora vamos a opinião sobre o filme.

    Acho um filmaço. Obra-prima mesmo. Não vejo ligação com Jogo de Cena (qualquer outro filme de Kiarostami pode ter semelhanças com ele, menos Copie Conforme, creio), pois lá é realmente ficção x doc, aqui é verdade x mentira/cópia x realidade. Qual parte das histórias você toma como verdade? Eles se conheceram ali criaram aquela relação? Eles realmente eram casados há 15 anos? Eles se conheceram ali, na coletiva do livro (cena de abertura), depois houve uma longa passagem de tempo (15 anos?) e eles acabaram se casando. Leituras diversas. Kiarostami mente muito, engana mesmo, nos leva para um lado e depois diz o oposto. Os diálogos são extremamente importantes nessa construção de tramas e personagens, e são lindos. Mas entendo quem não gosta do filme, afinal ninguém gosta de ser enganado. E Kiarostami é um tremendo mentiroso.

    Grande abraço!

    Obs.: te vi lá na sessão do Cineclube, :).

  11. De jeito algum, Matheus! A gente tem que ser é sincero sobre os filmes que assistirmos! E você é, sempre!!! Valorizo isso! Mantenha sempre sua opinião! :)

    Eu quero muito assistir a este filme, especialmente por causa da elogiada atuação da Juliette Binoche.

  12. Não deve ser levado em menor consideração não Matheus. Não acho que o filme seja tão decepcionante quanto vc, mas concordo com veemencia que a ideia é melhor do que o filme.
    Como eu disse na minha crítica, o filme se resolve melhor como ensaio (tese) do que como cinema.
    Também não acho que vc precisa assumir uma postura tão defensiva. rsrs. Mas te entendo.
    como já te disse, para mim a lógica do tédio (!?) foi inversa. Até a cantina italiana o filme beirava o excepcional, depois foi descendo o nível, embora ganhasse forma como tese…
    Aquele abraço!

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