Revisando Brokeback Mountain

É o seguinte: a primeira vez que tive contato com O Segredo de Brokeback Mountain foi no lançamento do filme, lá em 2006. Lembro que não compreendi muito bem o porquê de tanta celebração e defendia a ideia de que os votantes da Academia podem sim ser acusados de preconceituosos, mas que também existem aqueles que podem simplesmente não ter gostado tanto do filme. Depois de 2006, nunca mais tinha revisto esse trabalho de Ang Lee, nem mesmo depois da confusão no Oscar com Crash – No Limite. Agora, cinco anos depois, faço uma revisão, seguro de que, talvez, pudesse compreender melhor o romance de Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gylenhaal).

Mas, espera aí! Romance? Que romance? Mesmo em uma revisão, continuo achando que é exatamente isso que falta em O Segredo de Brokeback Mountain. O que percebo ali é uma curiosidade (apenas do personagem de Ennis, já que Jack sabe muito bem o que quer, por sinal), uma atração física intensa e algo que, possivelmente, nem os dois personagens sabem explicar direito o que é. Muitos fatores contribuem para essa percepção: a primeira transa dos dois é quase que mecânica (após uma noite de bebedeira), o envolvimento surge sem muitos indícios e, durante os anos, ambos se encontram apenas para “diversão”. Tanto, que, em determinado momento, quando Ennis é questionado por Jack sobre o número cada vez menor de encontros dos dois, Jack alega que não pode viver apenas com apenas “uma ou duas trepadas por ano”.

Outro problema muito incômodo em O Segredo de Brokeback Moutain, assim como em Closer – Perto Demais, é a forma brusca como o roteiro salta no tempo. Sem qualquer aviso (e isso poderia ser melhorado na montagem), passam-se dois, cinco ou dez anos. Excetuando a maquiagem cafona lá no final, não existem aspectos que evidenciem esse avanço no tempo. É missão do espectador se ambientar nas novidades e nas mudanças apresentadas de forma seca. É uma cronologia, ao meu ver, mal apresentada e que prejudica até mesmo o desenvolvimento dos personagens – em especial Anne Hathaway, uma figura que pouco acrescenta e que, durante todo o longa, não apresenta qualquer variação. É um personagem vazio, sem dilemas. Por outro lado, Michelle Williams representa com muita inspiração a sofrida esposa de Ennis Del Mar.

Esse avanço no tempo também acontece com muita frequência, aumentando a sensação de que cada cena é corriqueira e curta. Muito acontece em Brokeback Moutain e o efeito, de certa forma, é pouco. Com esses fatos quase que soltos, a história ainda culmina num final abrupto e trabalhado de forma pouco consistente. Claro que os efeitos dele foram extremamente positivos (e deram ainda mais chance para o excelente Heath Ledger mostrar o seu talento), mas poderia ter ainda muito mais impacto caso o filme não estivesse cansando tanto após várias mudanças, personagens passageiros e avanços na cronologia. O final foi tratado apenas como mais um fato desses.

Celebrado como uma grande história de amor, O Segredo de Brokeback Moutain é, na verdade, sobre duas pessoas perdidas na vida e que encontraram conforto e segurança numa relação proibida que apareceu numa época e num contexto tão difícil para ambos envolvidos. Só. Os fãs que me perdoem, mas Ang Lee não realizou um trabalho magnífico. Faltou muito ali. Superestimado (inclusive na trilha sonora de Gustavo Santaolalla, compositor que não mereceu nenhum de seus dois Oscars), O Segredo de Brokeback Mountain não foi exclusivamente vítima de preconceito pelos votantes da Academia. Acreditem, existem pessoas que, assim como eu, acham o filme apenas ok. E razões para isso o filme dá.

10 comentários em “Revisando Brokeback Mountain

  1. Não tenho a pretensão de fazer comentários simulando um crítico de cinema de alto “padrão”. Nem de longe sou o maior cinéfilo do mundo. Por isso, não vou entrar em méritos ou deméritos que minha limitada visão cinematográfica não me compete.
    Apenas desejo fazer uma observação acerca de um ponto de vista compartilhado nesta review. Claramente, esta é, sim, uma história de romance. Dizer o contrário é subestimar a história. Certo que há mais drama (e outras coisas) que cenas românticas. Mas, não dá pra isentar radicalmente a obra do título “romance”.
    Em diversas cenas (das poucas, vai) entre o casal Ennis e Jack, podemos ver mais do que atração física, permeada de desejo sexual. Após o primeiro contato físico entre eles, conseguimos notar a progressão nos sentimentos que um sente pelo outro. As aleatórias conversas e brincadeiras entre os dois nas primeiras cenas na montanha Brokeback já dão sinais dessa evolução.
    Okay, podem até passar por amigos se conhecendo melhor, ou homens com carência de companhia não esperada (como a própria autora diz). Contudo, é claro, até mesmo pela relação sexual entre eles, que esta não é a verdadeira intenção.
    Tornando-se mais objetivo, ao se despedirem, em 63, ao fim do trabalho, a cena na qual Ennis padece por uma dor que ele acha ser física, evidencia que algo mais restou daquele breve tempo juntos.
    Indo mais além, ao se reencontrarem, o beijo, presenciado por Alma, aliás, revela mais do que a saudade do contato físico entre eles. Foi a profusão de um sentimento maior.
    O desejo combatido por Jack em que os dois deveriam deixar tudo e viver juntos, não pode ser visto apenas como respaldo para a consumação de necessidades sexuais. Há, de fato, algo ali. Os momentos de diversão nos sequentes anos de escassos encontros servem, também, para atestar a profunda relação desenvolvida pelos caubóis.
    Continuando, a decepção de Jack ao saber que, apesar de divorciado, seu “amigo” não estava disposto se se entregar a uma vida inteiramente juntos, e até mesmo essa opressiva resistência do próprio Ennis, complementa essa visão.
    Não me estendendo mais, a grade cena onde os dois, pela primeira vez, discutem as mágoas, medos e vergonhas guardadas durante todos esses vinte anos, é, de fato, a prova de que eles tinham mais do que desejos sexuais. Eles se amavam. Eles derramavam lágrimas um pelo outro. Então, sim, havia amor ali. A lembrança de Jack de um momento único de felicidade sincera em que Ennis chega por trás dele e o abraça por alguns breves minutos, mas inesquecíveis momentos são nada mais do que uma linda cena de amor.
    Ao fim, com a perturbadora notícia de que Jack tinha morrido; a vontade de Ennis em cumprir os últimos desejos de Jack – o que, na verdade, também era um ato de relutância em acreditar que ele tinha partido; a descoberta de sua camisa, até então, perdida, abrigada no quarto de Jack; e suas lágrimas ao visualizar a composição feita com as velhas camisas penduradas por um cabide em um prego e o cartão com a imagem da montanha Brokeback acima delas, seguidas de um abafado “Jack, I swear”, refutam (de certa forma, ou da minha forma) a visão de que esta não é uma história de amor. Quer dizer, não é uma história de amor convencional. Não acredito que alguém poderia esperar ouvir declarações de amor (verbal ou gestual) ou, simplesmente, um audível “Eu te amo” desses dois. (Outras poucas e rápidas passagens no conto, não inseridas no filme, também corroboram pra essa visão)
    Do mais, essa é apenas a visão de um leitor que gostou de um filme. :)

  2. Cristiano, xD

    Rafael, entre as atuações, eu destacaria o Ledger e a Michelle Williams!

    Reinaldo, acho que não mudarei de opinião em uma revisão… Tanto que, como mencionei no texto, o intervalo foi de anos entre as duas vezes que assisti “Brokeback Mountain”.

    Otavio, discordo =/

    Kamila, eu também sou mais “Crash – No Limite”!

    Kahlil, duvido muito… Acho que qualquer outro filme que vencesse de “Brokeback Mountain” seria eternamente massacrado.

    Mark, então temos a mesma percepção do filme!

    Alexsandro, o Gustavo Santaolalla é extremamente superestimado! Não merecia de jeito nenhum ter vencido dois Oscars!

  3. Também acho que o maior problema não foi ter perdido o Oscar e sim ter perdido para o filme que foi. Não chego a achar o filme apenas “ok”, discordo de muita coisa no seu texto, mas também não acho essas coisas todas. Ang Lee não se tornou um gênio por causa disso e nenhuma atuação ali é memorável, exceto pela Michelle Williams. O roteiro não tem nada demais e ainda vou além e digo que a trilha sonora, cultuada como uma religião por muitos, não me empolga nem um pouco. Basta trocar um dos homens por uma mulher e todo esse amor que muitos cinéfilos têm por esse filme vai por água abaixo. Gosto, acho um bom filme, mas penso que é superestimado.

  4. Concordo plenamente que esse filme é apenas OK. Não vejo romance na história, mas sim uma necessidade sexual.

  5. Opinião corajosa a sua, tendo em vista que este filme é AMADO pelos cinéfilos. Eu, particularmente, gosto muito do filme do Ang Lee, mas sou mais “Crash – No Limite” e sei que sou totalmente minoria nisso.

  6. É, eu não acho o filme apenas Ok. Posso até concordar com algumas de suas observações, ainda que as relativize, mas discordo veementemente de outras como sobre a falta de consistência do final do filme. Quem sabe, em outra revisão (tanto minha quanto sua), nossas percepções se aproximem.

    Abs

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