Polêmica sem discussão

País do Desejo, exibido pela primeira vez no Brasil na 39ª edição do Festival de Cinema de Gramado, é um filme estranho. O diretor Paulo Caldas seleciona várias polêmicas, atira tudo no ventilador e deixa que o espectador crie as discussões. Não existe conteúdo nesse longa-metragem e sim uma vitrine apresentando vários assuntos controversos que são costurados de forma simplória pelo roteiro. Aborto, estupro, doação de órgãos e questões religiosas são tópicos explorados com muita superficialidade por um filme que carece de consistência. Chega até a incomodar a forma como País do Desejo faz questão de criar um amontoado de situações que causam inúmeras discussões.

Chegando ao cúmulo de mostrar uma japonesa comendo hóstias com ketchup enquanto está lendo um mangá pornô, o roteiro também comete outros deslizes completamente amadores. Vamos citar pelo menos dois que são gritantes. Primeiro, o fato de que a personagem de Maria Padilha faz hemodiálise há dez anos e não tem qualquer fragilidade física aparente. Ela usa lindos vestidos com decotes e tem uma aparência bem saúdavel para alguém que está há tanto tempo se tratando. O segundo (e pior) é criar um romance sem dar qualquer aviso prévio. Os personagens conversam uma vez e, poucos minutos depois, o roteiro anuncia que existe uma paixão ali. Uma paixão tão avassaladora que muda os valores dos personagens. Assim, de uma hora pra outra.

Difícil engolir problemas que poderiam ser facilmente contornáveis. O que acontece é que, como já dito, a vontade do longa não é contar bem uma história e sim fazer barulho. E isso fica evidente até para os menos críticos, que podem notar cenas mais compridas do que o necessário (notem o padre de Fábio Assunção caminhando em câmera lenta com seus cabelos esvoaçantes no corredor do hospital) e decisões abruptas que não convencem. São erros que, se inexistentes, deixariam País do Desejo no nível do satisfatório. Mas não dá para perdoar deficiências tão amadoras. Por isso, o resultado termina como extremamente raso e superficial. Criar polêmica não basta. Além de discuti-la, a missão de um filme também é de, no mínimo, encená-la de forma convicente…

4 comentários em “Polêmica sem discussão

  1. Reinaldo, exatamente! Apesar da tentativa, acho que o filme não vai fazer barulho nem quando entrar em cartaz comercialmente…

    Kamila, isso mesmo =/

    Mayara, é parecido mesmo! Quer criar polêmica e dá um tiro no próprio pé.

  2. Acho que o caso desse filme me lembra aquele “Do Começo ao Fim”, também com Fábio Assunção, que queria chocar com o romance dos dois irmãos e que ao invés de ser um romance tocante, acabou por ser vazio e sem estrutura. E puro marketing também.

  3. Nossa! Ainda não tinha ouvido falar neste filme, mas, pelo seu texto, acho que ele está envolto das intenções erradas e está muito mal estruturado… Uma pena.

  4. Pois é Matheus, já desconfiava de que esse poderia ser o caso quando comecei a me informar sobre o filme. Parece que essa impressão não foi de todo um equívoco… Mas acho que, mesmo assim, o filme não deve fazer muito barulho quando lançado comercialmente…
    Abs

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