Dois de Paus

Júlio (Guilherme Ferrêra) e Alex (Dionatan Rosa) são dois homens orgulhosos de suas solteirices. Ambos dizem não ter paciência para discutir relação e muito menos para compartilhar uma rotina com alguém. Até o dia em que se conhecem. Júlio é geminiano, publicitário e ainda não conseguiu assumir sua homossexualidade para a família. Alex é fisioterapeuta, escorpiano e fora do armário. Opostos que se atraem e que, imediatamente, começam a rever aqueles conceitos que tinham sobre a solteirice. O relacionamento deles, em Dois de Paus, quer mostrar que a vida baladeira pode ser muito divertida e proveitosa. No entanto, ela não consegue, em nenhum momento, superar o aprendizado e o inestimável valor de um sério compromisso.

Só que nem tudo são rosas na história deste excelente espetáculo que volta aos palcos de Porto Alegre (agora, no Teatro de Câmara Túlio Piva), em última temporada até o dia 13 de novembro. Logo na primeira cena, Dois de Paus já causa comoção ao mostrar uma intensa briga do casal acerca de uma traição. A ira do traído não está apenas no choro, mas também nos impulsos físicos de empurrar seu companheiro toda vez que ele tenta se desculpar. O arrependimento do traidor não se reflete apenas em palavras, mas também nos gestos que parecem não saber direito como consolar o amado. E Dois de Paus, do diretor Paulo Guerra, é assim o tempo inteiro: um espetáculo não só de palavras, mas também de gestos e olhares dos ótimos Guilherme Ferrêra e Dionatan Rosa.

Adotando uma narrativa que vai e volta no tempo, a peça traz um verdadeiro desafio para os dois atores: transitar por romance, drama e comédia de uma cena para a outra. Em termos de estrutura, a não-linearidade da trama não chega a ser tão interessante (assim como não melhoraria se fosse contada com início, meio e fim), mas a habilidade dos atores, junto com a veracidade com que eles representam cada cena, torna tudo muito verdadeiro e, acima de tudo, eficiente. Dois de Paus emociona não só quando mostra as dificuldades de uma vida a dois, mas também quando humaniza de forma contundente os relacionamentos homossexuais. Sem apelar para bobeiras (inclusive, é desprovido de caricaturas gays e até mesmo de apelações no cenário e nos figurinos), é um espetáculo que consegue ser romântico sem ser meloso e sério sem forçar a barra.

Resta, contudo, uma pergunta que pode ser um verdadeiro divisor de águas para a plateia: afinal, Dois de Paus seria igualmente interessante caso colocasse um casal heterossexual nas mesmas situações? Não. O que acompanhamos é um enredo que só funciona com tal excelência por falar sobre o amor de dois homens. Existe uma graça diferente nas situações vividas por eles e questionamentos que se tornam ainda mais contundentes em função de seus gêneros. É fácil dizer que o amor homossexual é igual ao hetero. E, em termos, é. Entretanto, as circunstâncias são diferentes e as dificuldades enfrentadas por um casal gay tornam a relação ainda mais “vitoriosa”. Quem sobrevive, é forte. Porque não estamos falando apenas de fazer um relacionamento dar certo. Estamos falando disso e, também, de enfrentar um mundo que, infelizmente, ainda não enxerga estas relações com naturalidade.

Assim, apesar do final que me desagrada, Dois de Paus termina como um excelente exemplo de luta pelos direitos gays – mas, acima de tudo, como uma homenagem a esses indíviduos que são tão homens e tão humanos quanto qualquer outro ser humano. Tudo isso, claro, a peça mostra sem nenhum clichê. É uma experiência mais do que válida. Não só para o público-alvo (em especial aqueles que já dividiram a vida com alguém durante bastante tempo), mas também para aqueles que estiverem dispostos a embarcar na história. Dois de Paus não ofende e nem esbarra em obviedades. Pelo contrário: emociona, diverte e funciona para todas as plateias, que vão torcer muito para que o peixinho Pequeno Príncipe não tenha que presenciar o fim de uma história tão bonita e que merece dar certo.

2 comentários em “Dois de Paus

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