Na coleção… Jogo de Cena

Não deve existir, no cinema brasileiro, unânimidade tão forte quanto a de Eduardo Coutinho. Seus filmes, ao longo de décadas, foram verdadeiros marcos para o gênero do documentário – mas, em todos os seus últimos trabalhos, o diretor tem apresentado uma constante excepcional: a extrema humanidade das figuras que retrata. E mesmo que, a cada filme, a essência seja praticamente a mesma, a reinvenção dele está sempre presente. Se, em Edifício Master, Coutinho era capaz de arrepiar ao simplesmente mostrar um homem cantando My Way, de Frank Sinatra, em Jogo de Cena, ele alcança o seu auge como mestre de emoções: um trabalho primoroso que se estabele como uma obra-prima do cinema brasileiro contemporâneo.

A história nós já conhecemos: Coutinho colocou um anúncio no jornal convidando mulheres para contar histórias de suas vidas. Entrevistou todas, selecionou algumas e, depois, pediu para famosas atrizes interpretarem essas histórias. No meio disso tudo, as próprias atrizes revelam momentos de suas vidas que podem ou não ser verdade. Moral da história: o que, a princípio, parece ser um previsível jogo de quem mente ou não, aos poucos se torna um instigante mistério sobre a verossimilhança dos depoimentos. As atrizes estão apenas interpretando? As mulheres desconhecidas estão mesmo sendo sinceras? O mais extraordinário de tudo isso é que, mesmo que fique perceptível ou não a mentira (afinal, conhecendo as vidas de celebridades como Andrea Beltrão e Marilia Pêra, podemos saber o que se encaixa ou não com suas narrações), tudo é verossímil e magnificamente interpretado.

Capaz de emocionar nos depoimentos mais simples ou nas histórias mais “apelativas”, Jogo de Cena é uma verdadeira aula de como fazer drama. Muito mais do que um documentário exemplar, é um longa onde o espectador consegue se envolver com cada história contada. Até mesmo aqueles que criticam alguma coisa (já ouvi compreensíveis críticas em relação ao ritmo, já que Coutinho só utiliza depoimentos, sem imagens) não conseguem negar a importância do filme. Personagens marcantes (a mulher que quer voltar a ter um relacionamento com a filha é antológica), atrizes excepcionais (Beltrão é o ponto alto neste sentido) e um diretor que sabe exatamente o que está fazendo. Assim é Jogo de Cena, que é comandado por um profissional que não precisa provar mais nada para ninguém. Chegou, merecidamente, num nível incomparável. E, ao invés de se acomodar no posto, faz justamente o contrário: surpreende a cada novo trabalho. Que venha As Canções!

FILME: 9.0

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