A Dama de Ferro

What we think we become.

Direção: Phyllida Lloyd

Elenco: Meryl Streep, Jim Broadbent, Susan Brown, Alexandra Roach, Iain Glen, Harry Lloyd, Emma Dewhurst, Victoria Bewick, Olivia Colman

The Iron Lady, Inglaterra/França, Drama, 105 minutos

Sinopse: Antes de se posicionar e adquirir o status de verdadeira dama de ferro na mais alta esfera do poder britânico, Margaret Thatcher (Meryl Streep) teve que enfrentar vários preconceitos na função de primeiro-ministra do Reino Unido em um mundo até então dominado por homens. Durante a recessão econôminica causada pela crise do petróleo no fim da década de 70, a líder política tomou medidas impopulares, visando a recuperação do país. Seu grande teste, entretanto, foi quando o Reino Unido entrou em conflito com a Argentina na conhecida e polêmica Guerra das Malvinas. (Adoro Cinema)

A Dama de Ferro, desde que foi anunciado, sempre esteve cercado por expectativas. Boas e ruins. As boas, claro, eram direcionadas para Meryl Streep. Retomando o sotaque britânico (que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar por A Mulher do Tenente Francês) e interpretando uma polêmica figura da Inglaterra, a atriz despertava a curiosidade de todos por estar, possivelmente, preparando mais uma grande interpretação. Já as expectativas ruins ficavam por conta da diretora Phyllida Lloyd, que dirigiu o divertido Mamma Mia! – um musical que, apesar do clima “feel good”, tinha uma comandante amadora atrás das câmeras. Por isso, o que sempre se esperou de A Dama de Ferro foi o seguinte: um filme repleto de falhas mas que traria outro momento maravilhoso de uma das melhores atrizes que o cinema já viu. A Dama de Ferro atendeu a tudo isso. Não é à toa que, quando os créditos finais aparecem, o primeiro nome que surge na tela é o de Meryl Streep e não o de Phyllida Lloyd…

Para falar a verdade, a cinebiografia de Margaret Thatcher nem surpreende tanto negativamente. Quer dizer, qualquer cinéfilo bem atento já poderia prever que a diretora não tinha cacife para um filme como esse. Além de ter suas origens no teatro, sua primeira investida no cinema foi, justamente, uma adaptação de seu trabalho nos palcos! Partir de um musical descontraído e assumidamente bobo para a cinebiografia de uma polêmica figura política não era o mais aconselhável… A diretora não tinha embasamento para isso. Não só em função de sua pouca experiência, mas por sua falta de talento mesmo. Assim, o falho roteiro de Abi Morgan termina apenas como um leve problema desse filme que, por causa de sua diretora, não teve um décimo do impacto e do envolvimento que poderia ter.

A Dama de Ferro já começa errando com a escolha de narrar o filme a partir das memórias de uma já esquecida Margaret Thatcher (Meryl Streep). Portanto, temos duas correntes que guiam a história. Primeiro, a velha Margaret tendo alucinações com o já falecido marido (Jim Broadbent). Segundo, os flashbacks contando as memórias dessa senhora que, hoje, está praticamente enclausurada em um apartamento sem saber direito de sua vida. Com isso, cerca de 70% do filme é passado com uma Meryl Streep usando uma pesada (e impressionante) maquiagem. Se o envelhecimento da atriz foi feito com uma precisão de cair o queixo, o mesmo já não pode se dizer de seus dramas nesse segmento. Na velhice, é sempre o mesmo esquema da protagonista alucinando com o marido (que é usado como piadista durante praticamente todo o tempo). Ou seja, a velhice de Margaret impressiona por um lado mas se torna exaustiva por outro.

Nos flashbacks, acompanhamos a vida dessa mulher que era filha de um quitandeiro: passamos por seu início na política, as difíceis decisões, a proposta de casamento, a decisão de concorrer como primeira-ministra, a mudança de postura e visual, sua adoração, seu ódio, a Guerra das Malvinas, a conhecida fama de dama de ferro, a sobrevivência a um atentado, a luta contra os sindicatos, as divergências com seus colegas e… ufa, a crise que a tirou do poder. Se narrado de forma linear, A Dama de Ferro conseguiria aproveitar boa parte desses assuntos. Porém, como tudo isso é apresentado em flashbacks, bons dramas se perdem em abordagens rasas. Além de não sabermos direito como era a convivência com o marido ou muito menos com os filhos (que mal aparecem!), os fatos políticos surgem sem muita explicação ou consistência. Por mais que, como já declarado pela diretora, a política não seja o principal foco do filme, merecia mais atenção. Não dá para se envolver com fatos que parecem tão gratuitos e jogados com descaso na trama. A Dama de Ferro mostra muito mas comunica pouco.

O problema mesmo é a direção de Phyllida Lloyd. Não bastasse o roteiro falho, a britânica simplesmente não sabe transmitir qualquer elegância que disfarce a sua falta de experiência atrás das câmeras. Ela estraga qualquer chance de A Dama de Ferro se tornar algo a mais. É uma direção problemática, que traz cortes inexplicáveis (em dado momento, quase estraga um dos melhores momentos do filme com mudanças bruscas de enquadramento), e que pode, inclusive, trazer momentos de humor involuntário com o uso de certos artifícios como o de câmera lenta (o atentado ao hotel onde está Margaret não tem impacto algum) e outras escolhas amadoras. Ela não consegue dar linha dramática a um filme que não tem foco definido e que, por consequência, termina sem variações e, o mais preocupante, sem clímax. A Dama de Ferro, ainda que com o roteiro falho, teria mais chances com uma direção competente. Phyllida não sabe o que faz e, no final das contas, parece ter elaborado esse filme só pela oportunidade de trabalhar mais uma vez com Meryl Streep e, claro, possivelmente dar o tão esperado terceiro Oscar para a atriz.

Meryl, como era de se esperar, é um caso à parte. Sempre surpreendente, tem se reinventado a cada ano e, em A Dama de Ferro, entrega justamente aquilo que as premiações gostam tanto de celebrar. É um trabalho de postura, sotaque e maquiagem, onde a atriz interpreta de forma impecável uma figura política. O que existe de mais brilhante na interpretação de Meryl é a versatilidade. Estamos diante de um trabalho completo. Na velhice, não se limita ao uso da maquiagem (sua última cena é particularmente destacável em função de seu trabalho com o olhar); na juventude, vai além do sotaque; no auge de Margaret, utiliza aquela sua conhecida expressão de poder e firmeza que já vimos em longas como Dúvida e O Diabo Veste Prada. É uma verdadeira aula de atuação que dá força a esse filme quadrado, antiquado e mal dirigido que parece ter sido feito para a televisão (no pior sentido dessa afirmação). Só é uma pena que uma interpretação tão marcante para a atriz esteja, justamente, em um filme que está longe de fazer jus ao seu talento e grandiosidade. Meryl, como sabemos, é singular e de arrasar. Ao contrário de A Dama de Ferro. Phyllida Lloyd: faça um favor e se aposente. Meryl: você consegue trabalhar com pessoas muito melhores; una seu brilhante talento a cineastas igualmente talentosos. Que fique de lição.

FILME: 5.0

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

10 comentários em “A Dama de Ferro

  1. E sempre essas pessoas sem opinião própria querendo comentar de acordo com o que o dono do blog escreveu.
    Usam de vocabulário culto, para tentar impressionar, já que não entendem nada de cinema ¬¬

  2. É inadmissível que o lado MENOS interessante da Margareth Thatcher, a da velhinha solitária, foi o mais explorado pelo longa!!!
    Puta filme mal feito!!
    O Foda é que a Meryl é a perfeição em todas as cenas.. e infelizmente tem seu oscar prejudicado pelo roteiro infantil do filme.

  3. Rafael, acho que a Streep é a maior prova de atriz que não teme desafios. O problema, na minha opinião, é que ela deve ficar amiga dos diretores e depois não saber separar as coisas. Certo que ela só fez “A Dama de Ferro” por sua amizade com a Phyllida…

    Stella, nunca criei ilusões com esse filme. Sempre esperei que ele fosse ruim e que Meryl fosse a única coisa extraordinária dele.

    Kamila, exatamente! Bastava um Stephen Frears atrás das câmeras para o filme dar certo e Meryl se tornar a favorita ABSOLUTA ao Oscar. Se ela não vencer – como tudo indica – a culpa é toda da Phyllida!

    Weiner, fico me fazendo a seguinte pergunta: até que ponto desejo ver a Meryl ganhando o seu tão esperando terceiro Oscar por um filme ruim como esse?

    Luís, se fosse linear, cairia também no senso comum. Mas acredito que, assim, a história teria mais consistência. Conflitos como a Guerra das Malvinas e a decadência de Thatcher no poder não impactam do jeito que foram mostrados. Foram momentos breves e sem aprofundamento. Oportunidade perdida.

    Reinaldo, e ela realmente comprometeu =/

    Fabio, eu destacaria essa cena como uma das melhores do filme!

  4. O filme é muito bom, sim. Mas eles poderiam ter dado mais atenção a política Margareth Thatcher, do que a mulher Margareth Thatcher, fazendo um sucesso maior. Meryl Streep está, simplesmente, em um dos seus maiores (se nao o maior) papel da sua vida. As vezes você pensa que é Margareth quem está atuando em seu próprio filme. O filme é nota 7, Meryl é nota 10; E aquela parte que Denis, sem sapatos, deixa Maggie enquanto ela diz que “Nao quero ficar sozinha” é de cortar o coração de qualquer um.

  5. rsrs. Mas pelo visto é a pior direção da década. rsrs. Entendo sua frustração por Llyod comprometer severamente uma ótima oportunidade de Oscar para Streep.

    Aquele abraço!

  6. Acredito que o mais falho no filme seja o roteiro. Ainda que a direção não seja elogiável, acredito que o roteiro é o fator mais tenso do filme: cada fala de Thatcher soa como se ela estivesse interpretando, quase num mise en abyme fílmico – Meryl interpretando Thatcher que interpreta a si mesma ou alguma outra coisa. A atriz, claro, domina bem a personagem e é inquestionável que ela trouxe uma excelente caracterização – acredito que essa seja a maior de sua carreira, principalmente pela perfeição minuciosa com a qual ela trabalhou aqui.

    Você comentou que acha o filme convencional, mas narrar linearmente do modo mais básico e previsível possível não é igualmente convencional? Acho que até mais. Infelizmente, o roteiro se focou demais na velhice dela e repetiu à exautão as alucinações da mulher – não fosse isso, eu teria achado bastante interessante o filme na sua totalidade. Fosse diferente, creio que cairia no senso comum de 70% das cinebiografias, que se esquecem de trespassar a arte e se inscrevem num caráter documental.

  7. Infelizmente as escolhas profissionais de Meryl têm jogado contra seu talento nato. THE IRON LADY é um filme estranhíssimo, que se propõe a contar uma vida em 100 minutos. Isso poderia até dar certo (po-de-ria, reiterando) nas mãos de algum diretor competente, mas com Phillipa Lloyd… Infelizmente acho que a MAIOR DE TODAS perderá o Oscar mais uma vez.
    Quem sabe quando decidir por realizadores mais competentes a Academia pare de caçoar dela e finalmente a premie outra vez, após zilhões de indicações? Meryl tem escolhido mal seus projetos. É um fato triste, mas é um fato. Está soberba como Tatcher, mas o restante é muito ruim. Até que ponto uma atuação ótima pode salvar um filme horrendo? E até que ponto um filme horrendo influencia negativamente uma ótima atuação? Let’s think about it.
    Abraços! E vamos chorar a derrota dela juntos, se acontecer. Fazer o quê? :(

  8. Ou seja, como esperávamos, a Phyllida Lloyd acaba sendo o ponto mais fraco desse filme. Claramente, esse é o tipo de história que nunca seria para uma diretora no estilo dela. Imagina se “A Dama de Ferro” fosse dirigido por um Stephen Frears da vida?? Aí, sim, teríamos uma certa densidade, uma certa sobriedade, que é o que esse tipo de história exige. Você sabe que quero muito assistir a esse filme para poder conferir a performance da Meryl e, agora, mais do que nunca, tenho a certeza de que, se ela perder o Oscar, pode colocar na conta da Phyllida…

  9. Pelo menos vou assistir “A Dama de Ferro” sem qualquer ilusão, Matheus! Posso até acabar gostando… Acho que há muito maior número de bons atores do que bons roteiros e diretores. Assim, atrizes maravilhosas como Meryl Streep aceitam uns trabalhinhos toscos de quando em vez. Mas ela fez “Dúvida” em 2008,” O Diabo Veste Prada” e “A Última Noite” (Robert Altman) em 2006, “Sob o Domínio do Mal” em 2004, “As Horas” e “Adaptação” em 2002 e etc. Bons filmes a cada 2 anos. É uma boa média, Rafael!

  10. Não vi o filme ainda, mas há muito tempo que a Streep só faz trabalhos com gente desconhecida ou sem muito talento. É o tipo de atriz, gradiosa, que não gosta de arriscar, se fecha numa zona de conforto, parece que teme algum desafio maior do que ela já fez (e já fez muita coisa, muito bons, o que aumenta o desafio).

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