Hemingway & Gellhorn

Direção: Philip Kaufman

Roteiro: Jerry Stahl e Barbara Turner

Elenco: Nicole Kidman, Clive Owen, David Strathairn, Rodrigo Santoro, Robert Duvall, Parker Posey, Tony Shalhoub, Diane Baker, Lars Ulrich, Molly Parker

EUA, 2012, Drama, 152 minutos

Sinopse: Após uma pescaria bem sucedida, o escritor Ernest Hemingway (Clive Owen) conhece Martha Gellhorn (Nicole Kidman) em um bar. Interessado nela, logo a convida para um evento que ocorrerá em sua casa, onde serão discutidos meios de ajudar a defesa republicana espanhola em meio ao ataque fascista do general Franco. Neste encontro, ela conhece John dos Passos (David Strathairn) e Paco Zarra (Rodrigo Santoro), que insistem para que ela vá ao front e divulgue o que está acontecendo nos jornais. Animada com a ideia, Gellhorn consegue um emprego como corresponde de guerra e parte para a Espanha. Ao saber da notícia, Hemingway também vai ao país, no intuito de ajudar na confecção de um documentário sobre a batalha. Lá eles ficam hospedados no mesmo hotel e se aproximam cada vez mais, iniciando um romance que reúne paixão e inteligência. (Adoro Cinema)

Os telefilmes produzidos pela HBO deveriam receber permissão especial para concorrer ao Oscar. Vejam o recente Game Change, por exemplo: além de trazer uma das mais marcantes interpretações de Julianne Moore, é tão bem executado que deixa muitas produções  idealizadas originalmente para o cinema comendo poeira. E essa é uma característica muito marcante dos telefilmes da emissora: eles são realizados com tanta excelência que é injusto limitá-los ao mundo da TV. Merecem atenção de todo e qualquer público. Por isso a minha surpresa quando conferi a mais recente investida da HBO, Hemingway & Gellhorn, que tem Nicole Kidman e Clive Owen como protagonistas. O filme é tão aborrecido e mal contado que nem parece um produto vindo desse respeitado canal. Afinal, como foram investir 20 milhões e reservar mais de 2h30 da grade de programação para um longa tão errado?

Não é à toa que Game Change recebeu todos os holofotes, batendo recordes (foi o telefilme de maior audiência da história da HBO) e já colhendo frutos de seu excelente resultado (recentemente conseguiu indicações ao Critics’ Choice Awards de melhor telefilme, atriz e ator). Isso porque Hemingway & Gellhorn em nada consegue ser mais atraente que a história de Sarah Palin (Julianne Moore). Para falar a verdade, tinha tudo para alcançar pelo menos um nível parecido, já que apresenta um enredo interessante (o complicado romance entre a jornalista Martha Gellhorn e o escritor Ernest Hemingway), ambições até que significativas para o mundo televisivo (tudo é ambientado na guerra, permeado por questões políticas, artísticas e sociais) e uma equipe que chama a atenção. Nada, no entanto, cumpre as expectativas: o resultado nada mais é do que um exercício tedioso que sequer traz alguma discussão em torno de seus temas – e pelas mais diversas razões.

As escolhas erradas de Hemingway & Gellhorn já começam no seu diretor: Philip Kaufman, responsável pelo também infinito A Insustentável Leveza do Ser, está completamente perdido e, por muitas vezes, antiquado demais. A direção de Kaufman dá um tom muito envelhecido ao filme, principalmente nas cafonas escolhas que faz ao colocar os personagens dentro de imagens reais: ou seja, durante quase metade da história vemos Kidman e Owen transitando entre o colorido e o preto-e-branco. O diretor também não encontra o tom certo para seu filme, deixando bem claro, logo no início, que um personagem sério como Hemingway também  se renderá frequentemente ao humor (quase caricato, diga-se de passagem). É um trabalho que, por tantas escolhas erradas, torna a experiência não só decepcionante, mas também maçante.

Logo, vem o problema do roteiro escrito pela dupla Jerry Stahl e Barbara Turner. Perdido em tantas questões que deseja abordar (e a mais problemática delas é a política), o resultado simplesmente não dá o ritmo necessário para essa ambiciosa história de excessiva duração. O texto não sustenta o interesse do espectador, seja por apostar em desnecessárias narrações em off ou por sequer conseguir fazer um retrato dos aspectos que se propõe: não conhecemos direito, por exemplo, a própria carreira jornalística de Gellhorn (Kidman), já que o roteiro está mais preocupado em mostrar explosões sem efeitos ou repetir cenas de sexo que não levam a lugar algum (e a mais absurda delas é aquela em que os personagens resolvem transar em meio a um bombardeio!). Nem mesmo quando o filme define melhor a sua linha dramática (político na primeira parte e mais dedicado aos relacionamentos na segunda), o trabalho de Stahl e Turner consegue envolver.

Enfim, por falhar fortemente em dois aspectos tão essenciais para a boa execução de um filme, seja ele para a tela grande ou para a TV, Hemingway & Gellhorn não dá chances nem mesmo para a dupla Clive Owen e Nicole Kidman. Enquanto ele rivaliza com um personagem oscilante no que se refere ao tom empregado pelo roteiro, ela faz o possível com um papel raso. Outros nomes como David Strathairn, Rodrigo Santoro e Robert Duvall também têm pouco a fazer com o limitado espaço em cena. Por fim, o longa de Philip Kaufman pretende ser um épico com visão política, passado em várias locações e sobre uma forte história de amor. Perdeu-se nas próprias pretensões. Para os padrões da HBO, é uma imensa decepção, especialmente no ano de Game Change. Uma pena. Vale sempre lembrar: filme chato é pior que filme ruim.

 FILME: 4.0

7 comentários em “Hemingway & Gellhorn

  1. Pois eu achei sensacional. Adoro filmes biográficos. Além disso, é um retrato da época em que Hemingway e Martha viveram. Conhecer mais a vida de pessoas tão interessantes me prendeu a atenção sim.

  2. Achei que o filme tem um relativo valor histórico. Como obra cinematográfica tem seus pecados muito bem apontados por você. Ao mesmo tempo devo confessar que achei o filme interessante por revelar personagens incomuns nestes dias de hoje. Sua crítica foi publicada em 10/06/2012. Você seria hoje mais condescendente com o filme? Ou ele continua ruim?

    • Sérgio, dificilmente mudo de opinião quanto a um filme que detestei. Para ser sincero, não lembro se isso já aconteceu comigo. Mas a verdade é que não tenho a mínima vontade de rever “Hemingway & Gellhorn”…

  3. Chatíssimo, um saco. Atuações caricatas e efeitos bregas demais.

  4. Adorei sua crítica!

    Vi no Odeon e fiquei tão decepcionada que fui embora do cinema antes do final.É uma pena mesmo, porque a HBO costuma ter um alto padrão de qualidade e o filme não só não mostra o que interessa dos protagonistas, como os estereotipa.

  5. Júlio, não recomendo o filme. Como escrevi, achei tudo muito mal escrito e dirigido. E a Nicole faz o que pode, mas não consegue grande coisa =/

  6. Rapaz, que pena. Você me desmotivou e muito a ver o filme. Lembro que pela interessante história, a produção da HBO, e a protagonista a minha musa Nicole Kidman, fiquei interessadíssimo. No entanto, a recepção morna do longa, além do seu texto que o destrói, me desanimaram um bom tanto. Se eu arranjar tempo, vejo!

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