Paixão pela música

“Eu nunca dei importância para o que os outros pensavam de mim. O que eles achavam não me incomodava. Eu fiz o que eu queria fazer e, bom, eu não me importava. Fui assim durante toda a minha vida – e isso me livrou de muitas incomodações. Até quando o assunto é música eu não me importo com o que os outros pensam. Sabe, existe muita música no mundo. Você não precisa escutar a minha. Existe Mozart, Beatles… Escolha qualquer outra coisa, não precisa me ouvir. Você tem a minha bênção, vá em frente, escute outra coisa. Eu não me importo”.

O depoimento acima é apresentado em off, junto a imagem de uma câmera subjetiva em um carrinho de montanha-russa. Quando ele chega ao fim, o carrinho, após subir uma determinada altura, despenca no violento circuito daquele brinquedo. Logo, descobrimos quem está nele: Philip Glass. A cena, que tem como trilha a composição The Grid, segue exatamente o mesmo princípio de Koyaanisqatsi, um dos filmes mais célebres da carreira de Glass: a exata união entre imagem e música. É a velocidade frenética da montanha-russa com uma trilha que expressa perfeitamente essa movimentação. E somente com essa primeira cena já podemos perceber que o diretor Scott Hicks é um profundo conhecedor da carreira do compositor.

E, de fato, ao longo de quase duas horas de Glass: A Portrait of Philip in Twelve Parts (2007, e nunca lançado no Brasil), chegamos ao acordo que Hicks sabe muito da vida e carreira de Philip Glass. Conhece tanto que conseguiu permissão para conviver com o diretor durante um ano – desde as férias na casa da praia, o cotidiano com a família, o processo criativo de músicas e a agenda cheia de grandes apresentações. Hicks documenta tudo isso deixando Glass muito à vontade, algo que por si só já impressiona. O compositor, considerado um dos mais importantes em atividade, não tem qualquer frescura ou arrogância. Pelo contrário, sua sabedoria e humildade só despertam ainda mais admiração.

De encanador e taxista até cidadão parisiense, Glass conta sua história desde a juventude, quando tinha medo de cometer erros na frente de sua professora de piano ou quando, na época em que começou a se apresentar nas ruas, um músico lhe abordou dizendo que ele não sabia fazer… música! Mas as dificuldades da vida – não só profissionais mas também pessoais (Glass perdeu uma esposa para o câncer) – nunca abalaram o compositor que, como ele mesmo faz questão de enfatizar, sempre fez o que queria fazer, nunca se importando com a opinião dos outros.

Glass: A Portrait of Philip in Twelve Parts é, assim, um verdadeiro mergulho na vida desse profissional singular. Para os cinéfilos, um ótimo documentário (funciona mesmo que você não conheça o trabalho dele). Para os fãs, um inestimável registro de sua vida e intimidade. O diretor Scott Hicks (Shine) fez questão de não realizar um trabalho formal, uma vez que acompanhamos depoimentos de Glass em situações corriqueiras, onde ele está fazendo pizza ou, então, brincando com os filhos. São declarações muito valiosas e que, antes de serem apenas um retrato de um verdadeiro mestre, são também uma declaração de amor ao mundo da música.

Na parte do documentário referente ao cinema, o resultado se torna ainda mais interessante. Simplesmente pelo fato de que traz pelo menos dois grandes diretores falando sobre como foram os seus trabalhos com Philip Glass. O principal deles é Woody Allen que, na época de realização do filme, estava produzindo O Sonho de Cassandra. Allen, enfático ao dizer que seu longa precisava especificamente da trilha de Glass, é o mais aproveitado: é possível vê-lo trabalhando com Glass e, claro, declarando toda sua admiração pelo trabalho do compositor. O segundo grande cineasta a falar sobre ele é Martin Scorsese (ambos trabalharam juntos em Kundun).

Por fim, Glass: A Portrait of Glass in Twelve Parts é eficiente ao fazer um perfil extremamente completo desse grande compositor. Grande por sua magnífica obra e por ser uma pessoa autêntica e de fortes ideias. Mais do que isso, encantador, principalmente, ao mostrar que é um verdadeiro apaixonado pelas artes. Ao fim do documentário, saímos contagiados por essa paixão. É uma pena, portanto, que tal documentário nunca tenha sido disponibilizado no mercado brasileiro. Uma pena porque é obrigatório para qualquer fã de música, além de um retrato extremamente eficiente em termos cinematográficos.

2 comentários em “Paixão pela música

  1. Kamila, como você sabe, Philip Glass é o meu compositor favorito de todos os tempos! O filme está disponível no Youtube, e vale muito a pena assistir. É um ótimo documentário!

  2. Pra mim, o Philip Glass é o maior compositor de trilhas sonoras de Hollywood. A marca, o estilo dele são tão fortes que você os reconhece ao primeiro toque. São deles algumas das minhas trilhas inesquecíveis. Amei o texto e gostaria de ter a mesma chance que você de assistir a este filme. Espero que ele acabe sendo lançado no Brasil.

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