Sombras da Noite

If a man can become a monster, then a monster can become a man.

Direção: Tim Burton

Roteiro: Seth Grahame-Smith, baseado na série homônima de Dan Curtis

Elenco: Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Chlöe Grace Moretz, Eva Green, Helena Bonham Carter, Jackie Earle Haley, Christopher Lee, Alice Cooper, Ray Shirley

Dark Shadows, EUA, 2012, Comédia, 113 minutos

Sinopse: 1752. Joshua (Ivan Kaye) e Naomi Collins (Susanna Cappellaro) deixam a cidade inglesa de Liverpool juntamente com o filho, Barnabás, rumo aos Estados Unidos. A intenção deles era escapar de uma terrível maldição que atingiu a família. Vinte anos depois, Barnabás (Johnny Depp) é um playboy inveterado que tem a cidade de Collinsport aos seus pés. Após seduzir e partir o coração de Angelique Bouchard (Eva Green), sem saber que era uma bruxa, ele é transformado em vampiro e preso numa tumba por dois séculos. Quando enfim desperta, dois séculos depois, encontra sua propriedade em ruínas e os poucos familiares ainda vivos escondem segredos uns dos outros. Em meio a um mundo desconhecido, Barnabás se interessa por Victoria Winters (Bella Heathcote), a tutora do jovem David (Gulliver McGrath). (Adoro Cinema)

Tim Burton sabe dar visual a um filme. Só que há um bom tempo já deixou de saber contar uma história. Sweeney Todd, por mais interessante que seja, chama mais atenção pelo lado do musical do que pelo desenvolvimento da trama em si. Alice no País das Maravilhas, então, melhor deixar de lado para não remoer aquela enorme decepção… Por isso, não é surpresa alguma Sombras da Noite causar tanta preguiça e má vontade. Só que a situação é pior do que se esperava: além de ser um dos piores filmes da carreira do diretor, essa nova parceria entre Tim Burton e Johnny Depp só atesta o quanto o primeiro esqueceu de que antes se prioriza a  história para depois  dar atenção ao visual, e como o segundo já decidiu que atuará para sempre no piloto-automático.

Sombras da Noite traz, novamente, um Tim Burton inexpressivo, submerso em uma acomodada repetição de estilo e visual. Só que agora tudo dentro de uma história completamente bagunçada. Ao adaptar a série de TV homônima para o cinema, o diretor, em parceria com o roteirista Seth Grahame-Smith, orquestrou uma história que sofre, justamente, por ter traços episódicos demais. São personagens demais e foco de menos. Nenhuma figura de Sombras da Noite é bem desenvolvida, nem mesmo o próprio protagonista Barnabas Collins (Depp). O filme, assim, é uma miscelânea desinteressante de vários tipos bizarros e situações avulsas. Falta história no filme – e isso, claro, afeta diretamente o ritmo, que se torna arrastado em função da falta de um conflito condutor no roteiro.

Quem é mais benevolente e consegue deixar o senso crítico de lado até pode se divertir com a proposta de humor do filme. Mas, sinceramente, não consegui embarcar em piadas que já foram exploradas à exaustão no cinema, especialmente aquelas do homem que acorda depois de muito tempo e não entende nada de carros, tecnologia e novos comportamentos da sociedade. Definitivamente, originalidade não é a palavra-chave do filme. Já quando tenta dar alguma dimensão dramática ou de suspense para a história, Sombras da Noite usa truques artificiais e sem impacto, como a boba revelação envolvendo um lobisomem e despedidas indiferentes de alguns personagens (Helena Bonham Carter, por exemplo, sai repentinamente da história sem qualquer efeito interessante para o enredo).

O elenco tenta. E parece que eles estão mesmo se divertindo. Só que não nos convidam para a diversão. Ainda vale destacar algo que é de deixar qualquer um profundamente triste: a acomodação de Johnny Depp. Sem entregar um desempenho inovador desde sabe-se lá quando, o ator constrói um Barnabas Collins que nada mais é do que uma infinita variação de trejeitos de outros personagens seus, como o capitão Jack Sparrow (percebam o jeito de andar, as caretas de surpresa, o jeito de mover a boca). Se fosse para eleger alguém que mais se destaca, certamente seria Eva Green – mais pelo que o papel proporciona do que por maiores brilhantismos dela. Ah, e ainda temos a personagem da velhinha avulsa que não diz uma palavra sequer, mas que por ser justamente aleatória tem seu valor.

Se a direção de arte continua boa – mas não inovadora – e o clima sombrio característico do diretor também, por outro lado tais escolhas não surtem mais o mesmo efeito. Inclusive, com Sombras da Noite, é válido questionar até mesmo a capacidade de Burton de fazer homenagens: proposital ou não (e se não for, a situação fica ainda pior), uma das cenas finais é cópia descarada de um momento de A Morte Lhe Cai Bem, do diretor Robert Zemeckis. Só que, se o filme estrelado por Meryl Streep, Goldie Hawn e Bruce Willis era espirituoso e ria de suas próprias bobagens, Sombras da Noite já não consegue ter essa mesma inspiração. Aliás, perto dessa pequena tragédia de Burton, A Morte Lhe Cai Bem pode muito bem ser considerado até obra-prima.

FILME: 4.5

7 comentários em “Sombras da Noite

  1. Eloi, nem por Helena valeu! haha

    Luís, se eu dei uma ou duas risadas no filme até que foi bastante…

    Rafael Oliveira, a segunda consecutiva!

    Rafael Carvalho, eu achei uma pequena tragédia =/

    Cleber, também cansei do Burton depois dessa!

    Kamila, de fato são as melhores coisas, porque o resto…

  2. As duas primeiras frases de sua crítica estão perfeitas. É bem isso mesmo!! “Sombras da Noite” começa bem, mas acho que a história se perde por completo no decorrer do desenvolvimento da trama. O visual do filme e a performance da Eva Green são as melhores coisas de “Sombras da Noite”.

  3. Eu gostei do filme porque, apesar do tom gótico de horror, o filme é, sobretudo, muito divertido. Mas concordo que esse ranço novelesco das várias tramas com muitos personagens atrapalha bastante o filme. O final, então, é um caos. Mas ainda assim vejo um filme fiel a um estilo, que é a cara do Burton. Pra quem não se reinventa, até que não é de todo mal.

  4. A única coisa que me fez não assistir ainda esse título é justamente o fato de que ele parece repetição visual. O seu texto expressou tudo aquilo que eu pensava dessa história. Mas, confesso, vi o trailer e achei que pode ser engraçadinho, mais do que “Sweeney Todd” e “Alice nos País das Maravilhas”, ambos filmes dos quais não gostei.

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