Dores cantadas

O Que se Move, ao contrário do que o título indica, é um filme sobre imobilidade – emocional, especificamente. Narrando as histórias de três mães que lidam com perdas e reencontros com seus filhos, o diretor Caetano Gotardo emprega lirismo a esse enredo estruturado em três blocos, onde os ápices emocionais estão todos em dolorosos momentos musicais. A experiência proposta pelo diretor é, assim, difícil, pesada e extremamente complexa – tanto no conteúdo quanto na forma. Gratificante para quem estiver disposto a embarcar na viagem, mas bastante complicada para o público desprevenido.

Lembrando brevemente Coisas Que Você Pode Dizer Só de Olhar Para Ela e Questão de Vida, longas menores que falam sobre o universo feminino através de histórias isoladas, O Que se Move, em um primeiro momento, causa estranhamento. Além dos espectadores não estarem acostumados com a música como forma de expressão dramática em um filme brasileiro, o trabalho de Gotardo ainda tem um ritmo lento, quase imóvel – o que, claro, é uma extensão da vida e dos sentimentos das próprias personagens.

Só que existe algo muito precioso nas sensações passadas por O Que se Move. Apesar do longa ser difícil em uma análise inicial, ele cresce após a sessão. Não é o tipo de história que fica apenas na sala de cinema. E isso já diz bastante sobre o filme, que merece ser conhecido pelo menos em função de um fator fundamental nessa sensação de que a história reverbera após a sessão: o extraordinário trio de protagonistas. Não gosto de fazer comparações com filmes que considero superlativos, mas aqui é o caso: desde As Horas não via três atrizes tão impressionantes e com tanta sintonia – mesmo que suas histórias nunca se cruzem.

Cida Moreira, Andrea Marquee e Fernanda Vianna parecem pessoas da vida real. São personagens e não atrizes em cena. E isso é um dom cada vez mais raro. Todas estão arrasadoras, tanto na sutileza quanto na hora em que precisam extravasar os sentimentos das vidas sufocantes das figuras que interpretam. E é no momento musical que elas ganham qualquer um por completo. Cantando com som direto (o que, segundo o diretor, foi fundamental para que as atrizes pudessem evidenciar ainda mais a dor das personagens), Cida, Andrea e Fernanda tocam o espectador e criam as mais belas cenas de O Que se Move.

De certa forma “ousado” na estrutura e mais complexo do que estamos acostumados a ver no cinema brasileiro, o filme de Caetano Gotardo precisa de tempo para ser processado. Certamente, esse texto não será meu registro final sobre o que acho de O Que se Move. Até porque ainda não consigo discernir muito bem até que ponto o ritmo arrastado e como cada história demora a dizer ao que veio em seus dramas me incomoda. De todo jeito, é, certamente, uma experiência diferente e que só poderá ser absorvida com o passar do tempo e algumas revisões. E não é esse o melhor tipo de cinema?

Exibido no 40º Festival de Cinema de Gramado

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