Cinema para todos

Audiodescritora Marcia Caspary poucos minutos antes da sessão do filme “Colegas” no 40° Festival de Cinema de Gramado

Acho que eu estaria perdido se não pudesse mais ver filmes… Imagine perder a visão – ou nascer sem ela – e ser privado de ir ao cinema, de ver um filme em casa. No Brasil, 11,8 milhões de pessoas têm deficiência visual, e 160 mil delas possuem incapacidade total de enxergar. Com isso, vem à tona uma realidade que poucos conhecem: afinal, onde está o cinema para as pessoas com deficiência visual? Onde elas podem contar com acessibilidade? Infelizmente, em pouquíssimos lugares. Por outro lado, a luta para resolver esses questionamentos nunca termina. E uma grande guerreira dessa jornada é a gaúcha Marcia Caspary, audiodescritora que já marcou presença em grandes eventos como o Festival de Cinema de Gramado, onde foi uma das responsáveis por levar a acessibilidade cultural para pessoas com deficiência visual.

Para quem não sabe, audiodescrição oferece ao deficiente visual todas as informações sobre as imagens que aparecem quando não há diálogos ou quando só se ouve o som, orientando-o sobre o que acontece. Através de uma banda sonora extra, que está disponível em fones de ouvidos disponíveis nas sessões, o público-alvo pode conferir o filme. Caspary tomou conhecimento sobre audiodescrição em 2008, quando fez narração para um curta de animação chamado Rua das Tulipas. Desde então, ela não parou e, em 2010, seu total envolvimento com a audiodescrição foi selado com um curso sobre o assunto no Instituto Vivo, em Porto Alegre. “É assim que se entra nesse ramo: tem que fazer cursos, pesquisar, estudar, praticar no dia-a-dia antes de produzir, conhecer pessoas com deficiência visual e saber de suas necessidades”, comenta.

Para Caspary, uma boa audiodescrição é aquela que passa despercebida e que se adequa de tal forma ao produto que acaba, de certa forma, fazendo parte dele. E não é só o audiodescritor que deve trabalhar com essa lógica, mas o próprio técnico que modula os volumes, tanto em audiodescrições ao vivo como gravadas. “Temos que ter o cuidado de descrever – mas sem interpretar – tudo o que é realmente relevante para a compreensão do produto em questão. Devemos também respeitar o usuário do recurso, consultá-lo e saber quais são as palavras e os tons mais apropriados”, aponta a audiodescritora. Seguindo a lógica de que menos é mais, Caspary ainda ressalta que um audiodescritor nunca deve subestimar a capacidade de entendimento das pessoas com deficiência visual.

Entre as várias experiências no ramo, ela elege a audiodescrição do filme Colegas, no 40° Festival de Cinema de Gramado, como o seu momento mais inesquecível. “Sem dúvida! Foi uma noite de muita emoção! Tivemos uma equipe comprometida do início ao fim do processo e um público que veio de outras cidades pra assistir!”, lembra. Outro momento destacado é a audiodescrição de Inimigos de Classe, espetáculo de Luciano Alabarse. O trabalho para a peça, segundo ela, foi diferente de Colegas, longa leve e epirituoso protagonizado por três jovens com Síndrome de Down: “O espetáculo tinha uma temática muito polêmica e um texto intenso, de um peso moral e social desconcertante. Foi um grande desafio”.

Recentemente, Caspary ainda integrou a equipe de audiodescrição da segunda edição gaúcha do Assim Vivemos, festival inteiramente voltado ao mundo de pessoas com deficiências, que estão presentes nos filmes (todos sobre a temática) e na plateia (em sessões que oferecem todas as acessibilidades). Já no cinema em geral, ela não deixa de destacar os filmes com audiodescrição que mais lhe marcaram, entre eles Colegas, A Pele Que Habito e Cisne Negro. Mas Caspary quer sempre ir além, inclusive fora do cinema: “Quando eu assisto a um filme e gosto, já penso na audiodescrição! Filmes com poucos diálogos e fotografia bacana também pedem audiodescrição. Mas eu ainda gostaria de descrever o desfile do Natal Luz em Gramado e espetáculos como Fuerza Bruta, que são altamente sensoriais. São tantas emoções!”.

A iniciativa é inspiradora e, claro, muito necessária. No entanto, a audiodescrição ainda não é abraçada como deveria. Caspary conta que o maior desafio é incorporar a acessibilidade aos espaços públicos, centros culturais, teatros e cinemas. E acessibilidade, nesse sentido, refere-se ao trabalho com todas as deficiências, não só as visuais. “Tudo começa com a conscientização de que devemos desfazer barreiras e criar políticas públicas voltadas a esta realidade. Com isso, fica fácil fidelizar o público, que vai ter autonomia de ir e vir. Temos que fazer, fazer, fazer! Precisamos nos posicionar e cobrar acessibilidade nos lugares. Juntar forças, trabalhar junto! O mundo já mostra maior abertura e uma nova consciência. Abaixo o coitadismo!”, aponta. E você, já parou para pensar sobre a questão da audiodescrição – e, mais especificamente, das acessibilidades? Não? Então coloque-se no lugar das pessoas que precisam dela. Certamente você terá uma nova percepção…

2 comentários em “Cinema para todos

  1. Matéria sensacional, Matheus. Parabéns mesmo pelo excelente texto e pela discussão aqui levantada, que é muito importante!!!

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