Na Estrada

Direção: Walter Salles

Roteiro: Jose Rivera, baseado no livro homônimo de Jack Kerouac

Elenco: Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Tom Sturridge, Kirsten Dunst, Amy Adams, Viggo Mortensen, Steve Buscemi, Alice Braga, Elisabeth Moss, Terrence Howard

On the Road, EUA/Inglaterra/França/Brasil, 2012, Drama, 139 minutos

Sinopse: Nova York, Estados Unidos. Sal Paradise (Sam Riley) é um aspirante a escritor que acaba de perder o pai. Ao conhecer Dean Moriarty (Garrett Hedlund) ele é apresentado a um mundo até então desconhecido, onde há bastante liberdade no sexo e no uso de drogas. Logo Sal e Dean se tornam grandes amigos, dividindo a parceria com a jovem Marylou (Kristen Stewart), que é apaixonada por Dean. Os três viajam pelas estradas do interior do país, sempre dispostos a fugir de uma vida monótona e cheia de regras. (Adoro Cinema)

Walter Salles deveria voltar a fazer cinema só no Brasil. Desde que resolveu fazer cinema fora de sua terra natal, o diretor carioca nunca chegou perto de alcançar o mesmo brilhantismo das obras que realizou por aqui. A qualidade de Abril DespedaçadoCentral do Brasil, suas obras máximas, nunca foi repetida em longas como Água Negra e, agora, Na Estrada, filme que reúne o maior time de estrelas da carreira de Salles. Adaptado do prestigiado livro homônimo de Jack Kerouac, Na Estrada chegou a competir no 65º Festival de Cannes, mas passou pelo evento de forma muito tímida. E não é muito difícil entender o porquê: o filme estrelado por Garrett Hedlund, Sam Riley e Kristen Stewart tem pouca personalidade, além de não ser suficientemente interessante em aspectos que são fundamentais para o sucesso de um road movie.

Partindo do princípio de que esse “gênero” é sobre personagens que são transformados – ou, então, desafiados à reflexão – a partir de uma viagem, podemos dizer que Na Estrada pouco mostra a evolução dramática de seus personagens. Do fanfarrão vivido por Garret Hedlund até o aspirante a escritor de Sam Riley, as figuras apresentadas na adaptação de Jose Rivera são muito lineares, inflexíveis. Parecem os mesmos do início ao fim. E isso é um grande problema, pois Na Estrada é todo construído em cima de viagens e momentos que, supostamente, deveriam mudar a vida dos personagens. Só que o longa não consegue lidar muito bem com os fatos, principalmente porque a história muda constantemente não só de lugar (a equipe filmou no Canadá, México, EUA, Argentina e Chile), mas também de foco, sempre alternando o protagonismo dos personagens de Hedlund e Riley.

Mesmo com tempo suficiente para construir sua trama de forma consistente, Na Estrada deixa a incômoda sensação de que vários pontos não foram devidamente aproveitados, o que é claramente refletido no desenvolvimento de todos os personagens coadjuvantes. Com um elenco que traz nomes extremamente variados, figuras como Amy Adams, Viggo Mortensen e Steve Buscemi aparecem apenas para cumprir formalidades, sem momentos especiais. Assim, são muitas situações, viagens, avanços no tempo e personagens, mas nada é necessariamente instigante. Talvez porque Walter Salles tenha escolhido levar a obra original às telas com um respeito excessivo ao material original, especialmente porque o livro de Jack Kerouac é adorado mundialmente: quando o filme teve cortes no orçamento, a própria Kristen Stewart aceitou que seu salário fosse diminuído só para permanecer na adaptação.

Na Estrada está longe de alcançar o péssimo resultado de Água Negra, por exemplo, mas, infelizmente, sofre com o fator decepção. E é decepcionante em vários sentidos: esperava-se mais de Walter Salles (que, em Central do Brasil, mostrou pleno domínio do desenvolvimento dramático de um road movie e aqui parece não utilizar todo o seu conhecimento) e, principalmente, do roteiro de Jose Rivera. Falta uma certa “pegada” em Na Estrada, o que impossibilita o espectador de se impressionar um pouco mais com  Garrett Hedlund (que tira o melhor do personagem) e com a boa fotografia de Eric Gautier, sujeito que já trabalhou em filmes como Diários de Motocicleta (também de Salles) Na Natureza Selvagem. Se tivesse o espírito aventureiro e transformador desses dois filmes, Na Estrada seria, no mínimo, muito melhor.

FILME: 6.0

6 comentários em “Na Estrada

  1. Consegui. Vi todo o filme. Foi a terceira tentativa… Filme longo. Não senti empatia com os dois protagonistas. Cansei diversas vezes… Chato. Dispensável…

  2. Hugo, até que é interessante, mas nunca chega a ser mais especial…

    Kamila, o Garrett Hedlund tá ótimo mesmo!

    Luís, exatamente… E como eu disse no texto: o filme teve tempo para desenvolver os personagens!

    Cecilia, não li o livro, então não posso opinar. Mas senti um zelo excessivo na adaptação – e isso, claro, tirou a personalidade do filme.

  3. Também concordo com a falta de personalidade e uma coisa que me incomoda muito, principalmente considerando que desrespeita um dos pontos chaves do livro, é que há um apego muito grande a determinação de datas e locais. Talvez fosse uma tentativa de ligar o que já estava confuso demais no roteiro, mas o resultado fica ainda mais prejudicado.

  4. Não vejo como poderia discordar de sua opinião – ela representa o que eu penso sobre esse filme. Falta-lhe personalidade, falta transformação nos personagens, sempre nos deixando com a sensação de que vemos tudo incompleto.

  5. Concordo com você que o roteiro é a questão mais problemática de “Na Estrada”. O desenvolvimento da trama é um tanto irregular. A parte técnica do filme é excelente e acho que a grande sombra neste trabalho é tentar fazer jus à mitologia em torno do livro escrito por Jack Kerouac. De toda forma, a atuação de Garrett Hedlund é apaixonada e faz com que esse legado da obra do escritor venha à tona neste filme de Walter Salles.

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