Holy Motors

Who were we when we were who we were back then?

Direção: Leos Carax

Roteiro: Leos Carax

Elenco: Denis Lavant, Edith Scob, Kylie Minogue, Eva Mendes, Michel Piccoli, Elise Lhomeau, Jeanne Disson, Leos Carax, Nastya Golubeva Carax, Reda Oumouzoune, Annabelle Dexter-Jones, Elise Caron, Corinne Yam

França/Alemanha, Drama, 115 minutos

Sinopse: Oscar (Denis Lavant) transita solitário em vidas paralelas, atuando como chefe, assassino, mendigo, monstro, pai… Mergulha profundamente em cada um dos papéis e é transportado por Paris e arredores em uma luxuosa limusine, comandada pela loira Céline (Edith Scob). Ele é um homem em busca da beleza do movimento, da força motriz, das mulheres e dos fantasmas de sua vida. (Adoro Cinema)

Louco. Complexo. Desafiador. Intrigante. Incompreensível. É bom, de vez em quando, assistir a um filme que ultrapassa todas barreiras do convencional e convida o espectador a entrar em uma viagem totalmente nova e diferente de tudo aquilo que estamos acostumados a ver nos cinemas. Holy Motors é um desses exemplares que uns amam, outros odeiam. Não existe meio termo. Talvez todo esse caráter polêmico tenha lhe tirado maiores chances no último Festival de Cannes, onde perdeu a coroação máxima para o elogiado Amour, de Michael Haneke. Porém, assim como o filme vencedor da Palma de Ouro, o novo trabalho de Leos Carax tem tudo para se tornar um clássico “cult”, para quem gosta desse tipo de definição. Bom ou ruim, Holy Motors não causa indiferença. E isso é algo a ser considerado.

Nunca eu indicarei Holy Motors a alguém. Nunca. Isso porque corro o sério risco de irritar aqueles que comprarem o conselho. Mas é bem provável que, de repente, acerte em cheio o gosto de alguns (raros) interessados. É uma experiência atípica, um delírio que deixa a lógica de lado, onde o espectador precisa de tempo para se acostumar com o universo do longa de Leos Carax. Mas a verdade é que não é necessário compreender todo o filme para entrar no clima. Quem se propor a embarcar nessa viagem maluca e bizarra certamente sairá recompensado da sessão. Alguns podem dizer que Holy Motors é mais um experimento do que propriamente cinema – e existe certa razão nessa afirmativa – mas é impossível não reconhecer o brilhantismo de Carax ao manipular signos e metáforas sem nunca se distanciar de uma narrativa cinematográfica bem orquestrada e instigante.

Explorando o lado mais metropolitano e menos a abordagem sonhadora e cartão-postal de Paris, o diretor cria um clima eficiente: os movimentos de câmera, a fotografia e o clima sombrio constroem uma narrativa extremamente intrigante, que varia do drama ao mistério. Afinal, quem é o protagonista interpretado por Denis Lavant? O que ele faz? O que significa cada uma de suas “tarefas”? Quais são as suas motivações? É um filme que desafia o espectador a juntar as peças e achar as respostas sozinho. Explicações são quase nulas em Holy Motors. Há quem ache isso um demérito e um empecilho para se criar qualquer conexão com aquele universo, mas é aí que reside uma das maiores qualidades do trabalho de Carax: nem todo filme precisa de respostas. Ok, não dá para evitar a sensação de que muitas situações estão ali só tornar a experiencia “experimental” e underground. Contudo, o diretor não perde o equilíbrio porque, apesar desses momentos, consegue realizar outros muito sensíveis, especialmente os mais dramáticos.

Importante notar que Holy Motors tem uma estrutura episódica: o que importa é cada personalidade assumida pelo protagonista, a situação em que ela está inserida e o que ela de fato representa. E a boa notícia é que o filme não se torna cansativo em função das nove identidades do personagem principal. Para driblar a mesmice que seria tão comum em um formato como esse, o diretor se vale de muitas abordagens: drama, crime, nudez, cemitérios, mortes e relações mal resolvidas. Quem obviamente se beneficia dessa variedade  é o ator Denis Lavant, que impressiona com a sua total entrega ao personagem. Do homem convencional ao mendigo repugnante, ele se despe (literalmente) de vaidades para lidar com uma figura extremamente desafiadora. E seu resultado não é menos que louvável.

Quando se encaminha para o final, Holy Motors ainda nos reserva outra grata surpresa: a participação da cantora pop Kylie, naquele que é, sem dúvida o momento mais interessante de todo o filme. A australiana, que começou sua carreira como atriz de TV, estava afastada das telas desde que fez uma ponta no musical Moulin Rouge – Amor em Vermelho. Aqui, ela afastou-se do seu marcante guarda-roupa e de qualquer vaidade para dar vida a uma personagem que é o coração de Holy Motors e que também é uma viagem ao passado para o protagonista. Soltando a voz com Who Were We? (canção originalmente escrita para o filme e interpretada em uma cena musical muito bem pontuada), ela segura tudo com notável segurança e sensibilidade, não fazendo feio ao lado do impecável Denis Lavant. Holy Motors certamente é um filme incômodo e que precisa de revisões para ser devidamente mastigado. Mas, como bem apontou o crítico Tim Robey, do The Telegraph, você dificilmente vai conseguir tirá-lo da cabeça (fazendo referência a Can’t Get You Out of My Head, outro hit de Kylie parte da trilha sonora). E vamos ser sinceros: poucos filmes conseguem esse feito.

FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Um comentário em “Holy Motors

  1. Dizem as línguas boas é más que:

    Holy Motors = Hollywood
    Oscar = Prêmio da academia
    Personagens = Crítica aos atores e papéis a qualquer preço
    Limusines no final = Desenhos da Pixar ou críticas ao e excesso de computação gráfica e efeitos mirabolantes que substituem personagens de “carne e osso”?

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