Entre o Amor e a Paixão

Life has a gap in it… It just does.

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Direção: Sarah Polley

Roteiro: Sarah Polley

Elenco: Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman, Jennifer Podemski, Graham Abbey, Diane D’Aquila, Vanessa Coelho, Aaron Abrams, Dyan Bell, Albert Howell, Danielle Miller, Matt Baram, Avi Phillips

Take This Waltz, Canadá/Espanha/Japão, Drama, 116 minutos

Sinopse: Margot (Michelle Williams) conhece Daniel (Luke Kirby) em uma viagem, durante uma visita a uma apresentação teatral a céu aberto. Eles se reencontram no voo de volta, onde conversam e se conhecem melhor. Ela logo fica interessada nele, mas contém o impulso em respeito ao marido, Lou (Seth Rogen), com quem é casada há cinco anos. Lou passa os dias em casa, já que está preparando um livro de receitas sobre frango, o que faz com que conviva bastante com Margot. Entretanto, o desgaste do relacionamento e a sensação de melancolia que carrega consigo fazem com que ela tenha uma queda por Daniel, ainda mais após descobrir que ele é seu vizinho. (Adoro Cinema)

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Só o amor não realizado pode ser romântico, diz Maria Elena (Penélope Cruz) em Vicky Cristina Barcelona. Será mesmo? É em cima dessa premissa que Sarah Polley desenvolve o seu terceiro longa-metragem como diretora, Entre o Amor e a Paixão. Depois de All I Want for ChristmasLonge Dela, a canadense volta a mostrar plena sensibilidade nessa história que constantemente pergunta ao espectador: é pior se arrepender do que fizemos ou do que não fizemos? As dúvidas de Margot (Michelle Williams), jovem casada há cinco anos que começa flertar com um novo vizinho (Luke Kirby), são o mote do filme, que fala sobre os limites dos sentimentos, da fidelidade e dos desejos. O porém é a vontade da diretora em querer apostar sempre em um tom indie, o que faz com que Entre o Amor e a Paixão perca muitos pontos com o excesso de cores, figurinos, trilhas e circunstâncias que reforçam os cacoetes “alternativos” da diretora.

Quando começa a construir sua história, Entre o Amor e a Paixão quase alcança o nível do irritante. Se, em Longe Dela, Polley apresentou uma maturidade surpreendente ao falar sobre as dores de um casal abalado pelo mal de Alzheimer, em seu mais novo trabalho ela parece se dar o direito de apresentar as bobeiras de uma diretora “jovem” – que, vale lembrar, não estiveram presentes no longa estrelado por Julie Christie. Das situações repletas de meiguices aos vestidos coloridos e listrados da protagonista, Sarah Polley falha ao apresentar os personagens. E não é apenas no mal amarrado encontro entre a protagonista vivida por Michelle Williams e o vizinho interpretado por Luke Kirby, mas também na forma como desenvolve o casamento dela com o cozinheiro Lou (Seth Rogen): o cotidiano dos dois se resume ao “eu te amo”, “mas eu te amo mais” e às tradicionais brincadeirinhas de casal que terminam com beijos e abraços no chão da sala. São vários minutos cheios dessas enrolações e artificialidades que quase nos fazem esquecer que estamos de uma jovem tão sensível e madura como Polley.

A insistência indie persiste por todo Entre o Amor e a Paixão (e, às vezes, funciona, como na cena do crazy dance ao som de Video Killed the Radio Star), mas basta o filme começar a desenvolver sua verdadeira problemática para que, pouco a pouco, a situação comece a ser revertida. Quando coloca os sentimentos da protagonista em xeque, Polley acerta com bastante segurança, pois seu filme faz questão de nos puxar de um lado ao outro. Ao mesmo tempo que entendemos a vontade de Margot de se envolver com o vizinho tamanha a atração genuína dos dois, também entendemos que tal relação não pode acontecer, já que ela é casada – e com um sujeito carinhoso e que está longe de ser uma figura ruim. Se Margot tem insatisfações, elas são mais suas do que necessariamente do casamento. E assim é Entre o Amor e a Paixão: afinal, o novo romance seria tão encantador na prática como é na teoria? Esse novo sentimento é apenas a adrenalina do flerte proibido? Ou é realmente uma nova paixão que está surgindo?

Entrando no universo de Entre o Amor e a Paixão, logo percebe-se que o título brasileiro reduz e comercializa demais o verdadeiro teor da história, pois o filme de Sarah Polley, mesmo que insista nas idealizações tão recorrentes em filmes forçadamente indies, é reflexivo e muitas vezes doloroso. Também é eficiente a forma como ela consegue nos colocar na situação da protagonista e nos deixar até mesmo angustiados com o impasse de colocar ou não em prática a atração recém surgida. Durante um bom tempo, ficamos curiosos para saber o que Margot vai decidir. Mas de uma coisa temos certeza: ela não faz nada com a consciência tranquila e muito menos ficará com o vizinho estando casada – o que, claro, dá bastante realismo para a história. Quando desenvolve os dilemas da protagonista, Entre o Amor e a Paixão abandonada maneirismos e mostra a verdadeira vertente de Sarah Polley: sempre genuína e verossímil – e, por isso mesmo, incômoda e dolorosa.

O diálogo com a vida real é ampliado pelo bom trabalho de elenco. Primeiro é importante ressaltar que conseguiram controlar o frequentemente insuportável Seth Rogen, aqui contido e dentro do que o filme pede. Luke Kirby, como o vizinho, também traz o tom certo para seu personagem que poderia ser muito bem o vilão da história. Mas o destaque fica mesmo com Michelle Williams, uma atriz que nunca decepciona. Sua Margot pode até ter ecos da Cindy de Namorados Para Sempre, mas nada que comprometa o ótimo trabalho de Williams, certeira no equilíbrio entre tudo o que existe de bom e ruim em sua personagem. A experiência de conferir Entre o Amor e a Paixão recompensa pelas questões que levanta e pelo elenco. Só que os excessos de tons e insistências indies tiram bastante a força do filme, mostrando que, em dadas passagens, Polley se preocupou mais com a embalagem do que com o conteúdo,  ainda estendendo e explicando mais do que deveria os minutos finais. Mas nem por isso deixa de ser um relato reflexivo e de ter o maior atrativo de um bom drama: fazer com que acreditemos que essa história poderia estar acontecendo na porta ao lado. Ou até mesmo em nossas vidas.

FILME: 7.5

3*

7 comentários em “Entre o Amor e a Paixão

  1. Weiner, a cena da lanchonete é uma das melhores do filme! Continuo achando “Longe Dela” bem melhor, mas “Entre o Amor e a Paixão”.

    Lucas, é o meu gênero favorito!

    Kamila, ela é uma diretora muito sensível mesmo! E em seu novo filme ela continua provando isso.

    Adecio, não chegou a ser uma surpresa pra mim, mas eu gostei do resultado.

  2. Creio que eu gostei ainda mais do filme que você, apesar dos elogios. Gosto da maneira cada vez mais madura que Sarah Polley vem trazendo para seu cinema. É, no mínimo, uma das melhores surpresas do ano.

  3. Gosto muito da Sarah Polley como diretora e, por isso mesmo, estou querendo muito assistir a este filme, que me parece seguir bastante a linha temática do que Polley gosta de abordar como roteirista e diretora: que é o acompanhamento de relacionamentos pessoais. Gosto disso e da sensibilidade dela ao abordar tais temas.

  4. Sarah Polley comprova que tem tino para bons filmes. LONGE DELA foi um ótimo drama, delicado e um pouco distante da realidade da maioria de nós. TAKE THIS WALTZ é um retrato vívido sobre o amor e suas diferentes formas, relativamente mais universal – impossível não nos identificarmos com cada pequeno conflito. Elenco muito bom. A cena em que Kirby assedia Michelle na lanchonete é ótima, o encontro na piscina, a cena de Michelle e Rogen na escada é perfeita, enfim… não posso esquecer de “Video Killed The Radio Star” tocando no brinquedo… sensacional!
    Abraços!

  5. Pingback: FATOS & FOTOS

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