As Aventuras de Pi

Doubt is useful. It keeps faith a living thing. After all, you cannot know the strength of your faith until it is tested.

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Direção: Ang Lee

Roteiro: David Magee, baseado no romance “Life of Pi”, de Yann Martel

Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Ayush Tandon, Gautam Belur, Adil Hussain, Rafe Spall, Tabu, Gérard Depardieu, Ayan Khan, Mohd Abbas Khaleeli, Vibish Sivakumar, James Saito, Shravanthi Sainath, Jun Naito

Life of Pi, EUA/China, 2012, 127 minutos

Sinopse: Pi Patel (Suraj Sharma) é filho do dono de um zoológico localizado em Pondicherry, na Índia. Após anos cuidando do negócio, a família decide vender o empreendimento devido à retirada do incentivo dado pela prefeitura local. A ideia é se mudar para o Canadá, onde poderiam vender os animais para reiniciar a vida. Entretanto, o cargueiro onde todos viajam acaba naufragando devido a uma terrível tempestade. Pi consegue sobreviver em um bote salva-vidas, mas precisa dividir o pouco espaço disponível com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre de bengala chamado Richard Parker. (Adoro Cinema)

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O taiwanês Ang Lee tem uma carreira muito especial. Celebrado mundialmente, já realizou filmes dos mais variados gêneros e nunca chegou a entregar um resultado ruim. Ele já foi do drama de época (Razão e Sensibilidade) ao mundo dos quadrinhos (Hulk), sempre produzindo longas que, mesmo imperfeitos, talvez não pudessem ser realizados por outros diretores. É também o caso de As Aventuras de Pi, seu mais recente longa-metragem que o coloca de volta na temporada de premiações depois de ter vencido o Oscar de melhor direção seis anos atrás por O Segredo de Brokeback Mountain, um longa que considero bastante superestimado. Agora, Ang Lee volta a provar que, apesar dos pesares, só ele poderia ter feito As Aventuras de Pi. Dependendo de quem estivesse atrás das câmeras, o filme poderia descambar para a panfletagem espiritual/filosófica, resumir-se a um mero filme de sobrevivência ou, em um caso mais extremo, tornar-se apenas uma aventura cheia de pirotecnias. Não com Ang Lee, que não chega a realizar uma obra empolgante, mas que, pelo menos, não peca pelos excessos.

O primeiro terço de As Aventuras de Pi não é o que podemos chamar de um exemplo de originalidade, até porque a decisão de contar a história através da narração de um personagem que relembra o passado não chega a trazer muitas utilidades. A introdução, apesar de frequentemente divertida (quem não se divertiu com a origem do nome do protagonista?), é prolongada demais, seja pela história que não dá muitos indícios para onde está indo ou pela expectativa criada logo no início do longa, quando um personagem diz que está prestes a contar um fato tão extraordinário que fará um homem ateu passar a acreditar em Deus. E essa expectativa criada não é necessariamente atendida: ok, a sobrevivência do protagonista sozinho com um tigre em alto mar é realmente impressionante (e é a partir da ótima cena do naufrágio que As Aventuras de Pi começa realmente a funcionar), mas filmes de sobrevivência em situações inusitadas o cinema já fez muitos. No que esse, então, é diferente dos outros? Em um único detalhe: o garoto passou semanas em alto mar com um tigre! Agora, um relato tão revolucionário – em termos cinematográficos – a ponto de mudar as crenças de alguém? Você decide.

Só que Ang Lee não é bobo, claro. Se em muito As Aventuras de Pi não escapa da sensação um pouco repetitiva de filmes de sobrevivência, o mesmo já não pode ser dito das questões que ele levanta. Ainda considero todas as propostas um tanto rasas (várias questões foram apenas jogadas ao ar sem maiores discussões), mas são exatamente elas que fazem a experiência ser mais intrigante: da relação cheia de simbologias entre o jovem Pi (Suraj Sharma) e os animais – especialmente o tigre – aos questionamentos de que até que ponto devemos ser fiéis a apenas uma religião, As Aventuas de Pi se sai bem ao colocar tais abordagens na história que apresenta. Por outro lado, parece frequentemente esquecê-las ou, então, não fortalecê-las em situações que pediam mais subjetividade. Os desprevenidos podem se surpreender, então, com esse caráter mais “complexo” do longa. Afinal, os títulos não dizem muito sobre o que o filme realmente é. O original, “A Vida de Pi” – em uma tradução literal – passa a ideia de que a história contará cada fase da vida do protagonista, do nascimento à morte – o que não é verdade: acompanhamos apenas um recorte. O brasileiro, As Aventuras de Pi, consegue ser pior: Pi não viaja o mundo desbravando continentes ou se metendo em enrascadas. A aventura dele é apenas uma.

O visual é um caso a parte. Já não bastasse a cena do naufrágio – que, em cinco minutos, supera longas inteiros como Poseidon – Ang Lee nos brinda com um filme que nunca deixa de ter um belo apuro estético. A fotografia é impressionante, com imagens que parecem realmente uma pintura. Os efeitos visuais são impecáveis, onde o tigre Richard Parker é o ponto alto: nem parece ser resultado de tecnologias tamanho o realismo. Mais importante ainda: em momento algum As Aventuras de Pi se entrega ao visual e se esquece que está contando uma história. Portanto, o longa pode até ser, na minha percepção, um espetáculo mais visual do que narrativo, mas não dá para deixar de reconhecer a habilidade do diretor em conseguir sustentar boa parte do filme só com um menino e um tigre. As Aventuras de Pi chega a ser levemente decepcionante por levar duas horas e ainda deixar de aprofundar várias de suas propostas, só que pelo menos conquista com a habilidade de mostrar uma história de sobrevivência sem nunca ficar monótono. De novo: imperfeito ou não, é um longa que cujos méritos só poderiam ser alcançados por um diretor contido como Ang Lee.

FILME: 7.5

3*

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Um comentário em “As Aventuras de Pi

  1. Pingback: …INVENTO UM CAÍS.

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