Os Miseráveis

There are storms we cannot weather…

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Direção: Tom Hooper

Roteiro: William Nicholson, baseado no espetáculo “Les Misérables”, de Alain Boublil e Claude-Michel Scönberg, e na obra homônima de Victor Hugo, com canções adaptadas para o inglês por Herbert Kretzmer

Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Eddie Redmayne, Amanda Seyfried, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Sacha Baron Cohen, Samantha Barks, Aaron Tveit, Colm Wilkinson, Georgie Clen, Andy Beckwith

Les Misérables, Inglaterra, 2012, Musical, 158 minutos

Sinopse: Adaptação do musical da Broadway, que por sua vez foi inspirado em clássica obra do escritor Victor Hugo. A história se passa em plena Revolução Francesa do século XIX. Jean Valjean (Hugh Jackman) rouba um pão para alimentar a irmã mais nova e acaba sendo preso por isso. Solto tempos depois, ele tentará recomeçar sua vida e se redimir. Ao mesmo tempo em que tenta fugir da perseguição do inspetor Javert (Russell Crowe). (Adoro Cinema)

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Os musicais contemporâneos desaprenderam a desenvolver aquela que é a principal lógica do gênero: a de que a música é o principal elemento narrativo, servindo para expressar pensamentos e sentimentos dos personagens. Da TV ao cinema, de GleeMamma Mia!, os musicais foram reduzidos a meras homenagens de grandes sucessos, onde a trama se adaptava completamente a qualquer situação só para que canções como Hey Jude e Dancing Queen pudessem aparecer. Por isso, nos últimos anos, fomos acostumamos a ver musicais completamente superficiais, quando não exclusivamente comerciais. É por isso que Os Miseráveis, novo longa do diretor Tom Hooper, consegue ser um verdadeiro espetáculo: nele, a música guia todos os momentos e personagens do filme, sendo utilizada, enfim, com o seu verdadeiro propósito.

É bom, porém, estar avisado: Os Miseráveis vai além do simples musical onde, frequentemente, os atores abandonam os diálogos para fazer parte de um número colorido e encenado com precisão. Mais do que nunca, a música é a narração. São 158 minutos de pura cantoria, onde os próprios diálogos são musicalizados e os atores devem falar normalmente durante, no máximo, 5% do filme. Por isso, há de se admirar a coragem do diretor em fazer essa ópera filmada, que deve despertar o ódio e a admiração dos espectadores na mesma proporção. E ainda em tempo: as canções (com letras adaptadas para o inglês por Herbert Kretzmer) foram interpretadas ao vivo pelos atores, sem as tradicionais gravações em estúdio posteriormente. Ou seja, todas essas escolhas fazem de Os Miseráveis um longa bastante polêmico: não existe meio termo, é ame ou odeie.

De qualquer forma, o filme é repleto de elementos dignos do reconhecimento de todos. A começar por aquele que, claro, vem sendo unanimidade: o elenco. O fato do filme ter músicas ao vivo causa estranhamento no início e, certamente, evidencia quais atores cantam melhor (e isso é bom, fugindo da eterna fábula dos musicais onde todos soltam a voz em impecáveis execuções das músicas), mas logo dá para se adaptar a esse formato e passar a admirar o notável trabalho dos atores. Hugh Jackman, como o sempre ansioso Jean Valjean, tem o momento de sua carreira, Anne Hathaway arrepia e emociona em I Dreamed a Dream (e talvez seja apenas isso), Eddie Redmayne surpreende como um coadjuvante de consistência (com direto a um belo momento solo em Empty Chairs at Empty Tables), Samantha Barks é a revelação da vez e outros fazem o que podem com papeis menores. O único porém é Russell Crowe. Não necessariamente por sua voz, mas por não dar a força necessária ao unidimensional inspetor Javert: seus momentos sozinhos são os mais monótonos do longa e fica escancarado o fato de que outro ator teria feito um trabalho muito melhor.

Então, ok, ponto para Tom Hooper que acertou no elenco. Mas também ponto para o próprio trabalho dele atrás das câmeras. Alvo de duras críticas por seus enquadramentos estranhos, suas câmeras angulares e seus primeiríssimos planos, ele se sai admiravelmente bem ao conduzir com plena segurança o lado musical – o que me leva a crer que, sim, todos os prêmios que levou por O Discurso do Rei (não apenas o Oscar, lembrando) foram injustos, mas que ter essa implicância cega com ele em função de prêmios é  resultado de uma percepção muito limitada. Seus maneirismos ainda são incompreensíveis, porém, em Os Miseráveis, ele consegue se sair muito melhor que um Rob Marshall da vida, dando consistência à narração musical e imergindo completamente os atores na proposta diferenciada do filme. Ele também não confunde as linguagens, fazendo um musical de personalidade própria, distanciando-se de outros exemplares que se perderam por cometer exatamente esse pecado: ainda em Marshall, lembram de Nine, que era quase um sonífero por ter quase todos os seus números em um mesmo cenário (no caso, um teatro)?

Hooper vai pagar caro por todas essas escolhas musicais e por continuar sendo o mesmo de outros filmes, mas também vai proporcionar um deleite para os fãs do gênero – como é o meu caso: saí completamente em êxtase após a sessão, onde o público chegou a aplaudir o resultado no final. Independente das opiniões divergentes, há de se reconhecer pelo menos a ousadia do diretor, que saiu de um singelo filme de época para a adaptação de um musical mundialmente conhecido e cultuado. Os caminhos fáceis estão ali (existe escolha mais simplória do que tomadas aéreas com letreiros pra mostrar a passagem do tempo?), as questões políticas são apenas pano de fundo e os diálogos cantados cansam em certo momento (dá para diferenciar quais são os números mais “importantes” e as meras conversas cantaroladas que não precisavam ser necessariamente assim)… Só que Os Miseráveis não se perde no meio de tantos personagens (até o alívio cômico de Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen não chega a incomodar) e alcança tons frequentemente épicos, seja em termos de produção ou de momentos dramáticos. É preciso embarcar nesse melodrama, nesse exagero, até porque não faz muito sentido esperar outra coisa de um musical com tal título.

Obrigando o espectador preguiçoso com o gênero a prestar atenção nas letras para compreender tudo o que se sucede na tela, Os Miseráveis, vale sempre repetir, é uma experiência única, mas para poucos. Pouquíssimos, melhor dizendo. Entretanto, a história não seria mesma sem a música porque nada ali chega a ser mais instigante. Se fosse contado de forma convencional, seria quadrado, monótono e muito mais suscetível a exageros e clichês. A música torna Os Miseráveis grandioso, dá um outro tom, faz o espectador entrar com mais emoção naquele mundo. Aliado, claro, a um design de produção impecável, que tem o poder de transportar qualquer um para dentro da Revolução Francesa, que está bem tematizada nas figuras dos jovens revolucionários. Os detratores de Tom Hooper que me desculpem, mas não é qualquer um que consegue segurar um filme como esse. E, bem como o último grande musical que vimos (Moulin Rouge! – Amor em Vermelho), Os Miseráveis é assim: para se abraçar completamente ou para se renegar com todo o fervor.

FILME: 9.0

45

6 comentários em “Os Miseráveis

  1. Otávio, concordamos com praticamente tudo! Os pombinhos Eddie Redmayne e Amanda Seyfried são realmente algo à parte no filme, mas não me incomodei com eles…

    Daniel, está decidida porque é Daniel Day-Lewis em uma cinebiografia. Se o nome dele já o coloca uma cabeça à frente na disputa, imagina, então, nesse formato que eles tanto adoram. Mas é fato: com tantas atuações surpreendentes esse ano entre os atores, os outros concorrentes mereciam mais destaque!

    Kamila, um espetáculo mesmo! E, como mencionei no texto, o Tom Hooper continua com os maneirismos, mas se sai admiravelmente bem conduzindo a (difícil) parte musical.

    Luis, ame ou odeie mesmo! E é bom encontrar pessoas como você, que também estão no meu grupo =)

    Clóvis, assino embaixo de tudo que você falou. Tivemos a mesma percepção quanto a “Os Miseráveis”!

  2. Bela crítica a sua, Matheus! Sintetiza bem os filmes (concordo com a tua opinião sobre “Nine”). Eu conheço a obra do Victor Hugo (um dos meus livros favoritos, por sinal), mas não vou tecer comparações aqui entre o livro e o filme, senão ficaria a noite discutindo isso.

    Também não concordei com todos os prêmios que o Hooper levou pelo o seu filme anterior, mas aqui ele faz um trabalho admirável. Desde a excelente técnica (os figurinos, a maquiagem, a direção de arte e a fotografia são de encher os olhos), até o elenco (todos estão muitíssimo bem, embora ao Russell Crowe falte certa vitalidade) e as decisões dele como diretor foram acertadas em sua maior parte (eu estranhei os ângulos da câmera as vezes). O fato de o longa ser todo cantado traz aspectos positivos e negativos. Se por um lado nunca temos a sensação de que a narrativa é interrompida com os números musicais, por outro, fica claro quais são as músicas que estão ali apenas pra estufar o material (por exemplo, “Bring him Home” é bem interpretada pelo Jakcman, mas achei meio desnecessária ela ali).

    Alguns pontos poderiam ter sido mais bem trabalhados (o romance do Marius e a Cosette parece meio aleatório e a participação da Fantine poderia ter sido maior), mas esses tropeços não prejudicam tanto o produto final. Tom Hooper fez um musical de dar orgulho ao gênero e isso basta.

    PS1. O alívio cômico vindo do Senhor e Senhora Thénardier não me incomodou. Pra falar a verdade, achei as participações deles bem divertidas e trouxeram um pouco de leveza para uma trama que precisa dela.

    PS2. Mesmo com uma curtíssima participação, a minha torcida continua pra Hathaway. Quase chorei quando ela cantou “I Dreamed a dream”. E o final também é de cortar o coração.

  3. (vou fingir que não li suas farpadas contra Marshall, porque acho que ele conseguiu transformar uma peça que só ficou cinco semanas em cartaz e que ganhou um Tony e logo depois foi esquecida, em um grandes espetáculo de vozes e atores. E fez algo semelhante, renascendo Chicago das cinzas do West End).

    Eu também sou do time AME Le Mis (acredito que os leitores de CeA são minoria por isso, kkkkk). Confiava plenamente na capacidade de Hooper de dirigir o épico e acho que fez um lindo trabalho. Detalhista, profundo e com um elenco de arrepiar (Aaron, conhecido da Broadway, é outro, fora os citados por Kamila e Otávio, que eu destacaria), fora a parte técnica que invejaria qualquer Baz da vida (e olhe que eu coloco até a produção de Austrália nesse meio). No começo, eu tentava até sussurrar baixinho as letras tão memoráveis do filme, mas depois do primeiro tropeço em um soluço de um personagem, eu parei e fiquei apenas admirando, sem ao menos tentar interferir na obra.

    No geral, pode ser intragável para uns, mas uma boa dose de cowboy para outros.

  4. Bela crítica, Matheus! Eu achei “Os Miseráveis” um espetáculo de filme. Tom Hooper foi injustiçado pelo trabalho realizado neste filme. A direção dele é repsonsável por boa parte dos acertos do musical. A começar pelo elenco impecável, um dos melhores grupos de atores que eu vi num musical (Russell Crowe, pra mim, merece elogios pela boa performance). A parte técnica está sensacional, muito bem feita. E temos as felizes decisões de Tom Hooper em filmar em primeiro plano e gravar as cenas musicais com os atores cantando ao vivo. Isso dá autenticidade ao seu filme.

    Minha única ressalva em relação à “Os Miseráveis” vai para o ato que envolve o levante popular liderado por Marius e seus amigos. Aquela parte, pra mim, foi totalmente desnecessária e quebrou o ritmo do filme por completo.

  5. A atuação de Jackman não me deixa entender como uma disputar por Oscar que deveria estar muito mais disputada (a atuação de Joaquin Phoenix não me deixa mentir) está assim tão certa com a vitória de Daniel Day-Lewis.

  6. Não sou grande fã de musicais. Mas amo cinema. E Tom Hooper fez um belíssimo filme. Do elenco a todos os detalhes técnicos. Ele narra uma saga à moda antiga com a coragem – como você citou – de fazer um filme 98% cantado do início ao fim. Achei algumas passagens tão grandiosas, de proporções bíblicas, como a abertura com os prisioneiros puxando o navio. Lembrei, por alguma razão da grandiosidade de “Ben-Hur”.

    E é preciso ser muito macho para chorar no momento Sinéad O’Connor de Anne “Nothing Compares 2U” Hathaway. Só não passei vexame porque a cena não acontece no final, quando as luzes se acendem minutos depois. Ela está fantástica. Mesmo que dure pouco tempo no filme. Sua imagem, voz e interpretação, puta que pariu, doeram na minha alma. A imagem dela fica até o fim.

    Mas todo o elenco está demais. Achei que a passagem de tempo me incomodou em algumas vezes quanto ao ritmo. Como a parte em que somos atirados sem mais nem menos no romance “vi, gamei” de Amanda Seyfried. Mas o final é tão forte, emocionante, que voltei para “Os Miseráveis”. E o filme ainda permanece comigo.

    Abs!

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