Django Livre

Django. The D is silent.

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Direção: Quentin Tarantino

Roteiro: Quentin Tarantino

Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Kerry Washington, Jonah Hill, Walton Goggins, Dennis Christopher, James Renar, David Steen, Dana Michelle Gourrier, Nichole Galicia

Django Unchained, EUA, 2012, Aventura, 165 minutos

Sinopse: Django (Jamie Foxx) é um escravo liberto cujo passado brutal com seus antigos proprietários leva-o ao encontro do caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Schultz está em busca dos irmãos assassinos Brittle, e somente Django pode levá-lo a eles. O pouco ortodoxo Schultz compra Django com a promessa de libertá-lo quando tiver capturado os irmãos Brittle, vivos ou mortos. Ao realizar seu plano, Schultz libera Django, embora os dois homens decidam continuar juntos. Desta vez, Schultz busca os criminosos mais perigosos do sul dos Estados Unidos com a ajuda de Django. Dotado de um notável talento de caçador, Django tem como objetivo principal encontrar e resgatar Broomhilda (Kerry Washington), sua esposa, que ele não vê desde que ela foi adquirida por outros proprietários, há muitos anos. (Adoro Cinema)

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Os montadores e roteiristas da temporada 2013 de premiações parecem ter selado um pacto: não finalizar um filme sem que ele tenha, no mínimo, 150 minutos de duração. Só isso para explicar a quantidade de trabalhos desnecessariamente longos que podemos encontrar neste início de ano. A exemplo de LincolnOs Miseráveis A Hora Mais EscuraDjango Livre, o novo trabalho de Quentin Tarantino, também perde a chance de ser mais memorável em função dos excessos e da falta do poder de síntese. Mas sejamos justos: a vontade, após a sessão, é de sair correndo do cinema para rever Kill Bill. E isso é, no mínimo, um baita elogio, já que a saga de vingança de A Noiva (Uma Thurman) é, disparado, o grande momento de Tarantino como realizador. Django Livre não chega a alcançar o mesmo nível de empolgação, mas traz o que existe de melhor naquela história – e também o pior de Bastardos Inglórios, por exemplo, o filme que mais trouxe Tarantino flertando perigosamente com a monotonia devido a sua obsessão com diálogos e cenas que desejam ser cults a todo custo.

É por ser tão comprido (quase três horas) que Django Livre não se torna mais um clássico da carreira de Quentin Tarantino. Mas, acreditem, chega perto. Muito mais do que apenas uma homenagem ao chamado western spaghetti, seu mais novo filme traz todo o senso de diversão de Kill Bill, onde os banhos de sangue impactam com a mesma proporção que divertem. A violência, antes de tudo, é um alento nos filmes de Tarantino, especialmente quando ele fala sobre vingança e mais especificamente sobre a crueldade da escravidão – que é retratada de forma nunca vista. Esse, aliás, é um poder que só o diretor parece ter: o de conseguir fazer humor em qualquer situação. Dê qualquer lugar e época para Tarantino e não pense duas vezes: ele vai conseguir fazer algo completamente novo. Só que, como um cinéfilo inveterado, Tarantino também sabe a hora de parar, nunca deixando que seus filmes se tornem meramente paródias vazias. Django Livre não escapa da fórmula, apresentando-se como, sim, uma experiência divertidíssima, mas também como um interessante retrato da escravidão e dos extremos racistas dessa época.

Como um cineasta sempre repleto de referências e estilos facilmente reconhecíveis, Tarantino poderia se acomodar e fazer reciclagens. Django Livre dá pequenos indícios disso, mas tal ideia nunca se confirma: vários momentos lembram sim outros filmes do diretor (uma cena no final nos remete ao duelo de Kill Bill com os Crazy 88), entretanto, o resultado tem personalidade. Os próprios atores entraram no clima. Eles, inclusive, são um show à parte. Impossível falar de Django Livre sem mencionar cada um deles. Começando pelo protagonista, Jamie Foxx, que parecia destinado a um looping eterno de canastrice e que entrega aqui o seu melhor desempenho desde… Ray? Ele faz uma bela parceria com o ótimo Christoph Waltz, ator que contraria qualquer expectativa que seu dr. King Schultz poderia ser repetição do Hans Landa, de Bastardos Inglórios: ele volta a surgir carismático e irônico, com um personagem que, assim como o de Foxx, conquista a nossa torcida. Logo também surge Samuel L. Jackson, surpreendente como o perigoso empregado puxa-saco que é, ao meu ver, o verdadeiro vilão da história (até o “acerto de contas” final é com ele!). Por falar em vilão, quem supostamente ocupa esse cargo é Leonardo DiCaprio, que já provou ser um ator muito seguro há anos, mas que aqui é, possivelmente, o menos interessante do filme – muito prejudicado pelo próprio roteiro, que constantemente lhe sabota com a figura de Jackson, cujo personagem é muito mais esperto que o seu (o que praticamente castra a figura de DiCaprio, já que ele sim deveria ser o mais temido).

Os personagens marcantes de Django Livre e os afiadíssimos atores são bem comandados por Tarantino, integrando uma história bastante simples que ganha contornos pra lá de especiais nas mãos de seu comandante. O problema, todavia, como já ressaltado, é o frequente prolongamento do filme. Em um primeiro momento, o espectador pode estranhar que a premissa apresentada nos primeiros minutos termine com basicamente meia hora de filme. Nem sempre é uma jogada esperta apresentar um conflito, terminá-lo logo em seguida para, depois, mostrar que ele era apenas um pretexto para que a grande problemática começasse de fato. Não foi um grande incômodo (apenas um estranhamento), até porque o problema real vem depois: a introdução do personagem de Leonardo DiCpario. É nesse momento que Django Livre perde o passo, dando destaque demais para uma apresentação que não impacta e para um personagem não se diferencia em nada das crueldades de nenhum outro que simboliza racismos na trama. Esse tempo perdido é precioso, o que podemos atestar nos últimos momentos, quando o roteiro se dá conta que ainda tem muito a contar e faz tudo às pressas para chegar a uma conclusão. Aí Django Livre deixa aquela estranha sensação de que tem vários finais…

É por casos como os de Django Livre que sempre sou a favor de filmes enxutos. Quanto mais se corta, mais a essência fica evidente. E a nova história contada por Tarantino merecia ser mais objetiva. No entanto, estamos falando dele, que vez em quando tem seus excessos no roteiro, mas que nunca erra na direção. Não é diferente nesse longa. É um universo tão particular de Tarantino, um humor executado de forma tão interessante com caricaturas  e insanidades bastantes eficientes que, no final das contas, os méritos falam mais alto, principalmente porque eles subvertem com inteligência todo um tema e uma época. Sem falar que, em Django Livre, o negro tem personalidade e não é totalmente vitimizado. Mesmo ajudado por um branco (no caso, o personagem de Waltz, que odeia a escravidão e trata os negros com normalidade mas que tampouco é vendido como o herói do dia), o negro faz sua própria justiça, sua própria história. E isso é o verdadeiro Tarantino: ousadia, originalidade, homenagem, subversão e… diversão. Alguém consegue lembrar de outro diretor que faça parecido?

FILME: 8.5

4

5 comentários em “Django Livre

  1. como é engraçado ver o comentário de um cineasta frustrado a respeito de um gênio!

  2. Adorei a crítica!

    Acho q, pela primeira vez, vi mais sentido “político”, digamos assim, no excesso de violência de Tarantino. Nao q cinema, arte em geral, tenha essa obrigação, mas, particularmente, acho mto bom qdo o faz.

    Q bom conhecer seu blog, parabéns!
    Abs,
    Mariana

  3. Jorge, o Samuel L. Jackson é mais um desses atores que o cinema não sabe aproveitar direito. Prova disso é “Django Livre”!

    Kamila, não tive problema com o excesso de violência (depois de “Kill Bill” não me surpreendo mais haha), mas concordo em relação ao tempo…

  4. De longe, o melhor desse filme está no primeiro ato, na construção do relacionamento entre Django e o Dr. King Schultz. Quando eles interagem com o Leonardo di Caprio, a coisa continua num alto nível. O personagem do Samuel L. Jackson também é sensacional, mas “Django Livre” peca pelo excesso. De tempo e, principalmente, de violência…

  5. Excelente crítica. Ao assistir o filme senti uma mudança de ritmo e de conteúdo, o divertido passou a ser muito sério, mas nem um pouco ruim, Claro, a dupla é a grande atracão do filme. O DiCaprio tava ótimo, contudo fiquei hipnotizado com a atuação do Samuel L. Jackson. Eu não costumo gostar dos papéis dele, um bom ator desperdiçado em filmes que só querem um tipo de personagem, mas nesse ele se superou. Ele era ódio puro.

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