A Hora Mais Escura

It’s cool that your strong and I respect it. I do. But, in the end, everybody breaks.

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Direção: Kathryn Bigelow

Roteiro: Mark Boal

Elenco: Jessica Chastain, Kyle Chandler, Joel Edgerton, Reda Kateb, Jason Clarke, Jennifer Ehle, Harold Perrineau, Jeremy Strong, J.J. Kandel, Yoav Levi, Scott Adkins, Eyad Zoubi, Lauren Shaw, Eyad Zoubi

Zero Dark Thirty, EUA, Drama, 2012, 157 minutos

Sinopse: Os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 deram início a uma época de medo e paranoia do povo americano em relação ao inimigo, onde todos os esforços foram realizados na busca pelo líder da Al Qaeda, Osama bin Laden. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que está por trás dos principais esforços em capturar Laden, por ter descoberto os interlocutores do líder do grupo terrorista. Com isso ela participa da operação que levou militares americanos a invadir o território paquistanês, com o objetivo de capturar e matar bin Laden. (Adoro Cinema)

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A Hora Mais Escura fez barulho nos Estados Unidos pelos motivos errados. Nada de grandes comentários sobre o trabalho de Kathryn Bigelow atrás das câmeras ou sobre o desempenho de Jessica Chastain. A nova parceria da diretora com o roteirista Mark Boal entrou em cartaz cercado de polêmicas por supostamente incentivar (?!) a tortura de terroristas e outros detalhes políticos que só viram fiasco nas mãos dos estadunidenses. Se A Hora Mais Escura incentiva a tortura, o seriado 24 Horas, então, é uma verdadeira celebração a ela. Bobagem à toa do povo de lá. Mas isso me leva a uma questão que, ao meu ver, sabota o longa de Bigelow: a vida real. A morte de Osama Bin Laden foi muito diferente do que imaginávamos quando ele passou anos sendo procurado: anunciada surpreendentemente em uma madrugada, sem momentos gloriosos ou grandes alardes. Para o caos que causou nos Estados Unidos, Bin Laden teve um fim muito discreto, o que até hoje causa a desconfiança de algumas pessoas. Por isso mesmo A Hora Mais Escura parece um tanto over, enfeitando esse desfecho que, para boa parte do mundo que acompanhou apenas pela TV, não foi tão tumultuado assim.

Curioso mesmo é descobrir que Boal tinha escrito um roteiro diferente para o filme anos atrás. A Hora Mais Escura era para existir antes da morte de Bin Laden. O terrorista, todavia, foi morto nesse meio tempo, o que obrigou Boal a reelaborar todo o seu trabalho. É de se perguntar se ele e Bigelow acharam que esse fato tenha contribuído para o filme – que, como já mencionado, é todo encenado durante uma preparação de décadas para culminar em um momento que, ao contrário do que a diretora quer emular com a sua câmera, foi nada menos do que discreto. Mas sejamos justos: fora essa certa incoerência da grandiosidade da investigação e a simplicidade da resolução do conflito, o roteiro de Boal serve para esmiuçar toda a logística da caçada que, segundo o material de divulgação do filme, foi a maior da história (precisava dessa hipérbole?). E só a diretora do cultuado Guerra ao Terror poderia contar essa história, seja por ela estar se especializando em filmes do estilo ou por ter uma habilidade muito especial: a de dar um tom extremamente documental sem nunca deixar com que o resultado pareça um documentário.

Em cada cena de A Hora Mais Escura dá para notar o envolvimento da diretora e do roteirista com o tema. Isso é algo que se reflete não somente na riqueza de detalhes, mas na própria forma como eles não tornam o resultado exclusivo ao público de lá. Bigelow deixa mais do que evidente a sua segurança atrás das câmeras, conseguindo conduzir perfeitamente cenas mais ambiciosas (o ataque à casa de Bin Laden é o ponto alto do filme) e outras internas, onde personagem apenas traçam estratégicas de ataque e investigação em um simples escritório. Não dá para negar a mão firme da diretora, que, apesar de tantos méritos, realiza, bem como em Guerra ao Terror, um filme, digamos, mais lógico. Tem momentos de tensão, tomadas bem dirigidas, uma excelente montagem de William Goldenberg e Dylan Tichenor e plena segurança sobre o tema que desenvolve, mas não é um filme mais denso dramaticamente – e a tentativa da diretora em querer criar um momento lacrimoso da protagonista nos momentos finais é quase falha. Tal caráter mais “calculado” pode não cativar muita gente (como é o meu caso).

Ainda em tempo, A Hora Mais Escura é narrado a partir das situações vividas por Maya, nome fictício usado para não revelar a identidade do (a) agente que ainda está em atividade na CIA. Ela é interpretada pela estrela em ascensão Jessica Chastain, que custa a se encontrar no papel (em certos momentos chega a estar até meio “careteira”), o que é uma clara reflexão do próprio filme, prejudicado pelos constantes avanços no tempo em sua primeira hora. Mesmo não protagonizando um filme de atuações, ela, pouco a pouco, passa a tomar as rédeas da história e, no final, dá para dizer que Chastain consegue comandar muito bem a história. Por fim, é um longa bem realizado e que conta com a habitual competência de Bigelow atrás das câmeras. Apesar das exageradas polêmicas que criou quando entrou em cartaz, A Hora Mais Escura conseguiu fazer uma boa carreira na temporada de premiações, mas sem vitórias (com exceção de Chastain, que chegou a vencer o Globo de Ouro). Alguma relação com o fato do frescor de Guerra ao Terror já ter passado?

FILME: 7.5

3*

5 comentários em “A Hora Mais Escura

  1. Kamila, eu gosto da Jessica Chastain no filme. No entanto, acho que “A Hora Mais Escura” está longe de ser um filme de atuações. Por isso, não consegui me envolver muito com ela.

    Elton, e eu vejo muitos méritos em “A Hora Mais Escura” para que o público aprove o resultado. Mas, como você bem mencionou, essa sensação “WTF? Estavam procurando por ele?” foi meio que decisiva para eu não me empolgar tanto com o que estava vendo.

    Rafael, talvez seja que questão de estilo mesmo: é o segundo filme da Kathryn Bigelow que me parece superestimado.

    Clóvis, foi um dos que eu menos gostei da safra do Oscar 2013. Ainda assim, é um bom filme e comprova que a seleção desse ano teve uma excelente média!

  2. Na minha opinião, esse é o melhor entre os longas dessa safra do Oscar de início de ano. Acho que, independente do retrato do filme ser verídico ou não, ele se sustenta muito bem como uma obra de ficção. O final anticlimático adotado por Bigelow cai muito bem em uma obra como essa. E não tive a impressão que a diretora apela para um final lacrimoso. O modo como a Maya desaba naquela cena serve pra lançar uma luz final sobre essa personagem. Quando o piloto pergunta “Aonde você quer ir?” mostra como ela se tornou tão obcecada em encontrar o Bin Laden, que agora que a missão finalmente acabou, a vida da personagem se encontra totalmente perdida, sem nenhum objetivo. Além do excelente trabalho de roteiro e direção, destaco a ótima montagem e a atuação magistral de Jessica Chastain.

  3. Eu acredito que se o filme tem esse tom de grandiosidade pela busca e morte de Bin Laden ele se deve ao fato de que o filme retrata os bastidores dessa investigação, esses meandros que internamente causaram muita dor de cabeça aos envolvidos, para além da comoção geral depois que ele foi pego. Também acho magistral o roteiro do Boal em construir esses passos, juntando as informações que ele ia conseguindo, até criar essa personagem ficcional que representa toda essa busca pelo inimigo não só como serviço a uma nação, mas também como uma espécie de vingança pessoal.

  4. Olá Matheus!
    Eu entendo seu ponto de vista, mas discordo dele. Foi realmente repentino quando acordamos no feriado e saiu a notícia de que Bin Laden tinha sido morto. WTF? “Estavam procurando ele”, muitos devem ter pensado. Pouco disso saia nos noticiários e quem já não era habituado a consumir notícias desse tipo (eu, inclusive), foi pego de surpresa com a morte do cara. Por isso, não acho muito adequado dizer que o desfecho foi “over”, até porque a discrição que tu comenta (e eu concordo) faz parte da História. O cara foi localizado e bala nele! Não teve outra história aí, é isso e ponto. Como Boal poderia fugir disso?

    Eu acho o seu roteiro absolutamente magistral na harmonia das passagens até culminar na execução do terrorista. Bigelow e Chastain são só “amor”! Como comentei em minha crítica, vejo “A Hora Mais Escura” como um futuro clássico não apenas pelos seus méritos, mas por recontar um fato de extrema relevância para a História. E até que prove o contrário (Bin Laden foi financiado para sumir?), essa vai continuar como a história oficial.

  5. Pra mim, o maior mérito de “A Hora Mais Escura” é poder ser considerado o único registro oficial de uma versão sobre a morte do Osama Bin Laden. Até que se prove o contrário do que foi dito por Mark Boal e Kathryn Bigelow, foi isso aí que aconteceu. Acho o filme bem forte, tem o dom documental que é a marca da dupla formada por roteirista e diretora e conta com uma atuação fortíssima de Jessica Chastain. Sua Maya é a reunião do senso de vingança e de justiça e de obsessão dos norte-americanos pós 11 de setembro.

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