Rapidamente

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CINDERELA BAIANA (idem, 1998, de Conrado Sanchez): Hoje é visto como um clássico trash do cinema brasileiro, mas na época do lançamento não deve ter sido lá muito engraçado. E, mesmo hoje, tudo é muito sofrido: dá até para se divertir aqui ou ali com uma bobagem, mas, no geral, só testa a paciência do espectador. Renegado pela própria Carla Perez, o filme foi um verdadeiro fiasco de bilheteria, e dá para entender o porquê. Cinderela Baiana simplesmente não é cinema – e não se encaixa nesse universo porque nada faz sentido na história dirigida por Conrado Sanchez. Todos os personagens tem uma notável escalada social e profissional (o que anula a existência de qualquer conflito, já que todos vencem na vida) e é muito questionável a forma um como certas cenas são desenvolvidas: afinal, é drama ou comédia? Vamos também considerar o fato de que Cinderela Baiana dedica 80% de sua duração a acompanhar cenas de dança infinitas que nada acrescentam sequer ao mundo musical tão almejado pela protagonista. O elenco é também um destaque dos horrores: de Carla Perez a Alexandre Pires, todos são incrivelmente ruins. Mas o mistério mesmo é saber de onde Perry Sales tirou tanto fôlego para gritar o tempo inteiro como o vilão maquiavélico que, por ganância, marca dois shows para a protagonista em dois países diferentes no mesmo horário.

HOJE (idem, 2012, de Tata Amaral): Infelizmente, Denise Fraga é mais conhecida pelo quadro cômico Retrato Falado, do Fantástico, do que por seus atributos como atriz dramática. E Hoje é uma bela maneira de conhecer toda essa vertente da carioca que é pouco conhecida pelo grande público. O filme de Tata Amaral é quase que inteiramente encenado em um apartamento, apoiado na dinâmica entre Fraga e o uruguaio César Troncoso. Mesmo com uma breve duração (não são nem 90 minutos), Hoje é quase arrastado, muito em função de ser um filme bastante silencioso e construído apenas em cima de diálogos. Por falar em diálogos, o texto se sai bem ao lidar com várias questões, desde a forma como a ditadura afetou o casal principal aos acertos de contas dos dois com o passado e a vida. Mas a verdade é que Tata Amaral se sai muito melhor quando fala sobre sentimentos. A temática da ditadura aqui foge de discussões banais, mas é quando o filme resolve mostrar como essa terrível fase da história brasileira transformou emocionalmente os personagens durante os anos posteriores é que o filme ganha um fôlego diferenciado. E Denise Fraga, claro, aproveita cada minuto em uma interpretação que já deve figurar entre as mais importantes de sua carreira.

OBLIVION (idem, 2013, de Joseph Kosinski): Em Tron: O Legado, o diretor Joseph Kosinski já havia provado ter uma aptidão muito grande para filmes de ficção. E, com Oblivion, ele continua demonstrando esse talento. No entanto, Kosinski precisa urgentemente de roteiros melhores. Nessa nova produção estrelada por Tom Cruise, o diretor não tem muito o que fazer com um roteiro que não consegue casar uma abordagem mais contemplativa e “cabeça” com os momentos de ação. O resultado é um filme estranho, cansativo, quase tedioso, que, ao longo de 130 minutos, raramente empolga. A trilha de M83, o visual e as escolhas de Kosinski estão ali fazendo uma ótima ambientação, mas a história beira o desinteressante e a má execução de vários elementos da história impede que Oblivion seja sequer um esquecível filme-pipoca. Sem falar que os mais atentos vão perceber várias propostas escancaradamente copiadas, especialmente aquelas envolvendo o mundo de Lunar, exemplar filme de ficção dirigido por Duncan Jones. O trabalho de Kosinski é cheio de boas intenções, mas, infelizmente, o resultado é dos mais decepcionantes.

O SOM AO REDOR (idem, 2012, de Kleber Mendonça Filho): Começou sua trajetória no 40º Festival de Cinema de Gramado (onde levou melhor filme pelo júri popular e da crítica, entre outros) e, aos poucos, ganhou o Brasil e também o mundo – chegando a ficar no TOP 10 de melhores filmes do ano do New York Times. E as honrarias para O Som ao Redor são mesmo merecidas, especialmente porque poucas vezes vimos no cinema brasileiro uma radiografia tão bem realizada sobre uma comunidade específica. Dirigido por Kleber Mendonça Filho – que fez carreira como crítico de cinema e hoje está atrás das câmeras – o filme é todo de personagens que dividem uma zona em comum, sem necessariamente destinar tramas isoladas a cada um deles. A simetria de O Som ao Redor é, possivelmente, o ponto alto do filme: aqui, ninguém sobra ou falta e impressiona a segurança com que Kleber conduz esse elemento tão importante, indo e voltando na vida dos personagens sem deixar pontas soltas. Ou seja, tudo que é mostrado tem alguma razão de estar ali. Não é o tipo de filme que desperta grandes sentimentos – aí cabe a você decidir até que ponto isso é bom ou ruim – mas, certamente, deve ser reconhecido por sua notável harmonia entre roteiro e direção.

3 comentários em “Rapidamente

  1. Hugo, se passou de forma rápida, então, que ótimo! Ninguém merece esse filme haha

    Kamila, o roteiro de “Oblivion” é confuso mesmo… E o filme não tem ritmo. Decepção!

  2. Dos filmes resenhados, só assisti a “Oblivion”, que, para mim, foi um filme muito prejudicado pelo roteiro confuso. Visualmente, o filme é sensacional e comprova que Joseph Kosinski nasceu para o gênero de ficção científica.

    Nunca assisti, porém, tenho muita curiosidade para ver “Cinderela Baiana”. Muito por causa da mitologia em torno do filme. Gostei de sua resenha rápida sobre o longa.

    E quero muito assistir “O Som ao Redor”.

  3. Por coincidência escrevi hoje sobre o ótimo “O Som ao Redor”.

    Não lembro exatamente, mas acredito que “Cinderela Baiana” tenha passado em poucos cinemas na época e de forma muita rápida. Em SP talvez não tenha sequer chegado aos cinemas.

    Abraço

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