Somos Tão Jovens

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Direção: Antonio Carlos da Fontoura

Roteiro: Marcos Bernstein

Elenco: Thiago Mendonça, Laila Zaid, Bruno Torres, Bianca Comparato, Sandra Corveloni, Marcos Breda, Daniel Passi, Conrado Godoy, Olivia Torres, Kotoe Karasawa, René Machado, Leonardo Villas Braga

Brasil, 2013, Drama, 104 minutos

Sinopse: Brasília, 1973. Renato (Thiago Mendonça) acabou de se mudar com a família para a cidade, vindo do Rio de Janeiro. Na época ele sofria de uma doença óssea rara, a epifisiólise, que o deixou numa cadeira de rodas após passar por uma cirurgia. Obrigado a permanecer em casa, aos poucos ele passou a se interessar por música. Fã do punk rock, Renato começa a se envolver com o cenário musical de Brasília após melhorar dos problemas de saúde. É quando ajuda a fundar a banda Aborto Elétrico e, posteriormente, a Legião Urbana. (Adoro Cinema)

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Somos Tão Jovens não quer ser um retrato completo de Renato Russo assim como Cazuza – O Tempo Não Para narrou praticamente todas as fases da vida pessoal e profissional de seu cantor-título. O filme sobre o vocalista do Legião Urbana é uma espécie de Coco Antes de Chanel, sendo a reprodução da vida de Renato Russo antes de ele se tornar o ícone de toda uma geração. E, mesmo com essa proposta diferenciada (que nunca é vendida apropriadamente pela divulgação), Somos Tão Jovens não empolga e falha em praticamente todos os sentidos, seja como o retrato de um tempo completamente influenciado pela música ou de um jovem que já começava a dar indícios de que um dia seria uma das maiores referências da música brasileira.

Para ser bem sincero, o Renato Russo que vemos em Somos Tão Jovens é um chato. Mimado, inconstante e estranho, o jovem, cinematograficamente falando, poderia sim ter essas características que dariam maior amplitude ao personagem que só conhecemos no palco frente ao Legião Urbana. Porém, a forma como o roteiro de Marcos Bernstein desenvolve Renato é extremamente rasa, o que faz com que todos esses detalhes se tornem um verdadeiro empecilho. É difícil se envolver com o protagonista, que muitas vezes tem atitudes aleatórias e é constantemente tratado como um piadista. Atenção especial para os momentos envolvendo a morte de John Lennon, desnecessariamente prolongados e que servem apenas como alívio cômico.

Por falar em referências musicais, eis aí outro detalhe incômodo do filme. Marcos Bernstein acha que, para fazer um panorama do cenário musical de uma época, basta colocar nomes de bandas na boca dos personagens. Por isso, chegam a soar superficiais as conversas dos personagens sobre Sex Pistols ou Led Zeppelin, por exemplo. Ainda além: a irritante obsessão de Renato de que todo mundo tenha que ouvir sua fita cassete de rock é outra investida que não dá a dimensão esperada. Ser um jovem rebelde em tempos de ditadura e fazer música com bandas de garagem é um estereótipo que não precisava simplificar Somos Tão Jovens. Pode até soar como uma escolha de querer mostrar o lado “normal” do protagonista, mas simplesmente não dá certo quando um filme se utiliza de todas obviedades possíveis dessa abordagem.

É por isso que o longa de Antonio Carlos da Fontoura nunca parece um relato sobre Renato Russo. O pior não é nem a produção não estar à altura do ícone que deseja mostrar, mas nunca dar indícios, por meio do roteiro, de que ele, em algum lugar daquele adolescente chato, está ali. Assim, Somos Tão Jovens é um amontoado de situações praticamente desconexas onde jovens cantam, bebem, conversam, etc. O próprio processo criativo de Renato Russo é inexistente: as canções simplesmente surgem sem qualquer circunstância ou inspiração aparente/convincente. Mais grave ainda: canções clássicas como Faroeste CabocloQue País é Esse? e Eduardo e Mônica são prejudicadas por essa superficialidade e não têm sequer um impacto interessante como trilha sonora ou memória afetiva.

É inevitável não fazer comparações com Cazuza – O Tempo Não Para, que saiu tão bem na parte musical, dando destaque a vários sucessos musicais das mais variadas formas, e na própria abordagem da vida pessoal do cantor. Em Somos Tão Jovens tudo é o oposto, o que se reflete também no que Renato Russo vivia afetivamente. Se os pais dele aparecem como meros estereótipos de figuras engessadas da época, questões delicadas como a homossexualidade de Renato nunca recebem a atenção que mereciam. O fato do cantor se assumir não traz conflito algum (e não vemos o efeito que isso causou em seus pais) e os flertes do jovem se resumem apenas a olhadas de canto – o que nunca deixa claro para o espectador leigo quando foi de fato a primeira vez que ele ficou com um homem. Por falar em leigo, quem confere Somos Tão Jovens sem conhecimento do líder do Legião Urbana sai da sala de cinema com a sensação de que nada aprendeu sobre ele. Não dá para ignorar esse resultado tão raso e convencional de um ícone que marcou gerações.

O filme de Antonio Carlos da Fontoura também tem um forte problema de elenco: ao passo que Thiago Mendonça deixa evidente que não está incorporando Renato de forma natural (percebam como os tiques são excessivamente repetitivos, como a ajeitada no óculos a cada dez minutos), o elenco de suporte ainda é pífio, com atores subutilizados e ineficientes (a exceção talvez seja Laila Zaid, com uma interpretação bastante, digamos, afetiva). Ainda em comparações com Cazuza – O Tempo Não Para, falta em Somos Tão Jovens a total imersão de um Daniel de Oliveira ou a inestimável afetividade de Marieta Severo como a figura materna. É isso mesmo: enquanto o filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho fez um retrato emocionante de um cantor importantíssimo para a música brasileira, Somos Tão Jovens perdeu a chance de fazer o mesmo. E o máximo de emoção está presente,  justamente, na cena final, que é um registro de arquivo da primeira apresentação do Legião Urbana no Circo Voador. Ou seja, a vida real precisou literalmente invadir o filme para que ele tivesse pelo menos um grande momento.

FILME: 5.0

2*

2 comentários em “Somos Tão Jovens

  1. “Somos Tão Jovens” é um filme muito vibrante. Acho que isso é o ponto mais positivo desse longa. No mais, acho que os seus maiores problemas residem no roteiro, que força a barra na conexão entre as cenas e as músicas de Renato Russo; e nas atuações, que beiram a imitação… Com destaque para o constrangedor ator que interpreta o Herbert Vianna. Fiquei com vergonha pelo Herbert.

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