Antes da Meia-Noite

And what about this time machine? How does it work?

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Direção: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy

Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Jennifer Prior, Charlotte Prior, Seamus Davey-Fitzpatrick, Xenia Kalogeropoulou, Walter Lassally, Yiannis Papadopoulos, Athina Rachel Tsangari, Panos Koronis, Ariane Labed

Before Midnight, EUA, 2013, Drama/Romance, 109 minutos

Sinopse: Nove anos após os eventos de Antes do Pôr-do-sol, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) vivem juntos em Paris, ao lado das filhas gêmeas que tiveram. Ele busca sempre manter contato com Hank (Seamus Davey-Fitzpatrick), o filho adolescente que teve com a ex-esposa e que vive em Chicago com a mãe. Quando o casal resolve ir à Grécia com as filhas, Jesse decide também convidar Hank para a viagem. Neste contexto, Jesse segue tentando se tornar um romancista de sucesso, enquanto que Celine considera seriamente a possibilidade de aceitar um emprego junto ao governo francês. (Adoro Cinema)

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Se você não assistiu aos filmes As Pontes de Madison, Encontros e Desencontros e aos longas da trilogia Antes… (incluindo a estreia da última sexta-feira), não prossiga. O texto contém spoilers.

“Nunca na vida você pensa que um amor como esse pode acontecer com você. E eu quero mantê-lo para sempre. Quero amá-lo do jeito que amo agora para o resto da minha vida. Você não entende? Vamos perder isso se partirmos. Eu não posso fazer uma vida inteira desaparecer para começar uma nova. Tudo que eu posso fazer é me agarrar a nós dois. Me ajude… Me ajude a não deixar de te amar”. Essa passagem é de um dos meus filmes favoritos: As Pontes de Madison, de Clint Eastwood. Meu apreço por ele é muito em função de sua dolorosa proposta exemplificada na passagem passagem citada: a de mostrar um sentimento avassalador que, devido a várias circunstâncias, nunca poderia ser colocado em prática. Assim são os meus filmes prediletos: sobre amores incompletos e afetos minados pela distância e pela vida. E Antes do AmanhecerAntes do Pôr-do-Sol, ambos de Richard Linklater, seguem basicamente a mesma proposta. São filmes cheios de beleza porque fogem do convencional e não têm finais felizes.

Por isso, foi no mínimo um choque saber da continuação intitulada Antes da Meia-Noite, responsável por mostrar como foi a vida de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) quando… eles decidiram ficar juntos! Um choque no sentido de que a magia poderia ser quebrada: afinal, por que dar respostas desnecessárias para um amor que era tão inesquecível justamente por ser impossível? Seria, assim, como ver Francesca (Meryl Streep) saltando do carro em As Pontes de Madison para fugir com Robert (Eastwood). Ou, quem sabe, ver, em Encontros e Desencontros, um final alegre para Bob (Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansoon) nas ruas de Tóquio ao som da inesquecível Just Like Honey. Dessa forma, fui conferir Antes da Meia-Noite cheio de receios, esperando que toda aquela incompletude sentimental dos filmes anteriores fosse apagada por uma continuação açucarada que teria apenas como missão colorir os sonhos apaixonados do público que desejava um desfecho idealizado para os personagens de Hawke e Delpy.

Ledo engano. Richard Linklater, em parceria com os dois protagonistas, conseguiu construir uma história que, sim, de certa forma satisfaz o coração de quem desejava ver Jesse e Celine juntos, mas que também traz um certo desconforto para esse público ao mostrar que nem tudo na vida é um mar de rosas. A boa notícia é que essa continuação segue basicamente o mesmo perfil dos filmes anteriores. Isso quer dizer que as plateias impacientes com filmes inteiramente trabalhados em diálogos vão cair na monotonia. E também que o longa é uma experiência ainda mais especial para quem tem sensibilidade e, principalmente, uma história remotamente parecida com a de Jesse e Celine. Por isso, com a alegria e a tristeza de já ter passado por algo do tipo, acompanhei Antes da Meia-Noite com o mesmo afeto que cultivei pelos filmes anteriores. Agora com a diferença de que o agridoce não está no amor incompleto e  sim no relacionamento plenamente realizado que perdeu o seu encanto.

Não à toa o cenário é a Grécia, volta e meia mostrada com suas várias ruínas – e elas, dependendo do ponto de vista, podem ser uma metáfora para o casal protagonista daquilo que se perdeu… ou do que permaneceu. Essa é a verdadeira moral de Antes da Meia-Noite: parar, olhar para trás e fazer um balanço daquilo que se conquistou e daquilo que já se foi. Essa lista de perdas e ganhos é claramente mostrada pelo roteiro de Linklater, Hawke e Delpy, que dedica a sua primeira metade para a vida completa dos protagonistas em uma temporada de férias e outra ao eterno apego deles a uma imagem idealizada que há muito já deixou de existir. Sim, Jesse e Celine continuam falando sobre a vida, trocando algumas palavras e demonstrando carinho. Entretanto, também caíram na normalidade: tiveram filhos, encontraram empregos e, assim, construíram uma rotina como qualquer outra. Mas será mesmo que participar dessas etapas é cair na normalidade? Ou será que é apenas uma previsível consequência do fato de que eles não são mais jovens indestrutíveis que podem passar a vida viajando e se apaixonado pelas ruas de Viena e Paris? Envelhecer e assumir compromissos é necessariamente se fechar para o mundo? Ou querer viver eternamente de sonho em sonho é sinal de imaturidade?

Na verdade, não existem julgamentos ou respostas certas em Antes da Meia-Noite. O que o filme quer realmente mostrar é muito simples: nada dura para sempre. E não é porque uma história começou cheia de encantamento que ela vai brilhar até o último de seus dias. A vida não é assim. Principalmente quando você assume um relacionamento, por mais esperado que ele seja. O que fez a diferença nesse processo é saber a hora de se desapegar do passado e encarar a vida como ela é – o que está perfeitamente representado na cena em que uma senhora comenta que, mesmo já em uma nova vida, volta e meia se força a lembrar dos detalhes do rosto de um antigo amor que nunca mais voltará. Essa mensagem, bem como várias outras apresentadas nesse texto, são muito bem desenvolvidas por esse longa bastante sentimental que mostra dois protagonistas parados no tempo e que parecem viver o presente no piloto-automático, criando as filhas e cumprindo as formalidades do cotidiano. É reconfortante ver que, de vez em quando, algumas histórias de amor podem dar certo no sentido de duas pessoas colocarem em prática algo sonhado há anos. Mas também é necessário força para ver que, em determinado ponto, defeitos e insatisfações virão à tona sem qualquer concessão.

Desta forma, Antes da Meia-Noite sabe como envolver o espectador nessa ideia de que Jesse e Celine deram certo para, depois, fazer uma completa desconstrução desse sonho. Essa ruptura de quase-fábula dos dois acontece em um hotel da Grécia, onde o casal, inicialmente programado para ter uma bela noite de amor, acaba externalizando insatisfações e decepções em horas que se tornam, como o próprio Jesse diz, intermináveis – no mau sentido, claro. É nessa longa sequência do filme (que, assim como muitas outras, dura vários minutos) que Antes da Meia-Noite sai do clima dos longas anteriores para lembrar Namorados Para Sempre, de Derek Cianfrance, filme que também tem uma cena de hotel planejada para ser uma noite romântica mas que logo vira um jogo de franquezas. Portanto, cabe ao espectador decidir até que ponto se abalar com o fato de que os protagonistas passaram por traições, carências, silêncios e insatisfações sexuais e também qual o momento de finalmente aceitar esse novo retrato do casal. Até porque rejeitar essa nova etapa de Antes da Meia-Noite é ser tão negligente quanto Jesse e Celine, que ficam juntos pelas memórias daquele romance cheio de juventude que começou anos atrás na Áustria.

No mais, a estrutura idêntica (nesse longa, a única diferença é que os protagonistas interagem mais com outros personagens) não se mostra desgastada e a bela química de Ethan Hawke e Julie Delpy permanece intacta mesmo depois de quase 20 anos. São elementos que comprovam, junto com as análises suscitadas pelo roteiro, que Antes da Meia-Noite, primeiramente cercado de desconfianças, consegue se justificar perfeitamente e, acima de tudo, fazê-lo com maturidade e honestidade. Nunca seremos jovens para sempre e certas histórias têm seu tempo e espaço para acontecer. O desfecho da obra, positivo em um primeiro momento ao mostrar Celine cedendo para dar continuidade àquele relacionamento problemático mas agarrado à memórias bonitas demais para serem apagadas, logo também se mostra um tanto desesperançoso. Isso porque os dois continuam sem viver o presente e sem assumir o que eles de fato passaram a significar um para o outro. É duro aceitar, mas, talvez, alguns sonhos devessem ficar só na teoria. Seria mesmo verdade que só o amor não realizado pode ser romântico, como discursava Maria Elena (Penélope Cruz) em Vicky Cristina Barcelona?

FILME: 8.5

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3 comentários em “Antes da Meia-Noite

  1. Pingback: Antes da Meia-Noite | Correio do Tempo

  2. Kamila, obrigado! Relendo o texto agora, coloco-o entre um dos meus favoritos que já publiquei por aqui. Eu tinha muito medo desse “Antes da Meia-Noite”, já que não via razão para mostrar Jesse e Celine juntos. Para mim, os filmes anteriores eram belos porque mostravam um amor impossível. Mas o filme surpreendeu muito, com uma visão madura e honesta dos relacionamentos!

  3. Belíssimo texto, Matheus! Um dos seus melhores!!!! Parabéns!!! De tudo que eu tenho lido sobre “Antes da Meia-Noite”, me parece que Richard Linklater, mais uma vez, acertou muito no relato da história de Jesse e Celine. Eu, particularmente, gosto muito da história dos dois justamente por fugir dos rótulos idealizados que costumam marcar os amores da sétima arte. Eles sempre me pareceram representantes do amor real, do amor que todos estamos sujeitos a viver, com seu lado bom e ruim.

    Confesso que tinha expectativas em relação a esse filme, mas elas aumentam a cada novo texto que leio. Espero que a obra estreie logo na minha cidade.

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