Obsessão

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Direção: Lee Daniels

Roteiro: Lee Daniels e Pete Dexter, baseado no romance “The Paperboy”, de Pete Dexter

Elenco: Zac Efron, Nicole Kidman, Matthew McConaughey, Macy Gray, John Cusack, David Oyelowo, Scott Glenn, Nealla Gordon, Peter Murnik, Kevin Waterman, Danny Hanemann, Adam Sibley, Gary Clarke

The Paperboy, EUA, 2012, Drama, 107 minutos

Sinopse: Ward (Matthew McConaughey) é jornalista de um grande jornal e precisa retornar para sua pequena cidade para fazer a cobertura da prisão de Hillary Van Wetter (John Cusack), acusado e condenado à morte pelo assassinato do xerife local. Os problemas começam quando Jack (Zac Efron), seu irmão mais novo, começa a se envolver com Charlotte (Nicole Kidman), mulher misteriosa e mais velha, que mantinha contato com o prisioneiro. (Adoro Cinema)

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“Erotizado? É impossível evitar isso se tratando de Zac Efron. A câmera não resiste. E eu sou gay!”, defendeu o diretor Lee Daniels, em uma entrevista após a exibição de seu mais novo longa-metragem, Obsessão, no 65º Festival de Cannes. O diretor rebatia os comentários sobre a excessiva fetichização de Zac no filme em questão, onde o ator volta e meia transita descamisado ou apenas de cueca em cenas que não tinham muita relevância para a trama ou para a contextualização da época.  A justificativa de Lee Daniels para o fato da câmera não resistir ao corpo de Efron só é uma pequena prova da sua total incapacidade de saber discernir o que é fetiche pessoal e o que é dar personalidade a uma obra cinematográfica. E Zac em si é o menor dos problemas: em Obsessão, o diretor quer, a todo custo, mostrar que tem algum estilo. Com isso, ele se descontrola em cenas onde a erotização se confunde com o mau gosto e as rimas visuais só tornam o filme ainda mais sujo e bagunçado.

Já não é lá muito original contar uma trama a partir da narração de alguém relembrando o passado. Essa ferramenta raramente amplia a dramaticidade da história e é frequentemente mal conduzida, sendo esquecida ao longo do filme ou inconveniente ao verbalizar situações e sentimentos que ficariam melhores no silêncio ou na subjetividade. Obsessão é mais um caso onde a narração não serve para nada. E ela também não ajuda o espectador a descobrir sobre o que é o filme roteirizado por Lee Daniels e Pete Dexter (com base no livro homônimo do segundo). Quando começa, dá a impressão de ser sobre o dia-a-dia e as descobertas de um adolescente com hormônios em ebulição (Jack, vivido por Efron). Minutos depois, apresenta uma trama de investigação envolvendo um crime mal resolvido. Logo, preocupa-se mais em mostrar as loucuras da excêntrica Charlotte (Nicole Kidman). E, finalmente, no meio disso tudo, faz um rascunho do racismo na década de 1960, traz pitadas de dramas familiares e desenvolve a paixonite de Jack por Charlotte. Obsessão, porém, é ineficiente em todas as suas investidas. O roteiro atira para todos os lados e não acerta em nada, sendo sempre muito superficial e bagunçado.

Digamos que o roteiro pode até ter grande parcela de culpa nesse caráter inconstante e disléxico de Obsessão, mas nada se compara ao pavoroso trabalho de Lee Daniels como diretor. Se Tom Ford fez um belo trabalho ao homoerotizar Direito de Amar com elegância e sutileza, Daniels, em contrapartida, já se mostra completamente incapaz de fazer o mesmo – ou de ser, no mínimo, apenas previsível. O sexo é sempre sujo – em Preciosa – Uma História de Esperança fazia sentido, aqui não – e a história parece apenas um pretexto para que o diretor explore suas fantasias técnicas e sexuais. Pelo menos dois momentos marcam essas terríveis investidas de Daniels. Primeiro, a cena em que Nicole Kidman se masturba na frente de quatro homens para satisfazer o seu “namorado” que está preso e não pode ter qualquer contato físico com ela. Marca porque não é uma cena que apenas sugere: ela faz questão de mostrar pequenos detalhes sórdidos, como Matthew McConaughey, por exemplo, ajeitando a calça para esconder sua ereção. Segundo, a já famosa cena da praia, onde Zac Efron, após ser queimado por várias águas-vivas no mar, é milagrosamente salvo pela urina de Nicole Kidman que é colocada em contato com o seu corpo. O mais preocupante no segundo exemplo é como o momento não diz absolutamente nada: é um devaneio avulso do diretor.

Trazendo e retomando personagens quando bem entende sem qualquer preocupação com uma continuidade, Obsessão falha até em fazer o retrato de um local e de uma época. Como é a cidade onde o filme é passado? Qual o perfil da população? Quais são os hábitos daquela época? Como se dá a tão comentada profissão de jornalista? Mas se o filme não consegue nem se decidir sobre o que vai contar ao longo de toda a sua cansativa duração, como podemos exigir que ele faça um recorte como esse? Tão preocupado em desenvolver mais seus cacoetes do que uma história propriamente dita, o roteiro de Daniels e Dexter, muitas vezes, ainda chega a brincar com o bom senso do espectador: é particularmente absurdo o momento em que um personagem, após a salvar a vida de seu irmão que acabara de ser torturado (incluindo com um rosto mutilado), resolve transar, na cena seguinte, com a maior facilidade, alegria e excitação, anulando completamente o choque, as lágrimas e o trauma de segundos antes.

O que existe de melhor em Obsessão é, sem dúvida, a presença de Nicole Kidman. A atriz, que, possivelmente, nunca esteve tão linda no cinema, é o destaque do longa com a personagem que construiu, seja pelo visual estonteante, pelo discreto sotaque ou por todas as suas excentricidades. Mas arrisco a dizer que ela não vai além dessa composição curiosa, inclusive porque o filme não lhe dá muitas chances com uma personagem que oscila entre extremos de relevância e não tem tantas variações. Dentro das limitações, entretanto, ela se sai bem. Quanto ao resto do elenco: continuo colocando fé em Zac Efron, ator que ainda precisa provar ser mais que um rosto bonito, mas que já é melhor que um Robert Pattinson da vida; John Cusack, achando que estar descabelado é sinônimo de parecer louco, está exagerado e aparece pouco para conseguir fazer um trabalho melhor; e Matthew McConaughey tem um personagem tão bagunçado que nem dá para avaliar muito bem sua performance. Só que a culpa toda mesmo é de Lee Daniels, diretor que precisa urgentemente rever seus conceitos sobre como desenvolver uma trama – o que está bem resumido no desfecho de Obsessão: com o cafona barquinho que se distancia da câmera em um rio com a luz do pôr-do sol ao fundo, já nem sabemos mais o que foi encerrado… A não ser, claro, a nossa tortura de ver um filme tão perdido.

FILME: 3.0

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2 comentários em “Obsessão

  1. Adoro a Nicole Kidman e fiquei surpresa e feliz ao ver que o desempenho dela nesse filme foi muito bem recebido na última temporada de premiações. Com certeza, e o fato de gostar do longa anterior do Lee Daniels, me fazem ficar bem interessada em assistir a “Obsessão”. E também valorizo a tentativa de Zac Efron de fazer algo diferente e desafiador em sua carreira.

  2. Kamila, a Nicole está ótima e acho que o Zac Efron ainda trilhará os caminhos de um Leonardo DiCaprio da vida, mostrando que é mais que um rostinho bonito.

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