TOP 10: Bette Davis

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Talvez Bette Davis tenha sido atriz de um papel só. Mesmo quando não interpretava personagens inegavelmente maldosas, como a Regina Giddens, de Pérfida, ou a própria Baby Jane, de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, ela sempre tinha em seu currículo mulheres de temperamento forte e gênio difícil, marca que esteve presente até os últimos anos de sua carreira (lembro particularmente de Baleias de Agosto, onde Bette, já velhinha, interpretava uma senhora cega e mal humorada). Só que o mais impressionante é que ela nunca deixou a sensação de que estava se repetindo. Sempre inspirada e afiada, a atriz teve uma carreira repleta de personagens marcantes e filmes que, cada um ao seu modo, marcaram época. Bette deu adeus à vida em 1989, quando perdeu uma luta contra o câncer de mama. Fora as figuras icônicas que deixou para o cinema, a atriz, em seus últimos anos, ainda escolheu uma sucessora: Meryl Streep, para quem escreveu uma carta dando seu aval de admiração pela até então iniciante. Assim, não à toa, as duas melhores atrizes que o cinema já viu compartilham as mesmas qualidades: talento e humildade. Por isso, elencar as melhores interpretações de Bette Davis não foi uma tarefa fácil – em qualquer sentido. Torço para que a listagem abaixo faça um bom balanço do que foi a carreira dessa intérprete incomparável…

1. O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (1962): Já disseram que é um momento decadente de Bette Davis e que ela se perdeu em papeis excessivamente bizarros como esse no final de sua carreira. E não é que eu acho justamente o contrário? Sua Baby Jane é uma síntese extremada de todos os tipos que ela interpretou na vida. Divertidíssima com seu humor ácido e com uma figura completamente única, a atriz entrega aqui aquele desempenho que, junto ao de A Malvada, é o mais icônico de sua carreira. Claro que sua companheira de tela Joan Crowford tem uma personagem ingrata, mas é praticamente impossível concorrer com a Baby Janes de Davis. Simplesmente genial em todos os seus extremos.

2. A MALVADA (1950): Ao contrário do que o título indica, não é Bette Davis a tal malvada e tampouco a estrela absoluta desse filme de Joseph L. Mankiewicz. Ela divide o protagonismo com a ótima Anne Baxter, mas tem este que é um dos grandes momentos de sua filmografia. Como a estrela Margo Channing, Davis entrega aqui o papel que mais reproduz com sutilezas o seu tipo de mulher ácida e geniosa. Ao contrário de O Que Terá Acontecido a Baby Jane? – que seria realizado na década seguinte -, em A Malvada, a atriz aposta na na lógica de que menos é mais para criar uma personagem marcante. É uma interpretação irretocável e que felizmente é devidamente apreciada até os dias de hoje.

3. A CARTA (1940): Quando Leslie Crosbie arromba portas disparando várias vezes contra um homem logo na cena que abre A Carta, já podemos notar o quão marcante a protagonista será. Aqui, temos uma perfeita combinação entre um personagem muito bem desenvolvido (impossível não se envolver com as atitudes dissimuladas dela) e uma atuação cheia de grandes momentos de Davis. Com direito às clássicas lágrimas quando se atira em uma cama para lamentar alguma coisa, a atriz tem nesse filme uma de suas personagens mais intensas. E o show não é só dela: o filme de William Wyler também é surpreendente como a sua própria protagonista.

4. VITÓRIA AMARGA (1939): Bette Davis não teve qualquer chance contra Vivien Leigh e o furacão … E o Vento Levou no Oscar, mas que justiça seja feita e todos assistam ao belo trabalho da atriz em Vitória Amarga. Como uma mulher que descobre ter uma doença terminal (ela, pouco a pouco, vai perdendo a visão), Davis consegue, inclusive, estar tocante nesse ótimo filme que, fora a indicação para melhor atriz, foi merecidamente lembrado em várias outras categorias do Oscar. Mais do que isso, Vitória Amarga envolveu as plateias da época, tornando-se o maior sucesso de bilheteria da atriz até aquele ano.

5. VAIDOSA (1944): Quando jovem, Fanny tinha todos os homens aos seus pés. Gostava de aproveitar o que podia de cada um deles, sempre encantando-os com um jeito difícil. Mas logo ela trocava de flerte e dispensava qualquer pretendente com extrema facilidade. Só que o tempo passa e não é nada generoso com Fanny, que, em certo ponto, encontra-se sem muitas opções de matrimônio. Por isso, casa-se, justamente, com um homem que era apaixonado por ela antigamente e que, apesar dos pesares, sobreviveu a sua esnobação. Toda essa transição de Fanny é acompanhado com grande talento por Bette Davis, que não se repete ao longo do filme e que distingue com precisão as diferentes fases de uma mulher repleta de transformações.

6. UMA VIDA ROUBADA (1946): Poucos conhecem esse excelente filme, que tem uma história que viria a ser popularizada no Brasil com a novela Mulheres de Areia: a do conflito entre uma irmã gêmea má e outra boa. A atriz consegue tirar os dois papeis de letra, nunca levando qualquer uma das personagens a extremos. Como  a boa, não a inocenta demais. Como a má, nunca vulgariza a figura, deixando-a apenas como uma pessoa complicada. Por já conhecermos o enredo, os rumos são conhecidos, mas vale a pena apreciar o filme, que tem ótimos momentos e excelentes interpretações de Bette.

7. PÉRFIDA (1941): Regina Giddens é uma das “vilãs” mais marcantes da carreira de Bette Davis. Se o filme em si demora a compreender que é nessa personagem que reside o seu maior mérito (todas as outras figuras são bem desenvolvidas, mas não causam o mesmo encantamento), a atriz faz questão de aproveitar cada minuto que lhe é dedicado. A esposa gananciosa que não mede esforços para conseguir o que deseja financeiramente se destaca particularmente no final, com confrontos pra lá de marcantes (destaque para as cenas com a filha e o marido) e uma resolução totalmente coerente com o que plantou ao longo da história. Se fosse a estrela absoluta de Pérfida, certamente seria ainda mais marcante.

8. PERIGOSA (1935): Com esse filme, veio o primeiro Oscar de Bette Davis – após uma indicação por Escravos do Desejo. Por mais que o resultado não seja lá muito especial, é perfeitamente compreensível a celebração da atriz: aqui, temos aquele tipo de trabalho que já mostra toda a força de uma principiante que se revelava uma das grandes apostas da época. No longa de Alfred E. Green, ela é Joyce Heath, uma atriz com problemas alcoólicos que é colocada em reabilitação mas se mostra ainda mais perigosa nesse processo de “desintoxicação”. Falta algo mais forte no filme, só que Bette compensa tudo, pois já começava a construir o tipo de mulher difícil e geniosa que permearia toda a sua carreira.

9. LÁGRIMAS AMARGAS (1952): Foi um dos últimos papeis de Bette Davis indicado a premiações. E o filme é, de certa forma, uma previsão dos últimos dias da carreira da atriz, que, conforme muitos dizem, entregou-se a papeis estranhos e aparições bizarras. Em Lágrimas Amargas, ela é Margaret Elliot, atriz cuja popularidade e fortuna não estão bem das pernas. Toda ironia e senso de humor de Bette estão presentes nesse papel frequentemente óbvio, mas que dá as devidas chances para a atriz. Posteriormente, ela só viria a ser celebrada com O Que Terá Acontecido a Baby Jane?

10. JEZEBEL (1938): A primeira parceria com o diretor William Wyler já foi de ouro: por seu papel em Jezebel, Bette ganhou seu segundo Oscar (o primeiro, como já mencionado, foi por Perigosa). Porém, é um tanto incompreensível o entusiasmo: primeiro porque este está longe de ser um dos melhores momentos da atriz e segundo porque Jezebel é um longa que beira o monótono. A proposta, contudo, tinha seus atrativos: uma jovem egocêntrica da aristocracia local provoca o rompimento do seu noivado ao usar um vestido vermelho, em uma época em que as moças deviam usar branco. Apesar de seu antigo noivo se casar com outra mulher, ela continua amando-o. Ela tem a grande chance de lhe provar que realmente deixou de ser uma jovem mimada quando uma peste se abate sobre a cidade.

6 comentários em “TOP 10: Bette Davis

  1. Luiza, procure os filmes que listei. Modéstia a parte, acho que fiz um bom resumo dos melhores momentos da Bette =P

    Kamila, a Bette Davis é única!

    Elton, é isso mesmo: sempre as mesmas personagens, mas nunca a mesma interpretação!

    Elisa, como não amar? =)

  2. Aqui você resume tudo: “o mais impressionante é que ela nunca deixou a sensação de que estava se repetindo.”
    Sempre faz as mesmas personagens amarguradas, mas nunca faz as mesmas. Bette Davis é assombrosa mesmo. Particularmente, não me atrevo a ranquear suas atuações, mas qualquer top 10 com os melhores trabalhos dessa atriz é sempre do mais alto quilate. Sendo assim, ótima seleção, meu caro.

  3. São poucas as atrizes que podem ser dar ao luxo de ter um top 10 de atuações tão irretocáveis quanto esse que você destaca. Bette Davis era, sem dúvida, uma grande atriz. Uma das melhores que o cinema já viu. Ela foi uma das poucas que conseguiram interpretar tantas mulheres fortes no cinema e acho que isso era um reflexo da sua própria personalidade, que era muito expressiva.

  4. estava esperando por essa lista avidamente!! bóra ver os que me faltam, mas, como eu já havia deixado claro, baby jane é minha favorita, maravilhosa.

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