41º Festival de Cinema de Gramado: Os Amigos, de Lina Chamie

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Uma águia vive, em média, 70 anos. Quando chega aos 40, renova o bico e as asas, preparando-se, de certa forma, para viver os 30 anos restantes. Isso se aplica ao protagonista de Os Amigos que, como bem explica um personagem coadjuvante, pode estar muito bem entrando nessa mesma fase. O tal sujeito em transformação é Theo (Marco Ricca), arquiteto que que parece estar chegando aos 40 anos da águia. Essa transição de sua vida fica mais evidente no dia em que ele precisa, pela manhã, ir ao velório de um amigo de infância – o que vai lhe trazer muitas reflexões e lembranças ao longo dessas próximas horas cinzentas e chuvosas. Lembrando uma conhecida proposta que já vimos em longas como As HorasOs Amigos narra, assim, um único dia na vida de um homem. E, nesse dia, toda a sua vida.

Para começo de conversa, já se deve salientar que o novo trabalho da diretora Lina Chamie (que dirigiu filmes como A Via Láctea, selecionado para a Semana da Crítica do Festival de Cannes, em 2007) nunca abraça por completo um determinado perfil. Não tão complexo quanto deveria ser mas também nada necessariamente superficial para classificar como esquecível, Os Amigos opta frequentemente por inventividades (como as crianças encenando a mitologia de Ulisses no teatro) para logo depois se apoiar em dramas mais convencionais. Em certos casos, alcançar um meio termo é saudável, mas, aqui, essa história em cima do muro deixa o filme sempre no quase.

Muito em função de suas variações de intensidade, Os Amigos não só perde a chance de ser marcante como também de ser um belo estudo sobre as amizades como a família que escolhemos. Mas o filme tem sua sensibilidade – e não reconhecê-la é no mínimo uma injustiça com o perceptível carinho com que a diretora realizou essa obra. Tem sensibilidade especialmente porque é fácil gostar do protagonista, consequência direta do ótimo desempenho de Marco Ricca, um ator que não chega a trazer entusiasmo mas que nesse filme tem uma bela chance. É difícil lembrar outro momento seu em que esteve tão bem, conseguindo misturar com naturalidade a humanidade, a melancolia e o pessimismo de um protagonista.

Ricca tem suas chances porque Os Amigos se revela um filme mais sobre seu personagem do que sobre as amizades que ele estabelece. É sobre suas angústias, questionamentos e frustrações. O elenco de suporte ainda é um destaque, mais pelos rostos conhecidos do que necessariamente por chances particulares. Com exceção de Dira Paes (que é sempre bem-vinda e tem sua importância no enredo), outros aparecem apenas para dar o ar da graça, como Sandra Corveloni, Alice Braga e Caio Blat. Todos esses personagens estão em uma São Paulo exatamente como ela é: trânsito caótico, constante movimento, arquiteturas grandiosas… E ainda uma certa dose de isolamento no meio de tanto fluxo.

Se fosse um estudo específico de seu protagonista, Os Amigos ganharia mais. O que acontece é que vários elementos elementos esporádicos não chegam a acrescentar muito para a trama apesar das tentativas, com destaque para aqueles que envolvem o elenco infantil. A encenação da odisseia de Ulisses em um teatro e outros diálogos com os atores mirins são um tanto inconvincentes porque é difícil acreditar que pessoas tão novas possam fazer comparações e metáforas adultas. Ainda em relação as crianças, uma cena em particular perde a chance de ter sua devida dose de emoção em função da insistência em mostrar o protagonista se vendo criança: aquela em que Theo reencontra o amigo no reflexo do espelho, dizendo que sente muito a sua falta.

Os Amigos é, enfim, uma história que tem seus momentos (as reflexões e os questionamentos desse homem solitário em uma grande metrópole nunca soam forçados) e que conta com um ótimo protagonista, mas faltou uma pegada, uma decisão de escolher ser totalmente complexo ou definitivamente mais leve. Esse impasse não liquida os méritos de Os Amigos e muito menos impede o filme de ter o seu público. No entanto, para todos os efeitos, o título indicava algo diferente… Talvez mais saudosista e nostálgico? No que vimos, tivemos apenas um bom retrato de um homem de meia-idade em busca de si mesmo.

FILME: 7.5

3*

* Filme conferido no 41º Festival de Cinema de Gramado

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