41º Festival de Cinema de Gramado: Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, de Domingos Oliveira

primeirodia

Primeiro Dia de Um Ano Qualquer é um filme de amigos. Rodado na casa da própria protagonista Maitê Proença durante um veraneio, o novo longa de Domingos Oliveira tem um clima muito praiano e de férias mesmo. O entrosamento do elenco está ali, bem como a notável diversão, estampada no rosto de cada um deles. Porém, é de se lamentar que tal alegria de se fazer um filme se restrinja apenas a quem está do outro lado da tela. Não que Primeiro Dia de Um Ano Qualquer não tenha sua parcela de graça para as plateias, só que a equipe do filme parece ter se divertido muito mais do que nós espectadores. Isso porque, como cinema, o resultado parece um amontoado de pretensões do diretor Domingos, que deseja contar uma história misturando elementos das filmografias de Woody Allen e Robert Altman.

Sou da filosofia de que, se for para ver uma mera cópia, é mais proveitoso rever as obras originais. Foi essa sensação que tive com Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, que, sim, falha nas tentativas de ser Altman ou Allen. Como o primeiro, Domingos Oliveira resolveu colocar centenas de personagens em um mesmo ambiente durante um determinado período. Não existe necessariamente um líder e todos são, de alguma forma, parte de um mosaico. Mas falta vigor, pois, em tempos que a própria TV nos mostra como administrar tantos personagens em cena (Downton Abbey é uma verdadeira aula nesse sentido), o diretor não consegue o mesmo êxito, seja por não conseguir tornar todos suficientemente atraentes para o espectador em termos de drama/comédia ou por dar atenção a figuras que simplesmente não fariam falta alguma caso não existissem – o que acontece exatamente com a participação de Clarice Falcão, visivelmente deslocada no conjunto.

Já as referências ao mundo de Woody Allen são mais escancaradas. E todas desnecessariamente concentradas na figura do próprio Domingos Oliveira – responsável não apenas por dirigir e roteirizar a obra, mas também por integrar o elenco e ser o narrador da história. Como o velhinho coadjuvante que faz piadas irônicas o tempo inteiro e que também reflete sobre as figuras em sua volta, ele faz de tudo para reproduzir o que Woody Allen realiza com maestria. Cópia mais do que perceptível e, com todo respeito, desnecessária: Domingos chega aos 76 anos enfrentando problemas de locomoção e fala, o que faz com quem sua dicção prejudique muito a narração e o desenvolvimento do personagem. Porém, não dá para negar: quem não tem tais referências de Allen certamente irá se divertir, muito em função de Primeiro Dia de Um Ano Qualquer ter força popular – o que ainda se reflete em várias outras escolhas, como a pequena e bem humorada participação de Ney Matogrosso (que chega perto de se auto-interpretar, cantando até mesmo em um videokê!).

A ideia de mostrar a vida de uma família no primeiro dia de um ano como indica o título é boa (recortes são, em tese, muito mais interessantes do que histórias de uma existência inteira), mas não se sente de fato uma cronologia. O número de personagens sufoca essa condição e o tempo não é sentido – o que faria toda a diferença para as transformações de cada um dos personagens. Falta também uma maior força nos pequenos dramas, já que todos, de uma maneira ou outra, são aliviados com doses de comédia. Por faltar certo frescor, Primeiro Dia de Um Ano Qualquer é, em suma, uma mera reciclagem. Inofensiva, é verdade, mas, para os que conhecem todas as “inspirações” trabalhadas por seu diretor e roteirista, a experiência não deixará qualquer lembrança especial.

FILME: 6.0

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