Blue Jasmine

There’s only so many traumas a person can withstand until they take to the streets and start screaming.

jasmineposter

Direção: Woody Allen Roteiro: Woody Allen

Elenco: Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin, Louis C.K., Andrew Dice Clay, Kathy Tong, Max Rutherford, Daniel Jenks, Annie McNamara, Tammy Blanchard, Charlie Tahan, Joy Carlin, Richard Conti

EUA, 2013, Drama, 98 minutos

Sinopse: Uma mulher rica (Cate Blanchett) perde todo seu dinheiro e é obrigada a morar em São Francisco com sua irmã (Sally Hawkins), em uma casa muito mais modesta. Ela acaba encontrando um homem na Bay Area que pode resolver seus problemas financeiros, mas antes ela precisa descobrir quem ela é, e precisa aceitar que São Francisco será sua nova casa. (Adoro Cinema)

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Jasmine (Cate Blanchett) perdeu toda a fortuna que desfrutava quando era casada com Hal (Alec Baldwin). Agora, morando com a irmã, tenta, a todo custo, se reencontrar na vida. E ela se enche de esperança quando conhece um sujeito que pode lhe oferecer todo o alto padrão de vida que um dia teve. No primeiro encontro, ela dá o seu número de telefone ao tal homem, que promete contatá-la. No dia seguinte, Jasmine passa o dia esperando ansiosamente a ligação. O telefone toca e o sujeito marca um novo encontro. O que poderia se esperar era que, ao desligar o telefone, Jasmine começasse a pular e a vibrar com sua conquista. Não. Ela começa a chorar. E, nesse momento, Blue Jasmine sintetiza praticamente tudo sobre sua protagonista: ela é uma mulher que já não consegue nem sentir a alegria das pequenas coisas da vida. Chora aliviada por não acreditar que alguém promissor ainda possa se interessar por ela. Um alento, enfim, para uma vida que, como descobrimos ao longo do filme, também puniu constantemente essa mulher que procurou sua história de fracasso.

Já escapa à memória a última vez que Woody Allen criou uma personagem tão difícil como Jasmine. Mesmo as figuras neuróticas criadas por ele sempre foram tratadas com certo humor, amortecendo suas difíceis personalidades. Mas, pela primeira vez em anos, Allen apresenta uma figura essencialmente detestável, sem concessões. E o que poderia ser um problema termina não sendo, já que Blue Jasmine só ganha pontos com as dificuldades de sua protagonista. Curioso mesmo é como o diretor cria um impasse, nunca a vilanizando por completo: a personagem de Cate Blanchett procurou boa parte das coisas ruins que aconteceram com ela, mas o filme também mostra como o azar influenciou a sua vida. Se logo, no entanto, ficamos com certa pena das situações que aparecem no caminho de Jasmine, em seguida retiramos nosso amparo quando ela, por exemplo, destrata a bondosa irmã ou despreza os detalhes de todos a sua volta. Pobre, sozinha e amargurada, mas ainda assim orgulhosa e com um infundado sentimento de superioridade.

Mais pessimista e racional do que o habitual para os padrões de Woody Allen, Blue Jasmine é, desta forma, o filme mais pesado do diretor em anos. A comédia aparece uma vez  ou outra, mas está longe de ser o foco aqui. E é admirável como tanto Allen quanto Cate Blanchett assumem por completo esse posicionamento. Principalmente ela, que nunca facilita para que o espectador tenha qualquer simpatia pela figura que representa. Cate, por sinal, finalmente ganha, depois de anos, uma chance à altura de seu talento. Ela não brilhava desde Não Estou Lá, de 2007, e aqui tem uma chance de ouro: já favorita para conquistar seu segundo Oscar (o primeiro foi uma preguiçosa lembrança por seu desempenho coadjuvante no sonolento O Aviador), ela destila todo o veneno de sua personagem sem cair em caricaturas ou estereótipos – o que seria muito fácil, visto que sua Jasmine é uma dondoca que está sempre com um copo na mão. Cate, portanto, desafia o espectador, mesmo que esteja constantemente com os olhos marejados e evidenciando um ser humano em pleno desespero interior. Um belo trabalho, sem dúvida, que ainda ganha um ótimo contraponto com a presença da iluminada Sally Hawkins como a benevolente Ginger.

Ao contrário do que pode ser apontado, existe sim humanização em Blue Jasmine. Não estamos diante de um desenvolvimento unidimensional, especialmente porque Woody Allen não condena a protagonista como a total responsável por suas ruínas. Ela também apanhou da vida e pagou um preço alto por sua quase assumida negligência perante muitas situações. O que de certa forma incomoda é que Blue Jasmine termina sendo um filme racional demais, quase sem emoções. É mais um estudo interessantíssimo de uma personagem do que propriamente uma história cativante ou de acontecimentos. Os flashbacks funcionam, Cate Blanchett e Sally Hawkins brilham e Jasmine surge como uma das mais intrigantes figuras criadas pelo diretor em anos, mas a negatividade de Allen – misturado com pequenas doses de humor que só ressaltam a mediocridade da vida – deixam Blue Jasmine com um tom bastante pesado e clínico. De todo jeito, depois da reciclagem que foi Para Roma, Com Amor, é bom ver o diretor realizando algo bem diferente do que vimos em sua filmografia nos últimos anos – e talvez aí esteja a razão para todo esse estranhamento com a punição e o pessimismo da vida de Jasmine. Mas o melhor mesmo é vê-lo dando uma grande chance a uma atriz que há anos precisava oxigenar a carreira com um grande desempenho. Nesse sentido, missão cumprida com louvores.

FILME: 8.0

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10 comentários em “Blue Jasmine

  1. Pingback: Ponto Crítico – Nov/13 | Cine Resenhas

  2. Pingback: Blog de Ouro 2014: Melhor Atriz

  3. Ricardo, o Woody Allen sempre lança um filme verdadeiramente relevante de anos em anos. “Blue Jasmine” é, na minha opinião, o que vem depois de “Meia-Noite em Paris”.

    Luiza, Oscar para a Cate Blanchett! (já que aquele por “O Aviador” nem considero)

    Kamila, também acho que, por enquanto, ela é a favorita absoluta e solitária ao prêmio de melhor atriz…

    Mark, a Cate merece mais trabalhos como esse, né?

    Stella, ela é a grande estrela do filme, mas gostei também do desempenho da Sally Hawkins!

    Tommy, acho que esse é mais um filme de quase unanimidade do Woody Allen, né?

    Robson, ainda não conferi “Crimes e Pecados”. Vou corrigir essa minha gafe logo!

  4. Nossa… sai do cinema encantado e intrigado, ao mesmo tempo. Realmente vi em Blue Jasmine um toque de Crimes e Pecados, algo que há tempos que não observava em sua filmografia. E cate deu um show a parte, como você mesmo falou, recebeu um papel à sua altura. Gostei bastante!

  5. Gostei bastante de Blue Jasmine. Minha humilde resenha está no Cinema é Magia. Aproveito para convidar a todos para a primeira fase da votação de Melhores do Ano:

    http://cinemagia.wordpress.com/

    Um abração

    Tommy – Cinema é Magia

  6. Cate Blanchett brilha mesmo no filme, poucas vezes se vê uma encarnação tão completa numa personagem. Dei uma nota dez para “Blue Jasmine” e espero que Cate leve seu merecido Oscar para casa. Ótima postagem, Matheus!

  7. Adorei esse filme e adorei sua critica, muito bem escrita, falou tudo o que eu gostaria de ler. A personagem é muito mais marcante que o filme, porém já que o Woody deu esse trabalho merecido a essa grande atriz, a gente só tem que agradecer! Espero que ela tenha muitos papeis a altura, porque merece.

  8. “Blue Jasmine” entrou em cartaz (MILAGRE!!!!) na minha cidade, mas ainda não conferi ainda. Me parece que o grande destaque do filme é Cate Blanchett, que muitos apontam como favorita absoluta e solitária ao Oscar 2014 de Melhor Atriz.

  9. Matheus, a parte que mais me chamou atencao no teu texto foi que as risadas só destacam a mediocridade da vida. Foi isso o que me deixou sentindo um grande soco no estomago no fim do filme. Tu passa o filme inteiro dando risada de cenas de grande desgraça humana (aquela que ela babysit os meninos!) e, no depois, nao sabe nem como lidar com o fim! Eu juro fiquei uns 10 minutos sentada na cadeira, tentanto processar.
    roteiro genial, clap clap woody.
    ps: nem vou comentar o quao maravilhosa ela estava e esse filme só me fez odiar mais a bullock em Gravidade, só pelo fato que ela pode competir com a Cate.

  10. Dos filmes mais recentes de Woody Allen, fora “Meia-Noite em Paris”, é o que mais me despertou curiosidade e esse tom de seriedade que tu comentou, Matheus. Vou conferir em breve. Abraço

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