CLOSE 2013: Mostra Competitiva II

Fernanda Montenegro está na mostra competitiva do CLOSE 2013 com o curta A Dama do Estácio

Fernanda Montenegro está na mostra competitiva com o curta A Dama do Estácio

As expectativas foram atendidas e essa segunda parte da mostra competitiva do CLOSE 2013 manteve o nível da primeira, com curtas de temáticas e estilos bastante variados – alguns até polêmicos e outros com grandes atrizes (caso de A Dama do Estácio, com Fernanda Montenegro). Confira o que rolou hoje nessa programação, que incluiu dois documentários e três ficções:

FILME PARA POETA CEGO, de Gustavo Vinagre: É um dos curtas mais polêmicos desta mostra pela grande miscelânea de temas difíceis que se concentram na figura de seu protagonista, o poeta Glauco Mattoso. Cego, gay, masoquista e podólatra, ele abre sua vida sem qualquer receio para o diretor Gustavo Vinagre, que documenta tudo desprovido de preconceitos e ainda experimenta um pouco (vamos preservar maiores surpresas) da vida do personagem que retrata. E aí está a benção e a maldição de Filme Para Poeta Cego: ao mesmo tempo em que sua coragem de mostrar os fetiches de Mattoso é um dos pontos altos do curta, não são todos que vão entrar na história e comprar a difícil proposta do documentário. Claro que cinema varia de pessoa para pessoa, mas certos filmes parecem feitos para causar divisões. Esse, ao meu ver, é um deles.

A DAMA DO ESTÁCIO, de Eduardo Ades: Este curta é uma homenagem ao longa A Falecida, de Leon Hirszman, que trazia uma mulher obcecada pela ideia da morte e ansiosa para ter um enterro de luxo. A mesma premissa é basicamente seguida por A Dama do Estácio, também com Fernanda Montenegro, agora vivendo uma prostituta que está com a ideia fixa de que vai morrer e que deseja comprar logo seu caixão. O problema é que, fora a sempre gratificante presença dessa atriz singular, o curta nunca deixa devidamente clara a sua premissa. Os planos longos (e sem razões para tal), o resto do elenco fora de tom (incluindo Nelson Xavier) e a falta de força de momentos intimistas mostram que, se Fernanda Montenegro tem seus momentos, é por ela mesma, e não pelas chances de A Dama do Estácio, um dos curtas mais decepcionantes da mostra competitiva deste ano.

LINDA, UMA HISTÓRIA HORRÍVEL, de Bruno Gularte Barreto: O título pouco diz sobre o clima melancólico do curta. “Me deu uma saudade de tudo”, diz o protagonista, quando chega de surpresa para visitar a mãe durante a madrugada. E é exatamente sobre isso que Linda, Uma História Horrível fala: saudades, arrependimentos, distâncias… Fernando (Rafael Régoli) tenta se aproximar da mãe (Sandra Dani), mas uma barreira entre os dois (obviamente o fato do filho ser homossexual) impede que maiores conexões se estabeleçam. Ele quer falar, mas ela não quer ouvir, em um relato que é fiel a essa condição tão corriqueira para filhos gays. Em apenas uma conversa, milhões de assuntos abordados com a devida sobriedade e pesar. Ainda que não seja revolucionário em termos de estrutura ou conteúdo, Linda, Uma História Horrível, baseado em conto homônimo de Caio Fernando Abreu, é de uma sinceridade admirável. Simplesmente a vida como ela é. Precisa pedir mais?

O OLHO E O ZAROLHO, de René Guerra e Juliana Vicente: O diretor René Guerra está duplamente presente no CLOSE 2013: primeiro na mostra paralela com Quem Tem Medo de Cris Negão? e, agora, na mostra competitiva com O Olho e o Zarolho, onde compartilha o trabalho de direção com Juliana Vicente. Aqui, ele mostra o cotidiano de duas mulheres que, juntas, criam um filho que já frequenta a escola. Tudo está aparentemente bem, até que uma delas começa a se preocupar com o fato de os desenhos do pequeno serem todos pretos, sem qualquer cor. Essa preocupação desencadeará várias outras, onde a protagonista chegará a questionar se cumpre bem ou não o papel de mãe. Com uma pequena participação da sempre ótima Léa Garcia, O Olho e o Zarolho tem seu foco maior nessa dinâmica familiar e menos em questões envolvendo a sexualidade das mães – o que é sempre uma boa escolha. Com isso, o curta só ganha em contemporaneidade e originalidade.

GAROTAS DA MODA, de Tuca Siqueira: Poderia ser apenas um mero documentário sobre um grupo de cinco travestis e transsexuais, mas Garotas da Moda tem uma circunstância que dá um leve diferencial a esse curta de Tuca Siqueira: a geografia. As garotas do título não estão na cidade grande e sim em Goiana, cidade distante 62 km de Recife, onde, segundo elas, tudo é atrasado – até mesmo o novo cd da Beyoncé, que só chega depois do novo álbum do Belo. É atípico porque elas marcam seu território em uma cidade que, devido ao seu tamanha, tem o dobro de fofocas e preconceitos de uma capital. As garotas têm uma clientela para as suas costuras, são estrelas da parada gay de Goiana e, dadas as limitações de alguns receios, procuram se integrar como qualquer outra pessoa. Como relato, não existe nada de novo, mas as personagens chamam a atenção e conquistam com grande simpatia – o que, para um documentário, é sempre um ponto a favor.

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