Azul é a Cor Mais Quente

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Direção: Abdellatif Kechiche

Roteiro: Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, baseado na HQ “Le Bleu est Une Couleur Chaude”

Elenco: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Salim Kechiouche, Benjamin Siksou, Mona Walravens, Alma Jodorowsky, Jérémie Laheurte, Catherine Salée, Sandor Funtek, Anne Loiret, Benoît Pilot, Samir Bella, Maelys Cabezon

La Vie d’Adèle, França/Bélgica/Espanha, 2013, Drama, 179 minutos

Sinopse: Adèle (Adèle Exarchopoulos) é uma garota de 15 anos que descobre, na cor azul dos cabelos de Emma (Léa Seydoux), sua primeira paixão por outra mulher. Sem poder revelar a ninguém seus desejos, ela se entrega por completo a este amor secreto, enquanto trava uma guerra com sua família e com a moral vigente. (Adoro Cinema)

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Azul é a Cor Mais Quente fez história no Festival de Cannes: pela primeira vez, a Palma de Ouro – prêmio máximo concebido pelo evento -, foi oficialmente destinada a outras pessoas além do diretor. No caso, o júri presidido por Steven Spielberg entregou a distinção também às atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. Uma exceção justa e coerente para este filme cujos maiores méritos se concentram exatamente nessas três figuras que compreenderam plenamente a preciosidade de uma história extremamente fiel à vida, com suas dores e alegrias. Ao longo de três horas, o diretor Abdellatif Kechiche faz justamente isso: conduz as duas atrizes por momentos totalmente de acordo com a realidade, extraindo ainda momentos singulares de cada uma delas.

O título original, A Vida de Adèle (em uma tradução literal), apesar de genérico, diz muito mais sobre o filme. Isso porque Azul é a Cor Mais Quente acompanha diversos momentos da vida de Adèle (Exarchopoulos), da sua juventude heterossexual no colégio a sua vivência como uma professora adulta que cultiva um relacionamento com uma mulher. No meio disso tudo, as pequenas e grandes descobertas, o primeiro amor, a auto-aceitação, a construção de uma vida a dois, os erros e os acertos… É, literalmente, a vida de Adèle, contada inteiramente  a partir do ponto de vista da protagonista. Desta forma, a ambiciosa duração – que é sentida mas nunca um empecilho – se revela completamente condizente com a proposta do diretor: ela é essencial para que cada momento tenha a profundidade e o impacto necessários, como se vivêssemos tudo aquilo pela primeira vez junto com Adèle.

Ou seja, Azul é a Cor Mais Quente não se utiliza de quase três horas de duração somente para narrar o maior número de fatos possíveis, mas sim para dar a devida emoção e verossimilhança a eles. Isso nos leva às tais “polêmicas” cenas de sexo, que só são chamadas assim por aqueles que não compreendem que toda a nudez e a longa duração de cada uma delas vai ao encontro dessa proposta do diretor de fazer com que o espectador acompanhe tudo com a mesma dose de surpresa e novidade que a protagonista. E esse compromisso com a vida real também se reflete, claro, no trabalho das duas atrizes, em especial no da extraordinária Adèle Exarchopoulos, a grande revelação do ano. No cinema desde 2007, quando debutou em Boxes, ao lado de Geraldine Chaplin, Adèle alcança aqui uma merecida visibilidade. É limitado resumir sua atuação à grande entrega física com Léa Seydoux, já que sua precisa interpretação acompanha todas as fases da personagem sem qualquer hesitação. É, enfim, um nome para acompanhar.

A sensação que se tem ao final de Azul é a Cor Mais Quente é que passamos por um turbilhão de acontecimentos, mas a verdade é que a intensidade que sentimos é muito mais em função da imersão proporcionada pelo roteiro de Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, baseado na HQ Le Bleu est Une Couleur Chaude. Por estarmos tão próximos de Adèle, sentimos cada uma de suas dúvidas e angústias. O que também merece ser ressaltado é que o longa está muito longe de qualquer pretensão. Em Azul é a Cor Mais Quente não existe uma insistência em metáforas ou uma vontade de trazer grandes complexidades a cada uma das situações propostas por Kechiche. E isso é muito positivo, pois, desta forma, o filme se torna muito mais natural e sem constantes rimas visuais ou de roteiro – ao contrário do que o título brasileiro implica no nosso inconsciente: a vontade de procurar azul em todas as cenas e dar significados a isso.

Favorito para ganhar todos os prêmios de filme estrangeiro da temporada (menos o Oscar, já que não foi lançado nas salas francesas no prazo exigido pela Academia para torná-lo elegível na categoria de melhor filme estrangeiro), Azul é a Cor Mais Quente se revela ainda mais sincero até mesmo nas suas curiosidades extra-filme: no set, por exemplo, Adèle e Léa não tinham maquiadoras ou cabeleireiras, apresentando-se frente às câmeras com aquilo que elas realmente são fisicamente. São esses detalhes valiosos que estabelecem o longa de Kechiche como um dos relatos mais coerentes com a vida que vimos nos últimos anos. É provável que se estenda desnecessariamente no final (a história poderia ter acabado perfeitamente na cena da cafeteria, sem a sequência da exposição), mas é pouco perto de um filme que lida muito bem com a questão da homossexualidade e das angústias e expectativas humanas. Crescer acontece mais rápido do que a gente imagina, diz Emma (Seydoux) em certo ponto. Adèle aprenderá isso. E nós, se ainda não chegamos a esse estágio, teremos esse mesmo aprendizado com a sua jornada.

FILME: 8.5

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14 comentários em “Azul é a Cor Mais Quente

  1. O q grande obra de arte esse filme vi a vida de uma amiga sendo contada …Realidade brutal ..É realment oq acontece
    espero q tenha a continuação ,eu mesma sinto me sastifeita pena q nem todos sabem q existe…eu mesma so vi esse ano .Estou louca pra ver a continuação mas n cinema .

  2. Simplesmente perfeito o filme é claro que elas se amam, mas devido a traição houve essa separação. E em relação a polêmica entre as atrizes e o diretor, acredito que foi jogada de marketing, porque querendo ou não deu mais visibilidade ao filme. Li em alguma matéria por ai que o diretor pensa em ter sim uma continuação. Agora vamos esperar….. Gostaria muito que se passasse alguns anos e a Adele fazendo sucesso como escritora e a Emma com os quadros dela, se reencontrassem e o amor ressurgir entre elas. Mas enfim não sabemos o que se passa na cabeça do diretor né

    • Para assistir gratīs e www azul e a cor mais quente / i Love filmes online.

  3. Tem que ter continuação, quero que Adéle fique com Emma, melhor filme que já assisti até hoje!!!

  4. Gosto muito dos teus comentários. Nem vou tentar baixar os filmes da lista dos piores de 2013….
    Percebeste que o título brasileiro foi fundo e teve por base a inspiração para o roteiro? Le Bleu est Une Couleur Chaude.

  5. Kamila, acho que esse é o típico caso em que um filme não precisou de Oscar para ganhar sua visibilidade. Assim como “Amor”, neste ano, ele se revelou muito maior que premiações (com exceção de Cannes, claro, que, mais uma vez, acertou em cheio!).

    Stef, concordo!

    Júlia, eu também torço, mas acho que “Azul é a Cor Mais Quente” já se basta.

    Simone, exatamente. Um ótimo roteiro!

  6. O filme foi perfeito, e adorei a profissão da Adéle, pois é isto mesmo que acontece, no dia seguinte o profissional de educação tem que estar ali, firme e forte, sorrindo com paciência, só podendo chorar quando se vê sozinha novamente. A ingenuidade e o amor singelo são também atrativos desta personagem, de apaixonar-se. Parabéns pelo roteiro! S.S.S.

  7. Precisa ter uma continuação. Torço fervorosamente pelo amor de Emma e Adèle :c

    • Compartilho com o seu pensamento…
      Também torço pela continuação e pela reencontro de Adèle e Emma. Porém, o diretor do filme terá dificuldades para reunir as atrizes, devido às polêmicas… E, tendo em vista o desinteresse dele em retratar um “happy end” para o casal, não há como esperar uma continuidade com reconciliação entre Emma e Adèle.
      Azul pode ter ganhado muitos sentidos, ao longo do filme… Mas perdurou o sentido que sempre teve… Azul fundou sendo profundamente triste!

  8. Uma pena que “Azul é a cor mais quente” não terá a chance de ser consagrado pelo Oscar, uma vez que não foi selecionado para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro, mas acho que isso não é algo ruim. Tenho a impressão de que o filme já conquistou seu lugar, já teve o seu reconhecimento. Vamos torcer para ele, no Brasil, ter a distribuição que merece. Quero muito conferir “Azul é a cor mais quente”. Parabéns pelo excelente texto!

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