O Mordomo da Casa Branca

Darkness cannot drive out darkness. Only light can do that.

butlerposter

Direção: Lee Daniels

Roteiro: Danny Strong, baseado no artigo “A Butler Well Served by This Election”, de Wil Haygood

Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, John Cusack, Jane Fonda, Cuba Gooding Jr., Terrence Howard, Lenny Kravitz, James Marsden, Vanessa Redgrave, Alan Rickman, Liev Schreiber, Robin Williams, David Oyelowo

Lee Daniels’ The Butler, EUA, 2013, Drama, 132 minutos

Sinopse: 1926, Macon, Estados Unidos. O jovem Cecil Gaines vê seu pai ser morto sem piedade por Thomas Westfall (Alex Pettyfer), após estuprar a mãe do garoto. Percebendo o desespero do jovem e a gravidade do ato do filho, Annabeth Westfall (Vanessa Redgrave) decide transformá-lo em um criado de casa, ensinando-lhe boas maneiras e como servir os convidados. Cecil (Forest Whitaker) cresce e passa a trabalhar em um hotel ao deixar a fazenda onde cresceu. Sua vida dá uma grande guinada quando tem a oportunidade de trabalhar na Casa Branca, servindo o presidente do país, políticos e convidados que vão ao local. Entretanto, as exigências do trabalho causam problemas com Gloria (Oprah Winfrey), a esposa de Cecil, e também com seu filho Louis (David Oyelowo), que não aceita a passividade do pai diante dos maus tratos recebidos pelos negros nos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

O diretor Lee Daniels conseguiu enganar meio mundo quando estourou com Preciosa – Uma História de Esperança. E me incluo no grupo dos enganados, já que, ainda hoje, tenho boas lembranças do filme estrelado por Gabourey Sidibe. Depois de Preciosa, no entanto, Daniels se mostrou irremediavelmente ruim. Aqui no Brasil, por exemplo, ele chegou aos cinemas com dois longas bastante insatisfatórios em 2013. O primeiro foi Obsessão, que se perdia em diversos fetiches de seu realizador e narrava mil histórias ao mesmo tempo sem se aprofundar em nada. O segundo foi esse O Mordomo da Casa Branca, que, mesmo tendo razões de sobra para justificar plenamente seu sucesso de 116 milhões de dólares nas bilheterias estadunidenses, é mais um trabalho falho do diretor, com um roteiro muito mal estruturado, enorme desperdício de elenco e uma história apoiada nos mais ultrapassados esquemas utilizados em biografias.

O Mordomo da Casa Branca era para ser, em teoria, o relato da vida de Cecil Gaines (Forest Whitaker), personagem inspirado na história real de Eugene Allen, mordomo negro que serviu diversos presidentes na Casa Branca entre 1952 e 1986. Porém, o roteiro escrito por Danny Strong, baseado no artigo A Butler Well Served by This Election, de Wil Haygood, inexplicavelmente abandona os dramas do protagonista quase em tempo integral para colocar a luta dos negros contra o racismo no século XX como norte da trama. O resultado é um filme extremamente irregular em sua narrativa, já que o texto ora oscila entre os rasos questionamentos de Gaines e o excessivo foco documental nos fatos politico-sociais do espaço e tempo recortados pelo roteiro. E ver um texto tão mal desenvolvido com a assinatura de Danny Strong é especialmente decepcionante, pois ele já foi responsável por exemplares roteiros políticos e biográficos para a TV, sendo Virada no Jogo, da HBO, seu exemplar mais recente nesse sentido.

Se a parte envolvendo a luta dos negros até tem seu valor histórico – o que reforça a ideia de que O Mordomo da Casa Branca seria mais relevante como documentário -, os momentos envolvendo a vida pessoal do protagonista desapontam profundamente. Começamos pela essência de Cecil Gaines, que por si só já praticamente anula as chances do filme de ter algum conflito: ele é um homem íntegro, batalhador e vencedor, que não faz mal a ninguém e que sempre foi vítima das circunstâncias injustas da vida. Nesse sentido, a escalada desse homem quase sem defeitos de garoto escravo em fazendas de algodão a homem de confiança da Casa Branca não é sentida, pois em menos de meia hora Cecil percorreu toda sua trajetória e já chegou no ponto em que conquista todas as pessoas e a atenção de presidentes. A presença de sua esposa, vivida por Oprah Winfrey (desde 1998, com Bem-Amada, ela não atuava em um filme), também não diz muita coisa, já que Gloria é, assim como seu marido, basicamente unidimensional – e a investida do roteiro em citar uma possível traição dela com o amigo vivido por Terrence Howard é jogada na trama com muito descaso.   

Com tudo isso, O Mordomo da Casa Branca perde seu ritmo por completo. São mais de duas horas aborrecidas onde a maior diversão é procurar os milhares de rostos conhecidos que integram o elenco. E a missão é longa, já que poucas vezes nos últimos vimos um elenco tão extenso e eclético em um mesmo filme. Só que a péssima notícia é que a brincadeira termina mesmo nesse “Onde está Wally?”, pois nenhum dos atores faz sequer algo especial. Não é culpa deles: o roteiro simplesmente não dá espaço para que veteranos como Alan Rickman, Jane Fonda e Vanessa Redgrave explorem qualquer dimensão em seus papeis. São apenas nomes em um cartaz para atrair público. Já Whitaker e Winfrey, protagonistas da história, não passam do velho samba de uma nota só. Ele, no piloto-automático, prova que seu Oscar por O Último Rei da Escócia foi justo sim, pois lá ele fazia muito bem um papel completamente atípico para sua carreira: forte, misterioso e perigoso – e não indefeso e inocente, quase abobado, como costuma representar. Oprah também não se impõe na tela, seja por sua interpretação ou pelo material que lhe é dado. E percebam que até mesmo nos momentos dramáticos a câmera foca abruptamente em seu rosto já encharcado de lágrimas, sem sequer acompanhar a origem e a evolução dos choros.

Se existe um consolo em O Mordomo da Casa Branca é que ele termina como o filme menos afetado de toda a carreira de Lee Daniels. Aliás, talvez o diretor nunca tenha sido tão quadrado e domesticado. Essa deve ter sido a principal razão para o filme ter sido um verdadeiro sucesso de bilheteria lá fora. Os estadunidenses adoram uma história esquemática, biográfica e, acima de tudo, patriótica. Até porque O Mordomo da Casa Branca faz de tudo para mostrar como o país “venceu” o racismo, chegando a mostrar inclusive a era Barack Obama. E Lee Daniels não poupa esforços para melodramatizar esse momento, com direito até ao protagonista já envelhecido e cheio de maquiagem se emocionando com essa eleição que significa tanto para seus semelhantes após anos de injustiça. Dessa forma, é mais um longa que, assim como Histórias Cruzadas, mostra as barbaridades sociais sofridas pelos negros, mas que também faz questão de forçar todo o drama possível para indicar que, apesar dos erros, os Estados Unidos e seu povo “consertam” os erros. E como questionar esse sucesso financeiro se a história ainda é encabeçada por uma espécia de Forrest Gump negro que acompanha diversos fatos históricos do país? Mas falta Tom Hanks. E Roberts Zemeckis. Aliás, faltam muitas coisas. Quem sabe na próxima vez, Lee Daniels…

FILME: 5.0

2*

2 comentários em “O Mordomo da Casa Branca

  1. Concordo com vc Matheus,assisti ao filme e tive a impressao que ele começa tao bem e quando o protagonista vira mordomo muda o contexto total do roteiro introduzindo a historias dos negros diferenciados nos EUA e sua injustiças , nao que isso seja ruim para um roteiro bem feito e que tivesse começado nesse ponto, deu até sonolença com o decorrer do filme,e as atuaçoes caricatas demais ,filme decepcionante do ano. abços

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