Ninfomaníaca – Volume 2

I think this was one of your weakest digressions.

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Direção: Lars Von Trier

Roteiro: Lars Von Trier

Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Jamie Bell, Shia LaBeouf, Willem Dafoe, Stacy Martin, Mia Goth, Michael Pas, Jean-Marc Barr, Ananya Berg, Peter Gilbert Cotton, Connie Nielsen

Nymphomaniac: Volume 2, Dinamarca/Bélgica/França/Alemanha/Inglaterra, 2013, Drama, 123 minutos

Sinopse: Segunda parte das aventuras sexuais de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher de 50 anos que decide contar a um homem mais velho (Stellan Skarsgard) sua história pessoal. (Adoro Cinema)

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As expectativas em torno de Ninfomaníaca – Volume 2 eram grandes. Só que por razões bem diferentes se comparadas ao primeiro volume, que despertava curiosidade em relação ao que Lars Von Trier aprontaria em um projeto que rendeu tanta publicidade antes mesmo de estrear. A segunda parte da história de Joe (Charlotte Gainsbourg) reservava grandes expectativas simplesmente porque o filme anterior não tinha um ciclo próprio e era impossível analisá-lo sem a continuação, que seria responsável por elucidar várias questões e situações apresentadas pelo diretor. A má notícia é que, no sentido de dar respostas e carimbar uma força psicológica e emocional para Ninfomaníaca como um todo, o segundo filme falha fortemente ao não nos entregar tudo aquilo que Von Trier prometeu. Se era para ter as respostas apresentadas na continuação, era melhor, então, que a saga da protagonista tivesse – e retomamos essa discussão – sido contada em um único longa. Assim, as expectativas diminuiriam e a decepção não seria tão grande.

O problema de Ninfomaníaca – Volume 2 começa já na apresentação da própria protagonista. Parece que estamos diante de uma nova história, sobre outra pessoa. Não dá para acreditar muito que em três anos a jovem Stacy Martin vire Charlotte Gainsbourg enquanto Shia LaBeouf continua em cena com o mesmo rosto. A transição é rápida, logo no início do filme, o que nos impede de processar devidamente o fato de que aquela garota que nós acompanhamos durante duas horas anteriormente agora seja essa adulta triste e em pleno desespero interior. A premissa é bastante clara: hoje, entorpecida e sem prazer pelos excessos de uma adolescência visceralmente sexual, ela é uma mulher vazia e de infinitas angústias. Mas que grande novidade existe nisso, uma vez que tal abordagem já era perceptível logo no primeiro longa?

Só que, se Lars Von Trier quer parecer mais complexo do que de fato é ao continuar colocando o didático Seligman (Stellan Skarsgård) como o sujeito que faz comparações justamente para mostrar como supostamente tudo é mais inteligente do que parece, o diretor, por outro lado, acerta ao criar uma atmosfera emocional bastante sufocante. Joe hoje é triste, vazia, incompleta, viciada e descontrolada – mas o mais fascinante: ciente disso, e que essa é uma natureza que não pode ser mudada. Ela é assim e ponto. Assumiu. Não procura desculpas. Talvez seja por isso que Ninfomaníaca – Volume 2 acerte tanto na hora de imprimir dias tão desesperançosos para a sua protagonista. E os extremos em que Joe chega nessa segunda parte depois que abraça essa natureza imutável se tornam realmente incômodos.

Desta forma, a história mexe em feridas mais do que antes. Antes, o “pesado” da história era todo relacionado ao sexo franco e sem censuras. Agora, o visual choca menos e o que sufoca é o que se passa dentro da protagonista. Alie a isso o fato de que agora ela chega ao nível da violência e do masoquismo para tentar encontrar desesperadamente algum tipo de prazer – ou alguma reação parecida com o prazer, que hoje já lhe é desconhecido – e você terá um filme forte na violência e no sexo que mostra, mas que é ainda mais impactante nas entrelinhas de tudo isso. E até a metade esse clima de uma personagem em plena degradação e desesperança funciona extremamente bem, trazendo os devidos momentos para Charlotte Gainsbourg (a cena em que ela não sabe se fica em casa para cuidar do filho ou se sai para mais uma de suas sessões de masoquismo é uma das melhores).

Tudo desanda, entretanto, quando Willem Dafoe entra na história, minando não só a conclusão individual desse longa como todo o ciclo de quase cinco horas de Ninfomaníaca. O personagem de Dafoe traz uma storyline completamente sem inspiração e desinteressante, tornando a personagem até menos envolvente. A partir daí, a relação que Joe estabelece com outros personagens não convence e o diretor realmente coloca tudo a perder. Em todo o caminho até esse final, existem brincadeiras óbvias mas interessantes (a referência a Anticristo), algumas cenas realmente marcantes e devidamente polêmicas (tudo o que envolve a sequência sobre pedofilia) e questionamentos bastante pertinentes (como aquele que coloca na mesa um assunto tão em voga nos dias de hoje: como seria o julgamento dessa história caso ela fosse protagonizada por um homem?).

Porém, o que se sucede nos muitos finais é tão mal colocado e irregular que nem parece ter sido escrito por Von Trier. Principalmente a cena derradeira, que é apressada e inacreditável de tão ruim. Os créditos sobem e fica aquele estranhamento “sério que acabou?”. Alguns diretores criam expectativas para seus filmes porque sempre realizam obras tão boas que elevam o padrão e é inevitável não esperar algo grande deles. Só que Von Trier, dessa vez, comprova que tem tudo para entrar no grupo dos que criam expectativas por motivos capengas – seja por uma divulgação exagerada ou por temáticas apelativas. Queria muito que Ninfomaníaca desse certo – e o primeiro volume acusava que o diretor tinha mesmo errado a mão no trabalho publicitário mas acertado no cinematográfico. Até a segunda parte terminar com um resultado que coloca tudo por água abaixo. Pena que uma história que merecia ter um final grandioso para casar com tantas ousadias e despudores mostrados até então não chegou nem perto de apresentar o que precisava para tal. Von Trier tem capacidade para muito mais do que mostrou nessa conclusão.

4 comentários em “Ninfomaníaca – Volume 2

  1. Realmente ele trocou de atriz no momento errado, ficou estranho, ainda mais tendo em vista que manteve o Shia LaBeouf. Também não curti o personagem do Willem Dafoe. O filme tem seus altos e baixos, mas pra mim o saldo é positivo.

  2. Meu pai sempre disse que é muito mais fácil destruir as coisas do que construir e ainda assim há quem valorize aqueles que destroem. Me apropriando da ideia do meu pai de forma análoga aplicada a “Ninfomaníaca”, entendo que é muito mais fácil causar repulsa do que ternura, é mais simples mostrar bizarrices do que a verdadeira beleza do ser humano, é mais fácil provocar escuridão do que luz. No entanto, não há dúvida que sempre haverá quem ache esse tipo de obra algo genial. Sempre existirão aqueles, que ainda que subconscientemente, se sentem infelizes e não se satisfariam com a ideia de alguém realmente pode ser feliz de verdade. Sendo assim sempre existirá espaço para os Von Trier da vida fazerem qualquer lixo e serem aplaudidos, contanto que não existam heróis nem mocinhos na história e que todos acabem mal no fim da película. Eu sou fan do ser humano e prefiro ver ressaltadas suas virtudes sobrepondo-se a seus defeitos, porque foi para isso que nascemos. O mundo tem dois lados, ambos verdadeiros, cada um escolhe por que angulo quer enxergar.

  3. Hugo, juntando o volume 1 com o volume 2, eu até agosto de “Ninfomaníaca” como um todo. Mas a conclusão dessa segunda parte é que estraga tudo…

    Osnir, eu entendo o teu ponto de vista, mas o Lars Von Trier sempre foi conhecido por ter uma visão mutio negativa da humanidade… E, em muitos dos casos, ele não deixa de ter razão.

    • Hugo, obrigado por entender que quem não tem a mesma opinião que você não é seu inimigo. Por mais ridículo que pareça, tem gente que roga praga para todo minha família só porque eu não gostei desse filme. No caso de “Ninfomaníaca”, não tenho nada contra Von Trier, Só acho que ele fez ESSE filme dando mais importância à polêmica que poderia causar do que à
      história em si. Muita coisa foi colocada ali com a única função de chamar atenção, sem acrescentar em nada para a trama.

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