Na TV… Getting On, a melhor série que ninguém vê

gettingon

Só foi de uns meses para cá que a HBO começou a retomar o seu status de emissora referência em criação de programas originais e inovadores. Tudo bem que Game of Thrones já tem um longo reinado e uma legião de fãs, mas a emissora esteve longe de repetir recentemente a era de ouro que um dia alcançou com Six Feet UnderA Família Soprano, por exemplo. Sua reputação em telefilmes permaneceu intacta, mas a HBO perdeu feio em várias batalhas com outros canais, como o AMC, responsável por dois dos programas mais celebrados da década (Mad MenBreaking Bad) e um grande sucesso de audiência (The Walking Dead).

Entretanto, ao que tudo indica, o jogo parece estar mudando. True Detective, a primeira grande estreia da HBO em 2014, estrelada por Matthew McCounaghey e Woody Harrelson, já reposicionou o canal no boca a boca com público e crítica. Mas a verdade é que, no final de 2013, ele já havia voltado a brilhar com uma série bastante pequena e discreta que atesta exatamente toda a ousadia de proposta e narrativa que fez a HBO se diferenciar no mercado com o inesquecível slogan “Não é TV. É HBO”. O programa em questão é Getting On, criado pelo trio Jo Brand, Vicki Pepperdine, Joanna Scanlan, que adapta uma série homônima do Reino Unido.

A premissa é basicamente esta: o dia a dia de médicos e enfermeiros que trabalham na ala geriátrica de um hospital. Mas não se engane: não existe nada aqui de Grey’s AnatomyHouse ou outros programas hospitalares. Até porque Getting On não se apoia no formato “um caso por episódio”. Os pacientes são um mero detalhe de um riquíssimo estudo de personalidade dos médicos e enfermeiros, todos complexos e muito bem explorados por um roteiro que equilibra com maestria a delicadeza de uma história permeadas por pacientes que estão na última fase de suas vidas e a ousadia de um humor bastante ácido mas nunca ofensivo.

Tudo é ambientado dentro da tal ala do hospital, sem que acompanhemos qualquer cena envolvendo a vida dos personagens fora do ambiente de trabalho. Não é necessário: somente pelo convívio com situações que os colocam de frente com à brevidade da vida, passamos a compreender todas as questões íntimas e profissionais de cada um deles. Questões bastante delicadas como a homossexualidade no ambiente de trabalho, as frustrações profissionais de uma médica que julga ser muito melhor do que seus superiores lhe indicam e a solidão pessoal camuflada por uma dedicação extrema ao ofício são plenamente radiografadas pelo contexto proposto pela série. Dramas, no entanto, que nunca são pesados e que casam certeiramente com o humor presente em diversas formas.

Ao todo, são seis episódios de 30 minutos de uma primeira temporada que se divide muito bem entre os inúmeros personagens (pelo menos três podem ser considerados protagonistas da história) e que nunca deixa qualquer um de escanteio. Também há espaço para várias participações especiais (até a recente indicada ao Oscar 2014 June Squibb dá o ar da graça) e, claro, situações que ganham sutileza extra graças a um elenco excepcional. Alex Borstein e Niecy Nash esbanjam naturalidade e carisma como as principais enfermeiras, mas Laurie Metcalf é quem fica com a missão mais difícil de Getting On, já que tem em mãos personagem mais suscetível a abordagens erradas. Mas, como a médica “rebaixada” e estranha na ala, ela nunca cai na caricatura ou na antipatia, tornando-se, inclusive, a figura mais interessante da série.

Já renovada para uma segunda temporada, Getting On é a melhor série da atualidade que ninguém vê. Ou pior: que ninguém conhece. Sem previsão de estreia no Brasil, o programa também não fez muito barulho lá fora, mesmo conseguindo uma renovação. É um caso que precisa ser urgentemente corrigido: em uma época em que as comédias estão cada vez mais defasadas e repetitivas (alguém ainda aguenta Modern FamilyThe Big Bang Theory ganhando prêmios mundo afora por suas repetições?), seria bom ver algo inventivo e tão cheio de detalhes inteligentes como Getting On ganhando algum tipo de repercussão. Que essa pequena grande série, que tem uma impressionante média de qualidade em seus episódios, receba um carinho à altura de seu brilhantismo.

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