Na TV… uma aula chamada The Good Wife

Episódios como Hitting the Fan provam o porquê de The Good Wife ser uma das melhores séries em exibição mesmo depois de cinco anos

Episódios como Hitting the Fan provam o porquê de The Good Wife ser uma das melhores séries em exibição mesmo depois de cinco anos no ar

“Não se deixe enganar pelo nome”, dizia o cartaz da quarta temporada de The Good Wife, fazendo alusão ao próprio título da série, que aponta a trajetória de Alicia Florrick (Juliana Margulies) como a esposa perfeita que não se permite errar ou sequer explodir em lágrimas nos momentos de tristeza. Mas se em anos anteriores ela já tinha começado a desconstruir a imagem da mulher que muitas vezes abdica de seus sentimentos e escolhas para manter as aparências e agradar os outros, agora, na quinta temporada, que terminou no último domingo (18), ela finalmente saiu de trás das cortinas e chegou ao palco – e o melhor de tudo: o fez na temporada mais fabulosa deste programa que, mais do que nunca, alcança seu auge como um verdadeiro modelo a ser seguido pelas séries de TV aberta.

Agora Alicia Florrick traça os seus próprios rumos profissionais sem depender da ajuda de outros. Também xinga o marido Peter (Chris Noth) como bem entende. Assume suas traições – sejam elas pessoais ou profissionais -, e diz não se arrepender de nenhuma delas. Se em um primeiro momento tais transformações sugerem um tom meio repentino, basta observar toda a trajetória da série para perceber que a virada da personagem era mais do que necessária e esperada. Chegou a vez de Alicia brilhar e fazer a sua própria vida – mesmo que, em muitos casos, ela tenha que sofrer mais do que esperava e rever muitos de seus conceitos há anos enraizados. A trajetória de Alicia, por sinal, é acompanhada com maestria por Julianna Margulies, que, a cada episódio, reforça ser uma atriz que tem domínio completo das facetas da personagem que interpreta.

Na quinta temporada, Christine Baranski teve os seus melhores momentos como Diane Lockhart em toda a série

Como Diane Lockhart, a ótima Christine Baranski teve, na quinta temporada, os seus melhores momentos em toda a série

Mas antes a quinta temporada de The Good Wife fosse exclusivamente sobre Alicia Florrick. É muito mais do que isso. Neste ano, a série deu maior espaço para outros personagens, em especial Will Gardner (Josh Charles) e Diane Lockhart (Christine Baranski), que, devido a eventos decisivos no episódio Hitting the Fan (o melhor e mais eletrizante já feito pela série), passam a ter uma importância singular na trama. Repleta de embates que afloram o talento do elenco e de reviravoltas bastante corajosas para um programa que ainda não tem seu desfecho confirmado, a quinta temporada de The Good Wife continua a desenvolver o talento da série de lidar com múltiplos personagens. Se Kalinda Sharma (Archie Panjabi) perdeu o mistério e o encantamento que cultivou em anos anteriores, os atores convidados continuam a roubar a cena – em especial Michael J. Fox, perfeito como o insuportável Louis Canning.

A excelência da série, contudo, não está necessariamente em aspectos isolados como o grande momento da elegante Christine Baranski na história (e é uma pena que ela tenha que concorrer na temporada de premiações com a imbatível Anna Gunn, por Breaking Bad), a forma como os roteiristas sabem lidar cada vez mais com o humor, a dor imensurável que a história traz para a protagonista após uma tragédia, a constante evolução inventiva da trilha sonora de David Buckley ou a desenvoltura mais fluente dos diretores (raccords sonoros e movimentos de câmera nunca chamaram tanta atenção no programa). O que encanta no quinto ano de The Good Wife é justamente o conjunto de todos os episódios da temporada e, principalmente, a sinergia deles com tudo o que já foi realizado no programa em mais de 100 capítulos.

Alicia Florrick (Julianna Margulies) nunca foi tão autêntica, mas tampouco teve que lidar com tantas dificuldades ao longo trama como no quinto ano

Alicia Florrick (Julianna Margulies) nunca foi tão autêntica como no quinto ano, mas tampouco teve que lidar com tantas dificuldades ao longo da trama

É extremamente comum que um programa de mais de 20 episódios por temporada se perca após os seus primeiros anos. Especialmente quando eles são tão longos (mais de 40 minutos) e estruturados a partir da lógica de um caso por episódio. Não é o que acontece com The Good Wife. A série criada por Michelle e Robert King nunca perde o fôlego, sempre reforçando a lógica de que, quando não tem acontecimentos para necessariamente movimentar a trama, precisa pelo menos desenvolver seus personagens e plantar dicas para o que está por vir. É um belíssimo exemplo de planejamento e maturidade, onde personagens não somem e aparecem sem explicações e situações são retomadas apenas por falta de assunto. Tudo em The Good Wife tem um propósito.

O resultado da temporada é precioso por todas essas razões e porque a série faz parte da TV aberta. Se já é difícil um programa tão longo chegar em sua quinta temporada sem tropeços, o que dizer, então, de um programa que consegue fazer isso ciente de que sua audiência é infinitamente maior, que seu canal depende de anunciantes e que sua concepção não deve ser tão erudita ou complexa para não afastar o público mais convencional? Mas The Good Wife venceu e provou que é possível fazer tudo isso com grande dinamismo e a devida inteligência. Se Breaking Bad, há pouco tempo, deu a aula suprema de como construir a trajetória perfeita de um drama para os moldes da TV por assinatura, The Good Wife repete o feito de ser uma aula – e talvez com ainda mais méritos por ser tão refém de dinheiro, estatísticas e audiência na TV aberta.

4 comentários em “Na TV… uma aula chamada The Good Wife

  1. Só assisti ao primeiros cinco episódios de “The Good Wife” durante uma reprise na época de sua estreia. Não tive tempo para acompanhar a resto da temporada, mas até aonde eu conferi, posso atestar que é realmente uma bela série. E a Julianna Margulies mereceu aquele Emmy, sem mais.

  2. Kamila, e acompanhar regularmente a série aumenta ainda mais essa sensação!

    Clóvis, não sei se na época ela mereceu o Emmy (se eu não me engano era o ano que Glenn Close disputava pelo segundo ano de “Damages”), mas a Margulies é muito boa sim, e só melhorou com o passar das temporadas.

  3. Só senti que a Kalinda poderia ter sido mais desenvolvida nessa temporada. Sinto que ela vive meio travada há algumas temporadas.
    Mas, o desenvolvimento da Diane é o melhor de todos.
    Quanto ao Emmy, fico em dúvida porque a Glenn Close esteve sempre imbatível em Damages, na minha singela opinião.
    Tô só pelo que virá agora com TGW e ansioso! :x

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