38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #2: “Foxcatcher” e “Infância”

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Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo, de Bennett Miller

Com Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo (esta vai ser a primeira e a última vez que citarei este subtítulo brasileiro horroroso), o diretor Bennett Miller volta ao que sabe fazer de melhor. Depois de O Homem Que Mudou o Jogo, um filme que me parece, de certa forma, um desvio temático de sua carreira, Miller retoma o estilo que lhe consagrou com o ótimo Capote. Tanto o filme que impulsionou de vez a carreira de Philip Seymour Hoffman quanto Foxcatcher são sobre homicídios reais, mas obras infinitamente mais preocupadas em esmiuçar as conexões psicológicas que desencadeiam ou sucedem tais crimes. Para quem está embarcando no universo de Miller pela primeira vez, vale o aviso: o ritmo é pausado e bastante sóbrio, sendo o assassinato em questão apenas um detalhe – e não algo a ser esperado ou adivinhado.

Toda esta fórmula diferente e imersiva se repete em Foxcatcher. Protagonizado por Channing Tatum e Steve Carell, o longa acompanha os meses em que o lutador profissional Mark Schultz (Tatum) entrega sua carreira ao rico treinador John Du Pont (Carell). O que de início era apenas uma parceria profissional aos poucos se torna uma relação dependente, invasiva e, como a própria sinopse já anuncia, responsável por eventuais tragédias. Esta dinâmica tão suscetível a tons mais elevados é conduzida com plena sobriedade por Miller que, mesmo nos mínimos detalhes, age discretamente para envolver o espectador, como no espetacular uso da trilha sonora de Rob Simonsen. Isto não anula, entretanto, a tensão que existe no ar: sempre algo parece prestes a explodir – o que é mérito justamente do diretor de nunca pesar a mão nas cenas. O descontrole e os erros dos personagens não são projetáveis, e é aí que reside o suspense intrínseco de Foxcatcher.

Dentro das lutas olímpicas, os personagens medem forças e controle – inclusive o próprio Du Pont de Carell, que chega a entrar em uma competição para tentar provar algo para sua mãe (Vanessa Redgrave, em uma ponta de luxo) -, mas a verdadeira queda de braço está fora dos ringues. Disfarçada e praticamente silenciosa, mas está lá. Ciente disso, Miller concentra pouco de seu filme nas lutas e, quando as encena, coloca toda sua verdadeira ação nos olhos de quem está de fora ou de quem está dentro do ringue tentando comunicar algo para quem observa. Não é um filme de esporte, portanto, o que se revela um grande acerto também do roteiro escrito pela dupla E. Max Frye e Dan Futterman.

Praticamente irreconhecível como Du Pont, Carell consegue se esquivar de qualquer efeito colateral de sua marcante carreira cômica no cinema e na TV. Ele está realmente submerso neste personagem imprevisível e de poucas palavras, onde a maquiagem, aliada ao excelente trabalho corporal do ator, constrói uma figura impossível de ser lida. Ponto para a angústia. Bem escalados também estão os outros atores, em especial – e por incrível que pareça – Channing Tatum. Normalmente inexpressivo, o ator aqui, além da aptidão física que atende com naturalidade as exigências do papel, consegue direcionar com segurança seu personagem calado e eventualmente impulsivo, mas sem nunca transformá-lo em um tolo brutamonte. Desde já cotado para o próximo Oscar, Foxcatcher é um legítimo Bennett Miller (vale lembrar que o diretor chegou a ganhar prêmio em Cannes de direção por seu trabalho aqui) e, caso realmente chegue nas premiações, será uma conquista das mais merecidas da temporada.

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Infância, de Domingos Oliveira

Já não é novidade para ninguém que Domingos Oliveira há anos não realiza um filme realmente relevante. Hoje, o veterano parece cada vez mais apegado a uma fórmula e a antigos maneirismos. Era quase desesperançoso o último filme dele: Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, reciclagem realizada na casa de sua amiga Maitê Proença. Por isso, quando surgiu a notícia de Infância, as atenções eram todas voltadas para Fernanda Montenegro vivendo a matriarca desta história sobre uma nobre família carioca nos anos 1950. Existem pelo menos duas boas notícias: Fernanda, claro, atende todas as expectativas e o filme em si até que chega a ser inspirado para o padrão quase preguiçoso estabelecido por Domingos em seus últimos trabalhos.

O início não é lá muito atraente, pois o diretor continua querendo aparecer demais, com a insistência em narrar seus filmes (o que, com todo respeito, é incômodo, já que Domingos, com a idade, não está com a melhor das dicções) e em sempre dar um jeito de estar em cena. Mas aqui não é tão grave e o diretor está particularmente inspirado no trabalho com os atores. Se Fernanda não deve precisar de maiores orientações, grande parte dos atores se mostra bem conduzida por seu Domingos.

Eles dão o tom para toda a bem humorada comédia de Infância, estruturada pelo roteiro como um clássico relato familiar comum a todos nós. Aqui, encontramos a matriarca que acha que tem o direito de se intrometer na vida de todos, a filha que sempre quer agradá-la, o genro um tanto trambiqueiro e a criança prodígia. Não deixam de ser figuras estereotipadas, mas Domingos sabe administrá-las com leveza e descontração – o que faz toda a diferença para que os atores se sintam à vontade em cena. O resultado é percebido, pois Infância tem na dinâmica de seus intérpretes um de seus pontos mais interessantes.

Para quem não gosta de filmes com veia teatral, é bom, portanto, não ir com muitas expectativas. Não tenho maiores restrições ao estilo (quando não é extremado, claro, como no destrambelhado Deus da Carnificina), mas os leigos devem se preparar para uma longa cena na mesa de jantar e várias outras centradas exclusivamente no texto e nas atuações. Muitas vezes, Infância, por não querer desenvolver muito além do mero relato cotidiano de uma família, soa sem assunto e repetitivo, mas é difícil se importar com isso quando a grande Fernanda Montenegro ganha um destaque à altura e nos lembra – mais uma vez – o porquê de ser merecidamente considerada a melhor atriz do Brasil.

3 comentários em “38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #2: “Foxcatcher” e “Infância”

  1. Matheus, para mim, que saía da meninice na década de 60, “Infância” foi um mergulho no passado. Minha avó paterna lembrava D. Mocinha, como fã apaixonada pelo Carlos Lacerda. Além do desempenho de Fernanda, amei a casa, os ambientes e as roupas. Apenas lamento que o menino principal tenha pouco carisma. Já nem lembro do seu rosto… No geral, foi mais um filme brasileiro que me encantou. Sabe se vai ser lançado em DVD?

  2. Stella, o filme é bem nostálgico mesmo, acho que esse é um dos grandes pontos positivos do trabalho do Domingos! Quanto ao lançamento, até onde sei, não tem previsão…

  3. Pingback: Magic Mike XXL |

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