Cahiers du Cinéma e as anatomias de Meryl Streep – parte 1

cahmerylEla pode até não ser a sua atriz favorita ou muito menos a que você acha merecedora de centralizar praticamente todos os papeis para mulheres acima de 60 anos, mas há de concordar que não existe uma intérprete que ostente uma carreira tão bem sucedida como a de Meryl Streep atualmente – ou, talvez, em toda a história do cinema. Enquanto Bette Davis morreu na casa dos 80 anos fazendo papeis de mulheres decadentes, exageradas e que eram versões quase ridiculamente extremadas dos papeis difíceis que marcaram sua carreira, Meryl chega aos 65 anos prestes a conquistar a marca histórica de 19 indicações ao Oscar com o musical Caminhos da Floresta. Sim. 65 anos. Em um musical. Toda a vitoriosa carreira da atriz foi analisada pela renomada publicação Cahiers du Cinéma em 2014, em um livro com mais de 150 páginas que elenca os dez melhores desempenhos da atriz. Ela foi a primeira mulher escolhida para ter sua carreira dissertada pela Cahiers, que, entre os homens, já falou sobre nomes como Marlon Brando, Al Pacino Robert De Niro e Jack Nicholson. A versão da série Anatomy of an Actor para Meryl Streep, assim como as outras edições, não foi lançada em português, o que me fez chegar a essa postagem especial (dividida em duas partes) que pretende sintetizar as análises e curiosidades apresentadas pela jornalista e crítica de cinema estadunidense Karina Longworth na publicação. Neste post, fiquem com as cinco primeiras escolhas da Cahiers para as melhores atuações de Meryl.

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1978 – Linda (O Franco Atirador)

“Linda foge totalmente dos meus instintos. Eu gosto de batalhar. Então esse papel foi muito difícil para mim. Queria tirá-la dessa camisa-de-força que ela se encontra, mas é claro que eu não podia deixar essa possibilidade aparecer”

Não é um dos meus desempenhos favoritos de Meryl, mas obviamente está na lista da Cahiers du Cinéma porque O Franco Atirador marcou a primeira indicação ao Oscar da atriz e foi um verdadeiro salto em sua carreira. Rodado em 1977, o longa de Michael Cimino traz Meryl como Linda, a esposa de Michael, interpretado por Robert De Niro, que, após se casar, tem que esperar o marido voltar da guerra do Vietnã. A escolha de Meryl para interpretar esse filme foi puramente pessoal: nele, seu namorado de longa data John Cazale estava atuando como Stan. O problema é que Cazale estava lutando contra um câncer, o que fez Meryl aceitar participar do filme para estar ainda mais perto dele.

A atriz vivia uma fase prolífera na Broadway, em início de carreira, e tinha relutância em interpretar Linda, que, segundo ela, tinha tudo para ser mais uma das tantas personagens jovens, loiras e frágeis do cinema norte-americano. E, como descobriríamos ao longo de sua carreira, justamente o tipo de papel que Meryl sempre tentaria fugir a todo custo. O empenho por Cazale recompensou: a atriz se projetou para o mundo e chegou a sua primeira indicação ao Oscar (acompanhando o êxito do próprio filme, vencedor do prêmio principal da Academia). Mas o seu primeiro grande papel viria logo em seguida, trazendo a complexidade que Meryl tanto queria em um papel e os prêmios que viria a merecer incontestavelmente.

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1979 – Joanna Kramer (Kramer vs. Kramer)

“Em 1979, ninguém falava sobre depressão. Mas eu conseguia entender o impulso dela em ir embora para melhorar e não querer levar o filho. Eu não acho que Joanna era uma mulher horrível. Eu estava no lado dela”

A celebração de O Franco Atirador e a primeira indicação ao Oscar movimentaram a vida de Meryl Streep. Porém, o momento era duro: seu namorado John Cazale não resistiu ao câncer e acabara de falecer. Para tentar superar a perda, Meryl se atirou de vez ao trabalho, passando por uma peça de teatro ao lado de Alan Alda, uma pequena participação em Manhattan, de Woody Allen, e a conquista de um de seus papeis mais marcantes: Joanna, em Kramer vs. Kramer.

Em uma primeira reunião com o diretor Robert Benton e Dustin Hoffman, Meryl apontou que, no livro, Joanna era extremamente unidimensional e que seus problemas não eram levados a sério. Ela não queria que aquela mulher fosse retratada como uma vilã. Benton e Hoffman concordaram, o roteiro foi reescrito e Meryl escolhida para o papel. O filme, que começa e termina com a câmera focada no rosto da atriz, é basicamente conduzido pela polêmica escolha da personagem de abandonar o filho – e, para Meryl, sua principal missão como atriz foi “transformar aquela mulher julgada por todos em um ser humano”.

A decisão da atriz de mudar, ao longo das filmagens, vários pontos da personagem contrariava Hoffman, um perfeccionista e que, conforme a atriz revelaria anos depois, uma pessoa um tanto complicada de se lidar nos bastidores em função disso. Mas Streep venceu e chegou a reescrever ela mesma a marcante cena do tribunal afim de aproximar o espectador de Joanna. Isso mesmo, a cena que se vê no filme, diálogo a diálogo, foi escrita pela atriz. O resultado? Para o diretor Robert Benton, “a cena melhor escrita em todo o roteiro”.  Kramer vs. Kramer ganhou as telas e a personagem de Meryl foi um verdadeiro teste para as plateias, levantando polêmicas questões sobre feminismo em uma época marcada pelo casamento tradicional e pela submissão da mulher nos relacionamentos. Ora, se fosse um pai abandonando o filho seria menos condenável? Por quê?

A repercussão chegou ao Oscar, onde ela recebeu merecidamente o prêmio de atriz coadjuvante. Neste meio tempo, Meryl via sua vida renascer: se casou com Don Gummer, seu marido até hoje, e, seis meses após a estreia de Kramer vs. Kramer, dava luz a seu primeiro filho, Henry. A escolha de ter um filho veio somente após a certeza de estar satisfeita com o estado de sua vida profissional e pessoal. Ao contrário da mulher que lhe rendeu o seu primeiro Oscar. Essa vivência maternal foi crucial para a compreensão da atriz em relação um dos seus papeis mais consagrados que viria poucos anos depois.

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1982 – Sophie Zawistowska (A Escolha de Sofia)

“Eu não conseguia nem ler direito a cena da escolha que dá título ao filme. Li apenas uma vez quando recebi o roteiro. Depois, nunca mais consegui. Eu simplesmente não era capaz de suportar. Não conseguia porque eu já era Sophie”

“A estrela dos anos 80”, anunciava a revista Newsweek que, pela primeira vez, trazia Meryl Streep estampando sua capa. Não era exatamente o que ela queria. Não dessa forma. Após Kramer vs. Kramer, Meryl tirou um ano de férias, o que segundo amigos e colegas, era uma verdadeira loucura para uma atriz que começava a se consagrar. “Mas eu acho que temos que fazer apenas o que nos traz felicidade”, disse a atriz, que, naquele momento, queria apenas privacidade estar perto de sua família e de seu filho recém nascido.

Quando retornou ao cinema, pediu ao agente papeis diferentes e fora de Nova York. “Coloque-me na Lua”, ela pediu. E assim foi.  Meryl foi até o Reino Unido para gravar A Mulher do Tenente Francês (que lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar e a primeira vitória no BAFTA) e embarcou em mais um longa que marcaria sua carreira: A Escolha de Sofia, sobre uma mulher destruída por uma devastadora escolha que precisou fazer no passado. O diretor Alan Pakula não queria atores famosos em seu filme, mas o estúdio venceu e Meryl, que estava com o roteiro e louca para interpretar Sofia, a escolhida como protagonista.

Aprendendo polonês em poucos meses, a atriz aproveitou o clima teatral e de improvisação que o diretor construiu no set para construir a dolorosa personagem. Ela também ganhou peso, usou próteses nos dentes e viajou durante três meses para a Iugoslávia para filmar os flashbacks da protagonista. Momentos antes da viagem, Pakula, que havia escrito as cenas em inglês, decidiu filmá-las em alemão. Receoso, chegou até a atriz e anunciou a mudança. A atriz apenas respondeu: “Me consiga uma professora de alemão”.

Meryl aprendeu alemão e, logo em seguida, gravou a cena-título. Uma cena que nunca mais conseguiu sequer rever. “Em certo ponto daquela cena, eu achava que estava gritando o mais alto que podia. Depois percebi que som nenhum estava saindo. Eu estava em um verdadeiro pesadelo, achando que fazia algo e depois percebendo que era uma ilusão”. Grávida de sua filha Mamie, Meryl divulgou o filme, que a colocou como favorita absoluta ao Oscar de melhor atriz. A Escolha de Sofia, no entanto, não foi unânime. “Eu tinha mais pena de Meryl tentando fazer algo pelo filme do que da própria Sophie”, escreveu Pauline Kael. Mas, ao contrário de Pauline – que parecia ter como missão criticar negativamente todas as interpretações da atriz – a atuação foi praticamente unânime e concedeu a Meryl um merecido segundo Oscar.

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1983 – Karen Silkwood (Silkwood – O Retrato de Uma Coragem)

“Eu sentia que Karen e eu éramos muito parecidas. Quero dizer, se eu morrer, ninguém saberá como eu era de verdade. Essa é a grande verdade que me atraiu em sua história”

Karen Silkwood, uma empenhada ativista de sindicatos, morreu em suspeito acidente de carro em 1974, quando dirigia para encontrar um jornalista do The New York Times. O encontro era para entregar provas das irregularidades da empresa que um dia trabalhou e que estava fazendo de tudo para silenciá-la. Depois de sua morte, o jornal a definiu como o “símbolo da coragem de rostos comuns que enfrentam gigantes da indústria”. Essa é a história do filme dirigido por Mike Nichols e roteirizado por Nora Ephron que trouxe grande desafio para Meryl: procurar interpretar a vida íntima dessa mulher e não tudo o que ela simbolizou para várias gerações. Com Silkwood, Meryl interpretava, pela primeira vez, uma pessoa da vida real – o que, nas próximas décadas, se tornaria uma de suas marcas registradas.

Quanto ao filme em si, não dá para dizer que a atriz começou necessariamente com o pé direito. Meryl, claro, está ótima, mas Silkwood se desenvolve de forma bastante morna. O seu valor, entretanto, é grande, já que a empresa denunciada por Karen (a Kerr-McGee) entrou com diversas ações judiciais para impedir a produção do filme. Nenhum estúdio queria contar a história da protagonista. Até Meryl entrar na jogada. Seu prestígio na indústria já começava a florescer. Imediatamente atraída pela identificação que sentia com as origens e o jeito de ser de Karen Silkwood, a atriz descobriu os desafios de interpretar alguém da vida real. Neste caso, uma mulher de vida reservada que significava diferentes coisas para diferentes pessoas, o que, segundo Meryl, lhe trouxe muita insegurança. Mas o papel refletia o senso político e social que ela tanto cultivava, e a oportunidade, além de resultar em mais uma indicação ao Oscar, lhe aproximou daquele que seria um de seus maiores amigos: Mike Nichols. “Dirigir Meryl Streep é como se apaixonar, com momentos cercados de magia… E de mistério”, definiu o diretor.

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1985 – Karen Blixen (Entre Dois Amores)

“Sydney Pollack achava que eu era uma boa atriz, mas não suficientemente sexy para o papel. Aí fui para o teste usando roupas bem curtas. Um golpe pobre, admito, mas funcionou!”

O roteiro de Entre Dois Amores foi escrito por Kurt Luedtke com Meryl Streep em mente. No entanto, o diretor Sydney Pollack relutou em escolher a atriz. Para ele, Meryl era muito glacial e distante da sensualidade que a personagem pedia. Mas bastou um primeiro encontro para que o diretor mudasse de ideia. “Ela foi muito direta, honesta e sem firulas. Então pensei que se isso fosse para a tela… wow!”, revelou Pollack. Ao longo de mais de três meses, a atriz viveu na África para gravar o épico que estrelou ao lado de Robert Redford. Ela literalmente se mudou para lá, levando toda a família. Mais uma vez dominou a arte de reproduzir sotaques (dessa vez o dinamarquês) e chegou a domar leão ela mesma para dar vida à Karen Blixen, mulher que se liberta de um casamento por conveniência ao mesmo tempo que administra uma fazenda de café no Quênia e conhece um novo interesse romântico que lhe mostrará como é possível viver a vida de forma aventureira e sem subserviências.

Mesmo com quase três horas de duração, Entre Dois Amores, hoje um filme que envelheceu muito mal, foi um grande sucesso. Ajustada a inflação, o filme faturou 260 milhões de dólares mundialmente. Meryl, por outro lado, não esperava por isso. Quando o filme viu pela primeira vez, chorou. “Mas porque achei que ele seria um grande fracasso. Fiquei surpresa com quantas pessoas realmente se importaram com a história daquela mulher”, conta. O sucesso no Oscar foi estrondoso (faturou, entre várias estatuetas, as de filme, direção e roteiro adaptado) e a atriz mais uma vez conquistou uma indicação. Só que as críticas ao seu desempenho pela primeira vez não foram lá muito positivas. Na Dinamarca, jornalistas comentaram que seu sotaque havia virado piada nacional. Pauline Kael, mais uma vez, reprovou o desempenho da atriz, dizendo que Meryl parecia apenas uma mulher perdida em uma revista da National Geographic. Com essas recepções, ela se viu com os pés bem fixados no chão. Percebeu também que, apesar de dois Oscars na estante e vários papeis a seu dispor, era uma estrela mortal como qualquer outra.

5 comentários em “Cahiers du Cinéma e as anatomias de Meryl Streep – parte 1

  1. Adoro o modo apaixonado como você escreve sobre a Meryl. ;)

    Aliás, Meryl é uma atriz que consegue não só construir perfeitamente seus personagens, mas também causar ao espectador várias identificações em cada mulher. Acho que Pauline não tinha essa visão, por isso a birra, rsrsrs. Ansiosa pela parte 2.

  2. Seu texto é bastante interessante no sentido de que me fez pensar em duas questões. Em primeiro lugar, numericamente e qualitativamente não há espaço para um “ talvez Streep seja a maior de todos os tempos ”. Meryl já provou em dezenas de excelentes interpretações sua versatilidade e poderio técnico. E versatilidade é o que faltava ás grandes estrelas do passado, algumas delas bastante superestimadas pelos cinéfilos.
    Outro ponto é a desigualdade entre os gêneros. Meryl nos brinda com uma grande atuação há cada 2 anos no mínimo.E só agora teve sua carreira dissertada pela Cahiers du Cinéma. Seus colegas citados ( exceto Brandon, este já falecido), não entregam algo relevante há décadas e foram agraciados antes. Vai entender!

    Quanto ás escolhas da publicação, acho que é muito complicado apontar algum desempenho que não devesse estar ali. Mas confesso Entre dois Amores não é um dos meus momentos favoritos de Streep. Mas meu problema é com o filme mesmo!

    Aguardamos a parte II!

  3. Claquete Girls, a minha interpretação favorita dela é a de “As Pontes de Madison”!

    Mayara, nunca entendi a birra da Pauline! haha

    Bruno, eu também já considero a Meryl a maior atriz que o cinema já viu, pois, para mim, grandiosidade não depende só de talento. Existem muitas atrizes tão talentosas quanto ela por aí, mas nenhuma tem carreira igualmente sólida. Regularidade também é um fator fundamental nesta avaliação!

  4. Bom texto, boas informações, mas há um equívoco, a personagem de Meryl Streep em The Deer Hunter, Linda, não se casa com o personagem de Robert De Niro (Michael) antes da guerra, mas era namorada de Nick, personagem de Christopher Walken… depois da guerra, Nick não volta e ela se envolve em definitivo com Michael…

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