Cahiers du Cinéma e as anatomias de Meryl Streep – parte 2

merylcahiersdPara a Cahiers du Cinéma, o melhor desempenho de toda a carreira de Meryl Streep é o que ela entrega em Julie & Julia. A publicação afirma que, como a icônica chef Julia Child, Meryl sintetiza perfeitamente toda a sua trajetória pessoal e profissional. Ou seja, uma mulher que se redescobriu e viu sua verdadeira consagração somente na casa dos 50 anos. Não deixa de ser verdade. A crítica de cinema Isabela Boscov já havia apontado o mesmo na época do lançamento de Simplesmente Complicado: em década passadas, Meryl era admirada e respeitada, mas foi somente envelhecendo que aprendeu a se divertir e a se aproximar dos espectadores – o que fez com que passasse a ser amada incondicionalmente, tornando-se a referência que é hoje. Dando continuidade a nossa postagem especial sobre o livro da Cahiers du Cinéma que elenca as melhores atuações da atriz, chegamos, agora, aos cinco últimos desempenhos selecionados pela jornalista Karina Longworth, a responsável pela seleção. Novamente, não há muito para se discordar aqui (nem mesmo a escolha de A Morte Lhe Cai Bem), com uma leva que seleciona o melhor da mais nova e celebrada fase da carreira de Meryl Streep. Boa leitura!

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1992 – Madeline Ashton (A Morte Lhe Cai Bem)

“Madeline Ashton se irrita com tudo: o tempo passando, sua vida desmoronando e sua falta de controle em relação a essas coisas. E, bom, existe o suficiente de tudo isso na minha vida para alimentar a personagem”

Após Entre Dois Amores, Meryl estava tentando se manter como atriz. Principalmente, tentava administrar como era envelhecer em Hollywood (ela já havia completado 40 anos). A má onda que enfrentava por sua interpretação no filme de Sydney Pollack não ajudava sua situação na indústria. Ao contrário de astros dos anos 1990 como Tom Cruise e Sylvester Stallone, Meryl não interpretava a si própria – o que não lhe dava uma marca ou um público cativo. Ninguém ia ao cinema pelo selo Meryl Streep. Eram tempos em que os homens faziam fortunas nas telas; as mulheres não. Mesmo com novas indicações ao Oscar (IronweedLembranças de Hollywood) e até mesmo um prêmio em Cannes (Um Grito no Escuro), a atriz não fazia bilheteria. “Ela pode até ser a atriz mais talentosa de sua geração, mas o público está ficando em casa”, disse o crítico Mike Hammer.

Nesse meio tempo, Meryl começava a ensaiar sua inserção no mundo das comédias com obras como Ela é o DiaboA Difícil Arte de Amar (esse segundo ofuscado pelos boatos de que ela teria começado um caso com Jack Nicholson durante as filmagens), tentando se distanciar do humor que não apreciava. Na época, a atriz ficou particularmente incomodada com o sucesso de Uma Linda Mulher, que, segundo ela, pregava valores muito errados para seu público-alvo. Em sua crise profissional, perdeu o papel principal de Evita porque reivindicava um salário melhor para intérpretes femininas e recusou três papeis de bruxa em filmes de fantasia, alegando constrangimento no fato de que era basicamente isso o oferecido para atrizes de sua idade. “Meryl Streep passou de atriz lendária para apenas mulher difícil”, definiu a colunista Liz Smith. Ironicamente, veio A Morte Lhe Cai Bem, que refletia exatamente os conflitos daquela geração com papeis femininos e a precoce crise de meia-idade que Streep enfrentava.

No filme, que já começa com Meryl se olhando no espelho e cantando “O que eu vejo? Essa é a questão que mais tenho medo!”, a atriz contracena com Goldie Hawn fazendo um curioso contraste: Hawn, estrela da comédia popular, queria ser levada a sério, enquanto Meryl, com dois Oscars em casa, não conseguia estrelar um sucesso de público sequer. As gravações foram difíceis: Meryl precisou se moldar às transformações físicas de sua Madeline (a difícil mulher que toma poção para rejuvenescer e não perder o marido) com exercícios físicos, efeitos visuais e muita maquiagem. Alérgica, teve que usar próteses para não entrar em conflito com os produtos usados. Era seu primeiro filme com efeitos visuais – e último, conforme ela mesmo previu, após se ver entediada ao ter que lidar com tanta tecnologia.

O período de gravação é o mais longo da carreira da atriz até hoje (sete meses), mas o resultado recompensou: 15 milhões de dólares em apenas cinco dias (mais do que toda carreira comercial de Ela é o Diabo). A crítica, no entanto, não foi receptiva, alegando que Meryl era muito “maior” do que a brincadeira dirigida por Robert Zemeckis. “Que pena que pensam assim, pois levo a sério tudo o que faço, até mesmo os meus filmes mais leves”, defendeu Meryl, que revelou ainda estar “horrivelmente desapontada” com a desaprovação daquele que é um de seus trabalhos favoritos. Não é para tanto: A Morte Lhe Cai Bem, apesar de divertido e ser o auge do tino cômico de Meryl naquela fase, não envelheceu tão bem. Mas o destino traria um belo balanço para sua situação: três anos depois, ela entregaria um dos seus desempenhos mais populares e emblemáticos – e, particularmente, o favorito disparado do escriba que vos fala.

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1995 – Francesca Johnson (As Pontes de Madison)

“É revigorante fazer uma história de amor. Pense nas vidas que eu já interpretei no cinema: fui contaminada por radiação, mandei um filho para a câmara de gás, perdi a custódia de outro… Céus, se não fosse por papeis como esse, onde eu me apaixono, já teria enlouquecido!”

As Pontes de Madison foi o maior hit de Meryl Streep nos anos 1990 e a sua maior bilheteria até então, superando Entre Dois Amores. Pela primeira vez, a atriz levava ao cinema plateias que não conseguia alcançar: somente no primeiro final de semana, o filme dirigido por Clint Eastwood sobre uma dona-de-casa que vira protagonista da própria vida ao viver um breve mas inesquecível caso com um fotógrafo viajante faturou 10 milhões de dólares nos Estados Unidos. A carreira completa de Madison nas telas estadunidenses chegou a 71,5 milhões (um bom orçamento para um filme desta temática e proporção), o que se tornou a porta de entrada para uma Meryl Streep mais universal e popular.

Inicialmente, o longa seria dirigido por Bruce Beresford (Conduzindo Miss Daisy), com Meryl e Clint como protagonistas. Beresford, no entanto, deixou o projeto, o que foi a deixa para Clint fazer a mudança que tanto queria na adaptação: o livro é contado sob a perspectiva do fotógrafo Robert Kincaid, mas, em parceria com o roteirista Richard LaGrevanese e a própria Meryl, a decisão foi de transformar o romance em uma história focada totalmente na protagonista Francesca Johnson. Mais do que isso, As Pontes de Madison também era, para Clint, uma oportunidade única: a de fazer um romance em estilo clássico com apenas diálogos entre dois personagens em cena, contrariando totalmente as expectativas da geração MTV que reinava naquele ano.

Filmado quase todo em ordem cronológica com o objetivo de mostrar com fidelidade todas as etapas do envolvimento gradual dos personagens, As Pontes de Madison, segundo a Cahiers du Cinéma, transforma uma decisão de mero contexto social em algo completamente complexo e pessoal, sem respostas certas ou julgamentos. Com isso, a adaptação foi celebrada como um grande incremento ao livro, e as duas performances minimalistas saudadas por público e crítica. Ou seja, Meryl, mais uma vez indicada ao Oscar (não teve como competir com Susan Sarandon, que vivia o grande momento de sua carreira com Os Últimos Passos de Um Homem), estava, assim como Francesca, finalmente se encontrando.

Deixando para trás a crise de Entre Dois Amores e os percalços para encontrar os papeis que tanto queria, ela dava vida ao papel que mais se parecia com ela até aquele momento: a de uma mulher simples, de 40 e poucos anos, sem maquiagens e longe de circunstâncias extraordinárias. Para a Cahiers, ali a atriz estava completamente nua em suas emoções, refletindo na tela muito do que ela era na vida real. Isso foi a porta de entrada para Meryl se aproximar de vez do público, trazendo identificação e inaugurando a sua nova fase como atriz de grandes plateias. Enfim, ela amadurecia como uma intérprete plenamente segura de suas escolhas e cada vez mais próxima do título de atriz mais adorada e celebrada em atividade. Afinal, reinvenção foi a palavra que norteou seus papeis a partir de As Pontes de Madison.

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2006 – Miranda Priestly (O Diabo Veste Prada)

“A verdade é que Miranda está em uma posição incrivelmente tensa. Se alguém tem que ir ao Starbucks para buscar um capuccino porque ela não pode parar tudo ou se alguém tem que buscar suas roupas na lavanderia porque ela ficou até duas da madrugada trabalhando… Será que isso é tão horrível assim? Não precisamos ter simpatia por ela, mas pelo menos algum entendimento.”

De As Pontes de Madison até O Diabo Veste Prada, Meryl Streep viveu um dos momentos mais intensos da sua vida. Não foi apenas a morte da mãe e os dias cuidando do pai doente até sua morte em 2004 que movimentaram o dia a dia da atriz. Após o sucesso do filme dirigido por Clint Eastwood, ela também resolveu voltar ao teatro com The Seagull (a primeira peça em 20 anos), participar de uma grandiosa produção para a TV (a épica minissérie Angels in America, dirigida por Mike Nichols) e abraçar papeis completamente distintos e bastante subversivos para sua carreira, a exemplo da jornalista femme fatale de Adaptação, da ambiciosa senadora de Sob o Domínio do Mal e da lésbica de meia-idade de As Horas. Era um momento em que, conforme apontou a crítica Karen Hollinger, Meryl se despia de qualquer inibição. E ainda, de brinde, veio aquele papel que mais lhe marcaria com o grande público: o da elegante e poderosa editora-chefe da revista de moda Runway Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada.

Não foi a obra escrita por Lauren Weisberger que inspirou a atriz a participar do projeto. Pelo contrário. Para Meryl, o livro “foi escrito por puro ódio e com um ponto de vista muito fácil. A garota não tinha um entendimento da grandiosidade da indústria em que ela trabalhava. Ela só fica ‘choramingando’ por ter que buscar um café. Se ela estivesse com os olhos bem abertos, poderia ver que tinha muito a aprender, mas eu acho que ela simplesmente não estava interessada”. O que atraiu a atriz foi novamente a discussão cultural envolvendo a influência da mulher em um importante contexto. “Mulheres como Hillary Clinton e Anna Wintour são normalmente consideradas ‘frias’ pela nossa cultura, como se elas fossem desprovidas de senso maternal ou algum tipo de feminilidade. Só que a verdade é que, se uma mulher pede um café, ela ‘manda’. Se um homem pede, ele apenas ‘precisa’ do café”.

Negando qualquer inspiração em Anna Wintour – a editora em quem Weisberger se inspirou para escrever o livro – na hora de construir Miranda Priestly, Meryl, em um questionário promovido pelo Oscar de 2006, disse que a parte mais difícil de viver a personagem foi… ter que usar salto alto! E verdade seja dita: a atriz nunca foi reconhecida por ter boas relações com a moda. Nos tapetes vermelhos, seus looks inspiram indiferença ou eventuais críticas. “É tudo muito exaustivo”, diz sobre a sua falta de “empenho” com a moda. Entretanto, Meryl entrou de cabeça no projeto: ela própria construiu o visual da personagem, decorando o escritório de Miranda, escolhendo a cor do cabelo e ainda fazendo infinitas pesquisas de maquiagem para que seu amigo J. Roy Helland pudesse ter o que, segundo ela, Miranda escolheria para o rosto. Com as colegas intérpretes, incorporou a personagem. No primeiro dia de filmagens disse para Anne Hathaway: “Eu acho que é você perfeita para o papel e estou muito feliz que vamos trabalhar juntas. E essa vai ser a última coisa boa que vou dizer para você”. E foi.

Meryl também trabalhou, de certa forma, como roteirista de O Diabo Veste Prada. Ao ler o roteiro adaptado por Aline Brosh McKenna, apontou que Miranda Priestly era apenas uma mulher odiável. Para mudar a situação, sugeriu a inclusão de uma cena em que a personagem baixasse a guarda: aquela em que, no quarto e sem maquiagem, Miranda admite para Andrea (Anne Hathaway) o fim de mais um casamento. “Essa é a parte que faz o filme inteiro ter verdadeiro sentido. Sem ela, o que realmente sobra para Miranda?”, indagou a atriz. E, de fato, o acréscimo da cena traz um dos melhores momentos de O Diabo Veste Prada não só para ela mas para todo o filme. O longa comandado por David Frankel superou As Pontes de Madison em bilheteria e finalmente posicionou Meryl como uma atriz para todas as plateias. Mais uma indicação ao Oscar veio para a sua conta (em um ano poderosíssimo para as mulheres) e, na modesta opinião de quem vos escreve, caso tivesse concorrido como coadjuvante (onde de fato deveria estar), poderia facilmente já ter conquistado sua quarta estatueta.

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2009 – Julia Child (Julie & Julia)

“Nora Ephron me disse: ‘você não é Julia Child, você é a ideia que Julie Powell tem de Julia Child’. E isso foi o que deu a liberdade que eu precisava para não imitar Julia e sim encontrar o espírito tão particular dessa mulher”

Nos tempos de Julie & Julia, qualquer comparação que existia entre Meryl Streep e atrizes de sua geração já tinha ido por água abaixo. Ninguém mais, na idade de Meryl (acima dos 60), tinha uma carreira tão constante, trabalhadora e rica quanto a dela. Quem poderia se equiparar em termos de sobrevivência no circuito e número de filmes é Diane Keaton – mas a qualidade de suas comédias toscas não ajuda. Entre PradaJulie & Julia vieram outros grandes sucessos de bilheteria como Mamma Mia! (no Reino Unido desbancou Titanic como a maior bilheteria da história e mundialmente faturou mais de 600 milhões de dólares, com Meryl mais uma vez quebrando seu recorde de arrecadação) e Simplesmente Complicado, filmes que, mesmo estando longe de qualquer qualidade notável, consolidaram Meryl junto ao grande público e reafirmaram sua recém descoberta capacidade de se divertir.

A escolha por ser mais livre e menos técnica foi reconhecida pela atriz na época do lançamento de Julie & Julia. “Na medida que você envelhece e começa a perceber que existe menos tempo a sua frente, você passa a querer ser quem realmente você é, sem se preocupar em ter que agradar os outros ou tornar tudo mais fácil para alguém”, avaliou. Era uma época em que Meryl trabalhava mais do que nunca devido ao fato de seus quatro filhos já terem saído de casa e de que nenhuma “obrigação” caseira lhe aguardava depois de um dia de filmagem. Como a icônica chef Julia Child, Meryl entrega, segundo a Cahiers du Cinéma, aquela que é a sua melhor interpretação justamente por ser uma elegante metáfora de quem Meryl era atrás das câmeras e o que ela simbolizava na época: uma mulher que se descobriu após os 50 anos e alcançou um tipo de sucesso que, décadas atrás, talvez lhe parecesse simplesmente impossível.

A diretora Nora Ephron, amiga de Meryl que viria a falecer em junho de 2012, revelou que gostaria de ter alguma parcela de contribuição na criação da protagonista, mas que tudo o que se vê na tela é mérito da atriz. “Ela andava com panelas por todos os lados, trabalhava diretamente com Ann Roth para escolher cada figurino de Julia Child e ainda sugeriu que Stanley Tucci fizesse parte do elenco. Ela simplesmente leu tudo o que existe sobre Julia e inventou até que seria tão alta quanto ela mesmo sem saber como. Por mim, ela poderia ser apenas Meryl interpretando Julia. Mas não. Para ela, tudo era sobre se transformar na personagem”, contou Nora.

Novamente indicada ao Oscar (sua décima sexta vez), Meryl seguiu sem fazer campanha (“Não consigo conceber a ideia de uma campanha. O trabalho deveria falar por si só”), e, mesmo assim, chegou à noite de premiação como franca favorita ao lado da vencedora Sandra Bullock (Um Sonho Possível). Já eram quase três décadas sem uma estatueta. Enquanto, naquela mesma época, Simplesmente Complicado faturava mais de 200 milhões de dólares mundialmente, também ficava claro que, se a vitória de Streep não estava no prêmio mais cobiçado do cinema, pelo menos se encontrava com o público, em uma conquista que, assim como a de Julia Child, veio tardiamente – mas também merecidamente.

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2011 – Margaret Thatcher (A Dama de Ferro)

“Como espectador, é muito fácil julgar uma personagem. Sim, você pode criticar a política e as ações de Margaret Thatcher. Mas, para mim, como atriz, estar dentro daquele corpo é algo completamente diferente. É uma experiência cheia de compaixão e fúria, assim como é estar dentro do nosso próprio corpo. Afinal, todos nós sabemos os erros que cometemos. E não tenho dúvidas de que Margaret também sabia quais eram os dela” 

No lançamento de A Dama de Ferro, Meryl Streep já era a recordista absoluta em indicações ao Oscar entre todas as atrizes da história. Curiosamente, no entanto, só havia sido celebrada no início de sua carreira, enquanto sua fase mais prolífera, criativa e bem sucedida ainda não havia sido coroada pelo Oscar. A vitória tão aguardada veio justamente pelo tipo de papel mais óbvio possível para os prêmios: o de biografias. E o pior, por um filme bastante ruim. Isso mesmo, A Dama de Ferro só será lembrado por trazer este momento de glória para Meryl, que segundo a Cahiers du Cinéma, já estava chegando ao ponto de ser considerada uma injustiçada com tantas derrotas após sucessivas reinvenções. Era a vez de Meryl. Sim, finalmente. De novo.

Para a Cahiers, a maior prova de que era de fato a vez de Meryl é que os votantes realmente não se importaram muito com o desastre que é A Dama de Ferro (aliás, qual outra atriz ganhou prêmio de protagonista por um filme verdadeiramente ruim?). A publicação aponta que a interpretação da atriz, precisa como um relógio suíço, entendeu tudo o que o filme não conseguiu sobre a personagem e que a experiência vale muito mais como uma biografia do quão longe Meryl pode chegar com um personagem do que como um relato sobre a vida de Margaret Thatcher.

Segundo a diretora Phyllida Lloyd, a escolha de Meryl foi intencional: escolher uma estadunidense para interpretar uma emblemática figura britânica se relacionava muito com a própria Thatcher, que assim, como Meryl, foi uma “estranha” em outro território ao investir na carreira política em tempos que ela era dominada por homens. Até que ponto isso é verdade? Difícil dizer. Será mesmo que Phyllida realmente pensou em fazer A Dama de Ferro sem ter Meryl Streep em mente para depois escolhê-la pensando nessa semelhança? Ou será que só quis novamente a oportunidade de trabalhar com a atriz que ajudou a levar o seu primeiro filme (Mamma Mia!) ao topo das bilheterias do Reino Unido? De qualquer maneira, como de costume, a atriz fez uma completa imersão no papel: viajou para o Reino Unido, participou de sessões no Parlamento, conversou com pessoas que conviveram com Thatcher e aprendeu os tons de voz que, segundo ela, foram alguns dos mais difíceis de toda a sua carreira.

A principal questão de A Dama de Ferro – é possível uma mulher dominar um mundo essencialmente masculino sem ser mal vista ou perder o domínio de sua vida? – se assemelha quase que inteiramente com a de O Diabo Veste Prada. A diferença, porém, é que, por incrível que pareça, os dilemas envolvendo sexismo e questões de trabalho são infinitamente mais envolventes na comédia de David Frankel do que nesse longa político de Phyllida Lloyd. Frases prontas  e discursos com lições de moral (“com todo respeito, senhor, eu fui à guerra todos os dias da minha vida!”) não convencem o espectador de que seriam ditas na vida real. Para a Cahiers, Meryl está perfeita em seu trabalho corporal, supera os obstáculos da pesada maquiagem e ainda consegue trazer sentimentos autênticos para a personagem, mas simplesmente o texto não sugere que exista uma pessoa de verdade ali dentro. É confusa a personalidade de Thatcher mostrada em A Dama de Ferro – e ainda mais a política pregada por ela.

A crítica britânica não recebeu bem o filme. Amigos de Thatcher foram publicamente declarar sua revolta com o retrato da ex-primeira-ministra e com a imprecisão do roteiro escrito por Abi Morgan. Meryl se esquivou de responder as falhas do longa e frequentemente vendia a ideia de que este era um relato da Thatcher humana e não da Thatcher política. Por falar em venda, A Dama de Ferro marcou o maior empenho da carreira da atriz para fazer uma boa campanha na temporada de premiações. Se, sem tal esforço, já era fácil ver o Oscar celebrar um papel como esse, imagine, então, com Meryl Streep frente a ele aparecendo em todas os programas possíveis de TV. Viola Davis, sua principal concorrente com Histórias Cruzadas, não teve vez. Meryl superou o filme ruim e as más críticas e finalmente, depois de quase 30 anos, conquistou um novo Oscar. No discurso vitorioso, brincou que sabe que aquela foi a última vez que subiu ao palco para receber um Oscar. Bom, considerando que, em 2015, é bem provável que adicione uma segunda indicação ao prêmio desde então, é melhor não fazer coro ao que ela afirmou.

3 comentários em “Cahiers du Cinéma e as anatomias de Meryl Streep – parte 2

  1. eu nunca conseguiria descrever Meryl Streep por tamanha importância histórica no cinema e como uma baita intérprete.

    posso casar com seu post? ♥

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