A Teoria de Tudo

I did my best.

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Direção: James Marsh

Roteiro: Anthony McCarten, baseado no livro “Travelling to Infinity: My Life with Stephen”, de Jane Hawking

Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, David Thewlis, Emily Watson, Maxine Peake, Simon McBurney, Thomas Morrison, Michael Marcus, Eileen Davies, Christian McKay, Guy Oliver-Watts, Charlotte Hope, Alice Orr-Ewing

The Theory of Everything, Reino Unido, 2014, Drama, 123 minutos

Sinopse: Baseado na biografia de Stephen Hawking, o filme mostra como o jovem astrofísico (Eddie Redmayne) fez descobertas importantes sobre o tempo, além de retratar o seu romance com a aluna de Cambridge Jane Wide (Felicity Jones) e a descoberta de uma doença motora degenerativa quando ele tinha apenas 21 anos. (Adoro Cinema)

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Logo quando terminaram as filmagens de A Teoria de Tudo, Eddie Redmayne, ao consultar seu osteopata (o profissional de medicina alternativa que cuida de problemas da coluna vertebral), recebeu a notícia de que o alinhamento de sua espinha dorsal havia sofrido significativas alterações. O motivo? A dedicação de Redmayne em tentar reproduzir toda a condição física de Stephen Hawking, astrofísico cuja vida é encenada neste A Teoria de Tudo. Tal empenho lhe rendeu esta sequela que, segundo o ator, vem de um perfeccionismo profissional que ele mesmo não considera saudável. Prova disso é a decisão de Redmayne em, pelo menos nos últimos dias de filmagens, permanecer com a mesma posição contorcida e atrofiada em cima de uma cadeira de rodas durante todos os takes. Assim, para toda a equipe de A Teoria de Tudo, ele era de fato Stephen Hawking. E o ator pode ficar tranquilo: sua obsessão não tão saudável em busca da perfeição está plenamente reproduzida na tela com um desempenho que eleva o filme de James Marsh a uma emoção genuína que muitas vezes falta à história em si.

Não tão jovem como pode parecer (recentemente completou 32 anos), Eddie Redmayne já cultiva uma boa carreira como intérprete independente. No teatro, conquistou um Tony como ator convidado pelo espetáculo Red. No cinema, já foi o filho de Julianne Moore no polêmico Pecados Inocentes, apaixonou-se por Marilyn Monroe ao mesmo tempo que narrava seus breves dias de verão com ela em Sete Dias Com Marilyn e teve pequenos papeis coadjuvantes em longas de época como A Outra Elizabeth – A Era de Ouro. Porém, foi recentemente que o britânico começou a alçar voos mais altos, especialmente em Os Miseráveis, onde, como o revolucionário Marius Pontmercy, conseguia se destacar com uma bela voz, uma presença repleta de carisma e até mesmo um momento emocionante ao fim do filme (aquele em que canta Empty Chais at Empty Tables). Mas a chance de sua carreira veio mesmo agora com A Teoria de Tudo, onde Redmayne, fora a impecável reprodução da esclerose lateral amiotrófica de Hawking, constrói com delicadeza um personagem que, mesmo enfrentando tantos infortúnios, nunca deixou de ver o lado bom da vida.

Ao mesmo tempo em que o ator impressiona com ao emular a doença de Hawking, A Teoria de Tudo também se beneficia com isso, já que é fácil simpatizar e torcer por este protagonista que tanto amou a sua companheira Jane (Felicity Jones, a primeira escolha para o papel) e sempre quis ganhar o mundo com uma diferenciada carreira profissional. Entretanto, a deficiência, para a dramaturgia (em especial o cinema), é um campo minado: se, por um lado, o filme já ganha pontos, adeptos e eventuais lágrimas por contar uma história de degradação física repleta de superação, por outro pode se perder conceitualmente ao sucumbir à irresistível tentação de abusar da doença para emocionar, esquecendo, em prol disso, outros assuntos infinitamente mais interessantes do que a enfermidade. É o que basicamente acontece com A Teoria de Tudo, que, ao invés de, por exemplo, mergulhar mais fundo na jornada também heroica de Jane ao ter permanecido com Stephen em uma juventude que poderia ter tomado rumos bem diferentes (e menos sofridos), prefere mostrar frequentemente o protagonista percebendo sua perda motora ao não conseguir mais realizar simples movimentos cotidianos, como pegar um garfo ou subir as escadas.

Ao contrário do que sugeria, é na inevitável derrocada física de Stephen Hawking que A Teoria de Tudo concentra a maior parte de sua atenção. Com isso, aspectos dramáticos importantes são mostrados corriqueiramente – ou, então, de forma exageradamente acelerada. O casamento, os filhos (incluindo aqueles que Jane e Stephen tiveram quando ele movia praticamente só a cabeça!) e a escalada profissional do protagonista são alguns dos tópicos que o filme infelizmente não chega a esmiuçar. Por isso, quando dizem que Stephen já é conhecido mundialmente, acreditamos porque determinado personagem diz e não porque acompanhamos suas vitórias. Outro fato extraordinário em possibilidades dramáticas é tratado com certo descaso: o do astrofísico ter recebido um diagnóstico desesperançoso de apenas dois anos de vida. Como sabemos, Stephen vive até os dias de hoje (ele já passa da casa dos 70 anos!), e sua a vitória ao ter superado qualquer expectativa negativa da doença parece não ser algo que tenha interessado o roteirista Anthony McCarten, que escreveu o longa com base no livro Travelling to Infinity: My Life with Stephen, de autoria da própria Jane Hawking.

À parte tais frustrações, A Teoria de Tudo é o típico filme inglês com história redonda e produção sofisticada. Para o bem e o para o mal, não existem maiores reviravoltas ou inventividades neste longa tradicional feito para agradar a todos e que deverá ser relativo sucesso de público aqui no Brasil. A razão é muito simples: com uma linda trilha sonora do islandês Jóhann Jóhannsson, é uma produção feita para emocionar (mas sem maiores apelações e com uma certa dose de elegância) em função da trajetória de superação de seu protagonista e, claro, do relacionamento entre ele e a esposa. Hawking, inclusive, aprovou o resultado e, após assistir ao filme, escreveu um e-mail para o diretor James Marsh dizendo que a fidelidade da obra foi tanta que, em determinados momentos, tinha a sensação de que estava vendo a si mesmo na tela.

Ainda que por vezes esticado demais, A Teoria de Tudo tem consciência de que é na figura de Redmayne que se concentra a sua maior força – talvez até demais, o que, em dados momentos, não deixa de limitar a criação do ator, que parece ter apenas a deficiência de Hawking para poder desenvolver em cena (e, nesse sentido, volta a questão de que seria mais interessante ter acompanhado outros momentos de sua vida, em especial a juventude, retratada de forma tão encantadora mas breve). Mas Redmayne sai plenamente inabalado, deixando uma forte impressão no espectador e a certeza de que, mais do que nunca, é um nome para ser acompanhado. Portanto, se dramaticamente A Teoria de Tudo não consegue criar lições mais consistentes e desenvolver emoções com grande criatividade (talvez fruto da veia bastante documental do diretor James Marsh, vencedor do Oscar 2009 de melhor documentário com O Equilibrista), pelo menos acertou ao se entregar ao talento de seu intérprete. Na agenda do ator, mais um projeto promissor já está em andamento: The Danish Girl biografia dirigida por Tom Hooper que mostra a vida do pintor dinamarquês Einar Wegener, o primeiro homem que, ao que tudo indica, foi o primeiro a fazer uma cirurgia de troca de sexo no século XX. Ao que tudo indica, Redmayne veio realmente para ficar.

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