O desabafo de Dianne Wiest (e o meu também)

Meryl Streep e Dianne Wiest em "Amor à Primeira Vista": envelhecer em Hollywood não é fácil. Por que uma já chega à 19ª indicação ao Oscar como um caso isolado e a segunda, a exemplo de tantas outras atrizes, não recebe nem papeis interessantes que possam pagar o aluguel?

Meryl Streep e Dianne Wiest em Amor à Primeira Vista: envelhecer em Hollywood não é nada fácil. Enquanto uma já comemora 19 indicações ao Oscar como um caso isolado, a outra, a exemplo de tantas atrizes, não recebe sequer papeis interessantes para pagar o aluguel.

Ontem circulou uma notícia envolvendo uma suposta crise financeira na vida da veterana Dianne Wiest. Vencedora de dois Oscars de atriz coadjuvante (um por Hannah e Suas Irmãs em 1987 e outro por Tiros na Broadway em 1994), Wiest revelou que tem problemas em pagar o aluguel de seu apartamento em Nova York e que em breve terá que se mudar dele. Como ela chegou até aqui ainda tendo que pagar aluguel e sem um apartamento em seu nome depois de uma carreira prolífera em década passadas  é um mistério, mas, brincadeiras à parte, a declaração da atriz evidencia algo muito sério. Algo que, inclusive, já foi constantemente evidenciado por Meryl Streep em várias entrevistas ao longo de sua carreira: envelhecer em Hollywood não é nada fácil para as mulheres. Na realidade, envelhecer não é fácil para qualquer pessoa nessa indústria.

Durante a cerimônia do Screen Actors Guild Awards no último domingo, debatia esse mesmo o assunto com um amigo, particularmente quando Debbie Reynolds recebia uma homenagem por sua carreira. Existe todo um respeito e carinho por atores em momentos como esse, mas, parando para pensar, é de certa forma triste ver tributo a determinados intérpretes. A homenagem por si só já significa algo próximo do fim de uma carreira (o que apenas o Globo de Ouro desmistificou lindamente anos atrás com o Cecil B. Demille para Jodie Foster), mas aí surgem os vídeos de retrospectiva e um lastimável fato se evidencia: aquelas são pessoas que vivem apenas de passado. A glória delas está lá. Não agora. Inexistem chances dignas para atrizes como Debbie Reynolds em Hollywood. E isso é revoltante. Não consigo imaginar experiência mais gratificante do que poder ver grandes e veteranas atrizes com papeis à altura. O que é o show de Judi Dench no recente Philomena, por exemplo? Ou a aula de sutilezas de Julie Christie em Longe Dela? Mas atrizes como elas, Maggie Smith, Helen Mirren ou Meryl Streep parecem casos raros e isolados nos dias de hoje. E mais: muitas delas são britânicas, significando que a Europa valoriza muito mais atrizes que envelheceram do que os Estados Unidos.

Voltando à situação de Wiest, ela afirmou, em entrevista ao The New York Times, que quase não recebe mais oportunidades no cinema e que é chamada para apenas um tipo de papel: o da mãe agradável. “E é isso, é tudo o que vem”, diz a atriz. Difícil saber o que é pior: a falta de papeis ou os personagens estereotipados e quase ofensivos oferecidas a grandes talentos (que, por diversas razões, compram as oportunidades). É infinita a lista de atrizes que mereciam muito mais do que recebem. Susan Sarandon virou a mãe dos protagonistas de comédias bobocas, Diane Keaton se firmou como a engraçadinha descolada de meia-idade também em filmes de gosto duvidoso, Vanessa Redgrave ruma em direção aos papeis figurantes que poderiam ser interpretados por qualquer outra pessoa de menor calibre (Foxcatcher, O Mordomo da Casa Branca), e por aí vai… Quando, claro, algumas simplesmente somem do mapa, aparecendo apenas eventualmente com pequenas participações em seriados ou filmes independentes lançados diretamente em home video. Nessa lista, podemos incluir Michelle Pfeiffer e Meg Ryan, por exemplo.

Esse assunto, no entanto, é apenas detalhe de uma crise muito maior enraizada em Hollywood. Observemos a temporada de premiações desse ano, onde a tensão está evidente e escancarada: das 20 interpretações indicadas ao Oscar, nenhuma vem de um ator negro. Dos 10 roteiros também indicados ao prêmio, nenhum é escrito por uma mulher. Quando resolvem compensar a situação, indicam Selma a melhor filme sendo que o longa só tem uma outra indicação de canção. Faz algum sentido além do cumprimento formal da culpa social? Não. O que dizer, então, das mulheres negras que já ganharam Oscar? Todas por papeis de escravas, empregadas, mães abusivas ou caricaturas. E o primeiro Oscar de direção entregue a uma mulher? Foi para Kathryn Bigelow, que realizou um filme de guerra essencialmente político e masculino. Uma Jane Campion ou uma Sofia Coppola da vida nunca ganhariam essa honraria.

Claro que as premiações são apenas reflexos de uma indústria que, muito mais do que estar despreocupada com o protagonismo de negros e mulheres, não se empenha em dar atenção para atores que envelhecem e que contribuíram tanto para o cinema. São problemas já de décadas em Hollywood e não é à toa que todos estão debandando para o mundo dos seriados, que hoje estuda a família moderna (não aquele clichê de Modern Family, mas  sim a moderna mesmo, composta por um pai travesti e uma filha lésbica, como vemos em Transparent), que dá uma luz no fim do túnel para atores esquecidos pelo cinema (mais anteriormente vimos Glenn Close em Damages e Sally Field em Brothers & Sisters) e que traz negras como protagonistas em papeis atípicos (a advogada sexualizada, forte e misteriosa de Viola Davis em How to Get Away With Murder). Se na TV sobra espaço para gays, mulheres e negros, comprovando a total superioridade deste formato em relação ao cinema, na tela grande falta vergonhosamente. Mas, para além de igualdade, está faltando respeito em Hollywood. Intérpretes de pura excelência como Dianne Wiest não devem ficar sem dinheiro para o aluguel. E muito menos sem trabalhos dignos.

9 comentários em “O desabafo de Dianne Wiest (e o meu também)

  1. Na nossa ansiedade em acompanhar prêmios e ver filmes, muitas vezes situações como essas passam despercebidas. É realmente desolador se doar tanto para o trabalho e receber o ostracismo quando a maturidade chega. Não há como negar: Hollywood é sexista e preconceituosa. Notícias como essa mancham muito a imagem de “fábrica dos sonhos” tão propagada e aceita por nós, cinéfilos.

    • Weiner, exatamente. Estamos tão ligados em julgar quem merece ou não tal prêmio que esquecemos de ver essa temporada como um forte reflexo de como está a indústria em outras questões além da qualidade dos filmes. E dói ver atrizes do calibre de Dianne Wiest em uma situação como essa…

  2. uma pena um lugar em que tudo pode acontecer (cinema) é tão antiga quanto aos seus costumes. parece que NEM TÃO CEDO irá mudar.

  3. Matheus, excelente reflexão! No SAG Awards, Edward Norton falou sobre o privilégio de todos que estavam ali de serem “working actors”, podendo sobreviver daquilo. A verdade é que envelhecer em Hollywood sempre foi difícil e são poucas as atrizes que conseguem se manter bem e ainda na ativa (penso em Meryl Streep, Susan Sarandon, Judi Dench). A grande alternativa tem sido a TV. Acho que Dianne Wiest precisa mudar de agente. Ela precisa de alguém que viabilize para ela os trabalhos, que faça com que ela tenha chances, com que ela se mantenha na lembrança de produtores, diretores…

    • Kamila, e o problema da Dianne Wiest é que, pelo menos nos últimos anos, ela sempre repetiu esse semblante “bondoso” dela em todos os papeis… Até mesmo em “In Treatment” ela foi assim (com exceção de um único episódio da segunda temporada), onde arrasou. Mas sem dúvida ela precisa de um novo agente.

  4. Concordo 100% com você, Matheus! Penso nisso cada vez que vejo um grande ator defendendo seu personagem num filme medíocre. Há grandes artistas em abundância para tão poucos diretores e, sobretudo, roteiristas interessantes. É com prazer que vemos uma série como Downton Abbey exibir um elenco idoso de primeira linha. Mas, como você bem disse, “a Europa valoriza muito mais atrizes que envelheceram do que os Estados Unidos.” É um pecado que uma atriz do valor de Dianne Wiest precise deixar seu apartamento por não poder pagar o aluguel!

    • Stella, pena que Hollywood não pensa como os britânicos, que são extremamente gratos aos atores veteranos. “Downton Abbey” é um exemplo disso!

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