Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

A thing is a thing, not what is said of that thing.

birdmanposter

Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo e Nicolás Giacobone

Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts, Amy Ryan, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Merritt Wever, Jeremy Shamos, Clark Middleton, Lindsay Duncan, Catherine Peppers, Bill Camp, Joel Marsh Garland

Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), EUA/Canadá, Drama, 119 minutos

Sinopse: No passado, Riggan Thomson (Michael Keaton) fez muito sucesso interpretando o Birdman, um super-herói que se tornou um ícone cultural. Entretanto, desde que se recusou a estrelar o quarto filme com o personagem sua carreira começou a decair. Em busca da fama perdida e também do reconhecimento como ator, ele decide dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. Entretanto, em meio aos ensaios com o elenco formado por Mike Shiner (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), Riggan precisa lidar com seu agente Brandon (Zach Galifianakis) e ainda uma estranha voz que insiste em permanecer em sua mente. (Adoro Cinema)

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Folheava as últimas crônicas de Sete Anos escritas por Fernanda Torres durante minha ida ao trabalho no dia em que conferiria Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Falando sobre o falecimento de Dercy Gonçalves, Fernandinha disse que veio dela o maior elogio que já recebeu na vida. “Tive a honra de tê-la na plateia de A Casa dos Budas Ditosos. Na saída, ela me disse que eu havia entendido que um ator não pode representar. ‘Ele deve ser’, afirmou ela. Ser ou não ser. Foi o maior elogio que eu já recebi”, conta. Voltando algumas páginas, porém, encontramos, em No Dorso Instável de Um Tigre, uma longa e prazerosa reflexão da autora sobre qual o verdadeiro ofício do ator. Ela afirma que um intérprete não teme o palco ou a plateia e sim perder o sentido da profissão. Que razão há em fingir ser ou outro? Ou melhor, como bem pergunta o primeiro ato de Hamlet, quem está aí? Que feliz coincidência do destino ter lido as reflexões de Fernanda Torres horas antes de Birdman. Afinal, tudo o que ela escreveu também está, com uma com grande escalada de genialidade e inovação, neste novo filme do mexicano Alejandro González Iñárritu. São duas obras que se complementam com perfeição.

Quem está aí, afinal? Birdman, o icônico super-herói de uma trilogia bilionária de décadas atrás ainda lembrada por público e crítica, ou simplesmente Riggan Thomson, ator que nunca conseguiu provar ser um verdadeiro ator depois desse personagem marcante e que hoje tenta reerguer a carreira com uma peça de teatro que ele próprio dirige, produz e protagoniza? Independente da resposta, o mais brilhante de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é a busca interior do protagonista por essa resposta. Ao longo de quase duas horas, o personagem vivido por Michael Keaton, contando os dias para a estreia de seu espetáculo, encontrará em cada situação e em cada conversa alguma reflexão que o induzirá a tal pergunta. Quem está aí? Mais do que isso, seria sua peça de teatro uma vaidade para mostrar à crítica de que ele realmente tem alguma relevância? Seria uma jornada pessoal para ele próprio se livrar da sombra de Birdman? Ou um auto-convencimento de que ele, talvez, apesar de várias tentativas, será sempre apenas aquele super-herói de cifras estratosféricas?

Se logo no início Alejandro González Inárritu nos faz crer que Birdman será um filme excessivamente teatral, seja em termos de texto ou da forma como realmente estrutura seu filme, logo a teoria vai por água abaixo com uma obra que só evolui cinematograficamente e que dá conta por completo de todo o mosaico de personagens e dilemas que desenvolve ao longo da trama. Não é só o Birdman/Riggan Thomson de Keaton que terá seus dramas esmiuçados, mas também a atriz interpretada por Naomi Watts que estará na Broadway pela primeira vez, o instável ator de Edward Norton que acaba se tornando o grande atrativo da peça em questão e a filha de Thomson que ainda está se acostumando com sua vida após uma temporada em uma clínica de reabilitação. Mesmo Amy Ryan, como a ex-esposa do protagonista, está repleta de nuances em suas breves duas cenas. Por isso, Birdman pode até ser sobre os bastidores de uma peça de teatro, uma crítica à indústria do cinema e um relato sobre arte e o fazer dela, mas também é um filme bem sucedido quando passa a falar sobre jornadas pessoais. E é no mínimo surpreendente saber que a precisão do roteiro vem de nada menos do que quatro cabeças (dando uma aula ao também recente Invencível, que reunia o mesmo número de roteiristas em um resultado quase desastroso).

Construído todo a partir de admiráveis planos-sequência (que, dizem, às vezes desviam a atenção da história), o longa de Iñárritu só ganha pontos com essa escolha. Além de trazerem um realismo único para o conjunto, explorando toda uma fluidez e intimidade com os personagens, os planos também são obviamente uma chance extra para os atores brilharem. O diretor mexicano nunca esteve tão inventivo e ambicioso, com ideias muitíssimo bem planejadas e executadas, além de seguro para orquestrar cada detalhe sem que Birdman se torne uma experiência pretensiosa. Iñárritu sempre foi ótimo diretor de atores (aqui não é diferente), mas nunca entregou uma obra tão completa em temática e técnica como essa. É o auge de sua carreira. Dos meros bastidores de um teatro às calçadas da Times Square, sua câmera, aliada a uma ótima fotografia de Emmanuel Lubezki e a uma trilha difícil mas inovadora de Antonio Sanchez, está sempre surpreendendo, do primeiro a ao último plano (o final com Emma Stone na janela é excepcional).

Mais do que toda a metalinguagem envolvendo o protagonista e o próprio Michael Keaton, Birdman tem momentos realmente emocionantes que são resultado de toda essa beleza vinda da precisão de Inárritu atrás das câmeras. A cena em que Riggan Thomson sai voando por Nova York é um deles. Fora isso, o elenco, em plena harmonia, dá o tom certo para cada personagem. Aliás, são todos personagens que procuram não a razão que existe em fingir ser o outro, mas a razão que existe em ser eles mesmos, em especial quando estão fora do palco. Quando não estão em cena, os personagens de Birdman se perdem. Mas talvez o filme de Iñárritu seja mesmo sobre libertação. Dos palcos, da vida, desse medo de procurar tanto ser alguém e esquecer de ser fiel a sua própria identidade. Quem está aí, afinal? Tomara que Fernanda Torres tenha gostado dessa obra-prima.

2 comentários em “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

  1. Estou curiosíssima para assistir a “Birdman”, que tem sido uma unanimidade entre os colegas blogueiros cinéfilos, mas o filme não estreou ainda em minha cidade.

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