Para Sempre Alice

It was about love.

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Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland

Roteiro: Richard Glatzer e Wash Westmoreland, baseado no romance “Still Alice”, de Lisa Genova

Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Hunter Parrish, Stephen Kunken, Daniel Gerroll, Seth Gilliam, Erin Darke, Maxine Prescott, Orlagh Cassidy, Rosa Arredondo, Zillah Glory, Quincy Tyler Bernstine

Still Alice, EUA, 2014, Drama, 101 minutos

Sinopse: A Dra. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguistica. Aos poucos, ela começa a esquecer certas palavras e se perder pelas ruas de Manhattan. Ela é diagnosticada com Alzheimer. A doença coloca em prova a a força de sua família. Enquanto a relação de Alice com o marido, John (Alec Baldwinse), fragiliza, ela e a filha Lydia (Kristen Stewart) se aproximam. (Adoro Cinema)

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O Alzheimer é uma das doenças mais tristes ainda sem cura. Perder sua própria identidade, esquecer quem são as pessoas que você mais ama, viver o momento e daqui algumas horas já não lembrar de mais nada… Isso é terrível demais para qualquer pessoa e ninguém merece um sofrimento como esse. O cinema, claro, se atentou para o potencial dramático da doença e já realizou muitos filmes sobre o tema. Do tradicional Iris ao tocante Longe Dela (citando exemplares mais recentes), o Alzheimer já foi tão explorado em obras cinematográficas que hoje tem, de certa forma, uma cartilha com os passos que um longa sobre o assunto deve seguir. É um terreno complicado, repleto de clichês e repetições, mas Para Sempre Alice vem com a proposta diferente: pela primeira vez, um filme fala sobre o Alzheimer do ponto de vista de quem sofre dele e não dos parentes ou dos cônjuges que passam a ser os cuidadores. Até o belo Longe Dela, que trazia Julie Christie como uma senhora ciente da sua doença, era muito mais sobre o marido Grant (Gordon Pinsent) do que sobre a Fiona (Christie). Não é assim com Para Sempre Alice, cujo foco total está nos tempos em que a protagonista Alice (Julianne Moore) começa a enxergar o seu próprio desaparecimento.

O ineditismo de Para Sempre Alice, contudo, fica só na proposta, pois a execução está bem longe de representar algo inovador. Dirigida pela dupla Richard Glatzer e Wash Westmoreland, a adaptação do romance Still Alice, de Lisa Genova, certamente ganhará a simpatia do grande público por apresentar uma história sobre Alzheimer no sentido clássico. Afinal, o longa segue todos os passos de um tradicional filme do gênero: o primeiro esquecimento que parece uma tolice, a suspeita, a consulta ao médico, os exames, o diagnóstico, o lamento da família, a decisão sobre quem vai cuidar de Alice, os conflitos no casamento, o amor incondicional no meio de tanto drama, e por aí vai… Nada de novo, ao contrário do que a proposta sugeria.

Porém, é irônico como um filme que fala justamente sobre tempo (ou mais especificamente sobre a perda da noção dele) tenha na cronologia um de seus maiores problemas. Glatzer e Wstmoreland falham ao situar o espectador nas épocas em que o longa se desenvolve. Sem sabermos direito quanto tempo passou entre um avanço e outro da doença, fica a sensação de que a situação da protagonista piora muito repentinamente – e isso teria que estar bem alinhado, uma vez que já é atípico embarcar em uma história sobre uma doença acometendo uma mulher de apenas 50 anos quando normalmente ela é retratada apenas com pessoas idosas. Se a desorientação quanto ao tempo fosse algo proposital, a ideia seria nada menos que brilhante, mas infelizmente não parece ser o caso dessa obra que, caso fosse lançada na metade do ano, não teria sequer fôlego para sobreviver nas memórias das premiações e dar o Oscar de melhor atriz que Julianne Moore recebeu recentemente.

O problema de Para Sempre Alice está mais na direção pouco inspirada e sem grandes desejos de construir algo realmente fora do convencional na execução do que no roteiro propriamente. Um exemplo disso é a própria escalação do elenco de suporte, onde basicamente todas as escolhas são erradas: Alec Baldwin não tem a presença necessária para dar estofo dramático a um filme como esse (o ator ainda remete demais à comédia), Kristen Stewart está na sua versão descabelada e de boca aberta (ao contrário de sua maravilhosa aparição no recente Acima das Nuvens) e o jovem Hunter Parrish quase se resume a um figurante (o que tem virado sua especialidade, uma vez que, anos atrás ele também já era o filho insosso e inútil de Meryl Streep em Simplesmente Complicado). O uso da trilha sonora de Ilan Eshkeri, que cai nos erros mais básicos de composições que querem emocionar a todo custo com piano e violino, também denota a falta de criação da dupla diretora. Por isso, exigir o devido esmiuçamento de relações interessantes como Alice ser uma professora de linguística condenada a uma doença que fará com que ela esqueça justamente palavras é pedir demais. Detalhes como esses, no entanto, devem interferir apenas na percepção de quem já se cansou das repetições de filmes sobre Alzheimer. Até porque Para Sempre Alice, apesar de tudo, é inofensivo e desenvolve bem a sua parcela de emoção.

Falando em emoção, duas cenas se destacam no longa. Uma é a que traz Alice, já diagnosticada, falando sobre sua condição para dezenas de pessoas em uma palestra. “Eu vou esquecer deste dia, mas isso não quer dizer que o agora não importe para mim”, conta a personagem, evocando também a poeta Elizabeth Bishop para falar sobre perdas, mostrar que ainda não é uma inválida e que muito menos se tornou uma versão cômica de si mesma. Por mais que discursos motivacionais para plateias sejam jogadas comuns de filmes envolvendo doenças, esta cena de Para Sempre Alice consegue superar o didatismo e até emocionar, falando com simplicidade e humanidade sobre muitos assuntos que vem à tona quando alguém é diagnosticado com Alzheimer. Outra cena que marca é a última da protagonista com a sua filha, Lydia (Kristen Stewart), que encerra o filme de forma bastante carinhosa.

Verdade seja dita, porém, que quase toda parcela do êxito de tais cenas – assim como de todo o filme – é resultado direto do trabalho de Julianne Moore. Vindo de uma recente consagração na TV com o ótimo Virada no Jogo e uma coroação em Cannes com o prêmio de interpretação feminina por Mapa Para as Estrelas,  a atriz retoma uma fase de ouro que muitos anos atrás lhe posicionou como uma das atrizes mais queridas de sua geração. Para Sempre Alice é, com certeza, mais um ótimo movimento rumo a essa retomada. Dotada de sua já conhecida sensibilidade e humanidade, Moore tira de letra o papel, que está longe de ser um dos mais desafiadores de sua carreira, mas que lhe dá todas as circunstâncias para que mais uma vez emocione como poucas atrizes conseguiriam. A exemplo de muitos filmes simplistas sustentados só por grandes intérpretes, Para Sempre Alice não foge em momento algum da regra: sem Julianne Moore, o resultado seria, com o perdão do trocadilho, completamente esquecível.

9 comentários em “Para Sempre Alice

  1. Fiquei muito curiosa quando soube que o filme seria feito a partir do ponto de vista da portadora da doença e também me empoluei com o fato de a personagem ser uma linguista sofrendo primeiramente com sintomas que iriam interferir naquilo que ela mais prezava: a linguagem. Porém, senti-me totalmente decepcionada ao término do filme, pois não consegui enxergar nenhum aspecto que remetesse ao brilhantismo tão aclamado pela crítica. Sim, Julianne Moore é uma excelente atriz e suas atuações nunca passam em branco. Mas, mesmo assim, não achegou aos pés de momentos bem mais densos que ela já interpretou ao longo da carreira. Até a tímida participação em “Magnólia” foi mais memorável. Um pena, de verdade.

    • Cinema Sem Mimimi, não vi nenhum brilhantismo apontada pela crítica. Todos os elogios que li foram direcionados exclusivamente ao desempenho da Julianne Moore. Mas concordamos em um ponto: este está longe de ser um dos momentos mais memoráveis da atriz. Também considero o pequeno papel dela em “Boogie Nights” mais marcante.

      • O brilhantismo ao qual me refiro foi justamente à performance dela, não ao filme como um todo. Eu esperava uma atuação muito mais arrebatadora.

    • Kahlil, não acho que dê para ter certeza que o Oscar foi merecido se você não viu hehe Brincadeiras à parte, preferia muito mais a Rosamund Pike e a Marion Cotillard na disputa.

  2. Nada mais gratificante que ver Julianne Moore finalmente reconhecida no Oscar – exclua-se aqui a discussão acerca de seu merecimento perante Marion e Rosamund, as mais inspiradas.
    Agora, apesar de PARA SEMPRE ALICE ser um longa absolutamente formulaico, me impressionou por sua delicadeza. É um filme delicadíssimo, que trata sua protagonista com muita dignidade (se é possível manter a dignidade com essa doença).

    • Weiner, eu até que lembro com carinho do filme, mas aí penso em “Longe Dela” e percebo que a Sarah Polley foi infinitamente mais elegante e delicada em seu retrato do Alzheimer…

  3. Acho que quando se trata desse tema, é difícil inovar. Abordar a ótica da pessoa doente talvez fosse a única inovação possível. Eu, particularmente, gostei.
    Na minha opinião, o Oscar do Eddie Redmayne foi um prêmio dado com muito mais preguiça do que o de Julianne Moore.

    • Hugo, o problema é que “Para Sempre Alice” justamente se propôs a fazer algo de diferente (a doença pela visão de quem é vítima dela), mas o filme em si não cumpre a ideia, que só ficou no papel mesmo…

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