Na TV… Viola Davis e a rara oportunidade de “How to Get Away With Murder”

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Com duas indicações ao Oscar, Viola Davis é o ponto alto de How to Get Away With Murder. Sua interpretação já lhe valeu o Screen Actors Guild Awards 2015 de melhor atriz em série dramática.

Muito mais do que qualquer consagração ou número musical, o Oscar 2015 ficou marcado por uma efervescente safra de discursos contra sexismo, homofobia e racismo. Só que se engana quem acha que tais feridas só foram cutucadas nessa premiação. Poucas semanas antes, Viola Davis já havia roubado a cena no Screen Actors Guild Awards com um discurso muito honesto sobre as dificuldades em Hollywood para os atores negros. Ao ganhar o prêmio de interpretação feminina em série dramática por How to Get Away With Murder, ela agradeceu à equipe do seriado por ter confiado a ela, uma mulher negra de 49 anos, o protagonismo da história. E não estamos falando de qualquer protagonista: uma advogada poderosa, confusa, sexualizada, misteriosa e por vezes inescrupulosa. Em tempos que mulheres negras recebem em sua maioria papeis de escravas (Lupita Nyong’o em 12 Anos de Escravidão), empregadas (Octavia Spencer e a própria Viola em Histórias Cruzadas) e mães abusivas (Mo’Nique em Preciosa) é revigorante ver uma grande atriz como ela receber um papel que explore devidamente as suas possibilidades de criação. Ou seja, já na escolha de sua protagonista, How to Get Away With Murder prova que não veio para brincar.

Criado por Peter Nowalk, How to Get Away With Murder bebe exatamente das mesmas lógicas que fizeram outros programas produzidos por Nowalk alcançar o sucesso. Se você acompanha Grey’s Anatomy ou Scandal, é bem provável que também vá embarcar neste novo programa conduzido por ele. Não à toa o criador chamou sua colega Shonda Rhimes, criadora dessas duas últimas séries onde ambos trabalharam juntos, para também produzir seu programa. Portanto, temos aqui o DNA nato de uma série de TV aberta, com seus prós e contras. Dessa vez, acompanhamos a história de Annalise Keating, uma advogada responsável pela disciplina que dá título à série em uma faculdade. Observando seus alunos em aula, ela escolhe quatro deles para que sejam seus estagiários e a ajudem nos casos que defende paralelamente à vida acadêmica. No entanto, uma tragédia toma conta da vida do quarteto e a série, com idas e vidas no tempo, começa a juntar as peças de um intrigante quebra-cabeça envolvendo mortes, fugas e mentiras.

Só pela essência de How to Get Away With Murder já dá para perceber que a série não traz nada de novo. Quem acompanhou Damages anos atrás sabe exatamente o que é ver a história de uma advogada pontuada por um assassinato narrado de forma não-linear. Mais recentemente, as idas e vindas no tempo para explicar uma morte também já viraram moda em seriados com The Affair True Detective. Mas o programa estrelado por Viola Davis funciona. E muito. É claro que os ganchos ao final de cada episódio não podem faltar, muito menos uma gama de personagens pensada para todos os gostos (o gay, o engraçadinho, o nerd, a sonhadora, a confusa, etc) e a narrativa ágil e pop, mas How to Get Away With Murder consegue resultar em um excelente guilty pleasure. Até mesmo os clichês e as obviedades são releváveis nessa série envolvente que chega a contar com participações especiais de Cicely Tyson (realizando um antigo sonho de Viola, que diz ter virado atriz por causa dela) e Marcia Gay Harden. 

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Annalise Keating (Viola Davis) e a sua turma de faculdade: mesmo com detalhes dramáticos que não condizem com a realidade, a série criada por Peter Nowalk é um suspense irresistível.

How to Get Away With Murder é instigante desde o primeiro episódio, mas frequentemente patina para achar sua verdadeira vocação. Se metade da temporada desperdiça inúmeras chances ao se focar excessivamente no quarteto jovem que assiste a protagonista em suas batalhas judiciais (e nenhum dos atores escolhidos é necessariamente talentoso), logo a série percebe que toda a sua força está mesmo em Annalise. Antes fosse Viola a razão exclusiva para isso, mas a personagem é sim bem escrita e desenvolvida sem escolhas fáceis. Impiedosa ao defender seus clientes no tribunal e respeitável professora, Annalise vive, no entanto, um momento complicado em sua vida pessoal – o que posteriormente interferirá diretamente em seu trabalho, tornando-a ainda mais imprevisível por colocar em confronto os princípios que prega na sua vida profissional e os seus instintos de uma simples mulher com um matrimônio em crise. Por sorte, a fama de “mãos de ferro” não a limita como uma personagem fria e sem coração: suas atitudes são frequentemente justificáveis ou pelo menos compreensíveis frente a uma vida profissional exigente e a uma turbulência de pressões e situações complicadas nas relações que estabelece intimamente.

Além de trazer uma mulher negra como a detentora de todo o poder da narrativa, How to Get Away With Murder ainda não hesita ao encenar cenas de sexo gay com frequência (e isso para a TV aberta é uma grande ousadia) e de colocar em xeque nossa adoração por determinados personagens quando eles tomam atitudes que normalmente não seriam tomadas em séries mais preguiçosas. Todos cometem erros graves e conscientes na série, o que quebra a barreira que costuma nos separar de programas onde o mocinho só faz o bem e o vilão só faz o mal. Fora o fato de nos deixar em dúvida sobre a culpa ou a verdadeira identidade de determinadas figuras até o último minuto (a revelação do assassino não é particularmente interessante, mas a série sabe lidar muito bem com o pós-revelação), How to Get Away With Murder ainda nos brinda, claro, com uma inspiradíssima Viola Davis em um dos melhores momentos de sua carreira até aqui. Novamente, uma grande atriz encontra uma bela chance na TV enquanto o cinema só reserva, em grande parte, papeis coadjuvantes ou estereotipados como os já citados.

Para criar e manter uma audiência fiel, How to Get Away With Murder precisa obviamente se utilizar de ferramentas fáceis. Altamente explicativo em certas passagens, o programa é por vezes desprovido de realidade: percebam como Annalise basicamente não perde um caso sequer, como só o quarteto protagonista se voluntaria para responder as perguntas da professora em aula, como a personagem de Marcia Gay Harden surge apenas para iniciar um suspense gratuito quando a série está pegando fogo (ela logo sai da trama sem qualquer um fechamento maior) ou como Annalise levanta o tom frequentemente em longos monólogos de acusação direta no tribunal sem que seja devidamente punida ou até mesmo interrompida. Fácil encontrar ainda arcos dramáticos clichês, como o do gay lindo e sedutor convicto que encontra o amor em um pretendente improvável e que passa a reavaliar sua vida de conquistador após não conseguir controlar o seu mais novo interesse. Coisas de TV aberta.

Entretanto, com 15 episódios de aproximadamente 45 minutos, How to Get Away With Murder oxigeniza o universo dos guilty pleasures. O resultado em si já desperta uma parcela de respeito por trazer um papel digno para uma atriz do calibre de Viola Davis e ela é, sem dúvida alguma, muito maior do que a série, mas, para quem se propor a embarcar no na proposta sem maiores julgamentos, a experiência pode ser uma das mais interessantes da atualidade. O público comprou a proposta (uma segunda temporada já foi encomendada) e, julgando pelo cliffhanger do último episódio, ainda existe muito a ser resolvido. Se continuar com a dosagem apresentada no primeiro ano, How to Get Away With Murder está no caminho para construir uma trajetória bem sucedida. Aqui no Brasil, a série ganha sua primeira exibição hoje às 21h30, na Sony.

6 comentários em “Na TV… Viola Davis e a rara oportunidade de “How to Get Away With Murder”

  1. I wanna be her <3

    mais uma série pra minha coleção, haja tempo

  2. Viola Davis é uma grande atriz e imagino o show que ela está dando nessa série. Confesso que me falta o tempo para acompanhar seriados, mas fiquei curiosa em relação a esse programa, que eu soube que estreou ontem no Sony.

    • Kamila, também queria ter mais tempo para seriados. Por isso, tenho sido bastante seleto com os programas que assisto. Esse escolhi, claro, pela Viola Davis, que realmente dá um show na série!

  3. Que bobagem isso de “guilty pleasure”. Por que proibido? A série tem inúmeros pontos positivos e uma certa originalidade por ter três negros em papéis principais… ficar repetindo “guilty pleasure” como se falasse com uma amiguinha é tão tolo…

    • Carol, como apontei no meu texto: “How to Get Away With Murder” é uma série cheia de construções óbvias, dos personagens às inverossímeis situações dramáticas apresentadas em prol da conquista de audiência. Isso é que torna guilty pleasure um programa: ser interessante e envolvente mesmo com evidentes previsibilidades. E em momento algum deixei de reconhecer isso e outros pontos positivos do programa…

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