Rapidamente

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David Oyelowo em cena com o veterano Tom Wilkinson: seu desempenho como Martin Luther King é o ponto alto de Selma: Uma Luta Pela Igualdade, produção lembrada pelo Oscar 2015 apenas nas categorias de melhor filme e canção original

DOADOR DE MEMÓRIAS, O (The Giver, 2014, de Phillip Noyce): Tem ideias muito interessantes esse filme que entra na onda das adaptações de best sellers infanto-juvenis, mas que não rendeu o esperado nas bilheterias (mundialmente faturou apenas um pouco mais do dobro de seu orçamento de 25 milhões). É fácil entender o porquê: os conflitos que movem O Doador de Memórias são muito subjetivos para ganhar caráter popular. Na história, uma comunidade vive em um mundo preto-e-branco, onde os sentimentos foram extintos por meio de uma injeção diária em cada habitante. Ou seja, todos vivem sem saber e vivenciar o que é amor ou qualquer outra emoção. A situação muda quando a única pessoa detentora das memórias do que hoje inexiste nessa sociedade precisa passar adiante suas lembranças. O escolhido é o jovem Jason (Brenton Thwaites), que obviamente se encanta com as sensações que o seu mundo não sabe que existe e aos poucos passa a tentar introjetá-las nas pessoas em sua volta. As ideias são ótimas, mas O Doador de Memórias não vai muito além da teoria simplesmente porque a direção de Phillip Noyce é péssima. Optando pelo cafona no visual e na própria condução das cenas com frases prontas, efeitos visuais mal acabados e situações clichês, ele desperdiça o potencial do filme (não é qualquer trama dessa natureza que reúne Meryl Streep como antagonista e Jeff Bridges no elenco), que tinha tudo para ser uma saga bem sucedida se abordada de maneira mais sóbria e menos comercial. Lembrando que o livro original escrito por Lois Lowry ainda tem outras três obras complementares passadas no mesmo universo de O Doador de Memórias. Dado o fracasso do filme, são trabalhos que não devem ganhar vida no cinema.

SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE (Selma, 2014, de Ava DuVernay): O maior mérito desse filme que despertou discussões sobre racismo no Oscar é justamente falar sobre a causa sem qualquer traço de panfletagem. Com muita dignidade, a diretora Ava DuVernay narra a trajetória de Martin Luther King (David Oyelowo) em 1965, quando ele organizou uma marcha da cidade-título até Montgomery, no Alabama, para protestar e garantir o direito de voto aos negros (que já existia mas era solenemente ignorado). Produzido por Oprah Winfrey (ela também tem uma pequena participação na história), Selma: Uma Luta Pela Igualdade chama atenção pela sobriedade e pela franqueza com que apresenta suas denúncias e reivindicações. O mesmo tom certeiro também está presente naquele que é o aspecto mais precioso do filme: a interpretação de David Oyelowo. Discreto mas intenso quando a história pede, o ator dá um show como Martin Luther King. Em momento algum duvidamos de sua sabedoria, de seu caráter e de sua integridade. Admiramos aquele personagem, o que é consequência direta do desempenho incrivelmente discreto e eficiente de Oyelowo. Já o filme como um todo não chega a empolgar, especialmente quando o ritmo arrastado faz com que Selma pareça ter o dobro da duração que realmente tem. Vale mais pela mensagem e pela dignidade com que fala sobre racismo do que propriamente como um filme envolvente. Destaque ainda para a bela canção Glory, vencedora do Oscar 2015 em sua respectiva categoria. 

SNIPER AMERICANO (American Sniper, 2014, de Clint Eastwood): Com exceção dos estadunidenses, que compareceram em massa às salas de cinema (são 330 milhões de dólares até agora nas bilheterias do país, sendo que o orçamento foi de apenas 58), não sei quem ainda aguenta ver filmes sobre as consequências do 11 de setembro, em especial as histórias passadas na guerra do Iraque. Esse é um tema já explorado à exaustão, mas agora o diretor Clint Eastwood (que não entrega uma obra verdadeiramente marcante desde Cartas de Iwo Jima, em 2006) resolveu entrar na lista dos cineastas que desenterram o assunto. E sinceramente? Clint não conta absolutamente nada de novo ou extraordinário. Apesar do sucesso estrondoso em seu país de origem, Sniper Americano repete a fórmula do herói estadunidense atormentado pela guerra. Novamente temos o sujeito em campo defendendo seu país (Bradley Cooper, indicado ao Oscar 2015 de melhor ator) que, aos poucos, começa a se tornar o soldado distante e até amedrontador para a esposa lacrimosa com um filho no colo. No meio disso tudo, idas e vindas ao Iraque, algumas cenas de tensão envolvendo a profissão do protagonista (Chris Kyle se “consagrou” como o maior franco-atirador dos Estados Unidos) e tomadas inegavelmente bem filmadas. Mas, infelizmente, Sniper Americano não deixa de ser uma obra frustrante e redundante dentro do tema que se propõe a discutir – e talvez até mesmo bastante atrasada. 

6 comentários em “Rapidamente

  1. Discordo da sua opinão sobre “Sniper Americano”. Não acho que seja um filme redundante. Achei uma obra muito contundente no que quis passar. Sem dúvida, trata-se do filme mais subestimado dos indicados ao Oscar desse ano, na categoria principal.

    Em relação à “O Doador de Memórias”: a premissa do filme é muito legal, mas foi muito mal executada pelo diretor.

  2. Olha, eu gostei muito de “Sniper Americano”. Bem trabalhada no contexto de guerra e que consegue criar uma boa narrativa na vida do franco-atirador. E Bradley Cooper está ótimo.

    • Brenno, não sei se é porque não aguento mais filmes sobre os traumas pós 11 de de setembro, mas “Sniper Americano” realmente não me pegou, e o Cooper pouco me impressionou…

  3. Que bom q vc voltou a escrever!

    Concordo com vc em relação a “Sniper Americano”: filme desnecessário. Desnecessárias também as indicações ao Oscar de ator e roteiro.

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