Na TV… crime, castigo e traição em “The Affair”

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Dominic West e Ruth Wilson, os protagonistas de The Affair: enquanto ele não passou da indicação, ela se consagrou com uma vitória no Globo de Ouro 2015 por seu desempenho. A série também foi vitoriosa na categoria principal da premiação.

Se existe uma emissora que frequentemente surpreende com premissas inovadoras para o formato televisivo, essa é a Showtime. Quem não lembra de Dexter, que trazia Michael C. Hall como um inspetor forense que, na realidade, também era um serial killer? Ou de The Big C, onde Laura Linney interpretava uma professora de história que, após a descoberta de um câncer, resolve viver tudo o que protelou ao longo dos anos? Prêmios Homeland também teve de sobra ao mostrar as obsessões de uma agente do FBI na secreta investigação pelas verdadeiras intenções de um soldado estadunidense recém libertado por terroristas. Sim, todas tramas atípicas e diferenciadas – só que no bom e no mau sentido. Se por um lado é instigante acompanhar propostas que fogem do lugar-comum das opções na TV, por outro também existe uma certa preocupação ao acompanhá-las, já que são todas histórias que não parecem ter material suficiente para render várias temporadas. DexterThe Big CHomeland andaram de mãos dadas nesse sentido: começaram muito bem, mas perderam audiência e prestígio com o tempo porque patinaram em temas que não poderiam ser tão prolongados e que exigiam objetividade – ou melhor, uma vida curta. 

É interessante fazer esse retrospecto porque The Affair, a mais nova queridinha da Showtime, já começou sua trajetória com grande festa. Na última edição do Globo de Ouro, o programa criado pela dupla Hagai Levi e Sarah Treem conquistou os prêmios de melhor série dramática e melhor atriz para Ruth Wilson. A fórmula novamente é inovadora: um caso de traição contado a partir de diferentes visões. Primeiro, a de Noah Solloway (Dominic West), um escritor frustrado que anseia por escrever algo de relevante enquanto passa as férias na casa litorânea de seus sogros. Depois, a de Alison Bailey (Ruth Wilson), uma garçonete que tenta superar a trágica morte de seu filho de seis anos. Intercalando as duas abordagens e cenas do futuro onde Noah e Alison dão depoimentos a um investigador acerca de um misterioso assassinato, a proposta se revela pra lá de interessante, mas repete a dúvida: será que com ideias suficientes estruturar uma série com duração expressiva (episódios de quase uma hora) e em várias temporadas? Os criadores já anunciaram que pensaram o arco dramático para três temporadas, mas é possível esse programa escapar da máxima dos seriados da Showtime que arrancam bem mas não conseguem dar continuidade na inovação?

Complicado saber para onde The Affair caminhará depois do primeiro ano. Que fique registrado, no entanto, que, na temporada de estreia, o programa dá conta do recado, com a novidade felizmente se sustentando aqui. O terreno é delicado, mas os roteiristas saem ganhando ao falar sobre traição onde os dois envolvidos na relação são casados. Isso mesmo, não é sobre um homem de meia idade encantado por uma mulher mais nova que. Muito menos sobre uma ninfeta carente que ficará implorando para que ele deixe a mulher e vá viver com ela. Ambos tem algo – e uma família inteira – a perder nesse envolvimento. Mesmo que fique claro que a vida de Noah é a menos interessante (ele é o típico homem em crise de meia idade que já não nutre mais entusiasmo pela mulher rica e pelos quatro filhos pequenos e adolescentes), fica claro que existem sim aspectos complexos a serem abordados, como a sua eterna vontade de significar algo para alguém em sua derrotada carreira de escritor e o fato de que, após uma longa vida seguindo todas as regras e realizando as vontades dos outros, sente finalmente o desejo de transgredir ou achar uma voz que seja realmente sua.

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Alison (Ruth Wilson) e o marido Cole (Joshua Jackson): nas costas dele, uma tatuagem que lembra a tragédia que abalou a relação. Na versão de Alison, os conflitos são mais complexos e densos.

Driblando as obviedades envolvendo Noah e encontrando diferentes possibilidades para esse personagem que não se revela necessariamente um cretino mas sim apenas um homem confuso, The Affair, no entanto, concentra a maior parte de sua complexidade em Alison. E não é só por ela estar vivendo um luto interminável iniciado todos os dias quando acorda e vê o nome de seu falecido filho tatuado nas costas do marido que a personagem vivida por Ruth Wilson interessa mais dramaticamente. O luto em si funciona, na realidade, como influenciador direto nas decisões de Alison. Ela se envolve com Noah por carência? Por raiva da vida? Por amor mesmo? Ou simplesmente por atração sexual? Sua insegurança e principalmente seu comportamento inconstante são claras consequências de uma mulher que, após uma tragédia inimaginável como a que viveu, de repente já não se reconhece mais. Assim como Noah, Alison tenta achar algo de novo na vida. Talvez aí resida a crucial intersecção dos dois. 

Ter duas visões ao longo de um episódio enriquece The Affair porque a série não reprisa simplesmente as cenas, mas reconstrói diálogos e por vezes muda drasticamente a abordagem dependendo do personagem. Cabe a você decidir qual foi o tom de uma conversa e a intensidade de um acontecimento, por exemplo. The Affair nunca julga seus protagonistas e deixa para que o espectador o faça. Tais questões muitíssimo delicadas quase se diluem em uma ideia simplória: a de construir a trama a partir de um misterioso – e suposto – assassinato. Já vimos essas idas e vindas no tempo para explicar um crime várias vezes e aqui os roteiristas simplesmente não souberam lidar bem com a ideia. Não espere uma revelação instigante envolvendo a identidade da vítima ou muito menos resoluções mirabolantes para a situação, até por que ainda há muito a ser respondido na segunda temporada. Infelizmente, a investida frustra, tira tempo da série e nada acrescenta à construção dramática da história. 

The Affair ainda encontra fragilidades nos fáceis estereótipos que cria da mãe megera e indiferente ou da filha adolescente aborrecida que não se comunica com os pais. Na construção de cenas decisivas também tem seus deslizes, como quando coloca um personagem frente a uma arma que o faz tomar uma importante decisão que deveria acontecer de maneira menos extrema e mais inteligente. Coisa de novela mexicana. Mas muito além da decepção final envolvendo o desfecho e as bobeiras relacionadas aos personagens coadjuvantes, The Affair deixa boas lembranças quando vista como um todo. Ao passo que Dominic West e Ruth Wilson conduzem com segurança seus difíceis personagens (especialmente ela), a série, vale repetir, tem seu grande valor por escapar conceitualmente de escolhas fáceis. Agora, se o material rende outra temporada de qualidade como essa… Bom, aí é outra discussão. E o histórico da emissora não entusiasma.

4 comentários em “Na TV… crime, castigo e traição em “The Affair”

  1. Ouvi falar sobre “The Affair”, pela primeira vez, no Globo de Ouro 2015, premiação no qual a série obteve um desempenho surpreendente. Mas, tendo em vista o fato de ter pouco tempo para me dedicar aos seriados, estou perdendo tudo, até mesmo “How To Get Away With Murder”, que eu, realmente, queria assistir.

    • Kamila, o desempenho de “The Affair” no Globo de Ouro foi mesmo surpreendente – e, na minha opinião, injusto, pois Viola Davis merecia mais o prêmio de melhor atriz do que Ruth Wilson, por exemplo!

  2. Eu também conheci “The Affair” quando saiu a lista dos indicados ao Globo – fui conferir (só assisti o Piloto) e me pareceu muito interessante, a história apesar de simples pode mostrou umas reviravoltas interessantes, fora o elenco que está bem – só não sei se aquele prêmio de melhor drama (apesar de o GG sempre premiar séries novas) foi justo, preciso terminar a primeira temporada.

    http://movieseldridge.blogspot.com.br/

    • Cleber, gosto das ideias da Showtime, mas, conforme comentei no texto, “The Affair” tem tudo para ser mais uma série da emissora que não vai ter fôlego para dar continuação à originalidade do primeiro ano. Vamos aguardar.

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