Na TV… o som e a fúria de “Empire”

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Batendo recordes de audiência e chegando ao primeiro lugar da Billboard com sua trilha sonora, Empire é o grande hit da TV em 2015

Empire é o grande blockbuster televisivo de 2015 até aqui – e não chega a ser um exagero afirmar que será difícil algum outro programa tirar esse título da nova série lançada pela Fox em janeiro. De acordo com a Rolling Stone, é simplesmente impossível parar o programa, que, ao longo de sua primeira temporada, teve os números a seu favor: desde a estreia, Empire registrou aumento de audiência durante oito semanas consecutivas. O feito é histórico, já que foi somente em 1992 que a TV viu um seriado (no caso, a sitcom Roseanne) conquistar progressivamente novos telespectadores durante cinco semanas. Empire chegou a oito e de quebra não fez feio com a crítica. Claro que os tempos são outros e que hoje a chance de um programa estourar é ainda maior do que na década de 1990, mas essa envolvente novela do hip hop tem méritos de sobra para justificar o alarde.

Vindo de uma carreira em franca derrocada em termos de qualidade no cinema, Lee Daniels, conhecido por Preciosa – Uma História de Esperança, se juntou a Danny Strong, seu amigo roteirista no péssimo O Mordomo da Casa Branca (mas também autor do impecável Virada no Jogo), para criar a história da família Lyon, em especial do patriarca Lucious (Terrence Howard, indicado ao Oscar 2006 por Ritmo de Um Sonho), um homem que, após uma vida pobre marginalizada, prospera no mundo da música e se torna o todo poderoso da Empire, gravadora milionária que hoje é o selo de artistas mundialmente famosos. A situação de Lucious muda, entretanto, quando ele é diagnosticado com ELA. Ao perceber que seus três filhos não têm perfil para dar continuado a seu legado na presidência, resolve semear uma disputa entre eles, anunciando que em breve escolherá apenas um para treinar propriamente e transferir seu extenso legado.

Apesar da condição de Lucious e da disputa iniciada entre os três filhos, Empire tem uma estrela com nome e sobre nome: Cookie Lyon (Taraji P. Henson). Além de ser a personagem de personalidade mais forte da trama, Cookie é a que possui a melhor storyline. Ela, na realidade, lançou Lucious ao estrelato, mas, após entrar no tráfico para poder bancar o primeiro álbum do marido, foi presa e passou 17 anos na cadeia longe dos filhos – e o pior: esquecida pelo marido, que deixou de visitá-la e já casado com uma outra mulher. É quando Cookie sai da prisão e resolve reivindicar o que é seu por direito que a trama de Empire pulsa, especialmente porque ela, chamativa por si só com seus figurinos extravagantes e postura e dicção exploradas com perfeição por Henson, não teme ninguém e, com seu vocabulário desbocado, coloca todas as cartas na mesa, doa a quem doer. Basicamente apresentada com um viés cômico extremamente funcional que lhe proporciona roubar a cena a todo minuto, Cookie felizmente não se resume a isso: suas motivações são as mais humanas e sinceras, ao passo que seu passado dá conta de abordar sua faceta dramática.

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Enquanto Terrence Howard sofre com o insuportável protagonista Lucious Hunt, Taraji P. Henson rouba a cena como Cookie Lyon e é a grande estrela de Empire

A sinopse já indica que Empire é uma grande novela, e a sensação se confirma ao longos dos doze episódios desta primeira temporada. Fora a doença terminal e o retorno de uma personagem há tempos distante, existe ainda o caçula irresponsável, o filho gay no armário,  um amor “entre tapas e beijos”, um personagem bipolar desistindo de tomar remédios e, claro, um assassinato sigiloso logo no início da história para ser trabalhado ao longo da temporada. Tudo isso está na velha fórmula da TV aberta, com vários conflitos que não duram mais de dois episódios, revelações surpreendentes mas por vezes repentinas e uma trilha sonora instrumental excessivamente explicativa nos momentos dramáticos ou de suspense. Porém, assim como a recente How to Get Away With Murder (as duas séries se assemelham ao dar holofotes aos negros em tempos que o cinema sofre uma crise com este público), Empire consegue ser maior que tais detalhes e entrega sim uma novela, mas bem contada e suficientemente envolvente para justificar o sucesso com o público.

É importante mencionar que uma ferramenta fundamental de Empire funciona com pleno êxito: as canções, cuidadosamente escritas e supervisionadas por ninguém menos que Timbaland, o responsável por produzir álbuns e escrever canções para artistas como Justin Timberlake, Rihanna, Jay-Z, Usher e Björk. Seu debut na televisão, considerado por ele mesmo como o primeiro passo de uma reinvenção em sua carreira, não poderia ser mais certeiro: Timbaland alcança o feito de tornar o hip hop palatável para quem não curte o gênero e é fácil se pegar com os refrões de várias músicas na cabeça após o fim de um episódio. Inclusive, muito do sucesso de Empire se deve justamente à música, uma vez que o universo deste estilo específico é pouco explorado no audiovisual. O que dizer, então, quando ele é televisionado por uma boa equipe e pensado por alguém que sabe o que o público quer ouvir? Inclusive, a trilha tem seu recorde individual: lançada no dia 10 de março, estreou em primeiro lugar na Billboard, superando até mesmo o igualmente recente Rebel Heart, novo álbum da icônica Madonna.

Se existe uma pedra no sapato de Empire essa é o protagonista Lucious Hunt. Inicialmente apresentado sem maiores diferenciais, Lucious aos poucos se torna um dos personagens mais insuportáveis dos últimos anos. Homofóbico, ganancioso e sem escrúpulos, deixou a esposa devota apodrecendo na prisão sem sequer visitá-la. Também maltrata e ignora o filho gay desde a infância e usa as pessoas como bem entende com uma regra muito clara: se alguém está ao seu lado, faz de tudo para agradar, caso contrário, faz questão de boicotar. A TV já nos ensinou que um ser humano desprezível pode ser fascinante (Walter White de Breaking Bad manda lembranças), mas Empire, pela sua natureza popular, não é uma série de grandes delicadezas, o que torna a escalada de mau caratismo do personagem nada envolvente – e já que Terrence Howard não é um ator versátil, fica ainda mais difícil enxergar um personagem rico em Lucious Hunt. Ele é apenas detestável. Ainda assim, é difícil resistir a este sucesso que tem uma legião de atores e cantores em participações especiais, como Snoop Dog, Courtney Love, Naomi Campbell, Gladys Knight, Cuba Gooding Jr., Jennifer Hudson e Rita Ora. Merece ser conferida. Afinal, não é comum ver séries realmente merecedoras de seu sucesso como Empire.

2 comentários em “Na TV… o som e a fúria de “Empire”

  1. Todo mundo fala de “Empire” e sei que a série tem sido um grande sucesso nos EUA, mas nada me tira a impressão desse programa ser um verdadeiro novelão!

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