43º Festival de Cinema de Gramado #4: “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert

01/2014 - Still longa metragem ' Que Horas Ela Volta' - De Anna Muylaert foto: Aline Arruda

Que Horas Ela Volta? é o auge da carreira de Anna Muylaert até aqui. No filme estrelado por Regina Casé, a diretora dá uma aula de discrição e delicadeza em um inteligente registro de uma sociedade.

Os melhores filmes são documentais e, inconscientemente, registros de uma sociedade. Em tempos que o cinema parece não saber muito bem qual o seu norte, são raras as produções que conseguem fazer essa reprodução de tempo e espaço com a devida elegância, discrição e inteligência. Que alegria, portanto, ver que o Brasil se atenta cada vez mais a esta ideia e que já fomos reconhecidos mundialmente por isso. Que Horas Ela Volta?, que estreou nacionalmente ontem em Gramado, chega ao circuito comercial no dia 27 de agosto com prêmios em Berlim e Sundance, e vem para dialogar tematicamente com outros dois importantes longas que fazem uma radiografia do nosso Brasil: O Som ao Redor Casa Grande. O primeiro, inclusive, é tido pela diretora Anna Muylaert como uma influência direta para que ela tenha achado respostas a esse projeto que vinha desenvolvendo há 20 anos, especialmente no que se refere à ideia de uma história onde o oprimido de repente tem a força.

Muylaert sempre foi afeita às pequenas coisas da vida e como elas podem dizer muito sobre os seres humanos, mas ela parece realmente ter evoluído enormemente como contadora de histórias desde sua estreia com Durval Discos 13 anos atrás. Com Que Horas Ela Volta?, a diretora alcança um outro patamar e consegue o feito de ter realizado uma obra popular mas ao mesmo tempo inteligente – bem como o cinema argentino consegue fazer sempre e mais recentemente com o estrondoso sucesso de público e crítica Relatos Selvagens. Do apelo inegável de Regina Casé ao próprio retrato do conflito de classes no Brasil, Que Horas Ela Volta? é repleto de pitadas de humor que incrementam uma mistura crível, natural e envolvente. O tom naturalista da obra é resultado da própria proposta da diretora em todos os seus filmes: ela não permite que os atores simplesmente reproduzam as mesmas falas do roteiro. A palavra de ordem é improviso.

Se a comédia é irresistível e deve acertar em cheio o público brasileiro, também é bom olhar além e ficar atento a uma infinidade de detalhes que engradecem a experiência. Anna Muylaert, também autora do roteiro, diz que Que Horas Ela Volta? é um filme sobre a arquitetura dos afetos nas relações de poder brasileiras e que, mesmo partindo de um cenário específico de um país, tem abordagens comuns aos estrangeiros, que também convivem com empregados e funcionários muitas vezes imigrantes e distantes de suas realidades. O longa está mesmo imerso nessas leituras sobre a relação empregado/patrão, evocando demais todas as heranças da escravidão e subserviência que ainda repercutem no Brasil, além de estudar minuciosamente os sentimentos silenciosos que surgem a partir de uma relação aparentemente distante mas no fundo tão íntima – afinal, uma empregada faz parte do dia a dia e sabe basicamente tudo sobre seus empregadores.

Muylaert, discreta que é, não escancara a proposta de seu filme em diálogos, mas percebam como Val (Regina Casé, surpreendente e não menos que extraordinária), no dia do aniversário de sua chefe, presenteia a patroa com um conjunto de xícaras. As xícaras são simbólicas, já que nada mais são do que objetos que ampliam sua relação de servidão com a patroa, uma vez que a própria Val terá que servi-la com o presente que comprou. Mesmo quando ganha uma cocada, por exemplo, a protagonista não pensa duas vezes antes de compartilhá-la com a chefe, mostrando que não se acha digna de qualquer lembrança ou carinho sem ter que dar satisfações a sua “superior”. Ela se acha inferior a todos – inclusive à própria filha que deixou no nordeste anos atrás para trabalhar em São Paulo afim de sustentá-la -, o que é um interessante contraste com a figura de Bárbara (Karine Telles), sua empregadora, que se acha superior a todos, mas se vê incrivelmente abalada quando percebe que Val é quem detém um certo poder que lhe escapa como a verdadeira mãe de seu filho em termos de carinho.

Não há equiparações sentimentais ou de poder em Que Horas Ela Volta?, e é isso o que torna o filme de Anna Muylaert até mesmo angustiante, já que vemos Val sendo escanteada sem que ela própria se incomode com isso (repetindo: faz parte de sua natureza ser inferior em função de sua origem humilde). No entanto, a diretora e roteirista em momento algum vitimiza ou vilaniza qualquer um dos personagens. Assim como Regina Casé transmite com perfeição as filosofias de vida de uma mulher que diz que certas coisas “a gente já nasce sabendo”, Karine Telles é certeira ao ser altiva nos momentos certos e insegura quando vê que o controle não está mais ao seu alcance. Camila Márdila, a filha de Val, seduz não seduzindo com o papel mais difícil de todos: a filha que tem vergonha das condições da mãe e que vê nos patrões dela uma chance de escapar de um futuro que já lhe parece predestinado. Em suma, a força aqui é das mulheres e os homens são meros meninos, conferindo ainda a Que Horas Ela Volta? um grande impacto feminino. 

Fora as riquíssimas interações político-sociais desenhadas por Que Horas Ela Volta?, há outras pequenas contemporaneidades, como o momento em que a família está sentada na mesa de jantar sem se comunicar pois todos estão conectados em seus respectivos celulares. A educação dos filhos como papel primordial para construção da sociedade é outro ponto desenvolvido de forma inteligente pelo roteiro. Afinal, o que é mais importante: fazer filhos ou educá-los? Enquanto no Brasil a primeira resposta ainda parece a mais valorizada, o filme vem bem a calhar, pois mostra que, além da segunda afirmação ser indiscutivelmente a mais coerente, a mulher tem importância decisiva e subvalorizada no processo de formação de caráter e afeto de toda uma sociedade.

Mesmo com tantas “análises”, o longa nunca deixa de ser sentimental – a cena solo de Regina Casé em uma piscina é o ponto alto -, e também divertidíssimo. Com todos os méritos, Que Horas Ela Volta? deve fazer um notável sucesso de público por aqui e o abraço internacional comprova que esta é uma obra que pode – e deve – viajar o mundo. Escapa à memória a última vez que um filme tão simples e pequeno se engrandeceu tanto em seus detalhes. O Brasil e seu povo das mais variadas classes estão retratados nesta história executada sem qualquer artifício. Na verdade, nossa realidade está representada com a maior delicadeza, inteligência, contemporaneidade e verossimilhança possíveis. Aqui, Que Horas Ela Volta? funciona como entretenimento de grande reflexão. Lá fora, como veículo de importantes informações sobre um país que, para os estrangeiros, ainda está resumido aos retratos feitos em Cidade de DeusTropa de Elite. Mais do que nunca, chegou a hora de mudar essas credenciais. Bravo!

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